Resumo científico: quando menos é mais

Resumos, também chamados de sumários ou abstracts, são peças-chave na comunicação científica. Neste artigo passo algumas dicas sobre como fazer uma boa propaganda do seu estudo através de um resumo bem escrito.

“Das palavras, a mais simples, das mais simples, a menor”

Winston Churchill

Hoje em dia há uma quantidade gigantesca de cientistas no mundo. Todos competem fortemente por espaço em revistas e congressos. E aqueles que conseguem espaço ainda têm que competir por atenção, pois a enxurrada de artigos publicados mensalmente e a profusão de apresentações e pôsteres em congressos impedem que uma pessoa consiga ler tudo o que sai na sua área.

Por isso, é fundamental saber resumir bem seu trabalho em poucas palavras. Se você fisgar seus colegas com um título instigante e palavras-chave bem escolhidas, e ainda impressioná-los com um bom resumo, aumentará muito as chances de que o seu artigo seja publicado em uma boa revista ou de que o seu pôster ou a sua palestra sejam aceitos em um congresso.

Além disso, aumentará muito as chances de lerem e usarem o seu trabalho. Portanto, sua meta ao escrever um resumo deve ser aguçar a curiosidade das pessoas, a ponto de elas quererem largar tudo o que estão fazendo para procurar o trabalho ao qual o resumo se refere, seja ele um artigo, pôster, palestra ou tese.

Por que escrever um resumo?

Um resumo é como um trailer de filme. Serve para fazer propaganda do seu artigo, livro, palestra ou pôster. Logo, um resumo deve ser curto, direto e atraente.

Vamos tratar de algumas questões específicas.

Preliminares

É inaceitável um resumo não incluir resultados ou discussão. Se o seu trabalho ainda não está pronto, então não o apresente aos seus colegas! Essa história de “resultados preliminares” ou “avaliação preliminar” em congressos não faz sentido.

Quem garante que você terá as mesmas conclusões ao final do seu projeto? Se você acha que uma meia dúzia de resultados iniciais são suficientes para sustentar suas conclusões, então porque coletaria ainda mais dados?

Contudo, não confunda análise preliminar picareta com estudo piloto, este segundo, um teste rápido que você faz dos seus métodos antes de começar para valer a pesquisa.

Escreva pouco e escreva bem

Como o nome já sugere, resumos devem ser sucintos. Vá direto ao ponto, não enrole. Não diga com duas palavras o que pode dizer com uma.

O resumo deve deixar claros a relevância e a originalidade do trabalho. No caso de um resumo de artigo, escreva-o antes do resto. Isso lhe permitirá ter uma visão global de como estruturar o artigo.

Não tem problema voltar ao resumo depois para fazer melhorias ou mesmo mudanças substanciais.

Resumos expandidos, não!

Resumos por definição devem ser sucintos, então necessariamente não contêm todas as informações do suposto trabalho completo, mesmo que sejam “expandidos”.

Assim, um resumo expandido nunca substitui um artigo de verdade. Além disso, um resumo expandido é, obviamente, prolixo demais para ser considerado um resumo de verdade. Por isso, resumos expandidos são algo totalmente sem sentido, uma péssima idéia que infelizmente não morre no Brasil.

Resumos expandidos incentivam a prolixidade e retardam a publicação formal de um estudo.

Por onde começar?

Tanto no caso de resumos quanto no caso de artigos completos, recomendo fortemente escrever ao contrário (a la Bill Magnusson).

“Como assim, Marco?”

Simples: primeiro, defina qual é a mensagem principal que você quer passar no artigo. Eu costumo chamar isso de “moral da história”. Pode ser a descoberta mais importante feita no trabalho, a recomendação mais importante que você gostaria de fazer a um público específico, ou a implicação principal da descoberta que você fez.

Tudo em um texto acadêmico gira em torno dessa moral da história. Com foco nela, você decide o que entra e o que sai do resumo, em que ordem as informações entram e a qual informação você vai dar mais destaque.

O que deve entrar em um resumo?

Em geral, você terá no máximo 300 palavras para passar a sua mensagem e fazer propaganda do seu trabalho. Em algumas revistas top, poderá ter apenas 150 palavras ou 5% do tamanho total do texto, fora as referências.

O espaço é pequeno e é ótimo que isso seja assim! Geralmente, quem fala demais tem pouco a dizer. Mesmo que te dêem mais do que 300 palavras, nunca ultrapasse esse limite, pois nada é mais nonsense do que um resumo gigante, do tamanho de uma nota.

Em revistas ou congressos que dão menos do que 200 palavras, concentre-se em falar apenas sobre seus objetivos e conclusões. Se a revista lhe der o espaço padrão de 300 palavras, adote a estrutura e a seqüência usadas em um artigo completo, mas mantendo a ênfase nos objetivos e conclusões.

Fale apenas en passant sobre o contexto maior do trabalho, os métodos principais e os resultados mais relevantes. Não inclua citações nem resultados de testes estatísticos. Inclua apenas valores de medidas (tendência central e dispersão) ou de métricas relacionadas a variáveis operacionais (por exemplo, valores de índices de diversidade), se julgar necessário.

Quanto de cada coisa?

Não há uma proporção áurea a ser seguida para saber o quanto alocar em cada parte de um resumo.

Quando o seu artigo envolver um tema novo, incomum ou complexo, gaste mais espaço com a parte equivalente à introdução. Quando alguma análise ou equipamento forem a novidade, use mais palavras nos métodos.

Via de regra, gaste mais palavras com o que for mais importante ou mais difícil de compreender, mas sempre dê destaque aos objetivos e conclusões principais.

Palavras-chave

Depois do resumo, inclua quantas palavras-chave forem permitidas pela revista ou evento. Não repita termos que já apareçam no título.

As palavras-chave são fundamentais para que leitores interessados nos mesmos temas encontrem o seu trabalho no meio da profusão de publicações dos tempos atuais. Dentro da sua área e considerando o tema do trabalho, prefira buzzwords que estão em alta no momento. Inclua também alguns termos clássicos, que conectam o seu trabalho ao programa de pesquisa no qual ele se enquadra.

Evite a todo custo abreviações ou siglas (acrônimos), exceto os de uso comum (como DNA ou UFC).

Título

Veja um outro post específico sobre como escrever um bom título.

Remova a madeira morta

Se você gosta de agricultura ou jardinagem, sabe que muitas vezes é necessário fazer uma poda em algumas plantas para que elas cresçam melhor. Cortar galhos ou folhas secas também pode ajudá-las a ficar mais bonitas e saudáveis.

Pense nessa analogia. Depois que você tiver escrito o resumo, deixe-o descansar por um tempo, tipo um ou dois dias, e retome-o para dar o toque final. Ou seja “remova a madeira morta” (remove the dead wood).

Você vai reler o resumo todo mais uma vez e depois voltar com calma desde o início, identificando frases e palavras supérfluas, que não agregam informação, mas apenas gastam espaço e tornam o texto mais longo.

Essa “poda” tem o potencial de transformar um texto bom em ótimo, além de ser uma boa estratégia para respeitar o limite de palavras imposto pelo veículo onde o resumo vai ser publicado.

Exemplo de um ótimo resumo

Vejam um artigo com um excelente resumo: instigante, conciso e informativo:

Dá para enxugar bem!

Talvez este seja o resumo mais sucinto de todos os tempos:

most concise abstract ever

Faça uma boa abertura

Uma excelente maneira de prender a atenção dos leitores é abrir o seu resumo com uma frase de impacto, como neste exemplo abaixo :

Por que a abertura acima funciona maravilhosamente bem?

  1. A citação tem tudo a ver com o tema do artigo;
  2. A citação é engraçada, elegante e concisa;
  3. Ninguém espera ver uma citação literária em um artigo científico, ainda mais no resumo.

Dica final

Veja estas excelentes dicas da Nature sobre como elaborar um resumo excelente:

  1. How to construct a Nature summary paragraph

*Publicado originalmente em 2010 e atualizado constantemente.

(Fonte da imagem destacada)

8 respostas para “Resumo científico: quando menos é mais”

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