Como responder uma revisão

Como comentei em outro artigo curto, na ciência precisamos submeter nossas descobertas à apreciação dos nossos pares, para validarmos o conhecimento que geramos e, acima de tudo, para testarmos se nossas interpretações fazem mesmo sentido ou não. Há vários veículos de comunicação científica, mas os artigos em revistas continuam sendo o principal. Sendo assim, é importante lidar de uma boa forma com as críticas que recebemos, tanto as válidas, quanto as equivocadas. Vamos ver como fazer isso. Coloquei as explicações no formato de pergunta e resposta, considerando as coisas que alunos me perguntam com maior freqüência.


 1. Em que tom devo responder?

Seja sempre muito educado e calmo ao escrever um e-mail de resposta a uma revista. Mesmo que tenha recebido críticas injustas do editor ou dos revisores, mesmo que algum deles tenha sido grosseiro, engula em seco, esfrie a cabeça e siga em frente como um lorde inglês caminhando com uma roupa branca intacta no meio da selva. Mostrar irritação, ou pior, xingar o editor, não aumentará as chances de publicarem seu artigo. De qualquer forma, leve bem a sério as críticas, mesmo as grosseiras ou arrogantes, pois elas podem ajudar muito a melhorar um trabalho. Além disso, muitas vezes um mesmo manuscrito acaba indo parar repetidas vezes nas mãos dos mesmos revisores, após ser rejeitado em uma revista e submetido a outra. Nada irrita mais um revisor do que ver que as críticas dele foram sequer respondidas ou consideradas.

2. A quem estou respondendo?

As revistas menores costumam ter um organograma simples, com um editor-chefe (que toma as decisões), um editor de processo (que cuida do trabalho editorial braçal), um corpo editorial (caras famosos que dão credibilidade à revista, mesmo que não façam nada concretamente) e revisores ad hoc (que fazem a revisão dos manuscritos). As revistas maiores costumam ter uma hierarquia mais complexa, com um editor-chefe, um corpo editorial, editores de área especializados em temas específicos dentro do tema maior da revista, editores de recebimento, editores de processo, editores arte-finalistas e outras funções. Quando receber o e-mail da revista com a decisão sobre o seu manuscrito, preste atenção ao remetente e à pessoa indicada como responsável pelo processo. Procure entender o background do editor, sua visão de trabalho, suas especialidades, seus vieses.

3. O que significa a classificação que o manuscrito recebe?

Hoje em dia, as revistas, especialmente as top, estão lotadas de manuscritos submetidos para publicação e o engarrafamento só piora. Por isso, é importante para o editor classificar o seu artigo de acordo com a prioridade para publicação. Em geral, usam-se as categorias listadas abaixo, que variam um pouco de revista para revista. Contudo, fique atento, pois os sistema de submissão e publicação de artigos científicos tem mudado rápido nos últimos anos e algumas dessas categorias estão caindo em desuso. Por exemplo, as revistas mais top agora costumam rejeitar de cara mesmo os artigos que vão acabar sendo aceitos, quase nunca usando a palavra accepted em um primeiro contato; isso serve para duas coisas: (i) melhorar as estatísticas de tempo médio de publicação da revista e (ii) deixar claro que os autores precisam fazer as mudanças mais importantes solicitadas ou, pelo menos, justificar muito bem uma eventual discordância. Vamos às categorias de decisão editorial:

  • i. Aceito como está (accepted as it is): o manuscrito recebe esta classificação, quando ele está dentro do escopo da revista, é interessante e inovador, e o editor e os revisores não conseguiram achar uma falha sequer nele – nem mesmo algo que está correto, mas que poderia ser melhorado. Isso é raríssimo! Mesmo um artigo genial e bem escrito está sujeito à divergências, porque é muito improvável que duas pessoas tenham exatamente a mesma opinião sobre um tema complexo.
  • ii. Aceito com pequenas modificações (minor revision): quando o manuscrito está dentro do escopo da revista, está bem escrito e traz novidades, porém tem pequenas falhas que precisam ser consertadas, ele recebe esta classificação. Ela costuma ser usada com maior freqüência do que a primeira, mas mesmo assim apenas uma minúscula minoria dos trabalhos é aceita com minor revision. Algumas revistas, preocupadas com as estatísticas de tempo entre submissão e publicação, trapaceiam, rejeitando um bom artigo em primeira instância, mas permitindo que ele seja re-submetido. Aí, depois, quando a nova versão do artigo é recebida, caso todos os problemas tenham sido sanados, ele provavelmente é aceito com minor revision, e parece que o processo todo só demorou um mês ou menos.
  • iii. Aceito com grandes modificações (major revision): quase todos os artigos aceitos por alguma revista recebem essa classificação. Significa que o artigo está dentro do escopo, foi bem escrito, traz novidades, mas precisa ainda de muitas alterações antes de poder ser publicado. Podem ser alterações de redação ou mesmo de conteúdo (e.g., análises novas). Esse processo de revisão é chato, demorado e dá trabalho, mas muitas vezes melhora muito o trabalho. Cabe ao autor decidir quais das críticas mais sérias ele vai aceitar ou não. As críticas menores, de um modo geral, devem ser todas aceitas, exceto quando os revisores falam alguma besteira. Quando alguma das críticas maiores não é aceita pelo autor, cabe ao editor decidir de aceitará o artigo assim mesmo ou não. Mas é importante para o autor sempre justificar bem seus pontos de vista, especialmente quando não concordar com uma crítica. O processo parece com uma defesa de tese, só que sem platéia.
  • iv. Rejeitado, mas com possibilidade de re-submissão (rejected without prejudice): isso acontece geralmente quando o artigo está dentro do escopo da revista, é bom e traz novidades, mas tem sérios problemas de conteúdo ou forma, que demorariam muito a ser sanados. Neste caso, o artigo precisa ser quase todo reformulado. Porém, caso o autor acate as sugestões e prepare uma nova versão bem melhor, provavelmente o artigo poderá ser aceito pela revista. Vale ressaltar que esta categoria, como comentado anteriormente, é usada por algumas revistas para trapacear nas estatísticas de tempo editorial. Às vezes, um artigo que poderia ser aceito com major revision recebe o carimbo de rejected without prejudice só para fazer parecer que a revista é super-rápida.
  • v. Rejeitado após revisão (rejected after review): isso acontece geralmente quando o manuscrito está fora do escopo da revista, não é inovador o suficiente, está muito mal escrito ou tem sérias falhas conceituais ou metodológicas. Porém, isso também pode acontecer quando um manuscrito é tão inovador, que a comunidade científica de uma determinada época simplesmente não compreende sua genialidade; isso é bem raro, claro. Em casos menos drásticos e mais freqüentes, um manuscrito também pode acabar sendo rejeitado, caso vá contra algum paradigma muito forte na área, sofrendo com o preconceito da comunidade. É mais fácil uma idéia ser aceita por concordar com o paradigma dominante e apenas explorar um de seus aspectos, do que por contrariá-lo. O lado bom é que as revisões feitas em boas revistas geralmente te ajudam a melhorar o manuscrito, que pode ser submetido a uma outra revista logo em seguida.
  • vi. Rejeitado sem revisão (rejected): nas revistas mais competitivas (e.g., Science, Biology Letters e Ecology), antes de um manuscrito ser mandado para revisão pelo editor, ele primeiro é pré-avaliado. Alguns editores de revistas top, que têm que processar dezenas de manuscritos por mês, rejeitam trabalhos apenas com base na carta de apresentação (cover letter) e no resumo, por já verem que estão fora do escopo ou não são inovadores o suficiente. Revistas como a Proceedings of the Royal Society têm até mesmo uma fase de pré-submissão, em que você manda apenas um resumo gordo para o editor, a fim de ele ver se o seu manuscrito têm alguma chance de sequer ir para revisão.

4. O processo de decisão é sempre objetivo e justo?

Não, infelizmente. Editores e revisores são humanos e, por isso, são incapazes de tomar decisões puramente racionais, como se fossem máquinas. Assim, sempre há algum grau de subjetividade no processo editorial. Injustiças acontecem e, algumas vezes, até mesmo perseguição pessoal acontece. A escolha dos revisores tem um grande peso nisso e às vezes um mesmo artigo pode ser aceito ou rejeitado pela mesma revista, só por causa da combinação de revisores. Por isso, leve a sério a possibilidade que algumas revistas dão de o autor sugerir três ou mais revisores. Como todo mundo anda muito ocupado hoje em dia e vários revisores sequer aceitam fazer as revisões, suas sugestões podem ter mais peso do que você imagina. Infelizmente, num mundo lotado de cientistas competindo por espaço em revistas, as mais importantes acabam se esforçando por demasiado em achar falhas nos manuscritos, a fim de diminuir a fila de espera. Isso tem causado sérios problemas, como a recusa freqüente de trabalhos excelentes, e aumentado muito a subjetividade do processo editorial, como comentei em outro artigo curto.

5. Há preconceito contra latinos nas melhores revistas internacionais?

Não há como afirmar isso com segurança. Algumas pesquisas apontam que sim, outras que não. Mas uma coisa é certa: ficar de mimimi não vai te ajudar em nada. Além disso, cientistas em começo de carreira e desconhecidos de um modo geral, independente de sua origem, sofrem mais problemas com rejeição. Neófitos precisam trabalhar dobrado ou triplicado para convencerem a comunidade de que suas idéias são boas. Cientistas já estabelecidos e com boa reputação têm uma espécie de crédito de publicação: ou seja, em geral eles podem falar quase tudo o que quiserem, que todos vão pelo menos publicar seus artigos. Com o tempo, publicar bem fica mais fácil, conforme você domina as técnicas avançadas de pesquisa e comunicação científica, e constrói uma boa reputação. Mas nos tempos excessivamente competitivos em que vivemos, mesmo alguns grandes cientistas têm sofrido com a rejeição injusta dos seus manuscritos. Para abrir caminho, há três tarefas a se cumprir: (i) fazer boa ciência, (ii) estudar e praticar a redação científica exaustivamente, e (iii) aprender macetes de redação e publicação avançada com colegas mais experientes. Leia esse outro artigo sobre o dilema do “poorly written“.

6. Por onde começo?

Caso o seu artigo tenha sido aceito ou quase (casos ii, iii e iv), é hora de preparar a revisão. Comece lendo as sugestões dadas com muito cuidado. Pense bem sobre quais críticas fazem sentido e quais não. Depois de alguns dias ou semanas, de cabeça fria, comece a fazer modificações no seu manuscrito a partir das sugestões mais simples (como as de ortografia e estilo). Em seguida, cuide das mudanças nas figuras e tabelas. Depois, faça as alterações de conteúdo mais simples, como por exemplo reformular frases confusas. Deixe as coisas mais complicadas, como novas análises e novas interpretações, para o final. Preste muita atenção ao prazo dado pela revista, porque se ele for estourado, seu artigo volta à estaca zero.

7. E a revisão do idioma?

Às vezes, um artigo recebe a crítica de que está mal escrito. Isso é muito vago, mas em geral significa duas coisas: (i) o inglês do artigo está ruim, com erros de ortografia e gramática, ou mesmo frases traduzidas ao pé da letra (vade retro, Google Translator!); ou (ii) o inglês está bom, mas o estilo de redação está ruim. No caso (i), é comum o editor mandar o manuscrito ser revisado (proofreading) por um falante nativo, mas isso nem sempre é necessário. Nem todo falante nativo domina o idioma (tem menas pobrema?) e, muito menos, o estilo de redação científica. O problema pode ser resolvido por um tradutor científico profissional, mesmo que ele não seja falante nativo. No caso (ii), mesmo um artigo com o inglês bom é taxado de “poorly written”, caso ele não tenha seguido os preceitos da redação científica, que incluem principalmente clareza, objetividade e poder de síntese (veja um outro artigo curto sobre o tema). Neste segundo caso, o melhor mesmo é procurar um tradutor científico profissional ou um colega com muita experiência em publicação (com tempo livre e boa vontade).

8. Como finalizo a revisão?

Por fim, depois de ter pensado sobre todas as críticas e feito as modificações que achar necessárias, escreva uma carta de resposta ao editor da revista. Comece com uma página de apresentação geral, agradecendo pela revisão e pela aceitação condicional ou possibilidade de re-submissão. Depois, nas páginas seguintes, responda ponto por ponto todas as críticas que foram feitas. Diga claramente se concorda ou discorda, sempre com educação, sem transparecer qualquer emoção, e explicando o porquê. É uma boa idéia citar literatura na revisão, para embasar seu raciocínio, como no manuscrito.

9. Posso apelar em caso de rejeição?

Sim, em alguns casos. Se achar que uma ou mais críticas injustas derrubaram o seu artigo, argumente isso na carta de resposta à revisão. Seja muito educado e use uma lógica clara e objetiva, baseando o que for possível em evidências. Em alguns casos, isso funciona e o seu artigo acaba sendo aceito. Isso é possível principalmente nos casos em que um editor atolado de trabalho simplesmente não leu o seu artigo direito e tomou a decisão de rejeitá-lo rapidamente apenas para poupar-se trabalho, influenciado por algum revisor equivocado.

10. Revise, revise e depois… Revise!

Seja muito minucioso na revisão do seu manuscrito. Não deixe de prestar atenção e responder a nenhuma crítica. É comum você mesmo perceber mais alguns erros que nem o editor e nem os revisores viram; corrija-os também.

Boa sorte!

Publicar bem está cada vez mais difícil, mas o processo fica menos massacrante com a prática e com a ajuda de bons orientadores e colegas mais experientes.

Sugestões de leitura:

* Publicado originalmente em 2011.

Anúncios

13 Replies to “Como responder uma revisão”

  1. Queria contar dois causos… rs
    Causo 1: Melhor comentário que já recebi em uma revisão: “I think this figure is useless.” Eu acabei concordando e removendo a figura. rs
    Causo 2: Enviei uma vez um artigo para uma revista nacional, e foi recusado; um dos motivos dados era que o inglês era ruim. Bem, depois pedi para uma falante nativa (canadense, e mestranda em ecologia) dar uma lida, e ela achou que o inglês tava muito bom. E depois mandei o artigo pra uma revista neo-zelandesa (ou seja, também falantes nativos), e eles falaram que o inglês estava “acceptable” (e a decisão foi minor revision).

    1. Valeu por compartilhar os causos, rs. Esse negócio de poorly written é mais relativo que sabor de pipoquinha doce… rs

  2. Marco parabéns pela ajuda que voce está dando para aqueles que estão começando a trilhar este duro caminho. Receber um não é sempre muito ruim, mas todos já receberam um, em algum momento. Acho suas dicas importantes principalmente por mostrarem que temos que esfriar a cabeça antes de responder, respeitar a avaliação que foi feita e tentar melhorar/adequar o manuscrito, quando possível. Como você disse, o processo nem sempre é justo, mas é o que está aí…

  3. Infelizmente não são só as revistas do nível da Ecology e Science que rejeitam sem mandar pra revisores… Acabei de ter um rejeitado pelo editor na Biotropica, e nem era um paper muito ruim… rs

    1. Putz, sinto por você, cara. O sistema de publicação está um inferno mesmo, desde que inventaram a paranóia do fato de impacto e colocaram todo o poder nas mãos das grandes editoras.

Os comentários estão desativados.