Como tirar boas fotos de morcegos: um guia rápido

Resolvi sair um pouco da temática acadêmica do meu blog e escrever sobre uma questão muito importante no trabalho de campo dos biólogos: a fotografia da natureza. A facilidade de obter equipamento fotográfico resultou em um aumento brutal no número de registros dos mais variados organismos em seus hábitats naturais, o que é ótimo. Só que, por outro lado, a qualidade não acompanhou a quantidade das fotos. Vou tentar dar alguns toques aqui para biólogos que curtem ou precisam fotografar morcegos.

Recebo muitos pedidos de identificação de morcegos por fotos. Infelizmente, a maioria dessas fotos não permite nem saber ao certo se o bicho é um morcego ou um tardígrado, que dirá a qual espécie ele pertence. Com muito boa vontade, consigo chutar a família ou o gênero em alguns casos. Há até mesmo alunos mal-orientados que fazem levantamentos de espécies de morcegos em áreas novas sem ao menos montarem uma coleção-testemunho, na confiança de que fotografias (geralmente péssimas) serão suficientes como registro de fauna. O resultado são trabalhos sem confiabilidade alguma.

Além disso, como nos últimos anos ficou muito mais fácil comprar uma câmera digital e também acessórios (como flashes, filtros e tripés), quase todos os biólogos têm pelo menos uma câmera compacta, com a qual registram os bichos e plantas que encontram em florestas, cerrados, caatingas, restingas e outros ambientes. Contudo, como acontece em várias áreas, a facilidade em obter o equipamento acabou resultando em uma preguiça maior para estudar o básico (quando a fotografia era analógica, o sujeito era obrigado a estudar ao menos os fundamentos mais essenciais; isso me lembra o caso das análises estatísticas, que passaram a sofrer abusos depois dos programas “caixa preta”). A maioria esmagadora dos biólogos fotógrafos amadores não sabe sequer definir o assunto da foto, que dirá prestar atenção a coisas como abertura e velocidade. Nos congressos, vemos uma enxurrada de pôsteres ilustrados com fotos de borrões indecifráveis.

Portanto, resolvi escrever este guia; não com o intuito de formar fotógrafos da natureza a jato, mas sim visando levantar questões e conceitos fundamentais, os quais devem ser observados quando se deseja fazer boas fotos em ambientes naturais. Espero que este guia faça os interessados correrem atrás de livros e cursos de fotografia. Foquei nos morcegos, pois são de longe os organismos com os quais tenho maior experiência, além de serem os bichos mais bonitos do mundo.

Vamos por passos:

1. Como em qualquer tipo de fotografia, duas coisas são essenciais: a luz e o assunto.

A foto deve ser feita primeiro na sua mente para depois você tentar tranformá-la em realidade. Para isso é preciso definir um assunto e pensar sobre como usar a luz disponível para registrá-lo. Há enormes diferenças, por exemplo, entre fotografar um crânio de um morcego em um museu, um morcego vivo preso na sua mão, um morcego pousado livre em um galho, um morcego adejando em uma flor ou um morcego que apareceu de repente na sua frente.

2. Primeiro, pense sobre que mensagem deseja transmitir com a foto.

Qual é o assunto da sua foto? Você quer registrar uma espécie, uma estrutura ou um comportamento? Você quer mostrar o morcego inteiro ou apenas a cabeça, o focinho, a orelha, a asa ou outra parte dele? É uma foto estática ou em movimento? As piores fotos são aquelas que não têm um assunto bem definido.

3. Cheque se terá luz suficiente à disposição para registrar o assunto da maneira como idealizou.

Fotografia quer dizer “escrever com luz”, então prestar atenção à iluminação é fundamental para fazer uma boa foto. A quantidade e o tipo de luz de que você precisa dependem do assunto da sua foto. Em alguns casos, além do flash embutido da câmera, procure usar uma fonte de luz extra, como um outro flash em modo “slave” (por exemplo, Nikon SB900) ou uma lanterna potente. Há inclusive linhas de flashes (circulares ou de outros tipos) especiais para macro e close-up (por exemplo, Sigma EM-140 e Nikon R1C1). No caso de luzes estáticas usadas junto com o flash embutido, como uma lanterna LED, faça testes até chegar ao resultado que deseja. Uma luz extra colocada em um ângulo diferente daquele do flash embutido costuma dar um bom efeito de profundidade à foto, evitando que ela fique ”chapada”. Existem até mesmo iluminadores feitos especialmente para algumas linhas de câmeras compactas, incluindo alguns que simulam “ring flashes” para close-up (por exemplo, Nikon Macro Cool Light SL-1 para as antigas câmeras compactas Nikon da série Coolpix).

4. Nem sempre você precisa de uma câmera “profissional” para fazer uma foto “profissional”.

Quem é profissional ou não é o fotógrafo, não a câmera. Mas, obviamente, uma câmera reflex de categoria intermediária (por exemplo, Nikon D7000) ou uma reflex avançada (por exemplo, Nikon D4) te dão muito mais controle sobre as condições da foto do que uma câmera compacta (por exemplo, Nikon Coolpix S6500). Em muitos casos, uma compacta avançada ou uma prosumer (por exemplo, Nikon Coolpix P520 ou Nikon 1 J3) podem ser suficientes, desde que você use fontes de luz extra e saiba manejar bem as configurações finas da câmera. Celulares, até o momento, são péssimos para fotografia científica; eles só fazem fotos aceitáveis quando há muita luz ambiente e ainda é dia, e, de preferência, quando o assunto são paisagens ou bichos e plantas grandes e parados. Fotografia de morcegos com o celular, só em último caso e na ausência de uma câmera de verdade, mesmo que compacta.

5. Tendo em mente o assunto escolhido e a luz disponível, ajuste as configurações.

Observe principalmente a abertura (A, medida em F-stops) e a velocidade do obturador (S, medida em frações de segundo). Via de regra, use uma abertura grande o suficiente para ter uma boa profundidade de campo (i.e., o quanto do morcego está em foco) de modo a conseguir colocar totalmente em foco o assunto da foto (na verdade, uma abertura pequena, já que F-stops são frações; mas aqui vou me referir ao valor numérico que aparece na câmera, para ficar mais intuitivo). No caso de fotos da cabeça ou de detalhes do focinho de um morcego fotografados em close-up, costumo usar valores entre f/14 e f/20. No caso da velocidade, uso sempre um valor numérico igual ou maior do que o comprimento da lente que estiver usando; por exemplo, para uma lente macro de 100 mm, uso velocidades maiores do que 1/100 s, como 1/200, 1/500 etc; este é um macete que diminui bem a chance de a foto ficar tremida;

6. No caso de fotos de morcegos em vôo, o planejamento é mais importante ainda.

Isso porque você terá apenas uma ou poucas chances de fazer uma boa foto. Observe o comportamento do morcego e veja se a sua rota de vôo ao redor do alimento é previsível. Sabendo mais ou menos o que o morcego deve fazer a seguir, posicione a câmera e as luzes extras. Neste tipo de situação, ajuda muito ter um tripé e um controle remoto. Melhor ainda é ter algum tipo de sensor de movimento associado ao disparador da câmera (por exemplo, Trail Master). Para exemplificar, se quiser fotografar um morcego Glossophaga visitando uma flor, use velocidades altas (>1/400) e aberturas grandes (>F/20), além de um bom flash externo ou uma lanterna LED potente apontada para a flor (acredite, muitos morcegos não se intimidam com iluminação artificial).

7. Como a maioria dos morcegos é pequena, use lentes macro.

Se você estiver usando uma câmera reflex, prefira objetivas macro, tanto para fotos de morcegos parados quanto em movimento. Prefira as lentes mais claras que puder comprar, se possível, macros verdadeiras (ampliação 1:1) e com abertura f/2.8. Lentes close-up (com ampliação menor do que 1:1), sejam zoom ou fixas, também servem muitas vezes. Se estiver usando uma câmera compacta, ative a função close-up dela, que lhe permitirá dar alguma ampliação ao assunto (apesar de nenhuma compacta chegar a 1:1).

8. Quando as condições de iluminação não estiverem boas, faça ajustes mais finos.

Se o local estiver mal iluminado ou você tiver que usar aberturas grandes demais (>F/20) ou velocidades rápidas demais (>1/300), recorra a ajustes no ISO (i.e., sensibilidade do sensor) e na compensação de exposição (EV steps). Ajuste também o balanço de branco; ou fotografe em RAW, caso a sua câmera permita, e pense no white balance depois. Não existe uma fórmula mágica para definir esses valores a priori, que dependem fortemente da luz disponível e dos valores de abertura e velocidade que você escolheu. Faça testes;

9. Em caso de dúvidas, pesquise os EXIFs de fotos que admira.

As fotos digitais têm várias vantagens. Uma das melhores é armazenarem informações sobre as configurações usadas em cada fotografia. Consultando o EXIF (metadados) de fotos que você admira, você poderá ver qual câmera o fotógrafo usou, qual lente, qual abertura, qual velocidade, qual ISO etc. Nas suas primeiras fotos, depois de ter estudado a teoria, imite as configurações de fotos tiradas em condições parecidas com as suas e veja se os resultados se aproximam. Isso ajuda muito a aprender os fundamentos.

10. Recomendação final.

Compre livros de fotografia, faça cursos, estude os conceitos básicos (luz, assunto, abertura, velocidade, ISO e white balance) e pratique, pratique, pratique!

Exemplos:

Anoura caudifer

Foto de um morcego da espécie Anoura caudifer (Phyllostomidae), no Parque Estadual Intervales, Ribeirão Grande, SP. A foto foi tirada com o morcego na mão de um colega. Usei uma câmera digital compacta, Nikon Coolpix 4300 (velocidade = 1/60, abertura = F/7.6, ISO = 100, flash embutido, iluminador Nikon Macro Cool Light SL-1 e lente zoom da câmera). A foto teve como assunto o “perfil” do morcego, permitindo ver estruturas importantes em sua cabeça, como a folha nasal e as orelhas. Note como apenas metade da cabeça está em foco.

*****Molossus molossus

Foto de um morcego da espécie Molossus molossus (Molossidae), no Parque Estadual da Ilha do Cardoso, Cananéia, SP. A foto foi tirada com o morcego na mão de um colega. Usei uma câmera digital reflex intermediária, Nikon D200 (velocidade = 1/250, abertura = F/14, ISO = 100, flash circular Sigma EM-140 e lente Sigma macro de 105 mm). A foto teve como assunto o “perfil 3/4″ do morcego, permitindo ver seus dentes, orelhas e focinho. Note como a cabeça toda está em foco.

*****

Platyrrhinus lineatus

Foto de um morcego da espécie Platyrrhinus lineatus (Phyllostomidae), na reserva de cerrado da UFSCar, São Carlos, SP. A foto foi tirada com o morcego pousado em um galho, comendo um fruto de caqui-do-cerrado (Diospyros hispida). Usei uma câmera digital reflex intermediária, Nikon D200 (velocidade = 1/250, abertura = F/20, ISO = 640, flash embutido e lente Sigma macro de 105 mm). A foto teve como assunto o flagrante de frugivoria pelo morcego. Note como o morcego e o caqui estão inteiros em foco.

Sugestões de leitura:

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9 comentários sobre “Como tirar boas fotos de morcegos: um guia rápido

    • Valeu! Mesmo sem equipamento profissional, usando uma boa compacta, dá para tirar ótimas fotos de morcegos. É só prestar atenção a algumas coisas e usar um ou outro equipamento extra em alguns casos. Queria mostrar isso no artigo.

  1. Só um adendo. Dá para perceber que eu tenho um certo viés para as Nikon (rs), mas obviamente as Canon são tão boas quanto elas para fazer fotos de morcegos ou de qualquer outra coisa. A marca da câmera é, na verdade, uma escolha mais pessoal do que técnica (considerando as melhores, como Nikon, Canon e Panasonic), assim como a marca do carro que você dirige ou do computador com que você trabalha.

  2. Eu apenas complementaria a dica 3: difundir a luz (com uma folha A4) é essencial pra aumentar a qualidade das fotos. As fotos do post estão em qualidade bastante razoáveis, mas caso a luz tivesse sido feita difusa, além de maior distinção entre os níveis de cinza, as sombras ficariam bem mais suaves. Entretanto, é só complemento, um bom artigo para se aventurar na fotografia dos bichinhos.

    • Obrigado pela dica! Eu passei a usar um difusor de flash externo só recentemente, ainda estou aprendendo a técnica. Legal saber que dá para improvidar com uma folha branca.

      • Eu particularmente uso um softbox portátil (http://goo.gl/6Gde6), que é muito bom, mas a folha A4, especialmente de papel vegetal fica bom demais. E o melhor do papel vegetal é que não desmancha com água.
        ;)

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