Como elaborar um projeto de pesquisa

Vamos começar pela máxima que norteia este texto: quanto mais você investir no planejamento do seu projeto, menos dor de cabeça terá depois, ao interpretar os resultados e publicar suas descobertas. Seguindo esse espírito, dou aqui algumas dicas para tornar mais suave o caminho da curiosidade à descoberta.

First things first. O sucesso de um projeto de pesquisa, deste o financiamento até a conclusão, com direito a publicação e aceitação pela comunidade, depende fundamentalmente do seu cuidado na elaboração. Claro, imprevistos sempre podem acontecer. Porém, quando você não faz um bom planejamento, os imprevistos se tornam a regra.

Por isso, resolvi elaborar este guia prático, a fim de orientar aspiras na hora de elaborarem seus projetos. Enfatizo, contudo, que este guia não visa à formação de alunos ferais. É essencial ter um bom orientador, que te ensine a profissão de cientista. Tendo isso em mente, seguem algumas recomendações.

O que você quer saber?

Um cientista realiza um projeto de pesquisa básica, acima de tudo, para matar sua curiosidade sobre como funciona uma parte da natureza. Logo, o mais importante é saber exatamente que pergunta você quer responder com o projeto. Todo o resto está ligado a essa curiosidade central, que é sua motivação.

Assim, jamais comece um projeto se não souber exatamente aonde quer chegar. Em raríssimos casos, é possível fazer descobertas interessantes sem ter uma pergunta a priori. Porém, isso é a exceção, não a regra. Sempre tenha uma boa pergunta para responder, independentemente de ter uma hipótese de trabalho ou não, senão você não tem um projeto.

A teoria e a prática

É fundamental que, nas ciências naturais como a Biologia e a Física, a área teórica esteja em comunhão com a empírica. A ciência empírica inclui experimentos e observações, tanto no campo quanto no laboratório. Isso significa que não tem sentido cientistas experimentais trabalharem sem se orientar pelas teorias da sua área. Por outro lado, também não tem sentido hipóteses e teorias serem elaborados a partir do éter ou não serem testadas na prática.

Por essa lógica, todo e qualquer trabalho científico deve estar baseado em um contexto teórico, que vai sendo sistematicamente confrontado com a realidade. Portanto, não almeje descrever só por descrever ou comparar só por comparar. Tampouco imagine que a falta de conhecimento sobre um táxon ou sua simpatia por ele são motivos suficientes para estudá-lo. Além disso, não correlacione todas as suas variáveis para ver se, por sorte, emergem alguns padrões, depois inventando explicações a posteriori para eles.

Além disso, em hipótese alguma delegue ao R ou a um software estatístico a tarefa de pensar sobre as relações entre os fatores considerados no seu estudo. Ao contrário, tente criar hipóteses fortes baseadas nas teorias atualmente aceitas na sua área.

Crie uma base forte

Para criar uma base teórica sólida dentro de uma das ciências naturais, comece escolhendo um tema de interesse e lendo os livros e revisões gerais relacionados.

Dê preferência às revisões mais recentes e publicadas nas revistas mais importantes. Leia depois os trabalhos teóricos e empíricos clássicos, principalmente os pioneiros e os de vanguarda. Por fim, mantenha-se atualizado sobre a literatura, lendo os resumos dos estudos de caso e analisando em detalhe apenas os trabalhos mais relevantes.

O que importa não é quantidade, mas sim a qualidade da leitura. Não leia apenas trabalhos sobre o seu modelo de estudo, mas também trabalhos sobre o tema geral do seu projeto. No caso de trabalhos com métodos complexos emprestados de outras ciências, leia também os artigos originais que propuseram essas métodos e os artigos principais que os usaram para outros fins.

Através da leitura e das conversas com seus colegas, descubra quais são as principais lacunas de conhecimento dentro desse tema, avalie quais delas parecem oferecer campos de trabalho mais promissores e veja qual delas lhe parece mais atraente e viável de preencher, considerando o tempo e os recursos disponíveis.

Defina o problema a ser resolvido

Tendo escolhido a lacuna a ser preenchida, ou seja, o tema do seu projeto, decida qual questão específica você gostaria de resolver dentro dele. Escolha uma só, não tente resolver um monte de coisas ao mesmo tempo. Elabore essa questão na forma de uma pergunta simples e objetiva, que possa de fato ser respondida dentro do tempo que você tem disponível.

Dê especial atenção à estrutura lógica da formulação do seu projeto, evite pensamentos circulares ou perguntas impossíveis de se responder objetivamente. Discuta com colegas mais experientes na mesma área sobre a relevância de sua pergunta e a forma como pretende abordá-la. Entre duas idéias, sempre prefira aquela que pode gerar uma contribuição mais significativa.

Use uma boa estrutura lógica

Agora você pode começar a escrever o seu projeto. Use a seguinte estrutura, que é muito produtiva, além de ser padrão: Introdução, Objetivo e Hipóteses, Justificativa, Métodos, Resultados Esperados, Cronograma, Orçamento e Referências.

Com relação à estrutura lógica do projeto, recomendo fortemente colocar suas idéias na forma de um diagrama, como um mapa mental. Assim fica muito mais fácil pensar sobre quais variáveis afetam quais, além de planejar quais etapas devem ser cumpridas primeiro, para que depois você passe para etapas mais avançadas. Muitas vezes, na primeira vez em que representamos a idéia de um projeto como um diagrama, notamos que algumas coisas simplesmente não fazem sentido, enquanto outras precisam de ajustes. Dessa maneira temos a oportunidade de reformulá-las a tempo.

Procure usar também a boa e velha estrutura do método hipotético-dedutivo, arrumando o esqueleto do seu projeto de acordo com perguntas, hipóteses e previsões.

Defina claramente a abordagem do seu projeto

Nas ciências naturais, há diferentes abordagens que você pode escolher para o seu projeto.

Um projeto empírico descritivo visa apresentar à humanidade as características de um fenômeno ou sistema de interesse no mundo natural.

Um projeto empírico hipotético-dedutivo visa testar hipóteses criadas a partir do conhecimento que já se tem sobre o objeto de interesse. Ele se baseia em investigar os mecanismos por detrás dos padrões observados.

Um projeto teórico visa formular ideias mais gerais sobre como o fenômeno funciona. Ele não envolve dados empíricos coletados para o próprio estudo em si, mas pode usar dados de estudos prévios em seu corpo de evidências.

Um projeto de síntese, por sua vez, visa, com base em todos os tipos de estudos mencionados anteriores, que visaram investigar o objeto de interesse, ligar os pontos entre dados e ideias. A intenção é tirar uma moral da história sobre algo já bem estudado.

Todos esses tipos de estudo são fundamentais em qualquer ciência natural, pois se retro-alimentam, ajudando a ciência a crescer. Eles representam estágios no desenvolvimento do conhecimento sobre um problema de interesse.

O importante é definir claramente que abordagem você dará ao seu estudo, e depois ser coerente com a sua escolha. Por exemplo, não dá para dizer que um estudo é puramente descritivo, mas depois apresentar um monte de testes de hipóteses descontextualizados, tirados do nada.

Introdução: de onde veio a idéia para o projeto e por que ela é relevante?

Esta seção serve para informar ao leitor qual é a área do conhecimento maior onde o seu trabalho se insere, qual problema ele aborda, qual pergunta específica ele se propõe a responder a respeito desse problema e por que responder essa pergunta é importante. Não fale demais, vomitando informações como em um livro-texto antiquado: vá direto ao ponto e construa uma narrativa envolvente.

O leitor não precisa saber o quanto você é erudito. Ele precisa entender de onde veio e qual é a relevância do seu problema de interesse. O texto deve seguir uma seqüência lógica que pareça ser a mais natural possível e que termine introduzindo sua pergunta, hipótese e predições. Vá do geral (problema) ao particular (objetivo).

Objetivos: por que realizar esse projeto?

Recomendo escrever esta seção junto com a introdução, no final dela. Mas alguns financiadores exigem que os objetivos e hipóteses venham separados da introdução; veja qual é o formato exigido no seu caso. Aqui você esclarece qual é o objetivo do seu trabalho, ou seja, o que você quer descobrir.

Você também apresenta nesta seção quais perguntas pretende responder, quais hipóteses pretende testar e o que espera observar. O objetivo é a razão de ser do seu trabalho, o problema que você pretende resolver. As perguntas são coisas que você precisa descobrir para alcançar seu objetivo maior. As hipóteses, por sua vez, são possíveis respostas para essas perguntas, ou seja, explicações que você considera aceitáveis para explicar o fenômeno de interesse. Por fim, as previsões são deduções feitas a partir de cada hipótese, concretamente mensuráveis no mundo real.

A diferença básica entre hipóteses e previsões é que as hipóteses não fundamentalmente teóricas e gerais, enquanto as previsões são operacionais e específicas. Portanto, nas hipóteses você deve falar sobre variáveis teóricas, enquanto que nas previsões você deve focar em variáveis operacionais. Veja as diferenças entre esses tipos de variáveis nas próximas seções.

Justificativa: por que financiar o seu projeto e não outro?

Algumas agências de fomento pedem uma justificativa sucinta em uma seção especial, separada da introdução. Basicamente, essa justificativa é como um discurso de elevador na forma escrita. Ou seja, muitas vezes, o avaliador vai começar a ler o seu projeto por esta seção, então você precisa fisgá-lo logo de cara. Veja aqui algumas dicas sobre justificativas.

Operacionalização: defina bem os tipos de variáveis

É fundamental fazer uma boa escolha das variáveis. Filosoficamente, existem dois tipos básicos de variáveis: as teóricas e as operacionais. As variáveis teóricas são aquelas que de fato você quer estudar, mas que não pode medir diretamente, porque são abstrações ligados ao problema de interesse. Já as variáveis operacionais são, na verdade, representações ou “termômetros” das variáveis teóricas, mas que podem ser medidas diretamente no mundo real.

Uma má escolha das variáveis operacionais sempre leva o projeto ao fracasso, porque torna impossível medir tanto padrões quanto processos relacionados ao fenômeno estudado. Leia mais dicas sobre esse lindo processo, que se chama operacionalização.

Métodos: o que exatamente você vai fazer para responder a pergunta?

Um estudo é científico, apenas se puder ser replicado. Por isso, é fundamental escrever uma boa seção de métodos, que deixe claro como você vai conduzir o estudo e como outros poderiam replicá-lo. Tendo formulado bem a pergunta, a hipótese e a previsão, você enxergará claramente qual é o melhor método para atingir o seu objetivo.

Nesta seção o leitor deve entender como os métodos escolhidos testarão adequadamente as previsões e, indiretamente, as hipóteses. Considere primeiro o método mais adequado para cada previsão, independentemente do custo. Caso você perceba que não conseguirá verba suficiente para o projeto, procure métodos alternativos, improvise em alguns pontos. Mas não torne o improviso uma regra na sua carreira. Em outros casos, procure algum colega que tenha o equipamento, software ou material de que você precisa, Se ele se interessar cientificamente pelo projeto, proponha uma parceria; caso contrário, pague para usar os recursos necessários ou peça isso como um favor.

Se você achar que não terá recursos para responder a pergunta da maneira adequada, nem improvisando, então mude de projeto. É melhor mudar logo no começo, do que ter um trabalhão, gastar uma verba enorme e depois descobrir que os dados são ruins ou inconclusivos e, portanto, não servem para responder a pergunta.

Se você usar métodos com os quais não tem total intimidade, consulte alguém mais experiente. Especialmente no caso das análises estatísticas, que geralmente são mal empregadas na Ecologia, não deixe de ouvir a opinião de um estatístico ou, na falta dele, de outro cientista que domine bem a análise em questão. Considere como “especialistas de verdade” as pessoas que de fato publicam em boas revistas sobre determinado assunto ou que usam determinado método freqüentemente em seus trabalhos ― e não aquelas que apenas dizem ser especialistas ou apenas dão aulas sobre o assunto.

Uma parte fundamental da definição dos métodos é estimar o tamanho amostral mínimo necessário para testar as previsões. Com base na literatura e, se possível, também em um estudo piloto, faça cuidadosamente essa estimativa e evite coletar dados insuficientes ou gastar mais recursos do que o necessário.

Resultados esperados: aonde você quer chegar?

Presumindo que você formulou bem a pergunta e escolheu o método mais adequado para respondê-la, você deve ser capaz de prever quais resultados obterá ao concluir o projeto.

Quais previsões devem ser confirmadas? Por quê? Que implicações isso poderá ter para a rejeição ou aceitação da hipótese de trabalho? A pergunta central do projeto poderá ser respondida por inteiro ou apenas em parte? Qual será a implicação maior das descobertas feitas no projeto para o nosso entendimento do problema de interesse? Lembre-se de que você deve saber exatamente aonde quer chegar, antes de começar o projeto.

Veja aqui um texto inteiro focado na seção de resultados esperados.

Cronograma: quando você pretende concluir cada etapa do projeto?

Estabeleça um cronograma para o seu projeto. Divida o trabalho em etapas e imagine até que datas você terá iniciado e terminado cada uma delas. Defina metas operacionais claras a serem alcançadas.

Em outro post você pode ler dicas sobre como fazer um cronograma eficiente.

Referências: de onde vieram as idéias que formam a base teórica do projeto?

Liste nesta seção todos os trabalhos científicos que você tiver citado no projeto. Siga um formato padronizado, respeitando as exigências do potencial patrocinador. Se você souber lidar com softwares bibliográficos (por exemplo, Mendeley, Endnote, Reference Manager, Zotero e BibTex), use-os para construir as citações e a lista de referências, pois assim poderá usar formatações e atualizações automáticas, poupando um precioso tempo e diminuindo a chance de erro.

Veja dicas mais específicas sobre citações científicas.

Orçamento: do que precisa para atingir seus objetivos?

Ninguém executa um projeto sem dinheiro, mesmo que seja pouco. Na maioria dos casos, o cientista não dispõe prontamente dos recursos necessários, então precisa pedir financiamento para uma agência de fomento, órgão governamental, ONG, sociedade científica ou empresa privada. Assim, fazer um bom orçamento é uma parte fundamental da elaboração de um projeto cientifico.

Escolha cuidadosamente para quem você pedirá verba. Veja se o potencial patrocinador (1) tem uma missão relacionada ao escopo do seu projeto, (2) oferece verba suficiente para cobrir seus custos, (3) demora a dar uma resposta e liberar a verba, e (4) não está envolvido em práticas que você condena. Você deve seguir sempre o modelo do seu potencial patrocinador, pois nas grandes instituições de fomento sempre há formatos padronizados, formulários padronizados, cadastros online etc.

No geral, você precisa pensar em sete grandes categorias de gastos: pessoal, serviços, material permanente, material de consumo, diárias, transporte e despesas diversas. As despesas com pessoa podem incluir bolsas e salários, servindo para remunerar o responsável e outros membros da equipe.

Serviços são sempre necessários em um projeto de pesquisa, incluindo aí correio, consertos, fotocópias, auxiliares de campo, técnicos de computação e outros.

O material permanente inclui os bens duráveis que você adquirirá para o projeto, como computadores, dispositivos de captura, dispositivos de monitoramento, mesas, armários, microscópios, centrífugas, câmeras fotográficas e demais equipamentos.

Já o material de consumo engloba os bens não-duráveis, como cartuchos de impressora, resmas de papel, marcações de campo, material de escritório, pilhas e afins.

O item das diárias se refere à sua manutenção durante viagens de trabalho, para coleta de dados em campo, colaboração com colegas de outras cidades, participação em eventos científicos e similares. Você também deve pedir verba para transporte, que está  relacionada às mesmas atividades nesse item.

Por fim, o item das despesas diversas serve para você se precaver contra custos imprevistos, que sempre surgem por mais que planejemos tudo bem. Sempre calcule uma folga no orçamento. Caso sobre verba ao final do projeto, peça remanejamento ou devolva o saldo ao patrocinador.

Último passo antes de brigar por verbas

Finalmente, quando você achar que o projeto está pronto, deixe-o na gaveta por pelo menos uma semana. Pegue-o depois para revisar. O próprio Darwin disse, em sua autobiografia, que após algum distanciamento nos tornamos ótimos revisores dos nossos próprios trabalhos. Só então peça a opinião de um colega de confiança e, de preferência, mais experiente, que (1) seja bom na área e bem crítico, (2) não seja vaidoso ou invejoso demais e (3) que não vá roubar suas idéias.

Leituras sugeridas 

  1. Mapa da mina: um projeto de pesquisa bem escrito tem boas chances de ser contemplado com os recursos necessários para seu desenvolvimento
  2. Ten Simple Rules for Developing a Successful Research Proposal in Brazil
  3. Advice: good reasons for choosing a research project (plus some bad ones)
  4. Advice: weak reasons for choosing a research project
  5. Timelines in grant proposals are useless. Here’s how I put them to use
  6. Effective grant proposals, Part 1: Novelty and significance
  7. Effective grant proposals, Part 2: Feasibility
  8. Effective grant proposals, Part 3: Qualifications

Agradeço a diversos colegas que contribuíram com sugestões para este guia.

* Publicado originalmente em 2007 e atualizado constantemente.

(Fonte da imagem destacada)

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21 respostas para “Como elaborar um projeto de pesquisa”

  1. Gostei dos dados e informações encontradas neste site, na área específica. Me foi muito útil.

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