Como fazer figuras para artigos científicos

Uma imagem vale mais do que mil palavras. Isso é especialmente verdadeiro no mundo da redação científica, onde um bom poder de síntese faz toda diferença. Vejamos neste guia como fazer figuras mais eficientes.

Muitas das idéias centrais que queremos passar em um artigo podem ser expressas de maneira mais eficiente através de ilustrações do que como textos ou tabelas. Por isso, é fundamental elaborar boas figuras.

“Words are very unnecessary, they can only do harm”

Depeche Mode

“Mas, Marco, o que é uma boa figura?”

Princípio deste guia: uma boa figura deve funcionar como uma imagem direta budista. Ou seja, ela deve fazer com o que leitor entenda imediatamente uma ideia complexa, muito mais difícil de explicar através de texto.

Aqui comento as principais perguntas que você deve responder a si mesmo antes de fazer as figuras do seu artigo.

1. Quais são os elementos principais do meu artigo?

Refiro-me especialmente aos resultados principais que sustentam as suas conclusões, dando solidez à mensagem central. Eles são os candidatos primários a se tornarem figuras.

Além deles, pode ser interessante também incluir figuras relacionadas aos seus métodos. Por exemplo, um mapa da região onde ficam suas áreas de estudo (se você tiver apenas uma área de estudo, basta informar as coordenadas no texto). Ou um diagrama do seu desenho experimental, caso ele seja complexo.

Você pode também incluir uma foto do seu organismo de estudo, quando se tratar de um trabalho de descrição de uma nova espécie, por exemplo.

2. A mensagem não poderia ser passada de outra forma?

Figuras são muito caras para as revistas, especialmente no caso das que ainda têm edições impressas. Portanto, o número de figuras que você pode incluir em um manuscrito costuma ser limitado.

Se o resultado que você quer ilustrar for relativamente simples, tente explicá-lo em texto corrido. Se o resultado for extremamente complexo e tiver várias informações, talvez seja melhor apresentá-lo como uma tabela.

3. Quantas figuras devo incluir no artigo?

Inclua apenas o número de figuras necessário para contar a sua história; nem mais, nem menos. Não existe fórmula mágica.

Em geral, as revistas ficam felizes quando o artigo tem um número pequeno de figuras em relação ao número de laudas. Economize, mas não deixe de incluir alguma figura que seja muito importante.

4. Qual é o tipo de figura mais adequado?

Há vários tipos de figuras usadas em artigos científicos. Vamos dar uma olhada neles.

Fotos

São excelentes para apresentar ao público organismos e ambientes pouco conhecidos ou nunca antes vistos. Como o espaço dos artigos nas revistas é limitado, não vale a pena gastar o espaço de uma figura mostrando algo que todo mundo conhece. A não ser que você mostre esse objeto por uma nova perspectiva.

O melhor das fotos é que elas dão uma boa noção da aparência real do objeto de interesse. É importante ressaltar que tanto as fotos quanto as pranchas devem ser de alta qualidade. De que adianta uma foto de um organismo, na qual nem é possível reconhecê-lo? Se for usar microfotografias, faça um bom tratamento gráfico antes.

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Note como uma boa foto, como esta acima, de um caranguejo do gênero Aegla, funciona bem para apresentar um organismo novo para a ciência ou com o qual pouca gente tem contato direto. (Fonte: Figura 4 do artigo de Trombetta et al. 2019 Zootaxa)

Pranchas

São especialmente boas para ilustrar detalhes de organismos, ambientes e outros objetos de interesse. Pranchas, que podem ser desenhos e pinturas de vários tipos, ajudam a ressaltar estruturas específicas de interesse. 

Figura 1
A prancha acima mostra detalhes importantes sobre a morfologia dos caranguejos Aegla, que são úteis para análises morfométricas relacionadas a seleção sexual. Seria bem mais difícil explicar essas medidas em uma foto. (Fonte: Figura 1 do artigo de Palaoro et al. 2016, Anim.Behav.)

Esquemas

São excelentes para explicar processos e linhas de raciocínio. Eles também servem para mostrar a relação entre diversas variáveis estudadas, no caso de fenômenos complexos. Dois tipos de esquema muito usados na ciência são os fluxogramas (caixas e setas) e os diagramas de Venn (elipses sobrepostas, representando conjuntos e interseções). Mapas mentais são ótimos para explicar linhas de raciocínio e relações entre múltiplas variáveis.

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O esquema acima é um tipo de fluxograma conhecido como diagrama de caminhos, muito usado como ilustração de análises de caminhos e outros tipos de modelo de equação estrutural. Em esquemas assim é possível ver quais variáveis foram analisadas e como elas se relacionam entre si direta e indiretamente. (Fonte: Figura 2 do artigo de Gianinni et al. 2015 PLoS One)

Gráficos

São ótimos para explicar a relação entre duas ou três variáveis. Exemplo clássicos são os diagramas de dispersão e os boxplots, figurinhas fáceis na ciência. Mas há vários outros tipos de gráficos, que vão dos histogramas aos mapas.

Recomenda-se usar o formato mais sintético possível. Pense que tudo o que você inclui em um gráfico chama a atenção. Portanto, não confunda a mente do leitor com linhas de grade ou quadros desnecessários, por exemplo.

Tampouco faça um gráfico colorido, se puder passar a mesma idéia em tons de cinza. Da mesma forma, prefira o 2D ao 3D. Para os títulos de eixos, legendas e demais textos curtos usados em gráficos, use fontes grandes e não-serifadas.

Quanto às minúcias de formatação, como por exemplo a posição das legendas internas ou o tipo de marcas nos eixos, consulte as instruções da revista para a qual vai submeter seu artigo e siga-as à risca.

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Acima vemos um diagrama de dispersão, um dos tipos clássicos de gráficos usados em artigos científicos. É o tipo perfeito de figura para mostrar a relação entre duas variáveis quantitativas. (Fonte: Figura 3 do artigo de Leal & Peixoto 2016 Biol.Rev.)

5. Como faço painéis de figuras?

Muitas vezes, alguns resultados estão fortemente relacionados entre si no seu trabalho, ajudando a contar um mesmo capítulo da sua história. Nesse caso é interessante apresentá-los juntos. Isso também pode ser útil para economizar no número de figuras e ficar dentro do limite estabelecido pela revista.

A solução para isso são os chamados painéis: grupos de figuras diagramadas juntas e identificadas por letras (A, B, C etc.). É possível fazer painéis em vários programas, não sendo necessário apelar para programas profissionais de editoração. É claro que um painel diagramado e melhorado no Photoshop ou Gimp pode atingir uma qualidade muito maior. Contudo, há alternativas bem mais simples e baratas hoje em dia.

Por exemplo, você pode fazer painéis no MS Powerpoint e convertê-los em figuras TIF de alta resolução, como explicado nas instruções da revista PLoS One. Outra saída ainda mais simples, caso você esteja produzindo os seus gráficos no R ou similar, é fazer os painéis automaticamente.

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Um painel de figuras, como o mostrado acima, ajuda muito a transmitir uma mensagem complexa composta por diferentes partes. (Fonte: Figura 2 de Heer et al. 2015 J.Mamm.)

6. O que significa “independência da figura”?

Simples. A figura e a legenda, juntas, devem ser independentes do corpo do texto. Ou seja, o leitor deve ser capaz de entender a sua mensagem sem ter que recorrer ao texto principal do artigo para desvendar o significado da figura.

Isso é muito importante. Portanto, faça testes com os seus colegas, antes de incluir uma figura em um artigo. Apresente o binômio figura+legenda a uma pessoa que não tenha relação com o seu artigo e pergunte-lhe se o entendeu. Se a pessoa não entender nada ou tiver dificuldades, a culpa é sua. Refaça a figura, a legenda ou ambas, até que juntas elas se transformem em uma imagem direta.

7. O que devo escrever na legenda da figura?

Muitos cometem o erro de narrar em detalhes a figura na legenda. Não é para isso que a legenda serve! A figura e seus elementos (títulos, rótulos, legendas internas etc.) devem ser claros o suficiente para que o leitor entenda de quais variáveis se está falando e qual é a relação entre elas.

Uma boa legenda, por sua vez, serve principalmente para ajudar o leitor a entender o resultado, enfatizando a “moral da história”. Ela deve ser bem sucinta e contar ao leitor o significado biológico do resultado. Ela pode também dar algumas explicações adicionais sobre os elementos, no caso de figuras muito complexas. Mas evite fazer figuras complexas demais.

Entretanto, se o seu objetivo for outro e você quiser facilitar a vida de pessoas com deficiência visual, hoje há tecnologias assistivas para descrição de imagens. Mas essas descrições são usadas em outros contextos, geralmente, na internet.

Leia um outro post específico sobre legendas.

8. Em qual formato eletrônico devo salvar o meu arquivo de imagem?

Depende da revista, então siga as normas. De qualquer forma, no caso de fotos e pranchas, a maioria prefere trabalhar com o formato TIF sem compressão ou com compressão LZW, que prejudica menos a imagem. No caso de de gráficos e esquemas feitos nos mais diferentes programas, muitas revistas preferem formatos vetoriais verdadeiros, como EPS e SVG, que preservam totalmente as características originais da figura.

O formato PNG também é interessante, especialmente para uso na internet e em slides. Isso porque, apesar de ele não manter toda a qualidade original, é vetorial e permite aumentar ou diminuir a figura sem perder resolução. Já o formato JPG, usado amplamente na Internet, comprime demais a figura e estraga sua qualidade, portanto evite-o. 

O fato é que, hoje em dia, quase não se trabalha mais com figuras originais em papel.  A maioria dos ilustradores científicos e artistas gráficos já migrou para os meios digitais.

9. Posso fazer uma figura colorida?

Só se isso for muito importante para passar a sua mensagem, porque a maioria das revistas cobra caro por figuras coloridas. Exceto no caso das revistas online, que não cobram pelas cores.

Além disso, tudo o que você coloca numa figura é interpretado consciente ou inconscientemente como informação, então cores podem se tornar poluição, ao invés de informação.

Contudo, cores podem ser interessantes, quanto ajudam a identificar os personagens da sua história.

10. Posso editar uma foto antes de publicá-la?

Sim, claro, desde que não adicione informações a ela. Você pode e deve, por exemplo, ajustar o brilho, o contraste, a saturação, a temperatura e a nitidez. Algumas revistas deixam você mexer também no enquadramento (e.g., para destacar o assunto e remover o excesso de fundo).

Entretanto, não faça montagens, como por exemplo botar um animal em um lugar onde ele não estava. Isso pode ser interpretado como fraude, dependendo do contexto.

11. Qual gráfico devo fazer?

Isso depende das variáveis que você mediu e das relações que você espera observar entre elas. Veja um post que explica como você deve orientar a escolha do tipo de gráfico a ser usado.

Recomendação final

Tenha bom senso e siga as normas da revista. Uma imagem vale mais do que mil palavras, mas apenas se for boa e ajudar a entender suas descobertas.

Leituras recomendadas

  1. Pacotão sobre figuras
  2. When writing, tell us your biological results!
  3. PLoS: Guidelines for Figure and Table Preparation
  4. Beyond Bar and Line Graphs: Time for a New Data Presentation Paradigm
  5. Plot Grouped Data: Box plot, Bar Plot and More

Para dar um up no seu game:

Veja um excelente tutorial do ggplot2, o melhor pacote do R para produzir figuras eficientes e lindas, que vão muito além do feijão-com-arroz.

* Publicado originalmente em 2011 e atualizado constantemente.

(Fonte da imagem destacada)

12 respostas para “Como fazer figuras para artigos científicos”

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