Trabalhos descritivos são importantes?

Sim! É bom deixar isso claro logo no começo do artigo. Trabalhos descritivos são importantes na Ecologia, assim como em todas as ciências. Isso não significa que toda descrição é útil, muito menos que apenas descrições são úteis e teoria é bobagem. Toda ciência relativamente jovem, como a Ecologia, precisa de uma base descritiva sólida para poder se desenvolver além dessa fase e, assim, amadurecer e entender melhor os processos por trás dos padrões observados. Além disso, a descrição, a experimentação e a teoria se retro-alimentam em qualquer ciência, seja ela jovem ou madura. Como essa discussão tem se tornado cada vez mais polêmica, vale a pena refletir um pouco sobre o que são e para que servem os trabalhos descritivos.

Uma descrição ecológica, por definição, tem duas utilidades principais: (i) contar à comunidade científica como é algum objeto de interesse, seja ele um organismo, um ambiente, um tipo de interação, um fenômeno ou qualquer outra entidade; ou (ii), no caso de um fenômeno, a descrição serve para definir como são os elementos do sistema onde ele ocorre, e as características do próprio sistema em si, como um primeiro passo na busca da compreensão dos mecanismos que regem o fenômeno.

No primeiro caso – os objetos, um trabalho descritivo se torna especialmente útil, quando o objeto de interesse é inteiramente novo. Por exemplo, no caso da descoberta de uma organismo nunca antes registrado, de um ambiente nunca antes explorado ou de uma interação ecológica inédita para a ciência. Como a diversidade de espécies no mundo é gigantesca, e a diversidade de interações entre elas é maior ainda, sempre haverão novos elementos e sistemas a serem descritos. Se quisermos realmente avançar no mapeamento da biodiversidade, fica claro que não podemos chover no molhado. Ou seja, descrever apenas por descrever, usando como justificativa estudar um objeto já bem conhecido, só que desta vez em outro lugar. Se a mudança de área de estudo é realmente significativa, por exemplo buscando conhecimentos sobre o objeto em um novo ambiente onde ele ainda não havia sido estudado, a pesquisa se justifica. Porém, qual é o sentido de descrever algo já conhecido em um lugar já conhecido? Muitas vezes, esse tipo de abordagem simplista e repetitiva é fruto de treinamento inadequado no método científico ou mesmo de preguiça intelectual.

No segundo caso – os fenômenos, as justificativas para se realizar um estudo são parecidas. Além disso, pode ser interessante estudar um mesmo fenômeno, por exemplo a dispersão de sementes por animais, em lugares diferentes ou estações do ano diferentes, a fim de testar se ele sempre ocorre da mesma forma, dadas condições variadas, ou não. Mas descrever um fenômeno já conhecido num lugar e época já conhecidos também é desperdício de esforço. Como dito no começo, independente de qualquer coisa, para se entender os mecanismos envolvidos em um fenômeno, primeiro é preciso descrever os elementos e o sistema nos quais ele ocorre. Para exemplificar, não se pode entender os mecanismos que regem a dispersão de sementes por animais, se antes não soubermos quais espécies de plantas são dispersadas por quais espécies de animais, como os animais tratam as sementes, para onde eles as levam e todas as demais informações relevantes.

Logo, vê-se que é importante fazer descrições por várias razões, observando-se certas condições, para que o estudo seja de fato relevante. Mas tem um porém nessa história. No fundo, todo bom cientista, inclusive um ecólogo, não quer apenas descrever padrões na natureza, mas quer acima de tudo entender esses padrões em termos dos processos que os geraram. Então apesar de descrições serem úteis, um cientista não pode viver só delas, até mesmo porque a chance de uma pessoa conseguir encontrar coisas novas e relevantes constantemente durante toda a sua vida é bem pequena. Mais importante do que encontrar coisas novas é tentar entender sua essência.

Mesmo naturalistas clássicos, que fizeram excelentes descobertas no mundo todo e em diferentes áreas da ciência, também queriam entender as coisas que descobriam, fossem elas novos organismos, ambientes, interações ou fenômenos. Ou seja, a partir das descobertas e descrições que faziam, eles geravam hipóteses, previsões e até teorias inteiras. Basta lembrar do caso da orquídea de Darwin. O famoso naturalista inglês descreveu uma nova espécie de orquídea em Madagascar, e a partir dessa descoberta e do que juntou de informações novas sobre a biologia da planta, lançou a hipótese de que ela deveria ter um polinizador com morfologia altamente especializada, que deveria ser uma mariposa. Essa hipótese foi confirmada mais de um século depois, tornando-se um excelente exemplo de como um sólido conhecimento naturalista é fundamental na elaboração de hipóteses ecológicas interessantes. Vale ressaltar que uma espécie descrita também é, em si, uma hipótese: o que existe no mundo concreto são organismos – as espécies são hipóteses sobre as relações evolutivas entre os organismos.

Sendo assim, como já comentei em outro artigo, a polêmica teóricos x naturalistas é tola, assim como o são as pessoas que desprezam a importância das descrições naturalistas na Ecologia ou a importância das teorias criadas a partir delas. Por outro lado, também é tolo o ecólogo que acredita que descrever apenas por descrever ou comparar apenas por comparar são motivos suficientes para se realizar um projeto de pesquisa. A Ecologia precisa tanto de descrições bem feitas e relevantes, quanto de teorias que tentem dar um sentido maior a essas informações acumuladas.

Sugestões de leitura:

* Publicado originalmente em 2011.

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5 respostas para “Trabalhos descritivos são importantes?”

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