Resumo científico: quando menos é mais

Resumos, também conhecidos como sumários ou abstracts, são peças-chave na comunicação científica. Hoje em dia há uma quantidade gigantesca de cientistas no mundo. Todos competem fortemente por espaço em revistas e congressos. E aqueles que conseguem espaço ainda têm que competir por atenção, pois a enxurrada de artigos publicados mensalmente e a profusão de apresentações e pôsteres em congressos impedem que uma pessoa consiga ler tudo o que sai na sua área. Por isso, é fundamental saber resumir bem seu trabalho em poucas palavras. Se você fisgar seus colegas com um título instigante e palavras-chave bem escolhidas, e ainda impressioná-los com um bom resumo, aumentará muito as chances de que o seu artigo seja publicado em uma boa revista ou de que o seu pôster ou a sua palestra sejam aceitos em um congresso. Além disso, aumentará muito as chances de lerem e usarem seu trabalho. Portanto, sua meta ao escrever um resumo é aguçar a curiosidade das pessoas, a ponto de elas quererem largar tudo o que estão fazendo para procurar o trabalho ao qual o resumo se refere, seja ele um artigo, pôster, palestra ou tese.

Preliminares

É inaceitável um resumo não incluir resultados ou discussão. Se o seu trabalho ainda não está pronto, então não o apresente aos seus colegas! Essa história de “resultados preliminares” ou “avaliação preliminar” em congressos não faz sentido. Quem garante que você terá as mesmas conclusões ao final do seu projeto? Se você acha que uma meia dúzia de resultados iniciais são suficientes para sustentar suas conclusões, então porque coletaria ainda mais dados? Contudo, não confunda análise preliminar picareta com estudo piloto, este segundo, um teste rápido que você faz dos seus métodos antes de começar para valer a pesquisa.

Escreva pouco e escreva bem

Como o nome já sugere, resumos devem ser sucintos. Vá direto ao ponto, não enrole. Não diga com duas palavras o que pode dizer com uma. O resumo deve deixar claros a relevância e a originalidade do trabalho. No caso de um resumo de artigo, escreva-o antes do resto. Isso lhe permitirá ter uma visão global de como estruturar o artigo. Não tem problema voltar ao resumo depois para fazer melhorias ou mesmo mudanças substanciais.

Resumos expandidos, não!

Resumos por definição devem ser sucintos, então necessariamente não contêm todas as informações do suposto trabalho completo, mesmo que sejam “expandidos”. Assim, um resumo expandido nunca substitui um artigo de verdade. Além disso, um resumo expandido é, obviamente, prolixo demais para ser considerado um resumo de verdade. Por isso, resumos expandidos são algo totalmente sem sentido, uma péssima idéia que infelizmente voltou à moda no Brasil. Resumos expandidos incentivam a prolixidade e retardam a publicação oficial de um trabalho.

O que deve entrar num resumo?

Em geral, você terá no máximo 300 palavras para passar sua mensagem e fazer propaganda do trabalho. Em algumas boas revistas, poderá ter apenas 150 palavras ou 5% do tamanho total do texto. O espaço é pequeno e é ótimo que isso seja assim! Geralmente, quem fala demais tem pouco a dizer. Mesmo que te dêem mais do que 300 palavras, sempre evite ultrapassar esse limite. Em revistas ou congressos que dão menos do que 200 palavras, concentre-se em falar apenas sobre seus objetivos e conclusões. Se a revista lhe der o espaço padrão de 300 palavras, adote a estrutura e a seqüência usadas em um artigo completo, mas mantendo a ênfase nos objetivos e conclusões. Fale apenas en passant sobre o contexto maior do trabalho, os métodos principais e os resultados mais relevantes. Não inclua citações nem resultados de testes estatísticos. Inclua apenas valores de medidas (tendência central e dispersão) ou de métricas relacionadas a variáveis operacionais (por exemplo, valores de índices de diversidade).

Quanto de cada coisa?

Não há uma proporção áurea a ser seguida para saber o quanto alocar em cada parte de um resumo. Quando seu artigo envolver um tema novo, incomum ou complexo, gaste mais espaço com a parte equivalente à introdução. Quando alguma análise ou equipamento for a novidade maior, use mais palavras nos métodos. Como via de regra, gaste mais palavras com o que for mais importante ou mais difícil de entender, mas sempre dando destaque aos objetivos e conclusões principais.

Palavras-chave

Depois do resumo, inclua quantas palavras-chave forem permitidas pela revista ou congresso. Não repita termos que aparecem no título. As palavras-chave são fundamentais para que leitores interessados nos mesmos temas encontrem seu trabalho no meio da profusão de publicações dos tempos atuais. Dentro da sua área e considerando o tema do trabalho, prefira termos atraentes, que sejam bem estabelecidos ou que estejam na moda, procurando um equilíbrio entre os dois tipos. Use também termos que possam ajudar colegas interessados no mesmo tema a encontrarem seu trabalho. Evite a todo custo abreviações ou siglas (acrônimos), exceto os de uso comum (como DNA).

Exemplo de um ótimo resumo

Na PNAS saiu este ano um artigo com um excelente resumo: instigante, claro, conciso e informativo:

Ahn et al. 2010: Comparing genomes to computer operating systems in terms of the topology and evolution of their regulatory control networks. PNAS, DOI:10.1073/pnas.0914771107.

“The genome has often been called the operating system (OS) for a living organism. A computer OS is described by a regulatory control network termed the call graph, which is analogous to the transcriptional regulatory network in a cell. To apply our firsthand knowledge of the architecture of software systems to understand cellular design principles, we present a comparison between the transcriptional regulatory network of a well-studied bacterium (Escherichia coli) and the call graph of a canonical OS (Linux) in terms of topology and evolution. We show that both networks have a fundamentally hierarchical layout, but there is a key difference: The transcriptional regulatory network possesses a few global regulators at the top and many targets at the bottom; conversely, the call graph has many regulators controlling a small set of generic functions. This top-heavy organization leads to highly overlapping functional modules in the call graph, in contrast to the relatively independent modules in the regulatory network. We further develop a way to measure evolutionary rates comparably between the two networks and explain this difference in terms of network evolution. The process of biological evolution via random mutation and subsequent selection tightly constrains the evolution of regulatory network hubs. The call graph, however, exhibits rapid evolution of its highly connected generic components, made possible by designers’ continual fine-tuning. These findings stem from the design principles of the two systems: robustness for biological systems and cost effectiveness (reuse) for software systems.”

Sugestões de leitura

* Publicado originalmente em 2010.

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3 respostas em “Resumo científico: quando menos é mais

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