Para que servem congressos?

Acabo de voltar de dois excelentes congressos: ATBC 2012 e VI CBMz. Observando o comportamento de muitos alunos nesses eventos, resolvi escrever este artigo. Bom, indo direto ao ponto: para que servem congressos, afinal de contas? Como alunos podem aproveitar melhor as oportunidades que surgem nesses eventos?


Como já comentei em outros artigos aqui no blog, a ciência é uma cultura humana. Como tal, ela tem valores, objetivos, costumes e rituais próprios, que definem sua identidade de grupo. Os congressos são um dos rituais mais valiosos. Isso porque cientistas, em 90% do tempo, comunicam-se apenas de forma escrita através de artigos, mas nada substitui uma comunicação ao vivo e a cores. É nos congressos que novas parcerias são estabelecidas e laços antigos são fortalecidos. Pode-se até começar um contato com um colega por e-mail, mas é só depois de um congresso ou de uma visita pessoal que a colaboração realmente engrena. Além disso, é comum cientistas fazerem amizade entre si, até mesmo porque passam tanto tempo envolvidos com o trabalho, que conhecem poucas pessoas novas fora do círculo acadêmico. Há colegas que você só encontra em congressos.

Outro ponto importante é que em congressos de alto nível é possível tomar conhecimento de novidades que estão aparecendo em cada área. Nos congressos mais regionais isso é mais difícil, mas nos internacionais geralmente surgem novidades bem legais. Também não podemos nos esquecer de que congressos são ótimos para fazermos propaganda de trabalhos recém-publicados ou no prelo. Por isso, cientistas profissionais (i.e., os que já terminaram a pós e ocupam cargos de professor ou pesquisador) dão grande valor aos congressos, tentando ir em tantos quanto podem. É claro que, depois de adquirir experiência, você começa a priorizar alguns eventos em detrimento de outros. Um cientista já calejado leva em conta uma combinação de fatores como tema, rigor na seleção de trabalhos, tamanho do evento, cidade ou país onde ocorre, e pessoas que o freqüentam.

Botando tudo na balança, cientistas profissionais, em geral, participam no máximo de um a três congressos favoritos por ano. Até mesmo porque a preparação toma muito tempo e o financiamento para eventos é limitado, ainda mais os internacionais, que podem ser bem caros.

Mas e no caso de alunos que ainda estão cursando a graduação ou pós-graduação? Vale a pena ir a congressos, considerando que eles raramente têm financiamento para tal? Minha resposta é sim, com certeza! Se não tiver um projeto te bancando, dê um jeito. Vá vender limão na esquina para juntar grana, se for preciso. Congressos valem à pena para os alunos pelas mesmas razões que motivam os cientistas profissionais: networking e atualização. No caso dos alunos, as vantagens são maiores ainda, pois eles ainda são pouco conhecidos e conhecem pouca gente. É nos congressos, através de pôsteres bem feitos, palestras bem apresentadas e conversas inteligentes, que alunos podem começar a fazer um nome. Não se engane: é fundamental publicar, mas são os congressos que te tornam conhecido e consolidam sua reputação como cientista. Uma coisa alimenta a outra. Através de bons contatos feitos em congressos muita gente arruma estágios, orientadores de mestrado e doutorado, e até mesmo empregos.

Infelizmente, vejo que alunos da nova geração (nascidos nos anos 90 ou final dos 80) não têm mais tanto traquejo para otimizar sua participação em congressos. Talvez seja um fruto de uma vida excessivamente online e infantilizada, na qual muitos crescem hoje em dia. Não aprendem mais profundidade e foco, apenas multi-tasking. Não aprendem mais a abordar e se comunicar com os mais velhos. Não aprendem mais como fazer networking na vida real, fora das redes sociais. Muitos alunos nerds preferem assistir obsessivamente a quase todas as palestras nos congressos, ao invés de trocarem idéias com os colegas. Outros alunos mais sociais preferem chutar o balde e cair na gandaia toda noite, acordando tarde no dia seguinte, sem condições fisiológicas de prestar atenção em nada. Não que não se possa enfiar o pé na jaca de leve; um pouco de social em congressos não faz mal a ninguém, mas desde que com controle e moderação. Há alunos meio bichos-do-mato que ficam com vergonha de falar com colegas mais velhos; isso é ridículo para alguém que já está na faculdade e tem 20 e poucos anos na cara.

O problema é que muitos alunos, tanto os nerds quanto os sociais e bichos-do-mato, no final das contas, caem na armadilha do “depois escrevo para esse professor”. Tolinhos… Bons cientistas, que já ocupam cargos de professor ou pesquisador, ou até mesmo postdocs em começo de carreira, têm pouquíssimo tempo livre e recebem toneladas de e-mails por dia. Profissionais com destaque em uma determinada área respondem apenas uma pequena parte dos e-mails que recebem; não por serem esnobes, mas simplesmente por falta de tempo. Se fossem responder a todo mundo que lhes escreve, não fariam mais nada da vida e não seriam tão produtivos. Assim, seu e-mail enviado do além, sem contexto, tem pouquíssimas chances de ser respondido. A não ser que você crie um diferencial.

Se você tiver falado pessoalmente com o cientista-alvo durante o congresso, ele provavelmente vai se lembrar de você e dar mais atenção ao seu e-mail. Assim você se destacará na multidão, especialmente se tiver tido uma conversa interessante com ele. Não adianta apenas chegar junto do professor e falar “admiro seu trabalho, sou seu fã”. Fale algo mais concreto, cite um trabalho específico e diga porque gostou dele. Faça perguntas sobre temas relacionados ao seu projeto, nos quais o sujeito é especialista. Pense antes de falar, planeje por alto a conversa, mas sem dar uma de mala-sabichão. Não interrompa uma conversa que o seu alvo estiver tendo com outra pessoa; espere por brechas e seja educado. Isso vai causar uma boa impressão e te dar um valiosíssimo “crédito de atenção”.

Sendo assim, quando for ao próximo congresso, vá com a mente focada. Não perca seu tempo assistindo dezenas de palestras. Assista apenas as mais interessantes e gaste a maior parte do tempo conversando com a maior variedade possível de colegas, tanto os menos experientes, quanto os mais experientes. Para um cientista experiente, um coffee break com 30 minutos oficiais, na verdade, dura 90. Reforce o contato com os colegas que já conhece. Quando for apresentar um pôster, não fique de bate-papo com os amigos; use o tempo da sessão para responder perguntas feitas por gente que você ainda não conhece. Na hora de apresentar uma palestra, tente causar a melhor impressão possível e puxe papo no intervalo com os outros palestrantes da mesma sessão. À noite, freqüente as festas e cocktails do congresso, até mesmo para relaxar. Faça um bom social com os colegas, mas sem beber até cair e sem ir dormir tarde demais, para estar em boas condições no dia seguinte. Se passar do limite uma vez ou outra, tudo bem, desde que não pague mico na frente de todos (e.g., subir na mesa e fazer um strip). Mas não perca a linha em todas as noites do congresso, a não ser que você seja o Wolverine e tenha um fator de cura mutante.

Minhas três últimas recomendações para congressos são: networking, networking e networking. Se quiser aprender sobre um assunto, não procure um congresso relacionado; peça bibliografia a quem entende da parada.

Sugestões de leitura:

26 opiniões sobre “Para que servem congressos?

  1. Pingback: Pense duas vezes antes de virar cientista | Sobrevivendo na Ciência

  2. Concordo plenamente com as suas observações. Eu também acrescentaria que, muitas vezes, o problema está em saber quando uma palestra é interessante ou não ANTES da palestra. Muitas vezes assuntos interessantes são desperdiçados em apresentações mal-preparadas. Em outros casos, apresentações muito bem preparadas me abrem a cabeça para um tópico ou idéias que eu não tinha muito interesse antes de começar a palestra. Ou seja, acho difícil conseguir selecionar as palestras para assistir e, a minha recomendação, é que os alunos tentem na medida do possível assistir as palestras – ao menos para conhecer os “players” da área. Mas concordo: networking é o principal objetivo das conferências.

    • Eduardo, realmente fazer uma boa seleção é difícil. A gente só começa a ter um bom chutômetro para palestras depois de acumular alguma experiência. Dá para arriscar um palpite sobre a possível qualidade ou relevância da palestra, com base, nesta ordem, no palestrante, no evento, no título e no resumo. Já vi quase todas as combinações possíveis desses elementos como, por exemplo, bons palestrantes dando palestras boas em eventos bons, ou bons palestrantes dando palestras ruins em eventos ruins. Mas nunca vi maus palestrantes dando palestras boas em qualquer tipo de evento. Para quem está começando, escolher as palestras acaba sendo mais uma questão de arriscar pelo título e o resumo. De qualquer forma, reforço meu conselho: mesmo não tendo um bom chutômetro no começo da carreira, não tentem assistir todas as palestras de um congresso. Gastem 2/3 do evento com networking.

  3. Parabéns, um dos melhores textos que li na net nos últimos tempos. Isso, na minha opinião é o que fará o diferencial no futuro. TODOS amigos bem sucedidos cientificamente que conheço se enquadram nesse texto…

    • João, um bom networking é tão importante para a sua carreira quanto uma boa formação técnica. Sério, conheço colegas que são ótimos cientistas, porém são quase desconhecidos pela comunidade e são pouco citados, simplesmente porque não fazem um bom social, um marketing pessoal positivo.

  4. Caro Marco. Sua apresentação, forma de escrita e ataque ao assunto são formidáveis. Eu, que frequentei congressos desde 1986, agora já não participo mais. Eu tenho várias razões para isso (e talvez desse um bom post!), mas vou resumir ao fato de, digamos, ter mudado meus interesses. Já participei de congressos sem ter assistido a sequer uma apresentação. Nisso concordo totalmente com seu texto. Afinal, congressos deveriam ser chamados de “Congraços”, pois a parte mais importante (e a mais legal) é o congraçamento que se torna possível, mesmo que em um ritmo louco e ansioso. De fato, a coisa de que mais sinto falta em congressos é o contato com novos e velhos amigos, seja no ambiente em si, seja – não há porque negar – nos bares, festas, bebedeiras e ressacas. Esse tipo de contato cria uma ligação especial que não é apenas de relacionamento profissional, mas especialmente de trocas bonitas e fraternas entre as pessoas. O cientista precisa se humanizar. E também tentar voltar a ser humano pois a maior parte deles deixou para trás essa virtude, talvez sem tempo além dos cálculos e dos olhos atentos nos qualis das revistas em que irá publicar. De novo, parabéns por seu texto!

    • Obrigado, Fernando! Pois é, essas relações humanas na Academia estão se perdendo em nome de uma competitividade insana e cega, infelizmente.

  5. Gostei muito do seu blog, ele me fez pensar bastante sobre como interagir nos congressos, indiquei para alguns amigos

    • Obrigado, Charles. Congressos são essenciais na carreira de um cientista. Só falta nos apresentarem, quando ainda somos alunos, o “modo de usar”.

  6. Boa noite Marco,

    Fico feliz em ver um blog com excelente qualidade e mesmo já tendo escrito em outro momento gostaria de lhe parabenizar mais uma vez.

    Este post já havia me chamado atenção faz algum tempo, entretanto, ainda não havia tido chance de ler na íntegra. Posso dizer que experimentei um pouquinho de cada uma dessas fases, primeiro, a etapa nerd de assistir todos as palestras e com o tempo você vai vendo a importância das relações que se estabelecem mesmo num congresso. Alguns outros eventos infrutíferos, perdidos, porque só houve apenas o congraçamento como traz o nosso colega acima. Até que fui encontrando um equilíbrio entre a networking e a atualização propriamente dita.

    Nesse sentido, acho que este post casa muito bem com o que você relata sobre as leituras que devem ser priorizadas. Confesso que gostaria muito de ter tido essas orientações desde cedo na academia, porque, certamente, teria potencializado essa rede de contatos.

    Acho que ainda há outro ponto a se discutir, algumas pessoas constroem uma networking e conhecem diversos contatos e nem sempre trabalha no fortalecimento desta rede. Ainda não sei ao certo como realizar este fortalecimento, porém, acredito que a chave não é apenas conhecer os contatos, ou ser conhecida. Mas, estar associada a determinado tema de forma que as pessoas ao ouvirem falar a respeito deste se conectem ao seu nome e possam de alguma maneira manter-lhe informado a cerca, por exemplo, do seu objeto de estudo. Acho que você deve ter mais bagagem para falar a respeito ou lançar mão deste diálogo no momento que seja mais oportuno, o que acha?

    um beijo

    • Oi Carla! Você tocou num ponto fundamental e até me deu uma idéia para um tema de artigo. Para 99% dos cientistas (e não só dos biólogos) é importante criar na rede profissional uma reputação não apenas de honestidade e seriedade no trabalho, mas também de entender profundamente de alguma coisa. Pode ser um táxon, um ambiente, um tipo de interação, ou uma abordagem. Se você tem sucesso nisso, passa a ser a “Fulana dos Morcegos” ou a “Fula da Polinização”, por exemplo. Isso te ajuda a se manter atualizada sobre o seu tema de interesse (as informações passam a fluir para você com o tempo) e também a ser requisitada para projetos, parcerias, consultorias etc. O 1% que sobram dos cientistas com boa reputação conseguem ir além e serem associados a dois ou mais temas; mas isso é mais para os grandes mestres que transitam facilmente entre áreas. Um abraço!

  7. Pingback: A importância de fazer um nome | Sobrevivendo na Ciência

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  9. Marco, vejo uma dicotomia bem patente também entre congressos nacionais (se tratando de brasileiros) e congressos internacionais. Em congressos internacionais, concordo, o pesquisador vai fazer propaganda, falar que que está no prelo ou sendo escrito e “demarcar área”. Demarcar área é mostrar os resultados preliminares de pesquisas que estão começando, se pondo como líder naquele ponto específico de desenvolvimento da ciência e buscando colaborações. Bares em frente ao congressos lotados DEPOIS das 18:00. Não que eu tenha ido a muitos, mas todos foram assim. Particularmente os da ATBC.
    Já em congressos nacionais a coisa é diferente. Lá se apresentam trabalhos que foram publicados em média, há 3 anos atrás. As vezes a mesma palestra sendo dada recorrentemente por anos e edições do mesmo congresso. São locais de ir encher a lata e ir curar ressaca na praia… infelizmente. E aí são palestras vazias, seção de posteres vazia e até mesmo frustrante…E, devo dizer, já é assim faz um bom tempo – ao menos o tempo que eu estou em ciência. Isso é tão notório que até a Capes parou de contabilizar resumos em congressos ou participações ao avaliar cursos de pós-graduação na área de Biodiversidade (a famosa politica de punir todos pelos erros de poucos).
    Fatalmente são escolhidos em lugares fantásticos e com preços caros, o que dificulta a ida, mas muitos escolhem o congresso pelo local. Sempre me dói um pouco os “incentivos financeiros” dados por universidade á graduandos para congressos nacionais. Ou mesmo obtidos em agências de fomento. De qualquer forma é dinheiro público e usado de maneira Lulística!

    Bem, foi apenas um ponto a se considerar. A cultura de congresso ser férias pagar para pesquisadores e graduandos tem de acabar. Que os Congressos nacionais renasçam como marcos (sem trocadilho aqui) de disseminação de conhecimento e estabelecimento de parcerias
    E um feliz 2013

    • Concordo contigo, Thiago. Infelizmente essa é a realidade da maioria dos congressos nacionais. Os únicos que se salvam são os mais especializados, menores, com mais cara de workshop ou simpósio. Outra coisa que mata os congressos nacionais é a mentalidade que muitos ainda têm de “focar nos alunos”, uma das manifestações do famigerado populismo acadêmico. O resultado é que alguns congressos têm propositadamente um baixo nível, “para os alunos acompanharem melhor”. Ao invés de palestras, são dadas aulas – e de má qualidade. Além de isso matar um congresso, ainda é subestimar os alunos, que são tratados como incapazes intelectuais. Congressos servem para facilitar o networking da comunidade científica interessada num dado tema e para discutir novidades. Justamente quando os congressos têm esse caráter de evento de ponta é que os alunos mais se beneficiam, porque conhecimento estabelecido e mastigado eles já recebem de sobra nas aulas jurássicas da universidade. No fundo, é o velho problema das pessoas tentando reinventar a roda e, no final, ela acabar ficando quadrada.

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  14. Suas palavras aina não perderam a validade, rs
    Parabéns pelo texto, foi super válido pra mim.

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