A arte de elaborar uma pergunta científica

Uma pessoa se torna um cientista não para salvar o mundo, enriquecer ou ficar famosa: acima de tudo, a motivação é simplesmente saciar uma curiosidade infinita. Ser cientista é fazer e responder perguntas. Mas como se faz uma pergunta científica?

Primeiro, a pergunta deve ser respondível. Por exemplo, ela não pode se basear num raciocínio circular, no qual a resposta já está embutida nas condições (e.g. “Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?”). Além disso, a não ser no caso de trabalhos teóricos, a pergunta deve ser respondível com as ferramentas conceituais e operacionais disponíveis no momento. Mesmo que a pergunta central de um trabalho seja ótima, caso a tecnologia para respondê-la ainda não exista, ela será temporariamente tão improdutiva quanto uma má pergunta.

Segundo, a pergunta deve ser original. Boa ciência precisa ser criativa, não pode chover no molhado. Mesmo quando estudamos problemas antigos, já trabalhados por outros, precisamos criar perguntas originais, que levem a novas perspectivas. Você já parou para se perguntar que sentido tem um artigo, cuja discussão só tem “descobertas” acompanhadas de citações? Onde está a novidade?

Terceiro, a pergunta precisa ser o mais objetiva e simples quanto possível. Perguntas complicadas ou mesmo indecifráveis costumam gerar má ciência. A grande maioria dos trabalhos inovadores tem uma pergunta simples e elegante como fio condutor.

Além disso, uma boa pergunta científica geralmente nasce de um contexto interessante. Podem ser teorias gerais ou teorias relacionadas a um táxon específico (abordagem teórica x naturalista). Para elaborar uma pergunta relevante, estude o assunto do seu interesse exaustivamente, dando prioridade às grandes revisões e artigos seminais na área. Procure pelas lacunas no conhecimento. Dentre essas lacunas, escolha aquelas que te motivam mais a trabalhar.

Isto é fundamental, então preste bem atenção: você precisa estar apaixonado pelo seu projeto! Ouvir sua voz interior é a chave da originalidade, na hora de escolher entre perguntas possíveis. Não se limite a seguir a moda, tentando responder apenas as perguntas com as quais todo mundo está trabalhando. Quem segue por estradas conhecidas vai apenas aonde os outros já estiveram.

Por fim, dentre as lacunas de conhecimento que realmente te interessam, escolha uma que pareça possível de ser trabalhada com os recursos que você tem disponíveis. Tendo feito essa escolha, elabore uma pergunta mais específica que ajude a completar essa lacuna de interesse ou ao menos parte dela. Ataque um problema de cada vez; não se perca atirando para todo lado. Pense diferente, sem barreiras; deixe sua criatividade agir solta. Nos primeiros brainstormings, acolha até mesmo as idéias aparentemente malucas.

Depois de ter criado a pergunta, você precisará imaginar qual resposta espera encontrar para ela. A isso damos o apelido de hipótese. Pense também em hipóteses alternativas, caso sua pergunta seja relativamente complexa. Depois de criar a hipótese, você precisará imaginar o que espera observar concretamente no seu sistema de estudo, supondo que sua hipótese é realmente a melhor resposta para a pergunta de interesse. A essa versão operacional da hipótese damos o apelido de previsão. Perguntas complexas podem levar  a mais de uma hipótese; hipóteses complexas podem levar a mais de uma previsão.

No começo, provavelmente você vai achar muito difícil elaborar uma boa pergunta científica. Quando somos crianças é muito mais fácil fazer perguntas, mas nosso sistema de ensino baseado na repetição automatizada e na prolixidade mata a criatividade aos poucos. Você pode até achar esse exercício frustrante e desistir, fugindo para o velho e preguiçoso refúgio do “descrever só por descrever” ou “comparar só por comparar”. Mas não adianta vir com a velha desculpa de que os antigos naturalistas não se preocupavam com perguntas. Muito pelo contrário: o trabalho do Darwin, por exemplo, só mudou o mundo porque estava centrado em perguntas geniais. Quem realmente tem talento para a ciência e, além disso, muita persistência, acaba desenvolvendo essa habilidade após algum treinamento. É como qualquer outra habilidade complexa: a maestria vem da prática. Na Ecologia, cursos de campo com projetos livres e orientados são uma ótima oportunidade para treinar a elaboração de perguntas; participe dos melhores, como Ecologia da Floresta Amazônica (INPA/UEFS).

Boa sorte!

Para ajudar no “destravamento”:

* Publicado originalmente em 2010.

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