Em que idioma devo publicar?

Quem já leu o livro “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, escrito pelo grande Lima Barreto, sabe que discussões sobre a valorização do nosso idioma nacional são bem antigas. O senador Aldo Rebelo, o mesmo que quer relaxar o Código Florestal, trouxe o debate à tona novamente com seu projeto de lei (nº 1676, de 1999), que visava barrar “à força da penada” a influência estrangeira sobre nossa língua; felizmente o projeto está na geladeira há anos. Esse debate saiu da esfera política e invadiu o meio acadêmico, conforme a ciência brasileira foi aos poucos se integrando ao cenário internacional. Será que a influência de idiomas estrangeiros é realmente uma ameaça a um idioma qualquer? Que fatores devem pesar na escolha do idioma de uma publicação científica? Por que alguns pesquisadores só querem escrever em português? Aqui proponho uma reflexão sobre essas três questões.

Primeiro, convém analisar esse problema de um ponto-de-vista histórico. No Ocidente, desde a Antigüidade, cada época teve uma língua franca; ou seja, uma língua que era usada por vários povos, incluindo falantes nativos e não-nativos. Geralmente a língua franca servia ao comércio, à diplomacia e a outras atividades. Cada língua franca sempre se impôs e difundiu naturalmente graças ao domínio econômico e militar que diferentes povos exerceram. Na Antigüidade, o sânscrito e o grego se espalharam pelo mundo, depois foi a vez do latim, séculos depois foi do francês (que não o substituiu totalmente) e, a partir do século XIX, do inglês. Este último persiste até hoje, já que a hegemonia inglesa foi substituída pela americana no mundo contemporâneo. O espanhol e o português também foram idiomas de grande alcance mundial, porém a relevância do primeiro suplanta em muito a do segundo no mundo atual.

A existência de uma língua franca facilitou muito o intercâmbio social, econômico e cultural entre os povos e, portanto, fica claro o aspecto positivo do domínio lingüístico. Além disso, experimentos com línguas francas artificiais, como o esperanto, mostraram que uma língua artificial não consegue se estabelecer tão bem quanto uma natural, porque não tem falantes nativos e, portanto, não tem vida própria. Também devemos lembrar que nenhum idioma ficou livre de influências durante sua existência e que todos os idiomas atuais vieram de algum outro ancestral, além de terem se misturado a vários idiomas em diferentes épocas. E a inclusão de estrangeirismos (palavras emprestadas, como por exemplo ‘abajur’) é uma das principais formas de enriquecimento do vocabulário de uma língua. Não existe lógica no conceito de idioma puro ou em querer manter o idioma nacional protegido autoritariamente por lei. Na verdade, o nacionalismo lingüístico é um dos principais sintomas de um governo com pretensões autocráticas. O nosso português brasileiro tem origens que remontam diretamente ao galego, e indiretamente ao latim e ao sânscrito, tendo recebido contribuições de muitos outros idiomas e dialetos europeus e, posteriormente, sul-americanos e africanos. Desta maneira, podemos considerar como uma impostura intelectual a argumentação daqueles que acham necessário defender o idioma nacional. Defender do que? Da sua própria evolução natural? Mas, voltando ao mundo científico, como essa questão tem aparecido na publicação científica?

Antes de mais nada, é importante ressaltar que a ciência sempre foi uma atividade internacional por natureza. É crucial para um cientista relatar suas idéias a seus pares. Nenhum cientista sério (salvo raríssimas exceções) pensa em guardar suas descobertas para si mesmo, sem ter a curiosidade de saber pelo menos o que pensa um dos seus colegas. Pesquisamos para satisfazer nossa curiosidade científica e para isso precisamos expor nossas interpretações às críticas alheias. Desta forma, podemos contribuir para o avanço do conhecimento básico ou para a resolução de problemas práticos. Só que colegas interessados nos mesmos assuntos não estão apenas no nosso país, mas espalhados pelo mundo. Portanto, sempre foi comum divulgar descobertas científicas em fóruns internacionais. Desde as praças da Antigüidade até os congressos que freqüentamos atualmente a comunicação oral foi importante. Todavia, a comunicação escrita tem um papel-chave há séculos, pois permite que os trabalhos se tornem documentos com uma linguagem mais concisa e objetiva e, principalmente, que podem ser consultados na ausência do autor por várias gerações. A língua franca de cada época sempre foi a preferida para a elaboração desses documentos, porque obviamente permitia transmitir idéias para um número bem maior de pessoas. Considerando que o inglês é a ‘bola da vez’, porque deveríamos publicar resultados inéditos apenas no nosso idioma nacional? Por que deveríamos trancafiar o conhecimento novo que geramos em um baú lingüístico esquecido no porão da irrelevância ufanista? Não há razão alguma para isso.

Muitos pesquisadores, provavelmente, já passaram pela terrível experiência de saber que uma informação importante está contida em um artigo escrito em outro idioma. Não é frustrante saber que aqueles loucos símbolos escondem um segredo que você tanto anseia por saber? A solução às vezes pode ser pagar um tradutor, o que não é viável por causa dos custos. E deve-se considerar que o volume de trabalhos publicados mensalmente no mundo é enorme, e que só sabemos se um trabalho é realmente bom depois que o lemos na íntegra, já que o título e o resumo servem apenas para sabermos se ele pode nos interessar.

Por que então alguns cientistas lutam contra a existência de um idioma universal para a comunicação? Não é mais razoável ter que aprender apenas um idioma, do que algumas dezenas dentre os milhares que existem pelo mundo, ou ainda gastar todo seu dinheiro com traduções? Será que essa resistência em aceitar o inglês não esconde uma acomodação intelectual ou mesmo um ufanismo infantil? Ou, pior ainda, será que o motivo de um cientista não querer publicar em inglês em revistas internacionais (originárias de diversos países, inclusive o Brasil) não seria o medo de submeter o próprio trabalho a avaliadores de fora do seu círculo social e que, portanto, não se importam em destruir seus argumentos, se estes forem fracos?

Até o momento, falei apenas sobre as publicações técnicas, aquelas que comunicam resultados ou idéias de trabalhos originais. Por outro lado, minha opinião é diferente no que se refere a outras publicações feitas por cientistas. Como deveríamos proceder, por exemplo, com os trabalhos de conclusão de curso (monografias, dissertações e teses), os artigos de divulgação e os livros-texto?

No caso dos trabalhos de conclusão de curso, acho que o idioma não precisa ser necessariamente o português. O idioma deveria ser escolhido de acordo com a forma como se pretende publicar o trabalho depois. Em algumas áreas do conhecimento, como a Filosofia e a História, é comum esses trabalhos serem publicados na forma de livros, sejam voltados para especialistas ou leigos. Nestes casos, o mais aconselhável é pensar no público-alvo do livro: se for principalmente brasileiro, que se escreva em português; se for internacional, inglês.

Em outras áreas, especialmente nas ciências naturais como a Biologia e Física, a publicação final dos trabalhos é feita, quase que exclusivamente na forma de artigos técnicos voltados para os pares, mesmo quando se trata de trabalhos de graduação. É comum o estudante escrever o trabalho na forma de monografia ou tese em português, e depois ter que rescrevê-lo na forma de um ou mais artigos técnicos em inglês. Nesse processo é preciso enxugar o texto e traduzi-lo. Por que ter todo esse trabalho extra e desperdiçar tanto tempo, se sabemos que, nessas áreas, o que vale mesmo são apenas os artigos? Cabe lembrar que os artigos são mais valorizados, porque são mais objetivos e, principalmente, porque são mais bem elaborados, graças à revisão mais rigorosa feita por pares. No Brasil e em alguns outros países, é permitido ao aluno escolher sua própria banca de tese, podendo até mesmo incluir co-autores dos trabalhos (como o próprio orientador), de forma que a imparcialidade desses comitês muitas vezes fica comprometida. O resultado são muitas teses fracas, mal-escritas e irrelevantes. Mas essa é uma outra história, muito bem abordada no livro “Ciência: da Filosofia à Publicação” do Prof. Gilson Volpato.

As últimas categorias de publicações que eu gostaria de abordar são os artigos de divulgação científica e os livros-texto. No caso da divulgação científica, o objetivo não é apresentar à comunidade científica um conhecimento novo, mas sim contar ao público leigo algo sobre o conhecimento já estabelecido. As novidades científicas devem permanecer apenas no meio acadêmico, enquanto não são testadas e corrigidas várias vezes, para que não se criem confusões desnecessárias entre os leigos, como no caso da divulgação irresponsável de dietas ou terapias milagrosas. Portanto, é melhor uma publicação de divulgação para o público geral ser redigida no idioma nacional, para que mais pessoas no país tenham acesso ao conhecimento.

No caso dos livros-texto, é preciso considerar outros aspectos. Muitos alunos entram nos cursos de graduação sem dominar o inglês e aí se deparam com a necessidade imediata de ler livros-texto estrangeiros fundamentais. No caso dos estudantes que pretendem seguir outras carreiras que não a de cientista, seria interessante ter livros-texto escritos em português, fossem originais ou traduzidos. Mas ressalto que os aspirantes a cientista devem ser estimulados a dominar o inglês, especialmente o escrito, desde o começo da carreira. No mundo atual, a leitura em inglês é uma habilidade-chave para um cientista que pretende fazer trabalhos minimamente relevantes.

Em resumo, antes de começar a trabalhar em um artigo, pergunte-se: por que estou escrevendo este texto e para quem? Isso vai tornar mais claro para você o formato e o idioma a serem usados. Espero tê-lo convencido da importância de publicar na língua franca do seu tempo, seja ela qual for. É crucial deixar de lado questões passionais e políticas, especialmente a insegurança, o nacionalismo e a xenofobia, e pensar sempre no que faz mais sentido. Por fim, gostaria de enfatizar que integrarmos nossa ciência nacional à ciência mundial é uma das melhores formas de promovermos seu desenvolvimento e assim trazermos benefícios à nossa sociedade.

* Publicado originalmente em 2009.

Veja a distância de vocabulário entre os idiomas da Europa, incluindo o português! Não existem idiomas puros: uns dão origem aos outros e muitos se misturam.

lexicaldistanceielangs

 

Fonte.

Anúncios

8 opiniões sobre “Em que idioma devo publicar?

  1. Pingback: Como revisar um artigo para uma revista | Sobrevivendo na Ciência

  2. Pingback: Como escrever um artigo científico | Sobrevivendo na Ciência

  3. Pingback: O que é uma tese? | Sobrevivendo na Ciência

  4. Concordo com quase tudo, mas…
    Eu acredito que faz sentido sim escrever dissertações de mestrado e teses de doutorado em português, porque quem vai ler elas provavelmente serão alun@s que estão se iniciando naquele assunto. Frequentemente graduand@s que não têm domínio da língua inglesa. Se escrevermos a dissertação / tese em inglês, ela não terá qualquer utilidade além de ser uma prévia pro artigo e de nos dar o título. Escrita em português, ela pode ser muito útil para alguém que queira se iniciar em um assunto de interesse.
    Foi assim que eu pensei ao escrever a minha dissertação de mestrado… Eu já tinha ela escrita em inglês, mas traduzi para o português, e incluí uma revisão bibliográfica maior, justamente para facilitar a vida de quem queira iniciar seus estudos da área.
    (Eu ainda pretendo fazer outra publicações com este mesmo objetivo, mas enquanto não tenho tempo para tal…)
    🙂
    —–
    —–

    • Oi Pavel! Valeu pelo feedback. Pois é, essa questão do idioma das teses é complicada. Por um lado, concordo contigo, já que muitos alunos usam teses como se fossem livros-texto, ou seja, para aprender sobre assuntos de interesse. Mas, por outro lado, essa não é a função primária de uma tese. Uma tese serve especialmente como um documento que comprova que o pós-graduando foi capaz de desenvolver o trabalho de pesquisa exigido para ganhar o título de mestre ou doutor. Além disso, como o rigor da maioria das bancas é bem baixo, as teses em geral saem cheias de erros e imprecisões, que só são corrigidos depois, na publicação (seja na forma de livros ou artigos), já que os editores e revisores de revistas não têm dó de criticar o que for necessário. Então é perigos isso de os alunos iniciantes, especialmente os de graduação, usarem teses para aprender conhecimentos básicos ou avançados. O que deveríamos fazer é escrever (ou traduzir) mais livros-texto em português para ajudar na formação dos alunos. Os conhecimentos avançados deveriam ser aprendidos em artigos e livros técnicos (aqueles no formato de coletânea de artigos). Um abraço!

  5. Pingback: O que é o plágio científico? | Sobrevivendo na Ciência

  6. Pingback: Vale a pena escrever a minha tese no formato clássico de dissertação? | Sobrevivendo na Ciência

  7. Pingback: Um artigo publicado não é a palavra final em um debate | Sobrevivendo na Ciência

Os comentários estão desativados.