Como revisar um artigo para uma revista

Uma parte fundamental da nossa rotina de cientistas é tentar convencer a comunidade acadêmica sobre a validade das nossas descobertas, interpretações e idéias em geral. Por isso, trabalhamos arduamente não apenas na hora de elaborarmos e desenvolvermos projetos, mas também na hora de publicarmos seus resultados. Só que algumas vezes ficamos do outro lado do cabo de guerra, quando somos convidados a fazer revisões para revistas.

Fazer uma revisão é uma grande responsabilidade, para a qual infelizmente não recebemos treinamento formal nas universidades e nem nos laboratórios. Escrevi este artigo para ajudar jovens cientistas, especialmente doutorandos e pós-doutores, que estão recebendo os primeiros convites para atuarem como revisores. Para facilitar, organizei as minhas dicas com base nas perguntas que me fazem mais freqüentemente.

1. O que é um reviewer?

Reviewer quer dizer revisor em inglês. Este é o termo que designa os cientistas convidados a emitirem pareceres ad hoc sobre manuscritos submetidos para publicação em revistas cientificas. Antigamente, era mais comum chamá-los de referees (árbitros), contudo esse termo está caindo em desuso em muitas áreas. Isso porque o papel de um reviewer não é julgar em definitivo se o artigo vai ser publicado ou não (decision), mas apenas dar ao editor uma opinião sobre a qualidade científica do trabalho e sua adequação àquela revista específica (gatekeeping), além de apontar erros no conteúdo científico ou no texto e fazer sugestões para melhorar o trabalho (editing). Quem bate o martelo no final é sempre o editor da revista. Por isso, mesmo que um manuscrito receba dois ou três pareceres favoráveis, às vezes ele pode ser recusado, dependendo do julgamento do editor (para entender melhor como funciona o sistema de peer review, leia um outro artigo curto).

2. Por que me convidaram para ser revisor?

Em geral, são convidados para revisar manuscritos os cientistas reconhecidos pela comunidade como especialistas em uma determinada área, seja ela um táxon, um fenômeno, um ambiente ou um método. Os editores de revistas convidam preferencialmente as maiores autoridades em cada área, mas infelizmente os cientistas seniores costumam estar sempre muito ocupados e receber vários convites, então acabam por recusar a maioria das revisões. Assim, via de regra acabam sendo convidados cientistas menos experientes, porém reconhecidamente bons. Doutorandos e pós-doutores fazem a maioria das revisões. Pós-doutores são considerados os melhores revisores, pois já têm boa experiência em pesquisa e revisão, costumam estar sempre bem atualizados na literatura de cada área, gostam de mostrar serviço, e têm muito mais tempo livre do que os cientistas seniores. De qualquer forma, pense que você pode ter sido escolhido porque o editor conhece seus trabalhos, porque ele achou artigos seus sobre o mesmo assunto buscando nos índices científicos, ou porque o autor correspondente do manuscrito indicou seu nome como potencial revisor. Portanto, um convite para revisar um manuscrito é uma forma de reconhecimento da sua qualidade como pesquisador.

3. É fácil achar revisores para um manuscrito?

Não. A produção científica no mundo todo tem crescido muito mais rápido do que o número de cientistas, portanto revisores estão em falta no mercado. Além disso, o trabalho de revisor é sempre voluntário, então depende apenas de boa vontade e espírito de comunidade. Considerando que muitas das melhores revistas não estão mais nas mãos das sociedades científicas, mas sim em poder de grandes editoras multinacionais, é até mesmo revoltante ter que trabalhar de graça para quem vai lucrar absurdamente com o artigo (ainda mais com os preços abusivos que têm sido cobrados ultimamente). O revisor, na maioria dos casos, não tem nem mesmo acesso à versão final do trabalho que ele mesmo ajudou a melhorar. Além disso, a competição excessiva no meio acadêmico têm levado muitos ao estresse e à sobrecarga de trabalho, então trabalhos altruístas como a revisão não têm mais prioridade. Outro fator que contribui também para a falta de revisores é o alto grau de especialização que algumas ciências têm sofrido; quando mais especializadas são as pesquisas, menos gente entende profundamente de cada assunto específico.

4. Como deve ser o tom do meu parecer?

Observe a máxima: “trate os outros como gostaria de ser tratado”. No seu parecer, seja o mais respeitoso e profissional quanto possível. Evite comentários pessoais, como piadas ou, pior, ironia. Vá direto ao ponto, sem rodeios. Aponte tudo o que estiver ruim, mas não deixe de elogiar o que for bom. Não tenha medo de apoiar um trabalho bem feito! Um bom revisor não é aquele que destroça todo manuscrito que pega, como um pitbull ensandecido, mas sim aquele capaz de fazer uma leitura crítica e apontar caminhos para melhorar o trabalho. Lembre-se também de que uma revisão feita nas coxas ou agressiva queima o seu próprio filme como profissional, e que a comunidade científica é um mundinho bem pequeno, onde o seu maior patrimônio é a sua reputação.

5. Por onde começo minha revisão?

Há várias coisas a serem consideradas em uma revisão. Comece lendo as informações sobre o escopo da revista (geralmente disponíveis no site) e o formulário que o editor lhe fornece para dar o parecer. Esse formulário lhe dará uma boa noção dos pontos que o editor julga importantes. Avalie o manuscrito, tendo em mente essas diretrizes e os seus valores profissionais.

6. O que devo levar em conta?

No geral, os editores da maioria das revistas pedem para você prestar atenção aos seguintes aspectos principais:

i. O trabalho é original e traz de fato alguma novidade, ou é apenas mais um estudo confirmatório, que chove no molhado?

A grande maioria dos trabalhos submetidos para publicação hoje em dia apenas chove no molhado ou simplesmente não tem pé nem cabeça. Isso é fruto da cultura do publish or perish, que faz com que cientistas desesperados (e sem personalidade) tentem publicar toda e qualquer porcaria, apenas para “encher o Lattes”. Ajude com sua revisão a varrer o lixo para fora.

ii. O trabalho tem uma estrutura lógica válida, com um contexto interessante, objetivos claros e uma pergunta central original?

Um trabalho científico, seja ele descritivo, teste de hipóteses ou teórico, deve necessariamente ser orientado por uma pergunta interessante e clara. Trabalhos sem pergunta devem ser rejeitados de cara. Como você pode interpretar os resultados e a relevância de um trabalho, se nem o próprio autor te diz claramente aonde queria chegar? É obrigação do autor contextualizar adequadamente sua pesquisa. Os únicos trabalhos que são bons mesmo sem uma pergunta central são aqueles que trazem alguma descoberta impactante, feita sem planejamento. Mas essas grandes descobertas casuais são a exceção, não a regra. Confira também se os conceitos apresentados no trabalho estão corretos, sem erros ou ambigüidades.

iii. O trabalho tinha um objetivo puramente descritivo ou visava testar hipóteses?

Muitos autores, por falta de orientação adequada ou com medo de serem julgados mais rigorosamente, dizem na introdução que o trabalho era puramente descritivo, porém apresentam um monte de testes de hipóteses e predições estatísticas nos resultados. Cobre do autor um posicionamento claro quanto à abordagem do trabalho. Tanto trabalhos descritivos quanto testes de hipóteses são importantes para a ciência, mas uma distinção correta entre eles deve ser feita.

iv. As conclusões apresentadas são apoiadas pelos resultados obtidos?

Um erro cometido por vários pesquisadores é acreditar tanto em uma determinada “hipótese de pelúcia”, a ponto até mesmo de ignorar evidências contrárias a ela obtidas no próprio estudo. Confira se os resultados obtidos corroboram ou refutam as hipóteses propostas, e se o autor do manuscrito não forçou a barra para fazer suas evidências parecerem positivas. Além disso, a especulação desmedida é um outro erro comum hoje em dia. Especialmente os cientistas inexperientes ou os incompetentes tentam forçar conclusões muito além do que os seus dados permitem, para fazerem seus trabalhos parecem mais relevantes. Leia atentamente o manuscrito e veja o que é concreto (dados obtidos corretamente), o que é interpretação (conclusão tirada a partir dos dados) e o que é especulação (conclusão sem apoio dos dados obtidos no trabalho). Um pouco de especulação é saudável, pois uma boa mente analítica e criativa pode ter grandes sacadas, mas desde que as especulações sejam feitas em doses homeopáticas, com uma lógica impecável e mantenham um link, mesmo que fraco, com as evidências obtidas no estudo. Nada de velhos clichês preguiçosos do tipo “isso é muito importante para a conservação”, ou de afirmações soberbas como “estes resultados preliminares obtidos em uma área apenas uma única vez são fundamentais para entender a história da vida na Terra”. Evite sugerir que o autor faça experimentos adicionais ou colete mais dados, a não ser que isso seja extremamente necessário; lembre-se de que artigos geralmente resultam de projetos que já foram terminados e para os quais não há mais financiamento. Ajude o autor a fazer o melhor que ele pode com o que tem em mãos.

v. Os métodos usados foram descritos corretamente? Esses métodos são adequados para se obter os resultados apresentados e responder a pergunta central do trabalho?

A seção de métodos deve ser escrita como uma receita de bolo, para que permita aos colegas reproduzirem o estudo e, assim, verem se chegam a resultados e conclusões similares. Deve-se listar os ingredientes usados e explicar o modo de preparar a massa, mas não é necessário explicar a mecânica de uma batedeira. Portanto, todos os materiais usados e protocolos empregados devem estar claramente descritos e justificados. Métodos bem conhecidos e amplamente utilizados podem ser mencionados en passant, citando-se a referência original.

vi. As figuras e tabelas foram bem feitas e estão em quantidade adequada?

As ilustrações são fundamentais em um artigo. Portanto, elas devem ser feitas no maior capricho, dentro do estilo científico. Ou seja, sem rebuscamento, bem simples e com grande clareza. Cada figura e sua legenda devem ser independentes do resto do texto, passando uma mensagem clara. Como figuras e tabelas custam caro para as editoras, não deve haver mais do que o estritamente necessário. Resultados simples devem ser apresentados em texto corrido. Não é necessário incluir fotos de organismos bem conhecidos, mapas com a localização da área de estudo e outras ilustrações supérfluas.

vii. A revisão da literatura foi bem feita?

O autor precisa demonstrar que está a par tanto do conhecimento bem estabelecido na área, quanto das últimas descobertas relacionadas mais intimamente ao seu trabalho. Isso não quer dizer que a introdução deva ser longa e prolixa, mas que ela deve fornecer uma contextualização e justificativa eficientes do que se sabe, do que não se sabe e do que o autor tentou saber. Deve haver um bom equilíbrio entre literatura clássica e recente. Autores que só citam artigos com mais de 10 anos de idade provavelmente estão desatualizados. Como especialista, é seu dever saber se o autor citou tudo que era mais relevante e atual ou não. Outro fator a ser considerado é a quantidade de citações; para cada informação alheia, via de regra basta apenas uma citação; ajude o autor a cortar o excesso. Auto-citações não são necessariamente um problema: em alguns casos, um determinado cientista é tão bom em uma área, que ele mesmo ajudou a criar as bases do seu próprio estudo. Em outros casos, o assunto é tão especializado, que só o autor e mais meia dúzia de colegas se interessam por ele. Mas fique atento às auto-citações desnecessárias e malandras, que visam apenas inflar o H do autor.

viii. O texto está bem escrito?

Não basta o autor descobrir coisas interessantes. É preciso que ele as explique com uma uma redação impecável, sem erros de ortografia e gramática, objetiva e atraente. Como a grande maioria dos artigos científicos é escrita em inglês, é importante também checar a linguagem do texto. Caso haja erros demais ou o estilo esteja fraco, recomende que o texto passe por uma revisão. Ela pode ser feita tanto por um falante nativo de inglês, que também seja um cientista da mesma área, ou por um tradutor científico profissional. Além disso, o texto deve estar dentro do estilo científico de redação, que exige clareza, síntese e objetividade. Textos prolixos, ambíguos ou herméticos devem sempre ser reformulados. Um bom artigo científico deve almejar ser entendido pelo maior número possível de colegas, e não apenas pelos “especialistas no bicho X, no ambiente Y, fazendo a atividade Z”.

7. Quanto tempo devo gastar com cada revisão?

Quem está começando na arte da revisão geralmente gasta mais de um dia com cada manuscrito. Mas, com o tempo, aprende-se a ser mais objetivo e o serviço muitas vezes pode ser feito em poucas horas. Não é seu papel como revisor corrigir todos os erros de linguagem e nem de formatação, por exemplo (as revistas maiores têm profissionais especializados nesse serviço). Se você tiver que fazer pesquisas bibliográficas e consultar artigos demais para a revisão, é um sinal de que talvez o tema do artigo não fosse de fato a sua especialidade. Só aceite revisar trabalhos cujos temas forem muito familiares a você.

8. Como termino minha revisão?

Termine listando suas críticas e sugestões principais e secundárias. As principais são aquelas que você acha que necessariamente deveriam ser acatadas, por estarem relacionadas a erros cometidos pelo autor, que não podem passar de jeito nenhum. As secundárias são as sugestões que poderiam ser acatadas ou não, e geralmente se referem a coisas que você faria de uma forma diferente por alguma razão qualquer. Se a revista permitir, você pode também incluir o arquivo original com seus comentários detalhados e mais algumas correções menores. Seja positivo, balanceie suas críticas com sugestões que possam ajudar a melhorar o trabalho.

9. Que história é essa de “comentários abertos ao autor” e “comentários sigilosos ao editor”?

A maioria das revistas inclui dois campos no final do formulário de revisão. O campo “comentários abertos ao autor” serve para você colocar a sua revisão em si, ou seja, suas críticas e sugestões. Já o campo “comentários sigilosos ao editor” deve ser usado apenas quando necessário, por exemplo, caso você tenha alguma informação sobre a confiabilidade do estudo, que queira compartilhar sigilosamente com o editor. Você pode usar esse campo sigiloso, por exemplo, caso saiba de algum conflito de interesses entre os autores e os patrocinadores do estudo, ou saiba que os dados coletados foram forjados ou plagiados.

10. Devo me identificar na revisão?

Na minha opinião, não, porque o seguro morreu de velho. Mesmo que você faça uma revisão com alto profissionalismo, sempre há a possibilidade de ser mal interpretado e arrumar desafetos na Academia (a maioria dos cientistas é conhecida por sua vaidade). Trate o autor com respeito e seja construtivo, mas permaneça anônimo. Tome cuidado para remover metadados (autor etc.) e outras informações pessoais do arquivo que for mandar de volta à revista. Contudo, essa é uma questão altamente polêmica e há vários pontos de vista nela (veja aqui e aqui).

11. Último conselho.

Termino este artigo com a mesma máxima que citei no começo: “trate os outros como gostaria de ser tratado”. Seja crítico, mas também positivo. A revisão por pares serve não apenas para barrar pseudo-ciência ou ciência mal-feita (gatekeeping), mas principalmente para melhorar a qualidade dos artigos verdadeiramente científicos (editing). A revisão é um dos pilares da ciência, então leve muito a sério essa tarefa.

Leituras recomendadas:

* Publicado originalmente em 2011.

pear review

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10 Replies to “Como revisar um artigo para uma revista”

  1. Muito bom o texto! Esclareceu muito algumas dúvidas. Tenho apenas o título de mestrado e levei um grande susto quando recebi um email do editor de um periódico internacional me convidando para revisar um artigo. A princípio fiquei até com medo, mas conversando com meu orientador vi que se fui convidado é porque tive meu trabalho reconhecido.

  2. Gostei da sua síntese!

    Uma preciosa ajuda para quem nunca fez actuou com referee!
    Crítica: você deveria ter escrito este artigo há uns anos: ter-me-ia dado uma grande ajuda.
    🙂

    Luís Azevedo Rodrigues

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