Um estudo sem pergunta pode ser relevante?

Sim, mas apenas em casos muito especiais. Portanto, cuidado: via de regra, uma pesquisa só resulta em boa ciência, se for orientada por uma pergunta interessante elaborada a priori. Isso vale para todo tipo de estudo, incluindo os descritivos, hipotético-dedutivos e teóricos. Mas então sob que condições um estudo pode gerar informações científicas relevantes, mesmo sem ter uma pergunta?

Nas ciências naturais, isso é possível no caso de descobertas interessantes feitas sem planejamento, por sorte. Muito raramente, acontece de um cientista notar um novo organismo, ambiente ou fenômeno, sem que estivesse focado nele ou em um tema diretamente relacionado. Um exemplo clássico é a descoberta da penicilina por Alexander Fleming, feita ao acaso, a partir de uma contaminação acidental de culturas de bactérias. Fleming não estava estudando os fungos Penicillium, muito menos suas aplicações medicinais. Portanto, essa descoberta, um grande avanço para a ciência, foi fruto de uma mistura de sorte (a contaminação) e competência, pois outra pessoa teria apenas jogado fora as placas de Petri contaminadas, sem ter tido a grande sacada de Fleming. Como dizia Luis Pasteur, “a sorte favorece a mente preparada”: não adianta um raio de inspiração cair na pessoa errada…

Contudo, em 99,9% dos estudos científicos, descobertas relevantes são feitas através de outro tipo de mistura: planejamento + determinação + competência. Para fazer o conhecimento avançar, não é preciso ser um gênio. Pessoas com inteligência mediana ou pouco acima da média produzem a maior parte do conhecimento científico. É preciso, na verdade, que o cientista tenha talento, uma boa formação e os meios adequados, e que ele planeje bem sua pesquisa. É preciso também muita tenacidade, pois geralmente nossos experimentos ou observações dão errado nas primeiras tentativas, até que aperfeiçoemos os métodos ou a estrutura lógica, e cheguemos a bons resultados. O primeiro passo para elaborar uma pesquisa relevante é se informar sobre o conhecimento estabelecido e suas lacunas, dentro da área de interesse, através da leitura de artigos e livros, e de conversas com seus colegas. Depois de criada essa base, o próximo passo, em qualquer tipo de pesquisa, é elaborar uma pergunta central, que seja simples, direta e interessante. A partir daí, dependendo da abordagem do estudo (descritivo, hipotético-dedutivo ou teórico), pode-se seguir diferentes caminhos (veja outro guia sobre projetos).

Concluindo, apesar de ser possível fazer um estudo interessante mesmo sem ele ser guiado por uma pergunta, esse é um caminho que na maioria esmagadora dos casos não leva ao sucesso. Recomendo fortemente investir o máximo que você puder em planejamento e elaboração de perguntas e hipóteses, para não ter que quebrar a cabeça depois tentando dar sentido aos seus dados. Ou, pior, chegar à conclusão de que gastou tempo e dinheiro à toa, depois de meses ou anos de trabalho.

Leituras sugeridas:

* Publicado originalmente em 2011.