O clube da citação

Um dos rituais mais peculiares da academia são as citações. Infelizmente, nelas também há um lado sombrio.

Antes de mais nada, é bom lembrar que o conhecimento científico só se torna científico mesmo, depois que é validado pelos pares. Então não basta você ter uma idéia maluca ou fazer um experimento qualquer e sair por aí dizendo que descobriu algo. Você tem que apresentar o seu estudo formalmente à comunidade e ver o que ela pensa sobre ele. Pode ser na forma de um artigo, livro ou patente.

Depois de fazer uma publicação formal, você torce para os colegas encontrarem e lerem o seu artigo. Depois você tem que torcer para alguns o lerem por completo. Aí então cada leitor poderá reagir ao seu trabalho das seguintes formas: (i) considerá-lo apenas mais do mesmo e engavetá-lo no terrível limbo da irrelevância científica; (ii) considerá-lo relevante, mas discordar de algum ponto importante e fazer uma crítica; (iii) considerá-lo relevante, concordar com as suas interpretações, e então usar sua descoberta para gerar novas ideias.

Isso, é claro, fora as reações informais nas redes sociais, como a post-publication peer review que em alguns casos beira a difamação. Naturalmente, existem cinquenta tons de cinza entre essas possibilidades, mas no geral as coisas seguem por um desses três caminhos.

Acredite: a possibilidade (i) é a pior de todas. Nada é mais frustrante do que dar sangue, suor e lágrimas para concluir um trabalho e depois vê-lo ser solenemente ignorado. A gente não faz projetos para encher o Lattes, mas para ajudar a montar quebra-cabeças científicos. No final, todos esperamos reconhecimento pelas pecinhas que achamos, encaixamos ou retiramos do jogo.

Nos casos (ii) e (iii), o seu trabalho provavelmente virá a ser citado. Isso é um bom sinal, pois mostra que o seu estudo mexeu com os colegas de alguma forma. É claro que se ele for citado positivamente, melhor ainda. Você pode “glorificar de pé”, quando, depois de alguns meses ou anos, aparecerem novos trabalhos na literatura inspirados pelas suas descobertas.

Parece tudo limpo, lógico e saudável, não?

Infelizmente, na Academia nem tudo são flores. Como em toda cultura humana, especialmente as carreiras de alta performance, há também muita vaidade, competitividade e jogo sujo. Muitos negam veementemente, mas há verdadeiros “clubes da citação” (também chamados de cartéis) no nosso pequeno mundo.

Como comentei em outro post, a forma mais suja de boicotar os concorrentes e sair na frente é através de revisões mal-intencionadas. Há pessoas que cortam a concorrência na fonte, quanto têm a oportunidade de revisar manuscritos de colegas que trabalham com o mesmo tema e ameaçam sua primazia ou seus paradigmas de estimação.

Só que outra forma mais sutil de valorizar o seu clubinho e boicotar a concorrência é não citar os artigos das pessoas de fora do “Círculo de Confiança da Família Byrnes”. Há grupos de pesquisa com jeitão de máfia que fazem verdadeiros acordos velados de citação mútua. Eu te cito, você me cita, e eu te cito de volta. Isso acontece até mesmo no nível das revistas, sendo que, uns anos atrás, algumas delas chegavam até mesmo a mandar explicitamente, nas normas para autores e revisores, que os artigos da própria revista ou de revistas da mesma editora fossem priorizados nas citações. Haja cara de pau.

Bom, para esses clubes da citação, não importa se um determinado artigo resolveu o problema de interesse antes. Se os autores dele não pertencem ao clubinho, sinto muito. Não importa se alguém testou uma determinada hipótese ou fez uma descoberta antes. Se os autores não pertencem ao clubinho, sinto muito. Não importa se o mesmo fenômeno já foi interpretado de forma diferente por vários colegas. Se os autores não pertencem ao clubinho, sinto muito.

Citações corretas devem visar dar crédito a quem descobriu algo ou propôs uma idéia primeiro. Elas servem também para apontar alguém que refutou ou melhorou uma idéia mais recentemente. As citações, por fim, ajudam a guiar o leitor para as fontes primárias, diminuindo as chances de propagação de erros. Só que, no mundo acadêmico patologicamente competitivo em que vivemos, as citações viraram moeda corrente. Assim, alguns colegas não se importam em trapacear descaradamente.

Conselho final

Fica a dica para os aspiras: não coloque nada na frente dos seus valores (Miyagi 1986), nem mesmo o currículo. Cientistas que ficam de fora desses clubes de citação demoram mais a deslanchar nas publicações. Contudo, se você fizer o seu dever de casa e começar a produzir descobertas importantes na sua área, um dia ficará impossível te ignorar. Pode ser até que você funde uma linha de pensamento alternativa dentro daquela área temática.

PS.1: Um desses clubes aos quais me refiro no post foi revelado de forma vergonhosa. Leia a matéria na Nature.

PS.2: Físicos criaram um algoritmo para detectar clubes de citação. Leia a matéria no Retraction Watch.

Sugestões de leitura:

  1. How to spot a “citation cartel”
  2. Articles by Latin American authors in prestigious journals have fewer citations
  3. What determines the citation frequency of ecological papers?
  4. The growing competition in Brazilian science: rites of passage, stress and burnout
  5. In the academic job market, will you be competitive?

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8 respostas para “O clube da citação”

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