Como fazer citações em artigos científicos

As citações são um dos temas mais recorrentes na ciência moderna: quem cita quem, quantas citações cada cientista ou revista recebe, qual é o índice H ou IF de cada um, e por aí vai. Contudo, apesar de a cienciometria ter sua importância, aspectos básicos das citações têm sido deixados de lado nos debates e na formação de jovens cientistas: por que, como e quanto citar. Neste artigo, apresento para os iniciantes a lógica por trás dessa história de citação.

Por que citar?

Faz-se citações em artigos científicos por dois motivos principais: 1. dar crédito às idéias e descobertas alheias usadas no seu trabalho; 2. permitir ao leitor consultar essas informações na fonte original, evitando assim a propagação de erros.

O primeiro motivo tem a ver também com a honestidade do cientista, porque não tem nada mais vil do que se apoderar das idéias dos outros como se fossem suas. Para um cientista esse é um pecado mortal; boas reputações construídas ao longo de décadas já foram destruídas por um único caso de plágio. E o segundo motivo não é menos importante, já que há colegas descuidados que reproduzem as idéias alheias sem o rigor necessário, deturpando o que os autores escreveram. Uma citação bem feita permite que, caso você ache algo esquisito num texto, possa ir ao artigo fonte e ver se a informação confere mesmo.

Não cite literatura cinza, ou seja, publicações de difícil acesso ou sem boa revisão, como teses, relatórios institucionais, matérias de jornais e resumos de congressos. Primeiro, porque a qualidade desse tipo de literatura geralmente é baixa, devido à falta de rigor na revisão. Segundo, porque uma publicação que não pode ser acessada, na prática, não existe e então não serve para nada.

É claro que há pessoas que citam também por motivos ímpios, como por exemplo promover alunos ou colaboradores próximos, citando seus trabalhos mesmo que eles não sejam a melhor escolha em determinado caso. Há até mesmo revistas prestigiosas, que cedendo à pressão da cultura do fator de impacto, dão preferência a manuscritos que citam preferencialmente trabalhos delas mesmas. Isso é inaceitável e não tem nem como ser discutido a sério, se a pessoa tiver um mínimo de ética.

Como citar?

Tendo claro o porquê de se fazer uma citação, fica mais fácil entender como fazê-la. Porém, o estilo da citação depende também do estilo da revista, então é preciso ficar atento às normas exigidas. Mas uma coisa é regra: cite apenas trabalhos que você de fato leu e que realmente têm a ver com o seu trabalho!

De um modo geral, usa-se o Estilo Chicago para citações: informa-se o último nome do primeiro autor do texto e o seu ano de publicação. Por exemplo: Darwin (1856) afirma que variações intrapopulacionais em caracteres herdáveis que conferem vantagem ou desvantagem reprodutiva são a matéria-prima da seleção natural. Pode-se também colocar autor e ano entre parênteses, no final da afirmação, sendo esta a forma mais recomendada; por exemplo: variações intrapopulacionais em caracteres herdáveis que conferem vantagem ou desvantagem reprodutiva são a matéria-prima da seleção natural (Darwin 1856). Quando se trata de um trabalho que tem dois autores, geralmente cita-se o último nome de ambos; por exemplo: (Oliveira & Silva 1951). Quando há três ou mais autores, costuma-se citar apenas o primeiro e colocar a expressão latina “et alii” (e outros) abreviada como “et al.”; por exemplo: (Oliveira et al. 2011). Quando se quer citar dois trabalhos juntos, basta seguir as mesmas regras e separar os trabalhos por vírgula; por exemplo: (Darwin 1856, Oliveira et al. 2011). Os detalhes de formato variam de revista para revista: pode-se exigir vírgula antes do ano, ponto e vírgula entre trabalhos, et al. em itálico ou não, autores ligados por and ou &, dentre outras manias. Sempre fique muito atento e respeite as normas de cada revista. Procure usar programas bibliográficos (e.g. Mendeley, Endnote, Reference Manager, BibTex, Zotero ou outros), que ajudam enormemente a compilar e formatar corretamente citações e referências.

Quanto citar?

O excesso de citações é um dos erros mais freqüentes entre cientistas iniciantes ou incompetentes. Citar um monte de trabalhos não torna o seu artigo mais confiável, mas apenas mais chato de ler e mais caro de publicar. Apenas em casos específicos, como revisões, listagens e ensaios, é aceitável ter uma longa lista de citações.

Siga sempre a máxima: uma afirmação alheia, uma citação. Prefira citar quem primeiro descobriu alguma coisa ou propôs uma idéia, ou quem a atualizou de forma interessante mais recentemente. No caso de temas amplos, prefira citar boas revisões.

Quando quiser dar exemplos de trabalhos sobre um fenômeno muito abrangente, limite-se a três citações, no máximo, escolhendo-as por sua  relevância. Acredite, listar 20 trabalhos em uma frase de 10 palavras é horrível e só confunde o leitor. As pessoas não têm tempo de ler todos os trabalhos sobre um determinado assunto. Então facilite a vida delas, sendo muito cuidadoso na escolha das citações, e tendo por meta direcionar o leitor ao que realmente importa.

Se fizer uma afirmação complexa, com duas partes ou mais, associe cada citação à sua respectiva parte, deixando claro quem disse o que. Por exemplo: morcegos Carollia são primariamente frugívoros (Lobova et al. 2009), reproduzem-se duas vezes ao ano (Fleming 1988) e desempenham papéis importantes em redes de dispersão de sementes (Mello et al. 2011).

No caso de livros, prefira citar sempre o capítulo específico de onde você tirou a informação, e não o livro inteiro. Lembre-se de que seu objetivo é direcionar o leitor à fonte primária. Procurar um pensamento num livro inteiro não é tarefa das mais fáceis.

Recomendações finais

Tome cuidado com as citações, pois assim como tudo num artigo, elas também passam mensagens. Por exemplo, se houver citações demais na sua discussão, isso sinaliza que você não descobriu nada de novo, mas apenas fez mais do mesmo. Se você fizer citações erradas, por exemplo dizendo que um autor disse algo que, na verdade, ele não disse, isso prejudicará a credibilidade do seu artigo e, conseqüentemente, a sua reputação. Se você formatar errado as citações e a lista de referência do seu manuscrito, vai passar ao editor da revista a impressão de que é desleixado e, provavelmente, cometeu vários outros erros primários na sua pesquisa. Um bom cientista deve ser rigoroso e minucioso.

Leituras sugeridas

* Publicado originalmente em 2011.

About these ads

8 respostas em “Como fazer citações em artigos científicos

  1. Pingback: Como escrever um artigo científico | Sobrevivendo na Ciência

  2. Pingback: Como elaborar um projeto de pesquisa | Sobrevivendo na Ciência

  3. Pingback: Como revisar um artigo para uma revista | Sobrevivendo na Ciência

  4. Pingback: O clube da citação | Sobrevivendo na Ciência

  5. Pingback: Como dar uma boa aula na universidade | Sobrevivendo na Ciência

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s