Que leituras devo priorizar?

Muitas pessoas, quando vão ao supermercado, sentem-se angustiadas diante da enorme variedade de produtos. Surge o dilema existencial: qual creme dental devo levar, se há 419 marcas para escolher? Um fenômeno muito parecido acontece no mundo científico. A quantidade de artigos publicados todo mês, mesmo em áreas especializadas, é enorme e cresce exponencialmente. Neste artigo, dou algumas dicas sobre como escolher os trabalhos que você vai ler, já que nem Chuck Norris consegue ler tudo o que sai.

A primeira habilidade a exercitar, a fim de se aperfeiçoar na arte de escolher literatura, é o desapego. Abstraia: você não vai conseguir ler todos os artigos sobre o tema de estudo que escolheu, a menos que ele seja um tema tão absurdamente especializado, a ponto de se contar nos dedos os trabalhos já publicados. Na grande maioria dos casos, ainda mais considerando-se não apenas o tema específico (e.g., seleção de frutos por morcegos Carollia), mas também a grande área a qual ele pertence (e.g., frugivoria e dispersão de sementes), estamos falando de uma literatura com centenas e até milhares de artigos. Isso, fora livros, dissertações, teses, relatórios, blogs e outros tipos de texto. Não se esqueça também que, além da enxurrada mensal de artigos publicados hoje em dia, você ainda precisa considerar os trabalhos antigos e, é claro, os clássicos. Por fim, há muitos artigos dos quais você nem ficará sabendo, porque eles não estão indexados nas bases de dados que você costuma consultar, ou porque eles até apareceram nas suas consultas, mas você não os notou.

Esqueça também o mito de que cientistas devem ler pelo menos um artigo todo dia. A vida científica envolve várias atividades e é comum passar uma semana ou mais sem ler artigo algum, mas depois compensar o atraso numa semana menos atolada. Além disso, muitos cientistas lêem todo dia, sim, mas não só artigos, como também livros, teses e textos em geral (técnicos ou não). Pronto. Agora que a sua ansiedade diminuiu e você se conformou com a impossibilidade de dominar 100% da literatura, é hora de escolher os trabalhos que vai ler.

A primeira coisa a considerar é: (i) estou apenas me atualizando sobre um assunto que me é familiar? ou (ii) estou pesquisando sobre um assunto inteiramente novo?

No caso (i), o mais fácil e corriqueiro, você provavelmente vai tomar conhecimento de novos artigos através de e-mails com TOC (calma, estou falando de table of contents, vulgo sumários de revistas), postagens de revistas e autores via RSS e redes sociais (Twitter, Facebook, Mendeley, Research Gate, LinkedIn etc.) ou alertas criados no Google Scholar. Atualmente, essas são as maneiras mais fáceis de se manter atualizado. Cultive seu networking virtual e sua vida ficará bem mais fácil. Obviamente, essas ferramentas ultra-modernas não substituem completamente uma boa busca semanal ou quinzenal nos índices Web of Science, Scopus e Scielo.

Nessa busca por novidades quentes, fica mais fácil decidir o que ler. Em geral, como você conhece bem o tema, vai saber já pelo título e o abstract se o trabalho traz alguma novidade ou não. Não perca tempo lendo “mais do mesmo”: você não tem a obrigação de ler tudo e esse nem sequer é um objetivo sensato. O que não falta na literatura atual, guiada pela paranóia do “publish or perish“, são artigos sem criatividade ou originalidade, que apenas chovem no molhado ou forçam a barra para parecerem interessantes. Gaste o seu precioso tempo com artigos que proponham idéias novas ou ataquem idéias estabelecidas. Como nada substitui a propaganda boca a boca, preste atenção também às recomendações dos seus colegas.

Já no caso (ii), a coisa é mais complicada. Aqui estou me dirigindo aos novatos na ciência, que precisam aprender sobre um tema desde o zero. Se você é um aluno entrando no maravilhoso mundo do bacharelado, iniciação científica ou TCC, vai ter muito trabalho pela frente, caso o seu orientador não te trate apenas como braçal (torça por isso!). No mestrado e no doutorado, o aluno já tem mais experiência com a literatura, mas a exigência de fazer uma tese o obriga a ler em profundidade, dissecar melhor os trabalhos e entender não só a sua mensagem como também o seu contexto mais amplo.

Aí começa o dilema do mestrando (menos grave no caso do doutorando): ele tem apenas dois anos para defender a dissertação, incluindo o tempo gasto com as disciplinas. Dentro desse prazo, o cara precisa ler tudo o que puder sobre o tema escolhido, elaborar o projeto, executá-lo e, se possível, ainda publicá-lo. Como já deixei claro em outros artigos, o sucesso na pós-graduação depende não apenas de talento e empenho, mas também de muita disciplina.

Holy Chuck, o que fazer então? O truque é estabelecer prioridades, antes mesmo de começar a busca sistemática por literatura. Esta é a ordem que sugiro para as leituras na pós-graduação, quando você está aprendendo sobre um tema novo:

  1. Comece por livros-texto e livros autorais (aqueles que são coletâneas de artigos) sobre a área maior que contextualiza o seu tema específico;
  2. Depois de ter lido esses trabalhos introdutórios, parta para as revisões mais importantes sobre o tema, como aquelas publicadas em revistas do naipe da Trends in Ecology and Evolution, Quarterly Review of Biology, Biological Reviews, Annual Review in Ecology, Evolution and Systematics e Ecography;
  3. Nesse ponto, o assunto já não será mais tão alienígena para você. É hora de ler os trabalhos clássicos (seminal papers), que fundaram o seu tema de interesse ou alguma de suas nuances. Uma perspectiva histórica é fundamental;
  4. Agora que você já conhece as teorias, axiomas, teses, hipóteses e fatos principais dentro do seu tema de estudo, pode refinar suas leituras e saber em que pé o conhecimento está. Neste ponto, procure os artigos mais recentes sobre o tema, dando prioridade àqueles mais citados ou fofocados em congressos, independente de onde foram publicados;
  5. Pronto, você está quase lá! Agora pode se dar ao luxo de ler os estudos de caso mais específicos, ligando o tema de estudo a um ou mais táxons interessantes e priorizando, é claro, o táxon que você usará como modelo no seu próprio projeto de pesquisa.

Sim, eu sei, é trabalho à beça. Achou que havia uma fórmula mágica para ter que ler só meia dúzia de papers? Zero-dois, o senhor é um fanfarrão! Quem disse que fazer ciência é fácil? Se ler é algo que você considera trabalhoso ou dolorido demais, provavelmente você está na carreira errada.

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20 respostas para “Que leituras devo priorizar?”

  1. Marco, adorei o seu blog!
    Vou entrar agora no Mestrado de Ecologia da UFMG e já estou visualizando as coisas com mais clareza, sobre o que acontece na pós. Realmente os posts são muito bons, com uma linguagem que faz parecer que estamos conversando! Virei leitora fiel do blog!

    1. Fico feliz em saber que curtiu o blog! Nos vemos nas disciplinas então. Em quais você de inscreveu?

  2. Meu Professor Zoologia me indicou essa leitura, já que estou na fase do TCC. Após ter lido este post, busquei os demais anteriormente publicados. Os conteúdos são ótimos e tem me ajudado a ser mais objetivo, assim refinando melhor minhas buscas bibliográficas. Parabéns pelo blog!
    obs: Poderia me indicar alguns livros?

      1. Divulgações científicas, livros-texto e autorais no campo da zoologia e evolução!

  3. Olá Marco, meu nome é Bruno, sou aluno de biologia e orientado pelo prof. Flavio Nunes Ramos…Estou iniciando no mundo científico e gosto muito das suas dicas.
    Valeuuu

  4. Arthur, se você tem essas sensações quando está lendo trabalhos científicos ou envolvido com outras partes da pesquisa, parabéns, pois você está na carreira certa! 🙂

  5. Bom, realmente a dica é muito boa. Disciplina e organização.
    Acabei de começar o mestrado e percebo que quanto mais o nível de exigência aumenta, maior deverá ser nossa capacidade de gerenciar nosso tempo.

    Marco, muito obrigado por dividir suas experiências.

    1. Arthur, de nada! Algumas pessoas-chave me ajudaram quando eu estava começando, então só tento retribuir o favor de maneira multiplicada. Quanto ao assunto do post em si, não se preocupe: a carga de trabalho só piora com o tempo, rsrsrs. Mas aumenta também nossa experiência e capacidade de priorizar as atividades, então uma coisa compensa a outra.

      1. Ahahah, adorei a brincadeira do “piorar com o tempo”.

        Mas, como explicar o prazer que temos quando estamos envolvidos em algo que nos dá prazer? (Nesta caso, a ciência) Ehehehe.

        A relação tempo/espaço às vezes se perde no desejo da descoberta. Ou será que sou só eu que me perco??Rsrs..

        Conheci seu blog através do blog Teoria Prática do Prof.º Eduardo e da Prof.ª Emico, onde tive a honra de escrever um post sobre aplicação do mestrado em território francês. Minha atual situação.

        Mais uma vez parabéns pelo blog e pela generosidade de compartilhar conhecimento, experiência, ciência e humor!!!

        Grande abraço e bom trabalho.

  6. Amanhã já começarei a ler os livros-texto e livros autorais… vamos ver no que dá.
    Quantas horas, normalmente, um cientista consome com leitura?
    Abç,

    1. Patrick, são muitas horas por dia, se você contar todos os tipos de texto (artigos, livros, teses, relatórios, blogs etc.). Aproveitando a deixa do seu comentário no outro artigo, realmente o dia a dia do professor universitário tem um sem número de atividades: escrever artigos, revisar artigos seus, revisar artigos dos outros, analisar dados, fazer trabalho de campo e de laboratório, dar aulas na graduação e na pós, aplicar e corrigir provas, avaliar dissertações/teses/qualificações/tutorias, orientar formalmente alunos, aconselhar alunos em geral, participar de reuniões e comissões, cumprir cargos administrativos em algumas épocas, matar um leão por dia etc. Quando a gente vê, sobra pouco tempo para a leitura, que é uma das coisas mais fundamentais para um cientista em qualquer fase da carreira. Mas quem realmente gosta de ler dá um jeito de inventar tempo e reserva nem que seja apenas uma hora por dia para curtir um bom texto.

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