O que é a coautoria espúria?

Vivemos em um mundo lotado de cientistas profissionais, que competem ferozmente por verbas. Hoje em dia, as publicações são a moeda corrente na avaliação da qualidade dos cientistas. Isso tem levado a um aumento brutal na quantidade de coautorias espúrias. Mas como diferenciá-las das coautorias legítimas? Que conseqüências elas podem ter? Neste artigo abordo essas questões e mostro que a coautoria espúria, além de muito prejudicial à ciência, acontece não apenas entre os “caciques”, mas também entre os “curumins”.


Partindo do começo. Como eu disse em um outro artigo, é muito complicado medir a qualidade individual de um cientista, pois ela tem várias facetas e deveria ser avaliada principalmente de forma qualitativa, o que hoje é virtualmente impossível, já que a quantidade de pedidos de bolsas e auxílios submetidos às agências de fomento é colossal. Desta maneira, desde os anos 2000 tornou-se muito frequente a avaliação individual baseada quase exclusivamente em índices cienciométricos, como o número de artigos publicados, o fator de impacto das revistas ou o número de citações recebidas.

O fato é que um cientista contemporâneo vale o quanto publica, seja isso justo ou não (o famoso “publish or perish“). Como na maioria dos casos apenas um terço ou menos dos pedidos de verba são contemplados, a competição se tornou feroz. Ela é especialmente cruel quando o que está em disputa é uma bolsa ou emprego público. Então, tentando se destacar no meio da multidão, muitos cientistas iniciantes ou mesmo já estabelecidos apelam para as famigeradas coautorias espúrias.

Mas do que exatamente estamos falando? Uma coautoria é espúria, quando a pessoa em questão não merece estar na lista de autores de um artigo. Em geral, só deve ser coautor quem deu uma contribuição substancial ao trabalho, seja sugerindo uma hipótese, resolvendo um problema conceitual grave, fazendo uma análise fundamental, redigindo parte do texto, ou fazendo mais de uma dessas coisas. Além disso, um coautor legítimo deve ser capaz de defender sozinho o trabalho em público, dominando seu contexto, objetivos, métodos, resultados e interpretações. Quem, por exemplo, apenas ajudou em uma análise corriqueira, deu conselhos sobre estatística, traduziu o manuscrito, participou do trabalho de campo, emprestou um equipamento ou abasteceu o orientador com café deve entrar apenas nos agradecimentos. A autoria é um problema complexo, para o qual várias soluções já foram propostas, nenhuma delas totalmente satisfatória. Portanto, qualquer pessoa que entra como coautor de um trabalho sem atender esses critérios de merecimento está incorrendo em coautoria espúria.

Esse tipo extremo de fraude é mais comum entre alguns cientistas sêniores (obviamente não a maioria), que constroem uma boa infra-estrutura de laboratório ao longo dos anos e depois a aproveitam para exigir coautoria em trabalhos que tenham usado essa infra-estrutura de alguma forma. É a famosa história do “dono-da-bola que automaticamente entra no time”. Cientistas que não têm caráter exigem coautoria até mesmo por emprestar um microscópio sofisticado. Uma conseqüência desse tipo de atitude é o crescimento exponencial do currículo do “coautor dono-da-bola”, que passa a levar uma vantagem substancial na concorrência com os colegas. Isso provoca um efeito bola de neve, que aumenta ainda mais os recursos do trapaceiro, levando a um aumento também na freqüência de coautoria espúria e assim por diante. Com isso, jovens cientistas, que ainda estão tentando consolidar novos grupos de pesquisa, têm mais dificuldades em conseguir recursos, caso não se associem a um “padrinho generoso” e acatem suas regras.

Há também casos menos graves, que caem numa zona cinza, mas  podem ter conseqüências sérias: são as coautorias controversas. Essas, por sua vez, são mais comuns entre cientistas iniciantes. Há alguns pós-graduandos que apresentam um currículo notoriamente melhor do que o dos colegas, apenas porque participam de um grupo de pesquisa forte e entram como coautores em mais trabalhos, mesmo que sua contribuição para cada um deles seja pequena, devido a acordos internos ditados pelo orientador. Há também casos de doutorandos que entram no meio da lista de autores de artigos publicados em revistas top, uma poderosa vantagem em qualquer avaliação cienciométrica. Porém, muitas vezes, se questionados mais profundamente sobre as bases do trabalho, eles nem ao menos conseguem explicar a relevância da pergunta central. O que os levou a entrar no artigo pode ter sido, por exemplo, apenas uma ajuda na operação de uma maquinaria complexa ou na montagem do banco de dados. Isso é especialmente corriqueiro na área da Física Experimental, mas acontece também na Ecologia e outras áreas.

Há diversas maneiras de um cientista iniciante ganhar uma coautoria controversa. Por exemplo, quando um pós-graduando da área de Biologia mostra grande facilidade para análises estatísticas, modelagem matemática ou programação, áreas notoriamente deficientes na maioria dos colegas, é comum ele ser convidado até mesmo por professores de outros grupos de pesquisa para participar de artigos. Sua contribuição muitas vezes se resume a um único teste estatístico ou script de R, sendo que esse “coautor nerd” não tem a menor idéia sobre o conteúdo científico do trabalho e muito menos ajudou a construir sua argumentação.

Um fenômeno similar acontece com alunos que são muito bons no trabalho de campo ou na rotina de laboratório, mas que não sabem sequer formular uma pergunta científica interessante ou derivar dela uma hipótese testável. Eles  acabam entrando como “coautores braçais” em mais trabalhos do que mereceriam, porque fazem com eficiência o trabalho pesado ou sujo ao qual os professores não se prestam mais. É complicado chamar um aluno desses de “jovem talento”. Será que um falso coautor nerd ou braçal vale mais do que um aluno com publicações menos impressionantes ou em menor número, mas das quais é quase sempre o primeiro autor, provando que as idéias para os trabalhos saíram da sua própria cabeça?

Esta é uma questão muito séria, pois as coautorias controversas, assim como as espúrias,  conferem uma vantagem desleal na competição por verbas, bolsas e empregos. O talento de um jovem cientista deveria ser medido pela qualidade das suas idéias, seus conhecimentos teóricos e empíricos, e sua habilidade em formular perguntas interessantes. Porém, dada a enorme quantidade de cientistas buscando um lugar ao Sol, frequentemente os números falam mais alto, pois é mais prático confiar cegamente neles do que avaliar a fundo uma pessoa.

Concluindo, se você for um jovem cientista, aceite entrar como coautor em um trabalho apenas quando de fato merecê-lo. Mesmo que seus colegas estejam matando uns aos outros em nome de uma linha a mais no Lattes, não atropele sua honra em nome do sucesso. Leve em conta também que um pseudo coautor “braçal” ou “nerd” pode até se destacar durante a pós-graduação, só que em geral acaba sendo desmascarado assim que precisa se virar sozinho na selva acadêmica.

Sugestões de leitura:

picareta   Fonte: Brasil de Longe.

Anúncios

29 respostas para “O que é a coautoria espúria?”

  1. Gostaria de parabenizar o comentário corajoso e lembrar que devemos manter nossa integridade cientifica e ética para que não seja maculada por acordos tácitos silenciosos entre nossos pares, permitindo que a troca de favores mantenha o sistema.

    Parabéns

  2. É bom você enviar a todos os professores de pós-graduação do Brasil. Tem gente entrando com a cara apenas em vários trabalhos.

  3. Infelizmente esta cienciometria está gerando uma corrida maluco por números no currículo lattes. Isto gera currículos falsamente inchados, e estes currículos fazem brilhar os olhos dos membros de bancas de concursos para docentes, além do inapropriado excesso de interferência humana nesses processos de seleção, coisa que não existe em quase nenhum outro tipo de concurso público. Nem é preciso dizer que estas, digamos, tendenciosidades, grassam em proporções alarmantes. Nessas seleções, fica sempre aquela impressão do candidato bom “captador de recursos” ou do pesquisador que vai alavancar a “avaliação da Capes do programa de pós”. E assim, quem apelou para obter seu nome inserido aqui e acolá, acaba levando algum tipo de vantagem e visto com olhos mais atentos em relação a outros candidatos. Vale ressaltar que captar recursos, publicar mais e melhorar os conceitos dos programas de pós (eu sei, concursos não são feitos necessariamente para pós) é bem menos difícil para quem está institucionalizado, mas quase impossível para quem está fora. Então currículos ‘normais’ (honestos?) não têm a força para descortinar a (muitas vezes) irreal diferença que existe entre candidatos.

  4. Muito bom! Mas eu gostaria de complementar o final do texto: “…um pseudo co-autor… …em geral acaba sendo desmascarado assim que precisa se virar sozinho na selva acadêmica” desde que as bancas examinadoras não sejam espúrias.

    1. Pois é, isso é vero mesmo… rs Mas mesmo que a banca aprove uma tese tosca (o que não é tão raro no Brasil), o mercado acadêmico é cruel com quem não mostra serviço e iniciativa. Muitos dos espúrios conseguem ainda se sustentar na academia depois da pós-graduação, graças a “padrinhos generosos”, e viram eternos postdocs ou até mesmo conseguem empregos graças aos seus currículos milagrosos. Mas muitos acabam sendo eliminados por seleção natural. Enfim, nenhuma cultura humana é totalmente livre de picaretagem, e a ciência não é uma exceção.

  5. Temos solução? Acho que poderia ser pontuado diferente nas avaliações o primeiro autor, o sênior e os “co-autores”, mesmo que autênticos. 100% dos pontos Qualis Capes para o autor principal e para o sênior e 40% dos pontos para os co-autores nas avaliações da CAPES. Mesmo que este contribua bastante, a ideia é que diminua a sede por estar no paper simplesmente por estar.

    1. Marcelo, talvez uma solução temporária passe por esse tipo de diferenciação mesmo. Aí depois o pessoal inventa outra maneira de burlar o sistema, contra-medidas são tomadas e a corrida armamentista continua… O que mais precisamos mesmo é premiar o verdadeiro mérito sem alimentarmos a paranóia. Missão difícil num sistema lotado…

    1. Obrigado, Graciane. Acho que, de um modo geral e não apenas no tema co-autoria, falta mais coragem aos cientistas brasileiros. Nossa comunidade é acomodada e medrosa demais, aceita modas e imposições por preguiça de lutar contra ou destoar da maioria e ficar sem verbas. Justo os cientistas, que deveriam estar entre as pessoas mais críticas de uma nação…

    1. Obrigado, Servio! E parabéns pelo teu blog. Às vezes também me sinto um “bucaneiro da ciência”, remando contra as modinhas, rs. Por falar em evento, já vou te escrever sobre o Ebeq em OP. Obrigado pela ajuda!

  6. OI Marco,

    Muito bom o texto, realmente é complicada a coisa.
    Estou trabalhando numa artigo com um aluno brasileiro que veio visitar a universidade em que faço meu doutorado (no Canada) e tive uma idéia para usar os dados dele num projeto. Porém como ele veio com a bolsa sanduiche e os dados foram obtidos no contexto do doutorado dele, tivemos que por o orientador e co-orientador dele como co-autores no paper, mesmo eles nao tendo nenhuma participacao nas ideias ou na redacao do artigo. Apenas deram uma olhada no trabalho final e mudaram algumas palavras aqui e ali. O que fazer num caso desses?

    1. Renato, é uma sinuca de bico e de fato acontece com certa freqüência. Quer um conselho realista? Inclua os caras e evite problemas. Às vezes temos que engolir certos sapos. Cada um tem seu limite de tolerância. Meu critério é, em situações como essa, tomar decisões que me gerem menos prejuízo do que o problema original em si.

      1. Foi exatamente o que fiz porque pra mim um paper a mais publicado vai fazer muita diferença. Mas os orientadores deveriam dar um pouco mais de liberadade aos seus pupilos nesse caso, ainda mais considerando que pra eles que ja tem emprego nao vai fazer muita diferença.

    1. Obrigado. A figura não é minha. Estava rolando no Facebook (recebi de várias pessoas) e não consegui identificar a fonte. Se alguém souber, por favor, me diga.

  7. Sim, é uma triste realidade da ciência. Infelizmente eu sou um exemplo. Tenho três artigos (um no prelo), todos como primeiro autor em que eu fiz quase tudo. Mas ainda tenho muito chão para me equiparar a muitos companheiros de trabalhos, que tem mais artigos no total, mas menos como primeiro autor. Essa questão de autorias é realmente uma coisa muito difícil de lidar para os que estão começando a carreira científica. Muito bom texto, parabéns!

    1. Obrigado, Vinícius. Pois é, essa sanha cienciométrica tem criado preocupantes distorções. Eu dou muito mais valor a alguém como você do que a um suposto “geniozinho” com várias co-autorias controversas. No fundo, a resposta a uma simples pergunta já ajuda bem a separar o joio do trigo: que descobertas você fez nas suas pesquisas? Um verdadeiro jovem talento não engasga nessa hora.

  8. eita nos! poderia citar INUMEROS exemplos aqui, Marquito, mas né? deixa pra la. Adorei o artigo. Concordo que as regras devem ser claras ja do inicio. O que eu tenho visto ultimamente sao revistas pedindo que seja escrito no artigo o que cada autor fez. Ja duas revistas me pediram isso. Acho valido.

    1. Oi Alline, também acho válido as revistas perguntarem isso. Claro que os autores sempre podem mentir, mas pelo menos a mentira fica registrada, rsrsrs.

  9. Gostei de texto (como de todos aqui 🙂
    Mas acho que às vezes, se alguém traz uma ajuda fundamental em campo, faz sentido que ele seja convidado para ser coautor. É claro que para isso ele precisaria participar de fato da escrita do artigo, só o trabalho de campo não justifica a inclusão… (Ou seja, não estou falando nada diferente do que você falou rs)

    E uma questão interessante a ser considerada também são os artigos resultantes de pesquisa participativa. É uma abordagem bastante usada em Educação Ambiental. Não entendo direito do assunto, mas são estudos feitos em grupo, sobre o grupo. Uma forma de definir quem serão os autores do trabalho final é perguntar aos participantes: “Você se sente co-autor deste trabalho?” E a própria pessoa decide se considera aquele trabalho como seu também, e se deveria entrar na coautoria….

    🙂

    1. Oi Pavel, pois é, precisamos criar novas formas de lidar com essa história de co-autoria. Hoje em dia, a regra é os papers serem escritos por no mínimo 3 pessoas, pelo menos na Ecologia e na Zoologia. Sei lá onde está a média, mas deve ser por volta de 5-6. Mas uma coisa é certa: as regras, em cada trabalho, devem ser honestas e precisam ser claramente discutidas no grupo antes de se começar a pesquisa. E todos os autores devem estar de acordo. Um abraço!

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s