O clube da citação

Uma das peculiaridades mais interessantes da Academia é o fenômeno das citações. Aqui vou tratar tanto da importância de fazer e receber citações, quanto do lado mais obscuro desse processo.

Antes de mais nada, é bom lembrar que o conhecimento científico só se torna científico mesmo, depois de ser validado pelos pares. Não basta você ter uma idéia maluca ou fazer um experimento qualquer e sair por aí dizendo que descobriu algo: você tem que apresentar o seu estudo à comunidade. Pode ser na forma de um artigo, livro ou tese, tanto faz.

O importante é submeter suas descobertas à apreciação dos seus pares, que decidirão se concordam ou não com as suas interpretações. É claro que, às vezes, uma idéia é tão nova e vai tão fortemente contra o senso comum, que ela demora a ser aceita. Porém, excelentes idéias, um dia ou outro, acabam sendo aceitas e virando paradigmas, mesmo que isso demore décadas. De qualquer forma, a revisão por pares em revistas ou bancas de teses, em geral, aumenta muito a qualidade dos trabalhos científicos e ajuda a separar o joio do trigo (leia-se: bloquear pseudociência e estudos mal feitos).

Essa aceitação pelos pares começa no processo de publicação, nas batalhas travadas com os revisores e o editor. Depois de estarem todos os lados satisfeitos, o artigo é publicado e começa outra batalha, desta vez com os leitores. Assim que um colega descobre o seu artigo, ele vai ler primeiro o título e o abstract. Se eles forem interessantes, o seu colega dará uma olhada nas figuras e no começo da discussão. Se essas partes também lhe prenderem a atenção, ele poderá vir a ler o artigo inteiro. Aí começa a brincadeira de verdade.

Existem três possibilidades básicas depois que o seu colega ler o artigo. Ele poderá: (i) considerar o seu trabalho, no final das contas, apenas mais do mesmo e engavetá-lo no terrível limbo da irrelevância científica; (ii) considerar o seu trabalho relevante, mas discordar de uma ou mais interpretações, e acabar decidindo usar seu trabalho como exemplo negativo; (iii) considerar o seu trabalho relevante, concordar com boa parte do que você propôs e usar seu trabalho como exemplo positivo. É claro que existem tons de cinza (50?) entre essas possibilidades, mas no geral as coisas seguem por um desses três caminhos.

Acredite: a possibilidade (i) é a pior de todas. Nada é mais frustrante do que dar sangue, suor e lágrimas para concluir um trabalho e depois vê-lo ser solenemente ignorado. A gente não faz projetos apenas para encher o Lattes, mas para ajudar a montar quebra-cabeças científicos; no final, todos esperamos reconhecimento pelas pecinhas que encaixamos. Nos casos (ii) e (iii), seu trabalho provavelmente virá a ser citado. Isso é um bom sinal, pois mostra que o seu estudo mexeu com os colegas e não foi ignorado. É claro que se ele for citado positivamente, melhor ainda. Será a glória se, depois de alguns meses ou anos, aparecerem novos trabalhos na literatura inspirados pelas coisas que você descobriu.

Parece tudo limpo, lógico e saudável, não?

Infelizmente, na Academia nem tudo são flores. Como em toda cultura humana, especialmente aquelas relacionadas a atividades de alto rendimento (por exemplo, arte de vanguarda, mercado financeiro, política internacional e mundo corporativo), há também muita vaidade, competitividade e jogo sujo nessa história. Muitos negam veementemente, mas há verdadeiros “clubes de citação” no mundo científico.

Alguns (não todos, claro!) dos poucos cientistas que competem ferozmente por espaço nas revistas top de cada área golpeiam abaixo da cintura para manterem seu status. Como comentei em outro artigo, a primeira forma de boicotar os coleguinhas e sair na frente é através de revisões mal-intencionadas. Há pessoas que cortam a concorrência na fonte, quanto têm a oportunidade de revisar manuscritos de colegas que trabalham com o mesmo tema e ameaçam seu status.

Uma forma mais sutil de valorizar o seu clubinho e boicotar a concorrência é não citar os artigos das pessoas de fora do “Círculo de Confiança da Família Byrnes”. Há grupos de pesquisa fortemente ligados que têm verdadeiros acordos velados de citação mútua: eu te cito, que você me cita, que eu te cito de novo. Isso acontece mesmo em algumas revistas conhecidas, que, chutando para o lixo toda ética científica, recomendam nas instruções para autores que sejam priorizadas citações de artigos da própria revista.

Não importa se um outro artigo é uma fonte mais correta: se os autores não pertencem ao clubinho, sinto muito. Não importa se alguém testou uma dada hipótese ou fez uma dada descoberta antes: se os autores não pertencem ao clubinho, sinto muito. Não importa se um dado assunto já foi estudado por vários colegas, porém publicado em revistas de menor circulação: se os autores não pertencem ao clubinho, sinto muito.

Citações ética e cientificamente corretas devem ter como base dar crédito a quem descobriu algo ou propôs primeiro uma idéia. Servem também para apontar alguém que refutou ou melhorou uma dada idéia mais recentemente. As citações, por fim, ajudam a guiar o leitor para as fontes primárias, diminuindo as chances de propagação de erros. Só que, no mundo científico patologicamente competitivo de hoje em dia, as citações viraram moeda corrente, e alguns colegas não se importam de enriquecer por meio de trapaça.

Conselho final

Fica a dica para os aspiras: não coloque nada na frente dos seus valores, nem mesmo o currículo  (Myagi 1986). Cientistas que ficam de fora desses clubes de citação demoram mais a deslanchar nas publicações. Contudo, se você fizer o seu dever de casa e começar a produzir descobertas importantes na sua área, um dia ficará impossível as pessoas te ignorarem.

PS.1: Um desses clubes aos quais me refiro no post foi revelado de forma vergonhosa. Leia a matéria na Nature.

PS.2: Físicos criaram um algoritmo para detectar clubes de citação. Leia a matéria no Retraction Watch.

Sugestões de leitura:

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3 respostas para “O clube da citação”

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