O que é uma tese?

Por que dizemos que mestrandos apresentam dissertações, enquanto doutorandos defendem teses?

Hoje em dia, no Brasil, o normal é o aspira que sobrevive à graduação entrar no “mundo desconhecido” da Jornada do Cientista, primeiro fazendo um mestrado para depois fazer um doutorado. Uma importante diferença entre esses dois cursos de pós-graduação é o requerimento final para se formar: no mestrado é preciso apresentar uma dissertação, enquanto no doutorado deve-se defender uma tese. Mas no que diferem esses dois tipos de trabalho de conclusão de curso?

Do ponto de vista do estilo de redação, teses são um tipo especial de dissertação. Academicamente, a diferença é muito maior. Uma dissertação de mestrado não precisa ser o relato de uma pesquisa original. Em muitos cursos de mestrado, especialmente os lato sensu (especialização), o candidato pode apenas escrever sobre um tema científico de interesse, resumindo o conhecimento na área e, opcionalmente, dando sua opinião. Já a tese é uma dissertação na qual se defende uma idéia científica original. Ou seja, na tese produz-se conhecimento novo. Hoje em dia, contudo, a maioria dos programas de pós-graduação acadêmicos (stricto sensu) exige que mestrandos também defendam trabalhos originais para colar grau; talvez daqui a pouco passemos a chamar ambos os trabalhos pelo mesmo nome.

A tese é, em suma, uma proposição sobre como funciona um fenômeno de interesse. Ela é a resposta para uma pergunta científica e por isso tem a forma de uma afirmação. Por exemplo:  algumas aranhas que vivem em bromélias são mutualistas com elas, porque lhes fornecem nutrientes vindos de restos de alimentos e excretas (Romero 2005). A tese, filosoficamente, é uma nova hipótese que foi testada pelo proponente e que ele não pôde refutar; por isso ela é aceita provisoriamente como a resposta da pergunta de trabalho. Essa mensagem central é a tese: todo o resto do texto serve para embasá-la e justificar sua relevância. A tese pode ter tanto um caráter qualitativo quanto quantitativo; pode ser mais voltada para história natural (focada no organismo) ou orientada por teorias gerais. A tese não precisa ser necessariamente baseada em dados novos coletados no campo ou no laboratório pelo candidato; ela também pode ser baseada em dados compilados da literatura ou de bancos de dados. A tese também pode se basear em uma revisão da literatura, desde que essa revisão gere conhecimento novo, seja na forma de síntese ou meta-análise (veja algumas dicas sobre como fazer uma revisão).

Sendo assim, não tem sentido um candidato a doutor apresentar uma tese, na qual não há uma pergunta clara e uma hipótese devidamente testada. Ao contrário do que muitos pensam, um doutorado sem pergunta não faz sentido; mesmo uma pesquisa de história natural bem-feita tem perguntas e hipóteses. No doutorado, para se tornar um cientista, o candidato precisa aprender a investigar fenômenos e propor explicações para eles. Só se consegue isso através de muito treino no método hipotético-dedutivo. Ser cientista é resolver problemas científicos através da elaboração de hipóteses e da confrontação destas com a realidade, a fim de ajudar a construir arcabouços e teorias.

Contudo, só desenvolver a pesquisa não basta. Como a ciência é uma atividade social, é preciso comunicar as suas descobertas à comunidade científica e tentar convencer os colegas de que suas interpretações são válidas; senão suas descobertas serão simplesmente ignoradas. Por isso a apresentação formal da tese a um comitê de cientistas mais experientes, a famigerada banca, é chamada de defesa. É claro que, para um doutorando, esse é um momento de muito estresse, tensão e insegurança. Mas a defesa nada mais é do que a primeira experiência formal com uma atividade que precisará ser repetida por toda a carreira. Quando submetemos um manuscrito para publicação em uma boa revista científica, os debates com o editor e os revisores são, no fundo, uma defesa de tese (mas sem plateia ou torcida, rs). Assim, pelo menos nas ciências naturais, faz mais sentido que a tese escrita deixe de ter o formato clássico de dissertação e passe a ser uma compilação dos artigos derivados das pesquisas feitas pelo candidato durante o curso. E, de preferência, o texto deve ser escrito sempre na língua franca do seu tempo para ser acessível a um número maior de pessoas no mundo todo. Atualmente a língua franca é o inglês, mas antigamente já foram o grego, o latim e o francês.

Voltando ao mestrado, na minha opinião, o sentido desse curso deveria ser repensado, pois ele acabou virando uma ponte para o doutorado. Ele poderia voltar ao seu formato original e ser um curso de formação de professores do ensino superior, já que hoje em dia aspirantes a cientista não aprendem mais técnicas para dar aulas. Ou então o mestrado deveria ser extinto como curso independente, sendo incorporado ao bacharelado; este seria acrescido de um ano, durando ao todo cinco anos no caso da Biologia, para que a iniciação científica fosse reforçada (como no antigo sistema alemão do Diplomarbeit).

Por fim, recomendo que os aspirantes reflitam continuamente sobre o que é uma tese e para que serve uma pós-graduação. Infelizmente, a falta de informação e orientação leva muitos ao estresse, à frustração e até mesmo ao abandono da carreira, desperdiçando energia pessoal e dinheiro público. A pós-graduação, apesar de muito estimulante para quem tem vocação de cientista, pode ser ser também estressante. Por isso, escolha bem o seu orientador; essa escolha é mais importante do que a do curso no qual você vai ingressar.

Sugestões de leitura:

* Publicado originalmente em 2010.

thesis-1

Fonte da imagem.

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9 respostas para “O que é uma tese?”

  1. Prezado Marcos
    Li o seu texto sobre o que é uma tese e fiquei muito feliz. Acredito que esclareceu muitas dúvidas e me ajudará a pensar melhor o meu projeto para concorrer a um doutorado.
    Parabéns pela qualidade do texto.
    Flávia Pansini

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