A importância de um bom orientador

Tenho me espantado com a quantidade de estudantes de Biologia que começam a trabalhar em projetos científicos sem terem um orientador experiente na área de interesse ou mesmo sem qualquer tipo de orientação.

Muitos alunos estão trabalhando sem as devidas licenças de pesquisa (SISBIO, Fundação Florestal, Comissão de Ética etc.) e formam grupos paracientíficos de pesquisa amadora, nos quais reinventam a roda, fazem péssima ciência e adquirem vícios. São o que eu chamo de “alunos ferais“: aqueles que crescem sozinhos no mato, totalmente perdidos e sem alguém para educá-los, e que chegam a ser agressivos quando alguém tenta lhes dar broncas ou mesmo conselhos. Vale lembrar também que alguém que ainda não é formado biólogo não pode exercer a profissão (fazer pesquisa, dar aulas, prestar consultoria etc.) sem ter um orientador ou supervisor. Quero alertá-los sobre alguns sérios problemas envolvidos na “feralidade”, para o seu próprio bem.

Partindo do começo. Para planejar um trabalho cientifico relevante, primeiro é preciso escolher uma área de pesquisa (Ecologia, Evolução, Sistemática, Comportamento etc.) e se familiarizar com as teorias existentes nela, tanto as mais gerais, quanto as voltadas para um táxon específico. Somente dessa maneira você poderá detectar as lacunas de conhecimento que existem e propor um trabalho original para resolver alguma questão nova e interessante. Sem a ajuda de um bom orientador experiente na área, é praticamente impossível fazer isso direito, a menos que a pessoa seja um gênio autodidata (quantos o são?). Só “descrever por descrever” ou “comparar por comparar” não são justificativas aceitáveis para a realização de um projeto científico que realmente vá avançar o conhecimento e não chover no molhado. É muito difícil se tornar um bom cientista, sendo que este é um caminho para poucos e via de regra só se saem bem aqueles que contam com bons mentores.

Além disso, se você pesquisar animais, caso não aprenda o ofício com um orientador experiente no táxon, não receberá o treinamento prático necessário. Isso resultará nos seguintes problemas: (1) você não terá um rendimento adequado no campo ou no laboratório, provavelmente fazendo muito mais esforço (tempo e dinheiro) do que seria necessário, ou até mesmo não obtendo dados suficientes ou adequados para responder suas perguntas; (2) você acabará submetendo os animais a um estresse desnecessário, porque não vai manipulá-los da maneira correta; (3) você não saberá identificar os animais corretamente, pois isso é muito mais difícil do que parece e demanda boa experiência com o táxon; (4) se tiver que coletar animais para fazer uma coleção-testemunho, provavelmente não os fixará da maneira adequada, e o material acabará se deteriorando muito rápido; (5) se for lidar com animais que transmitem doenças, acabará fazendo os procedimentos de segurança da forma errada, pondo sua vida em risco (por exemplo, ao trabalhar com morcegos-vampiros infectados com a raiva).

Fora esses problemas, você tampouco terá acesso os contatos importantes que um bom orientador pode fornecer e, provavelmente, terá mais dificuldade em formar uma boa rede social que te ajude a se desenvolver como cientista. Colegas nos abrem muitas portas e nos ensinam muito.

Então como você pode encontrar um bom orientador? Converse com colegas mais experientes e que tenham competência reconhecida pela comunidade científica. Pergunte a eles quem entende do que e onde trabalha.  Fora isso, freqüente congressos científicos e procure conhecer seus pares. Faça também pesquisas na Plataforma Lattes do CNPq. No caso de orientadores que trabalham fora do Brasil, consulte redes sociais como LinkedInMendeleyAcademiaResearchGate e ResearcherID. Nessas plataformas você pode usar palavras-chave relacionadas aos assuntos que lhe interessam, de modo a descobrir quem trabalha com qual assunto, com qual táxon, em qual instituição e em qual cidade. Tenha em mente que é preciso avaliar dois lados do potencial orientador: o lado cientista e o lado formador de cientistas.

Com relação ao lado cientista do potencial orientador, o melhor mesmo é ler os trabalhos dele e ver o que  tem estudado, o que tem descoberto, que tipo de linha segue, como exatamente as pessoas citam seus trabalhos (usando como ponto de partida para os seus próprios trabalhos, elogiando, criticando ou apenas listando), e que tipo de reputação ele tem na comunidade. Caso você não tenha acesso a tantas informações, você pode avaliar o potencial orientador de duas formas indiretas, usando as redes sociais já mencionadas, além dos buscadores científicos Web of Science e Scopus: (1) veja se ele tem publicado artigos sobre o tema que lhe interessa e em quais revistas, e (2) veja quantas citações os artigos desse cientista têm recebido. Quanto melhor for a revista (considerando escopo, prestígio, circulação, acessibilidade e fator de impacto), provavelmente melhor deve ser o artigo; contudo, a relação entre  a qualidade da revista como um todo e de cada artigo individual não é perfeita. Por isso, em geral, é interessante olhar as citações recebidas por cada artigo em si. Contudo, lembre-se de que indiretas de qualidade, como índices cienciométricos, quebram um galho, mas não contam toda a história.

O lado formador de cientistas é bem mais difícil de ser avaliado. Você deve procurar um profissional que dedique atenção à formação acadêmica dos alunos, que dê autonomia para eles pensarem sozinhos e que fique feliz com o sucesso deles. Fuja daqueles que apenas botam alunos para fazer trabalho braçal, que orientam dezenas de pessoas ao mesmo tempo e só vêem cada uma delas uma vez por ano, ou que vivem podando os alunos mais brilhantes. Evite a todo custo aqueles que se levam a sério demais e se colocam num pedestal, pois geralmente eles não são tão bons quanto dizem, e a sua vaidade envenena todos ao redor. Um bom indicativo da qualidade de um formador de cientistas é a realização de reuniões periódicas com cada orientado, além de atividades coletivas, como reuniões do grupo de trabalho para discussões de artigos, apresentação de seminários e debates sobre projetos. Se possível, converse também com ex-orientados, a fim de sondar a qualidade do potencial orientador. Alunos que ainda estão em seu grupo não são fontes totalmente confiáveis, pois caso o profissional esteja do Lado Negro da Força, eles temem represálias.

Para terminar, pense que aprender a fazer ciência é mais importante do que mexer com o táxon que você acha fofo. Na falta de um bom orientador disponível que trabalhe com o táxon e o tema do seu interesse, é melhor sacrificar uma coisa ou outra, ou até mesmo as duas, e se concentrar em aprender os fundamentos da ciência com um pesquisador competente. Depois de dominar o feijão-com-arroz do método científico, você pode até voltar a buscar seus interesses específicos originais.

Sugestões de leitura:

* Publicado originalmente em 2007.

Quatro grandes mestres que influenciaram várias gerações! (rs)

quatro mestres

phd082012s Fonte: PhD Comics.   Fonte: Dent Cartoons.   Fonte: Pós-graduando.

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36 respostas para “A importância de um bom orientador”

  1. O mercado (exceto academico) valoriza os profissionais M.Sc. ou D.Sc!?

    1. Depende do país, da área e do cargo, não há um padrão geral. Por exemplo, universidades particulares, em sua maioria, discriminam doutores, porque eles custam mais caro. A indústria brasileira, no geral, não está nem aí para títulos acadêmicos, valorizando mais os mestrados profissionais (lato sensu).

  2. Uma sugestão para um tema/post (ou talvez só para enriquecer os comentários): frente a estes exemplos citados aqui (pessoas com bons orientadores, outras fazendo dissertação sozinha, etc.), como um jovem docente pode se tornar um bom orientador? Até onde auxiliar os discentes? Com o que se pode/deve colaborar? E os discentes com pouco rendimento/interesse?

    p.s.: as questões valem para todos os níveis de orientação.

    1. Obrigado pela sugestão. O blog é mais focado em alunos, mas já escrevi pensando em professores antes. Vou elaborar um post sobre o tema!

  3. Li em um post seu que é “permitido” imitar bons exemplos, você é um ótimo exemplo, precisa ser replicado. Conheci seu Blog hoje, anotei tantos conselhos e sugestões suas que espero colocar em prática e principalmente quero também conseguir inspirar aos alunos que cruzarem meu caminho. Sua escrita, não sei se é intencional, demonstra se tratar de uma experiência real de integração entre o talento técnico-científico e uma conduta social exemplar. O meio acadêmico é carente de pessoas com essas qualidades casadas. Formar alunos que agreguem esses talentos simultaneamente deve ser um troféu gratificante para o professor que instigou o afloramento dessas características. Parabéns!

  4. Oi Marco, acabei de conhecer seu blog e estou ‘devorando’ o conteúdo! Esse post em especial me fez pensar na minha própria trajetória na universidade. Como a Danielle, fui uma aluna de mestrado órfã de orientador – mas que por sorte ainda teve outros professores (em especial minha ex-orientadora de iniciação científica) que me ajudaram. Mas essa experiência foi tão desestimulante, e eu diria até traumática, que por cinco anos me recusei a voltar pra universidade. Hoje quase no fim do doutorado – agora com um bom orientador – percebo quanta diferença isso pode fazer na vida de um aluno.

    1. Oi Sabrina, que bom que no final você achou um orientador. Mais sortudos ainda são o que encontram não somente um orientador, mas um mentor na carreira.

      1. Nossa Sabrina me encontro na mesma situação que você passou, faz 1 ano e 9 meses que terminei o mestrado e ainda não engatei o doutorado por causa dessa mesma experiência traumática de “órfã de orientador”. Preferi parar e pensar com calma p/ a escolha do orientador de doutorado e talvez até mudar o foco da pesquisa realizada no mestrado. Penso que se esse blog do Marco tivesse existido no momento do final da graduação, tudo teria sido menos doloroso e não teria cometido tantos erros…

        1. A gente sobrevive Elizandra! E o que não me matou no mestrado me fortaleceu muito! Eu tirei muitas lições dessa fase. E após a pausa acadêmica, eu voltei muito mais consciente, segura e mandura do que eu realmente queria em termos de pesquisa. Mudei de área – da limnologia pra silvicultura urbana – e não me arrependo desta escolha. Hoje estou muito mais satisfeita e feliz (mesmo estressada com a fase final do doutorado, hehe). Espero que você consiga achar um bom orientador e seu rumo dentro da pós! Abçs

        2. Elizandra, conheço muitos na mesma situação. Meu conselho é o seguinte: se você tem uma paixão verdadeira pela ciência e quer fazer o doutorado não apenas para ter mais um título, mas para se formar como cientista, siga em frente. Procure outro grupo de pesquisa e outro orientador. Há uma variedade enorme de profissionais por aí, de péssimos a excelentes. Mesmo dentre os bons orientadores, que dedicam atenção aos alunos, há também uma grande diversidade de perfis profissionais. Pense também em tentar algo fora do Brasil, em algum grande centro de excelência no assunto do seu interesse, para desfazer essa má impressão. Basta a gente tomar contato com ciência de ponta, feita por profissionais top, para recobrarmos o ânimo. Boa sorte!

  5. Eu sou uma dessas alunas ferais, a vida toda fiz estágios nos quais os professores nem sabiam quando eu ia aos laboratórios… então “me fiz” bióloga e mestre praticamente sozinha, e sempre tive comigo o seguinte lema: quem não me ajuda a ir pra frente não tem direito de me dizer o que fazer quando algo não sai bom. Agora trabalho em um emprego técnico, o que me dá mais liberdade de pensar no que quero estudar, e posso ler com mais tranquilidade, para poder conseguir um bom orientador. Vou fazer outro mestrado, e quem sabe fazer a carreira de pesquisadora do jeito certo.

    1. Danielle, sei bem do que você está falando. Infelizmente, a maioria dos alunos fica largada nos laboratórios, não só no Brasil, mas também no Primeiro Mundo. Se por um lado há alunos arrogantes que acham que já nasceram prontos e não ouvem conselhos de ninguém, por outro há também orientadores aproveitadores, que usam alunos bem intencionados apenas como mão de obra barata, sem se preocupar com a sua formação. A união dessas duas forças malignas cria um terrível vórtice por onde escorrem quantidades colossais de tempo, energia e dinheiro público. Meu conselho para você é: se quer voltar à carreira acadêmica, não apenas para ganhar mais um título, mas sim para recuperar o tempo perdido na sua formação de cientista, gaste meses com uma escolha cuidadosa do orientador. Faça uma verdadeira investigação antropológica sobre as opções que tem em mente.

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