Como fazer citações em artigos científicos

As citações são um tema central na ciência contemporânea. Contudo, aspectos básicos delas têm sido negligenciados na formação de jovens cientistas: por que, como e quanto citar. Vamos conversar sobre isso.

Por que citar?

Faz-se citações em artigos científicos por dois motivos principais:

  1. Dar crédito às ideias alheias usadas no seu trabalho;
  2. Permitir ao leitor consultar essas ideias em suas fontes originais, diminuindo a propagação de erros.

O primeiro motivo tem a ver, acima de tudo, com a honestidade do cientista. Para um cientista roubar ideias é um pecado mortal. Boas reputações construídas ao longo de décadas já foram destruídas por um único caso de plágio.

O segundo motivo não é menos importante. Há colegas descuidados que reproduzem as idéias alheias sem o rigor necessário, deturpando o que os autores escreveram. Contudo, mesmo que a citação em si esteja errada, caso você note isso, ainda pode checar a fonte e desfazer o erro.

Além disso, não cite a literatura cinza, ou seja, publicações como monografias, dissertações, teses, relatórios, matérias de jornais e resumos de congressos, por exemplo. Primeiro, porque a qualidade desse tipo de literatura em média é baixa, devido à ausência ou baixa qualidade da revisão pela qual ela passa. Segundo, porque uma publicação que não pode ser acessada, na prática, não existe e, portanto, não serve para nada.

Contudo, aqui vale uma ressalva. A literatura cinza, mesmo não podendo ser citada pelas razões acima, deve ser lida. Muitas vezes achamos informações preciosas em fontes informais. Um bom exemplo é a Wikipedia, que serve como um excelente ponto de partida para novos temas.

É claro que há pessoas que citam também por motivos ímpios, como por exemplo promover alunos ou colaboradores próximos. Há até mesmo revistas picaretas que, cedendo à pressão da cultura do fator de impacto, criam verdadeiros cartéis de citação. Isso é inaceitável para quem tem um mínimo de ética.

Como citar?

Tendo claro o porquê de se fazer uma citação, fica mais fácil entender como fazê-la. Porém, o estilo exato da citação depende das normas de cada revista, então é preciso ficar atento às instruções aos autores. Vale uma regra geral: cite apenas estudos que você de fato leu e que realmente têm a ver com o seu trabalho.

Costuma-se usar o estilo Chicago para citações. Informa-se o último nome do primeiro autor do texto e o seu ano de publicação. Por exemplo: “Darwin (1856) afirma que variações intrapopulacionais em caracteres herdáveis que conferem vantagem ou desvantagem reprodutiva são a matéria-prima da seleção natural”.

Na verdade, é melhor colocar autor e ano entre parênteses, ao final do período. Por exemplo: “variações intrapopulacionais em caracteres herdáveis que conferem vantagem ou desvantagem reprodutiva são a matéria-prima da seleção natural (Darwin 1856)”. Isso porque mais importante do que seu autor é a ideia em si.

Quando se trata de um trabalho que tem dois autores, geralmente cita-se o último nome de ambos. Por exemplo: (Oliveira & Silva 1951). Quando há três ou mais autores, costuma-se citar apenas o primeiro e colocar a expressão latina “et alii” (e outros, em latim) abreviada como “et al.”; por exemplo: (Oliveira et al. 2011). Quando se quer citar dois trabalhos juntos, basta seguir as mesmas regras e separar os trabalhos por vírgula; por exemplo: (Darwin 1856, Oliveira et al. 2011).

Os detalhes de formato variam de revista para revista: pode-se exigir vírgula antes do ano, ponto e vírgula entre trabalhos, et al. em itálico ou não, autores ligados por and ou &, etc. Sempre fique muito atento e respeite as respectivas normas.

“Mas, Marco, o que fazer no caso de citações de fontes secundárias?”

Esse é o caso, quando você não teve acesso a um determinado trabalho original, mas obteve uma informação apresentada nele em um outro artigo que o citou. Recomendo fortemente nunca fazer citações secundárias, porque é grande a chance de deturpar as informações ou interpretações do artigo original, criando um efeito telefone sem fio.

Contudo, se for mesmo necessário citar um trabalho em segunda mão, use o famoso apud. Ou seja, cite a referência original e adicione a referência secundária na qual conseguiu a informação. Por exemplo: “variações intrapopulacionais em caracteres herdáveis que conferem vantagem ou desvantagem reprodutiva são a matéria-prima da seleção natural (Darwin 1856, apud Dawkins 1986)”. Quer dizer que você leu essa informação no Dawkins (1986), mas não foi ele quem disse isso originalmente, cabendo a autoria ao Darwin (1856). Apud em latim quer dizer “junto a”, “em”.

Quanto citar?

O excesso de citações é um dos erros mais freqüentes entre aspiras inexperientes ou veteranos incompetentes. Citar um monte de trabalhos não torna o seu artigo mais confiável, apenas mais chato de ler. Apenas em casos específicos, como revisões, listagens e ensaios, é aceitável ter uma longa lista de citações.

Siga sempre a máxima: uma ideia alheia, uma citação. Prefira citar quem fez uma descoberta ou propôs uma ideia primeiro, ou quem atualizou uma ideia de forma interessante mais recentemente. No caso de temas amplos, prefira citar boas revisões, tão atuais quanto possível.

Quando quiser dar exemplos de trabalhos sobre um fenômeno muito abrangente, limite-se a três citações, no máximo, escolhendo-as por relevância. Acredite, listar 20 trabalhos em uma frase de 10 palavras é horrível e só irrita o leitor. As pessoas não têm tempo de ler todos os trabalhos sobre um determinado assunto. Então facilite a vida delas, sendo muito cuidadoso na escolha das citações e tendo por meta direcionar o leitor ao que realmente importa.

Se fizer uma afirmação complexa, com duas partes ou mais, associe cada citação à sua respectiva parte. Por exemplo: “morcegos Carollia são primariamente frugívoros (Lobova et al. 2009), reproduzem-se duas vezes ao ano (Fleming 1988) e alguns deles podem ser espécies-chave em redes de dispersão de sementes (Mello et al. 2015)”.

No caso de livros, prefira citar sempre o capítulo específico de onde você tirou a informação e não o livro inteiro. Lembre-se de que seu objetivo é direcionar o leitor à fonte primária. Procurar um pensamento específico dentro de um livro inteiro é como achar um agulha em um palheiro.

A sua atenção aos detalhes indica a sua qualidade como cientista

Tome cuidado com as citações, pois, assim como tudo num artigo, elas também passam mensagens. Por exemplo, se houver citações demais na discussão, isso sinaliza que você não descobriu nada de novo, apenas fez mais do mesmo.

Se você fizer citações erradas, por exemplo dizendo que um autor disse algo que, na verdade, ele não disse, isso prejudicará a credibilidade do seu artigo e, por tabela, a sua própria reputação.

Se você formatar errado as citações e a lista de referência do seu manuscrito, vai passar ao editor da revista a impressão de que é desleixado e, provavelmente, cometeu vários outros erros primários na sua pesquisa. Um bom cientista deve ser minucioso.

Conselho final

Use um programa bibliográfico para gerenciar tanto as citações quanto as referências dos seus textos. Sério, isso vai tornar a sua vida muito mais fácil e as suas citações, mais precisas.

Leituras sugeridas

  1. Scientific citation
  2. What determines the citation frequency of ecological papers?
  3. Scientific citations in Wikipedia
  4. Incorrect Citations Give Unfair Credit to Review Authors in Ecology Journals
  5. How to choose a reference management software

* Publicado originalmente em 2011 e atualizado constantemente.

(Fonte da imagem destacada)

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14 respostas para “Como fazer citações em artigos científicos”

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