Em que idioma devo publicar?

Quem já leu o livro “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, escrito pelo grande Lima Barreto, sabe que discussões sobre a defesa do nosso idioma nacional são bem antigas.

“A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria, tenho mátria
E quero frátria”

Caetano Veloso

Essa suposta defesa frequentemente aparece nos discursos inflamados de nacionalistas ou ufanistas. Ou até mesmo em discussões superficiais nas redes sociais entre vítimas do Efeito Dunning-Kruger.

Um clássico exemplo são histórias sobre a etimologia de palavras como aluno. Reza a lenda que, na raiz, aluno significaria “sem luz”. Portanto, esse termo seria pejorativo, como repetido por muita gente. Mas basta pesquisar um pouco para descobrir que aluno vem de alumnus, uma palavra que tem sua raiz em alere: do latim, amamentar. Ou seja, um aluno é como um lactente: uma pessoa que é alimentada intelectualmente por outra mais velha. Há várias histórias similares por aí, envolvendo palavras como performance ou deletar.

O pior é que há ainda equívocos mais sérios. Um projeto de lei (nº 1676, de 1999), na geladeira há anos, visa barrar “à força da penada” a influência estrangeira sobre o nosso idioma. Infelizmente, esse debate saiu da esfera política e invadiu o meio acadêmico, conforme a ciência brasileira foi aos poucos se integrando ao cenário internacional.

Será que a influência de idiomas estrangeiros é realmente uma ameaça a um idioma? Quais fatores devem pesar na escolha do idioma de uma publicação científica? Aqui proponho uma reflexão sobre essas e outras questões.

Cada época teve uma lingua franca

Vamos começar analisando a questão dos idiomas por uma perspectiva histórica. No Ocidente e no Oriente, desde a Antigüidade, cada época teve uma lingua franca. Ou seja, um idioma geral usado por vários povos, incluindo falantes nativos e não-nativos.

Aqui no Brasil e alguns países vizinhos, no período colonial, tivemos uma lingua franca regional, o nheengatu. Ela era usada por povos indígenas e colonizadores. Na verdade, ela ainda vive em palavras como toró. E continua sendo falada em algumas comunidades pequenas e isoladas, por bem menos gente. Aliás, vale lembrar que, apesar de termos apenas dois idiomas oficiais (português e libras), falamos quase 300 idiomas no Brasil.

Uma lingua franca costuma servir principalmente ao comércio e à diplomacia, sendo que algumas se tornam idiomas eruditos usados na ciência, como o latim, ou na religião, como o sânscrito. Cada lingua franca sempre se impôs e difundiu naturalmente graças ao domínio econômico e militar que diferentes povos exerceram.

Na Antigüidade, o sânscrito se espalhou pelo Oriente, enquanto o grego contagiou o Ocidente. Depois foi a vez do latim e, séculos depois, do francês (que não o substituiu totalmente) e, a partir do século XIX, do inglês. Este último persiste até hoje, já que a hegemonia inglesa foi substituída pela americana no mundo contemporâneo. O espanhol e o português também já foram idiomas de grande alcance mundial na época das grandes navegações, porém atualmente a relevância do primeiro suplanta em muito a do segundo.

O ponto é que a existência de uma lingua franca facilita muito o intercâmbio cultural entre os povos. Dessa maneira, fica claro o aspecto positivo de vários povos compartilharem ao menos um idioma geral. Isso ajuda a integrar a nossa Torre de Babel.

Contudo, muita gente se incomoda com o fato de uma lingua franca geralmente ser imposta por um povo colonizador. Não seria melhor então criarmos uma lingua franca consensual? Bom, experimentos com idiomas artificiais, como o esperanto, mostraram que uma criação acadêmica não consegue se estabelecer tão bem quanto um idioma natural. Isso porque não tem falantes nativos e, portanto, não tem vida própria.

Idiomas naturais têm vida própria

A vida de um idioma, incluindo seu nascimento e expansão, é um processo orgânico. No fundo, muito similar à origem de uma espécie de ser vivo. E, assim como um ser vivo, nenhum idioma fica livre de influência externa durante sua existência. Todos os idiomas atuais vieram de algum idioma ancestral, além de terem se misturado a vários outros em diferentes épocas, com trocas verticais e horizontais.

A inclusão de estrangeirismos (palavras emprestadas, como abajur) é uma das principais formas de enriquecimento do vocabulário de um idioma. Portanto, não há lógica no conceito de idioma puro. Tampouco faz sentido querer manter o idioma nacional protegido autoritariamente por lei.

O nosso português brasileiro tem origens que remontam diretamente ao galego e indiretamente ao latim e ao sânscrito. Isso, além de ter recebido contribuições de muitos outros idiomas e dialetos europeus, principalmente o francês e o inglês. Não poderíamos deixar de lembrar também da importantíssima contribuição de idiomas nativos e africanos ao nosso léxico, ritmo e pronúncia.

Desta maneira, podemos considerar como uma impostura intelectual a argumentação daqueles que acham necessário defender o idioma nacional. Defender do que? De sua própria evolução natural?

Voltando ao mundo científico, como essa questão tem aparecido na publicação científica?

A ciência é um grande quebra-cabeças internacional

Antes de mais nada, é importante ressaltar que a ciência sempre foi uma atividade internacional por natureza. É crucial para um cientista reportar suas idéias a seus pares e, assim, ajudar a montar grandes quebra-cabeças. Nenhum cientista sério pensa em guardar suas descobertas para si mesmo, sem ter a curiosidade de saber pelo menos o que pensa um dos seus colegas. Mais importante ainda, um conhecimento só se torna científico de verdade após validação pelos pares.

Por que obter apenas validação nacional, se os colegas interessados nos mesmos assuntos não estão apenas no nosso país, mas espalhados pelo mundo? Portanto, sempre foi comum divulgar descobertas científicas em fóruns internacionais. Desde as praças de comércio da Antigüidade até os congressos que freqüentamos atualmente, passando pelas redes sociais em tempos de pandemia, a comunicação sempre foi crucial.

A comunicação escrita tem um papel-chave há séculos, pois permite que os trabalhos se tornem documentos com uma linguagem mais concisa e objetiva. E, principalmente, documentos que podem ser consultados na ausência do autor por várias gerações. A lingua franca de cada época sempre foi a preferida para a redação desses documentos, porque obviamente permitia transmitir idéias para um público bem maior e mais diverso.

Muitos pesquisadores já passaram pela terrível experiência de saber que uma informação importante está contida em um artigo escrito em outro idioma. Não é frustrante saber que aqueles indecifráveis símbolos escondem um segredo que você tanto anseia por saber?

Muita gente tem medo de crítica

Por que então alguns cientistas lutam contra a existência de um idioma universal para a comunicação?

Não é mais razoável ter que aprender apenas um idioma, do que algumas dezenas dentre os milhares que existem pelo mundo, ou ainda gastar todo seu dinheiro com traduções? Será que essa resistência em aceitar o inglês não esconde uma acomodação intelectual ou mesmo um ufanismo infantil?

Ou, pior ainda, será que o motivo de um cientista não querer publicar em inglês em revistas internacionais (originárias de diversos países, inclusive o Brasil) não seria o medo. Sim, medo de submeter o próprio trabalho a avaliadores de fora do seu círculo social e que, portanto, não se importam em destruir seus argumentos fracos.

Uma lingua franca também tem um lado sombrio

Vale ressaltar que a resistência de alguns cientistas à lingua franca do seu tempo não tem a ver com insegurança. Às vezes é uma questão política.

Como tudo na vida, uma lingua franca também tem uma dualidade yin-yang. Comentei lá no começo deste post que uma uma lingua franca geralmente surge por imposição de um povo colonizador.

Logo, sermos todos obrigados a nos comunicar na lingua franca da nossa época reflete uma supremacia cultural. Isso leva à desigualdade, preconceito, competição desleal em nível internacional e vários outros problemas, como comentado neste instigante artigo.

Cada tipo de publicação pede um idioma diferente

Indo além das questões discutidas até aqui, é importante termos consciência de que todo texto tem um público-alvo. Portanto, é fundamental nos comunicarmos no mesmo idioma que esse público. Como deveríamos proceder, por exemplo, com os trabalhos de conclusão de curso (TCCs, englobando monografias, dissertações e teses), os artigos de divulgação e os livros-texto?

No caso dos trabalhos de conclusão de curso, acho que o idioma pode ser escolhido de acordo com a forma como a pessoa pretende publicar o trabalho depois. Em algumas áreas do conhecimento, como a Filosofia e a História, é comum esses trabalhos serem publicados na forma de livros, sejam voltados para especialistas ou para os leigos. Nesses casos, o mais aconselhável é pensar no público-alvo do livro: se for principalmente brasileiro, que se escreva em português; se for internacional, inglês.

Em outras áreas, especialmente nas ciências naturais como a Biologia e Física, os TCCs, no final, acabam sendo convertidos artigos técnicos voltados para os pares, mesmo quando se trata de trabalhos de graduação. Nesse processo é preciso enxugar o texto e traduzi-lo. Por que ter todo esse trabalho extra e desperdiçar tanto tempo, se sabemos que, nessas áreas, o que vale mesmo são apenas os artigos? Faz mais sentido escrever o TCC direto na forma de artigo em inglês, incluindo um prólogo e um epílogo em português.

No caso da divulgação científica, o objetivo não é apresentar à comunidade científica um conhecimento novo, mas sim contar ao público leigo uma história sobre o conhecimento já estabelecido. As novidades científicas devem permanecer apenas no meio acadêmico, enquanto não são testadas e re-testadas várias vezes. Depois que o conhecido fica mais sólido e seguro, é hora de compartilhá-lo com a sociedade no idioma nacional.

No caso dos livros-texto, é preciso considerar outros aspectos. Muitos alunos, especialmente os mais pobres e marginalizados, entram nos cursos de graduação sem dominar o inglês e aí se deparam com a necessidade imediata de ler livros-texto estrangeiros. Assim, é importante que produzamos mais livros-texto originais em português e libras, permitindo uma comunicação nos nossos idiomas oficiais, a partir da nossa perspectiva local.

Contudo, ressalto que os aspiras que sonham com uma carreira acadêmica devem ser estimulados a dominar o inglês, especialmente escrito, desde o começo da carreira.

Conclusão

Em síntese, antes de começar a trabalhar em um artigo, pergunte-se: por que estou escrevendo este texto e para quem? Isso vai tornar mais claro para você o formato e idioma a serem usados.

Espero ter te convencido da importância de publicar na lingua franca do seu tempo, seja ela qual for. É crucial deixar de lado questões passionais e políticas, especialmente a insegurança, o nacionalismo e a xenofobia, e pensar sempre no que faz mais sentido.

Contudo, a comunicação científica é um complexo que envolve vários meios e públicos. Então pense com cuidado sobre esses fatores e escolha o idioma mais adequado em cada caso.

Bônus

Veja um lindo grafo com a distância de vocabulário entre os idiomas da Europa, incluindo o português. Não existem idioma puros: uns dão origem aos outros e se misturam entre si o tempo todo. Clique na imagem para ver o grafo em tamanho grande junto com o texto explicativo.

* Publicado originalmente em 2009 e atualizado constantemente.

(Fonte da imagem destacada)

13 respostas para “Em que idioma devo publicar?”

  1. Concordo com quase tudo, mas…
    Eu acredito que faz sentido sim escrever dissertações de mestrado e teses de doutorado em português, porque quem vai ler elas provavelmente serão alun@s que estão se iniciando naquele assunto. Frequentemente graduand@s que não têm domínio da língua inglesa. Se escrevermos a dissertação / tese em inglês, ela não terá qualquer utilidade além de ser uma prévia pro artigo e de nos dar o título. Escrita em português, ela pode ser muito útil para alguém que queira se iniciar em um assunto de interesse.
    Foi assim que eu pensei ao escrever a minha dissertação de mestrado… Eu já tinha ela escrita em inglês, mas traduzi para o português, e incluí uma revisão bibliográfica maior, justamente para facilitar a vida de quem queira iniciar seus estudos da área.
    (Eu ainda pretendo fazer outra publicações com este mesmo objetivo, mas enquanto não tenho tempo para tal…)
    🙂
    —–
    —–

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    1. Oi Pavel! Valeu pelo feedback. Pois é, essa questão do idioma das teses é complicada. Por um lado, concordo contigo, já que muitos alunos usam teses como se fossem livros-texto, ou seja, para aprender sobre assuntos de interesse. Mas, por outro lado, essa não é a função primária de uma tese. Uma tese serve especialmente como um documento que comprova que o pós-graduando foi capaz de desenvolver o trabalho de pesquisa exigido para ganhar o título de mestre ou doutor. Além disso, como o rigor da maioria das bancas é bem baixo, as teses em geral saem cheias de erros e imprecisões, que só são corrigidos depois, na publicação (seja na forma de livros ou artigos), já que os editores e revisores de revistas não têm dó de criticar o que for necessário. Então é perigos isso de os alunos iniciantes, especialmente os de graduação, usarem teses para aprender conhecimentos básicos ou avançados. O que deveríamos fazer é escrever (ou traduzir) mais livros-texto em português para ajudar na formação dos alunos. Os conhecimentos avançados deveriam ser aprendidos em artigos e livros técnicos (aqueles no formato de coletânea de artigos). Um abraço!

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