Como fazer figuras para artigos científicos

Uma imagem vale mais do que mil palavras. Isso é especialmente verdade no mundo da redação científica, onde um bom poder de síntese faz toda diferença. Vamos ver neste guia algumas dicas para fazer figuras mais eficientes.

Muitas das idéias centrais que queremos passar em um artigo podem ser expressas melhor como ilustrações do que como textos ou tabelas. Por isso, é fundamental saber elaborar bons gráficos, diagramas, desenhos e fotos para artigos científicos.

Aqui comento as principais perguntas que você deve responder a si mesmo antes de fazer as figuras do seu artigo.

1. Quais são os elementos principais do seu artigo?

Refiro-me especialmente aos resultados centrais que sustentam as suas conclusões, dando solidez à mensagem central. Eles são os candidatos primários a se tornarem figuras.

Além deles, pode ser interessante também incluir figuras relacionadas aos seus métodos. Por exemplo, um mapa da região onde ficam suas áreas de estudo (se você tiver apenas uma área de estudo, basta informar as coordenadas). Ou um diagrama do seu desenho experimental, caso ele seja complexo. Até mesmo uma foto do seu organismo de estudo, quando se tratar de um trabalho de descrição de uma nova espécie, por exemplo.

2. A mensagem não poderia ser passada de outra forma?

Figuras são muito caras para as revistas, especialmente para as que ainda têm edições impressas. Portanto, seja econômico.

Se o resultado que você quer ilustrar for relativamente simples, tente explicá-lo em texto corrido. Se o resultado for extremamente complexo e tiver várias informações, talvez seja melhor apresentá-lo como tabela.

3. Quantas figuras devo incluir no artigo?

Inclua apenas o número de figuras necessário para contar a sua história; nem mais, nem menos. Não existe fórmula mágica.

Em geral, as revistas ficam felizes quando o artigo tem um número pequeno de figuras em relação ao número de laudas. Economize, mas não deixe de incluir alguma figura que seja muito importante.

4. Qual é o formato mais adequado?

Há vários tipos de figuras usadas em artigos científicos, sendo que as principais são os gráficos, os diagramas, as pranchas e as fotos.

Pranchas e fotos são especialmente boas para ilustrar organismos e suas estruturas, sendo úteis em diferentes casos. As fotos dão uma boa noção da aparência real do organismo (e.g., um morcego filostomídeo), enquanto as pranchas (que podem ser desenhos de vários tipos) ajudam a ressaltar estruturas específicas de interesse (e.g., formato da folha nasal). É importante ressaltar que tanto as pranchas quanto as fotos devem ser de alta qualidade. De que adianta uma foto de um organismo, na qual nem é possível reconhecê-lo? Se for usar microfotografias, faça um bom tratamento gráfico antes.

Diagramas são excelentes para explicar processos e linhas de raciocínio. Eles também servem para mostrar a relação entre diversas variáveis estudadas, no caso de fenômenos complexos. Dois tipos de diagrama muito usados na ciência são os fluxogramas (caixas e setas) e os diagramas de Venn (elipses sobrepostas, representando conjuntos e interseções).

Gráficos são ótimos para explicar a relação entre duas ou três variáveis. O exemplo clássico são os diagramas de dispersão de pontos, usados para ilustrar testes de correlação e regressão. Outro formato popular são os box plots, usados para mostrar a relação entre uma variável categórica e outra contínua.

No caso dos gráficos, recomenda-se usar o formato mais sintético possível. Pense que tudo o que você bota num gráfico chama a atenção: portanto, não confunda a mente do leitor com linhas de grade ou quadros desnecessários. Nunca faça um gráfico colorido, se puder passar a mesma idéia em preto e branco. Da mesma forma, prefira o 2D ao 3D. Para os títulos de eixos, legendas e demais textos curtos usados em gráficos, use fontes grandes e bem legíveis.

Quanto às minúcias de formatação, como por exemplo a posição das legendas em um gráfico, consulte as instruções da revista para a qual vai submeter seu artigo e siga-as à risca.

5. Como faço painéis de figuras?

Muitas vezes, alguns resultados estão fortemente relacionados entre si no seu trabalho, então é interessante apresentá-los juntos. Isso também pode ser útil para economizar no número de figuras ou no espaço usado.

A solução para isso são os chamados painéis: grupos de figuras diagramadas juntas e identificadas por letras (A, B, C etc.).

É possível fazer painéis em vários programas, não sendo necessário apelar para programas profissionais de editoração. É claro que um painel diagramado e melhorado no Photoshop ou Gimp pode ficar excelente. Contudo, há alternativas mais simples hoje em dia.

Por exemplo, você pode fazer painéis no MS Powerpoint e convertê-los em figuras TIF de alta resolução, como explicado nas instruções da revista PLoS One.

Outra saída mais simples, com resultados excelentes, é fazer os painéis automaticamente, caso esteja produzindo seus gráficos no R.

6. O que significa “independência da figura”?

Simples. A figura e a legenda, juntas, devem ser independentes do corpo do texto. Ou seja, o leitor deve ser capaz de entender sua mensagem, sem ter que recorrer ao texto principal para desvendar o significado da figura.

Isso é muito importante. Portanto, faça testes com os seus colegas, antes de incluir uma figura em um artigo. Apresente o binômio figura+legenda a um colega e pergunte o que ele entendeu a partir delas. Se o seu colega não entender nada ou tiver dificuldades, a culpa é sua. Refaça a figura, a legenda ou ambas, até que passem uma mensagem clara e direta.

7. O que devo escrever na legenda da figura?

Muitos cometem o erro de descrever em detalhes a figura na legenda. Não é para isso que a legenda serve! Ela serve principalmente para ajudar o leitor a entender o resultado, enfatizando a “moral da história”.

A figura e seus elementos (títulos, rótulos etc.) deve ser clara o suficiente para que o leitor entenda de quais variáveis se está falando e qual é a relação entre elas. A legenda, por sua vez, deve ser bem sucinta e contar ao leitor o significado biológico do resultado. A legenda pode também dar algumas explicações adicionais sobre os elementos, no caso de figuras muito complexas.

Veja exemplos ao final deste artigo e leia um outro artigo específico sobre legendas.

8. Em qual formato eletrônico devo salvar o meu arquivo de imagem?

Depende da revista. Mas a maioria prefere trabalhar com TIF sem compressão ou com compressão LZW, que prejudica menos a imagem.

O formato JPG, usado amplamente na Internet, comprime demais a figura e diminui demais sua qualidade. O fato é que, hoje em dia, quase não se trabalha mais com figuras originais em papel. Mesmo as fotos e pranchas feitas à mão têm sido digitalizadas na hora de publicar.

9. Posso fazer uma figura colorida?

Só se isso for extremamente essencial para passar a sua mensagem, porque a maioria das revistas cobra caro por figuras coloridas. Exceto no caso das revistas online, que não cobram pelas cores.

Além disso, tudo o que você coloca numa figura é interpretado consciente ou inconscientemente como informação, então cores podem se tornar poluição, ao invés de informação.

10. Posso editar uma foto antes de publicá-la?

Sim, claro, desde que não adicione informações a ela.

Você pode e deve, por exemplo, ajustar o brilho, o contraste, a saturação, a temperatura e a nitidez. Algumas revistas deixam você mexer também no enquadramento (e.g. para destacar o assunto e remover o excesso de “fundo”).

Mas não faça montagens, como por exemplo botar um animal num lugar onde ele não estava, pois isso pode ser interpretado como fraude, dependendo do contexto.

11. Que tipo de gráfico devo usar?

Via de regra, para representar relações entre variáveis contínuas, prefira diagramas de dispersão  (scatterplots), aquelas figuras típicas de análises de regressão e correlação.

No caso da variável X ser categórica, quando voce estiver apresentando dados de contagens sem replicação, poderá usar diagramas de colunas sem barras de erro ou desvio.

Quando houver réplicas dentro de cada categoria, você precisará apresentar informações sobre erro ou dispersão, então poderá escolher entre colunas com barras de erro ou desvio, boxplots ou diagramas de pontos.

Há uma enorme controvérsia sobre qual dessas três ultimas opções usar, sendo que cada cientista tem sua preferência nessa área. Veja uma interessante discussão sobre o tema.

Recomendação final

Tenha bom senso e siga as normas da revista. Uma imagem vale mais do que mil palavras, mas apenas se for boa e ajudar a entender suas descobertas.

Leituras recomendadas

* Publicado originalmente em 2011 e atualizado constantemente.

Exemplos de figuras:

Figura 1. Figura publicada em um artigo sobre redes de dispersão de sementes por morcegos na revista PLoS One em 2011. Ela contém exemplos de diagrama de dispersão, box-plot e painel de figuras. Note que as figuras são simples, sem elementos desnecessários (e.g., linhas internas e grades) e nem cores.

Legenda traduzida: Através de simulações de remoção de uma espécie de cada vez, observamos que espécies de (a) morcegos e (b) plantas que interagem com uma maior proporção de parceiros mutualistas são mais importantes para manter a estrutura da rede como um todo, já que sua remoção causou maiores diminuições do aninhamento. Além disso, (c) a remoção de espécies de morcegos consideradas frugívoras primárias causou maiores perdas de aninhamento na rede como um todo.

Figura 2. Figura publicada em um artigo sobre interações entre morcegos e plantas na revista Acta Chiropterologica em 2004. Ela é um bom exemplo de diagrama científico, no caso, um diagrama de caminhos (fluxograma que ilustra os resultados de uma análise de caminhos, que é um tipo de modelo de equação estrutural).

Legenda traduzida: Diagrama de caminhos apresentando os coeficientes de caminho para todas as variáveis preditoras, incluindo os coeficientes das duas variáveis residuais, Ux4 e Uy.

Hoje, com mais experiência, eu escreveria esta mesma legenda de uma forma diferente. Por exemplo: A reprodução dos morcegos Carollia perspicillata na área de estudo é influenciada por diferentes fatores diretos e indiretos, sendo que a temperatura do ambiente tem especial importância. Isso porque a temperatura influencia a produção e o consumo de frutos de Piper (Piperaceae), o principal alimento desses morcegos, além de ter também uma influência direta sobre sua reprodução.

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