Sobre a relação orientador-aluno e o populismo acadêmico

Como já deixei claro em outros artigos, considero a relação orientador-aluno sagrada no mundo acadêmico. Ela geralmente envolve alguma tensão e conflito. Aos poucos, estão tentando deixá-la ainda mais complicada do que já é.

Não basta um aspira ter inteligência, iniciativa e talento, se ele não encontrar um bom mestre que lhe ensine o be-a-bá da pesquisa científica e da vida acadêmica. Portanto, é preciso que orientador e aluno trabalhem em sintonia.

Como em toda relação que envolve choque de gerações e assimetria de poder, há conflitos. O importante é não deixar conflitos virarem confrontos. Para isso, é fundamental que tanto o programa de pós-graduação quanto o laboratório sejam bem gerenciados, com políticas e regras claras.

Contudo, algumas universidades parecem ter se esquecido dessa regra de bom senso e agora apelam para políticas populistas de ingresso na pós-graduação. Isso está envenenando a relação orientador-aluno. Aqui neste artigo explico o que está acontecendo, mostro porque o populismo acadêmico é nocivo e apresento algumas conseqüências que ele pode ter.

Um bom orientador é fundamental para a formação de um aspira por diversas razões, como comentei em outro artigo. Isso porque a ciência é uma carreira de alta performance, igual aos esportes olímpicos ou à música de câmara. Ela exige um longo treinamento e a assimilação de uma grande quantidade de informações e habilidades. É fácil se perder nessa jornada e a maioria cai no meio do caminho.

Infelizmente, até mesmo alguns alunos com talento para cientista acabam desistindo durante ou logo depois do mestrado e do doutorado, porque esses cursos são extremamente exigentes e desgastantes. Mesmo quando todas as variáveis vão bem, é quase impossível evitar algum estresse durante a execução dos projetos de tese ou durante as disciplinas mais puxadas.

Portanto, novamente, é fundamental que o aluno e o orientador se entendam bem. Um bom orientador, além de ensinar ao aluno como se faz ciência, dá também dicas sobre que cursos fazer, que congressos freqüentar, de quais agências pedir verbas, em quais revistas publicar, quais laboratórios visitar etc. Sem um orientador, fica tudo mais difícil e o aluno se vê tendo que reinventar uma roda por dia.

Orientador e aluno não precisam necessariamente ser amigos, mas devem ter uma boa relação mestre-aprendiz. Orientador e aluno necessitam de uma boa sintonia, principalmente no que se refere aos interesses científicos e à filosofia de trabalho. Por exemplo, um aluno de pós-graduação vai sofrer muito, se for um bon-vivant, mas cair no laboratório de um orientador workaholic. Ou vice-versa. Da mesma forma, um aluno que gosta de trabalhar sempre em grupo provavelmente não vai se dar bem no laboratório de um orientador que incentiva o individualismo. E por aí vai.

Isso sempre foi consensual na academia. Portanto, a regra vigente desde sempre foi que os professores tinham a prerrogativa de pré-selecionar seus alunos de pós-graduação, que depois deviam passar por um processo de seleção coletivo organizado por cada programa. Nos programas onde as vagas são coletivas, os alunos simplesmente eram ranqueados em conjunto de acordo com sua nota geral e os melhores, independente do orientador, ficavam com as vagas disponíveis em cada edital. Nos programas com um número determinado de vagas reservadas para cada orientador, os alunos deveriam competir entre si pelas vagas que o orientador escolhido oferecesse. Esse segundo modelo foi dominante por décadas.

Assim, cada orientador primeiro entrevistava os interessados em trabalhar com ele e depois dava um ok para que apenas os mais promissores e mais alinhados com seus interesses científicos se inscrevessem no processo de seleção. Se, apesar dessa pré-seleção, o aluno acabasse não tirando uma nota suficiente para passar, sinto muito, mas ele estaria fora de qualquer jeito. Essa era uma forma de professores experientes filtrarem os candidatos e, assim, pouparem tempo e recursos ao programa de pós-graduação como um todo. Ser pré-selecionado por um orientador respeitado era uma bela forma de ter o seu mérito como aluno reconhecido. Os melhores alunos ganhavam esse crédito dos melhores professores e a qualidade do sistema como um todo tendia sempre a aumentar.

Havia desvios? Sim, claro, como em todo sistema brasileiro. Mas favorecimento e apadrinhamento sempre foram mais comuns em algumas áreas do que em outras. E nunca representaram a maioria dos casos. Infelizmente, ganhou volume o boato de que todos os PPGs de todas as áreas, sem exceção, funcionavam à base de cartas marcadas. Isso envenenou a opinião pública contra a pós-graduação no Brasil.

Infelizmente, algumas universidades federais resolveram apelar para o populismo nos últimos anos, por pressão de alguns ministérios públicos estaduais e federais. Alguns iluminados chegaram à conclusão de que, por ser um tipo de concurso público, a seleção de alunos para a pós-graduação deveria ser mais “democrática”. Parênteses: nunca vi uma palavra ser tão abusada nos últimos anos como “democracia”, tanto à esquerda quanto à direita. Ela praticamente virou sinônimo de “sistema onde a minha ideologia é o que importa”.

Mas então o que significa “democrática” na sábia interpretação desses iluminados? Significa o fim da pré-seleção feita pelos orientadores e o fim do direito de cada professor de escolher os alunos que vai orientar. Sim, você não leu errado, é isso mesmo. Alguns gestores, pressionados, decidiram, em universidades federais e estaduais, que qualquer um pode se candidatar a uma vaga em um curso de mestrado ou doutorado sem ter procurado com um orientador previamente. Além disso, em alguns lugares o aluno tem o “direito” de indicar por quem deseja ser orientado.

Não é mais permitido sequer entrevistar os candidatos ao mestrado durante o processo seletivo! Quem conhece a Academia por dentro sabe que uma entrevista é uma ferramenta de seleção mil vezes melhor do que uma burocrática análise de currículo, ou pior, uma provinha escrita.

Por um lado, alunos, em sua maioria, não têm experiência e maturidade para escolher bem um orientador. Tanto que alguns insistem em continuar em laboratórios ruins, mesmo sofrendo na IC, mestrado e doutorado. Por outro lado, professores experientes sabem que selecionar alunos sempre envolve algum risco. Mas eles sabem também que esse risco pode ser minimizado através da convivência prévia, um período probatório ou, no mínimo, uma longa entrevista.

Problema do professor, se ele souber de antemão que trata-se de um aluno sem talento ou vagabundo, que nem sequer se interessa pelos mesmos temas de pesquisa que ele, mas está apenas de olho em uma bolsa. Alguns alunos chegam a ter a cara de pau de admitir que não gostam nem da área, nem do laboratório, mas querem a bolsa de qualquer jeito.

Problema do professor, se ele souber que o aluno até é bom, mas é um notório encrenqueiro, que semeia a discórdia pelos laboratórios por onde passa.

Problema do professor, se o aluno for bom, mas não quiser se integrar à nenhuma linha de pesquisa dele. Isso deixa um buraco na equipe que só pode ser preenchido no ano seguinte, causando prejuízo científico e financeiro.

Você gostaria de ver esse tipo de política totalmente desprovida de meritocracia sendo usada, por exemplo, para selecionar os médicos que te atendem no hospital perto da sua casa? Pois é…

Agora, graças à falácia populista do “tudo para todos”, professores têm sido obrigados a orientar alunos que não escolhem e em quem não acreditam. É claro que a moda pegou, porque, afinal de contas, os cientistas são especialmente hábeis em se conformar e evitar brigas.

É óbvio que educação básica, segurança e saúde deveriam mesmo ser gratuitas, públicas e para todos. Esses são serviços básicos do Estado que garantem cidadania e bem-estar social.

Mas, no campo da educação, do curso técnico ou da graduação em diante, estudar ainda mais é uma questão de perfil, não de origem! O ensino superior deveria ser reservado para quem tem vocação e apetite, independente de classe social, sexo, gênero, idade, cor, religião, partido político, sindicato ou time de futebol. A pós-graduação então, nem se fala. Poucas pessoas têm talento para a ciência e não há nada de anormal nisso, já que se trata de uma carreira muito especializada.

Será que o país está perdendo o bom senso?

Concluindo, se nenhuma contra-medida for tomada, daqui a pouco estaremos nivelando por baixo também a pós-graduação. Ao invés de melhorarem o ensino básico, que só piora, o governo e as autoridades em geral fazem a população de tola. Investem em paliativos populistas no ensino superior, com as mais variadas formas, mas sempre o mesmo resultado: queda brutal na qualidade do sistema como um todo.

Fica a dica para você, aspira: não tente dar uma de malandro, entrando na pós-graduação por uma janela arrombada. No final das contas, quem mais sairá perdendo será você mesmo, porque uma relação orientador-aluno que começa na marra tem grandes chances de dar errado.

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25 respostas para “Sobre a relação orientador-aluno e o populismo acadêmico”

  1. Olá Marco,

    Estou na pós-graduação e acompanho o seu blog há algum tempo. Concordo em grande parte com o que escreveu nesse post. Acredito que Pós-Graduação é de fato uma vocação, mas que nos últimos anos, principalmente após a crise tem sido refúgio para formados que não encontraram emprego no mercado de trabalho e que encontram nas bolsas de estudo uma maneira de garantir no sustento. Enquanto isso, temos uma geração de aventureiros na ciência, gerando resutados fracos e pouco reproduzíveis.

    Também não vejo problemas na pré-seleção de alunos pelo orientador. Acredito que o pesquisador deve poder escolher a equipe com a qual ele gostaria de trabalhar e que trará mais resultados para os projetos que ele tem em mente.

    No entanto, me resta nebuloso o que exatamente você quis dizer com o parágrafo:
    “””
    Concluindo, se nenhuma contra-medida for tomada, daqui a pouco estaremos nivelando por baixo também a pós-graduação. Ao invés de melhorarem o ensino básico, que só piora, o governo e as autoridades em geral fazem a população de tola. Investem em paliativos populistas no ensino superior, com as mais variadas formas, mas sempre o mesmo resultado: queda brutal na qualidade do sistema como um todo.
    “””
    O que seriam esses paliativos populistas no ensino superior a que você se refere? Existem dados que mensuram essa queda da qualidade do sistema? Não consegui entender a hipotése que você levanta aqui, e que dados corroboram, então seria interessante se você conseguisse deixar isso mais explícito (fica a sugestão de um tema para um post).

  2. Marco, não tinha visto este texto antes, mas estive envolvido com a administração da minha universidade federal justamente na época em que fomos forçados pelo MP a seguir este tipo de lógica. Bem, tínhamos a alternativa da reitora ser processada individualmente por cada processo seletivo nosso, mas não sei porque ela não gostou muito da ideia.
    A justificativa do MP foi que é um concurso público com financiamento, e que portanto deveria seguir as mesmas regras de qualquer concurso público.
    No caso do MP aqui em PE, elencaram alguns possíveis mecanismos de seleção pré-definidos e conseguimos adaptar o modelo na nossa universidade de tal forma que pelo menos dá para peneirar quem tem alguma condição de seguir na carreira mais para a frente.
    No entanto, perdemos a capacidade de seleção individual pelos docentes.

    1. Oi mliraj, pois é, acho que houve pressão parecida por toda parte. O MP foi ditatorial nessa questão. Poderia ter sido aberto um diálogo nacional sobre formato, missão e rumos da PG, com reitores e pro-reitores de PG e Pq de todas as federais participando. Os PPGs acusados de fraude sistemática na seleção deveriam ter sido investigados e punidos, quando culpados. Mas, como sempre, é mais prático legislar para todos com base nas exceções, mesmo que isso torne o sistema cada vez mais louco. Essa é a mesma loucura que faz os nossos concursos para professor terem um formato bizarro. Tem muitas coisas que precisam ser revistas e atualizadas nas nossas universidades, mas o MP seguramente não conhece a Academia melhor do que a própria Academia.

  3. Olá, Prof. Marco,

    Também não gosto dessa cultura de “aceitos todos no meu lab”. Isso, para mim, só aumenta a noção de que estudante de pós-graduação é mão de obra barata. Algo que escreverei em breve em meu blog de divulgação científica prismacientifico.wordpress.com

    O que você acha do processo seletivo da maioria das universidades americanas, nas quais APÓS ser aprovado nas provas, os estudantes passam um tempo em cada laboratório do departamento e no final é selecionado por um professor (e pode ter o luxo de selecionar dentre os professores que o selecionaram, se mais de um). É um sistema bem meritocrático (como quase tudo nos EUA), no qual se tem a pissibilidade de acessar a performance de trabalho do estudante, e que ainda possui vários níveis de funilamento.

    Concordo com algumas coisas que disse no texto, mas não todas.

    A primeira é sobre a necessidade de talento para fazer academia. Isso é uma questão de aprendizagem. Com treino e lapidação por parte de um bom mestre, o estudante pode vir a adquirir talento e experiência em uma área. Aliás, é para isso que ele adentra em um laboratório para a pós-graduação, para ser treinado em um determinado campo. O fator limitante que, penso, você procura é a determinação/motivação. Sem isso, nem o mais autodidata e talentoso estudante fazer acontecer… Um bom exemplo disso são alunos que não são aprovados no primeiro ano de vestibular, mas o são no segundo (graduação tbm foi um dos cursos que você disse que não é para todos).

    A segunda é sobre as diferenças de personalidade no trabalho. Eu nunca deixo de comparar um laboratório a uma pequena empresa. Na empresa, se o chefe ou o colega de trabalho tem uma personalidade diferente (bon vivan ou workaholic) pouco importa, o que importa é que isso não faça a qualidade do trabalho decair. Na relação orientador-estudante penso que o mesmo ocorra (e digo por experiência própria de um doutorando workaholic em um lab de uma profa não tão presente assim). Mesmo por que, diferentes personalidades podem adicionar ao trabalho diferentes perspectivas, todas elas construtivas.
    Sem dúvida, pessoas sem motivação (vulgo vagabundo) são um problema e um gasto público desnecessário. E como você mesmo colocou, é dever do professor ou do processo seletivo da pós, de ‘filtrar’ esse perfil. Mas, em hipótese alguma, esse perfil pode ser atrelado a um perfil de personalidade, há menos que haja embasamento científico para isso. Desculpe o termo, talvez haja algum termo mais apropriado, mas escolher alunos pela personalidade e não pelo trabalho me parece um tanto quanto preconceituoso (inocente talvez).

    Desculpe-me as críticas. Só as faço no sentido de adicionar à discussão. Gostaria de ver a sua opinião a respeito.
    No mais, muito bom o texto. Começa a tratar de um assunto que já não é problema lá fora, mas que aqui ainda é um impecilho.

    1. Cesar,

      Eu sou a favor da meritocracia, sempre. E acho que, para ela funcionar direito, todos devem ter boas oportunidades na base. Ou seja, os ensinos fundamental e médio públicos deveriam ter ampla oferta e alta qualidade. Só que o quanto cada um aproveita essas oportunidades e avança na carreira e na vida depende de uma mistura de talento, esforço e disciplina.

      Com relação à pós-graduação nos EUA, o sistema deles varia muito. Em alguns cursos, o aluno entra em acordo com o orientador antes de ingressar, como aqui. Lá não há uma homogeneização do sistema, outro sinal de que a meritocracia e a liberdade acadêmica são maiores em terras gringas. O mesmo vale para a Europa e seus sistemas mistos.

      Já com relação ao peso do talento a partir da graduação, reafirmo o que eu disse. Falo por experiência, pois já dei aula em vários níveis (até em cursos de idiomas!) e já estudei ou trabalhei em várias universidades, inclusive no exterior. Graduação não é para qualquer um e isso não depende de nacionalidade, cor, raça, religião, origem social, time de futebol ou partido político. Tem muito filhinho de papai que estudou nos melhores colégios e, mesmo assim, não tem a mínima vocação para bacharel, evidenciando uma enorme mediocridade na graduação. Por outro lado, há alunos de origem humilde, que penam muito para suprirem suas deficiências educacionais e acabam brilhando na graduação, após um enorme sacrifício pessoal. Há também alunos bem-nascidos que sabem o que querem, têm disciplina e aproveitam todas as oportunidades que lhes são dadas desde pequenos; esses decolam a jato na carreira. E há também alunos pobres que esperam que suas vidas melhorem por milagre, sem esforço, pondo a culpa de tudo nos outros. É questão de talento, esforço e disciplina, como já disse e faço questão de repetir. Sem essas três coisas, não adiantam oportunidades, por melhores que sejam.

      A grande maioria das pessoas, em qualquer país, tem mais vocação para o ensino técnico ou profissionalizante de um modo geral. Isso não tem nada de errado! O problema é que, aqui no Brasil, muitos acreditam na falácia de que só a universidade salva; acreditam em uma pirâmide educacional gorda no topo, que não faz o menor sentido. Veja os países europeus, por exemplo: lá a maioria das pessoas consegue ter um bom padrão financeiro e cultural apenas com o nível técnico. Isso tem a ver única e exclusivamente com o perfil de cada um: uns adoram estudar, enquanto outros preferem colocar a mão na massa logo. Não é uma questão de certo ou errado, melhor ou pior. O problema no Brasil é que a desvalorização política do ensino técnico leva uma multidão a procurar a graduação; muitos detestam a universidade e fazem de tudo para pegar o diploma logo, usando até mesmo artifícios desonestos (por exemplo, assinaturas fantasmas, provas googladas, monografias compradas na esquina), apenas para progredirem automaticamente no emprego ou poderem prestar concursos públicos de nível superior, mesmo que fora da área de formação. Essa é uma triste realidade no Brasil, que só tem piorado nos últimos anos. Você não tem noção de quantos alunos sem vocação eu já encontrei na minha carreira e de quanto desperdício eles geram para si mesmos, para os pais, para os professores e para o sistema público de ensino.

      Na pós-graduação então, a vocação se torna mais importante ainda. Não tem nem comparação. Não é todo mundo que nasceu para se debruçar obsessivamente sobre livros e artigos, além de gastar anos e anos com os estudos e pesquisas especializadas, que geralmente se estendem por toda a vida. Treinamento é quase tudo no ensino técnico, mas, apesar de importante, ele sozinho não adianta nada na graduação e na pós.

      Um abraço!

  4. Em toda essa confusão, ainda bem que minha orientadora (e olha que ainda estou na IC) tem contato direto com o pró-reitor, porque ouço desvarios embasados no ‘li num relatório de metas’ que você nem imagina…

  5. “Escolher o corpo discente que vai fazer parte de sua equipe num projeto de pesquisa” nao vejo nenhum mal nisso. O problema é quando alunos incompetentes chegam em vagas que poderiam ser ocupadas por alunos mais promissores e compromissados. Já passei por isso, e realmente me senti desvalorizada. O aluno escolhido? Deu muito trabalho, causou muita humilhacao ao professor, que com certeza nao fará escolhas desse tipo de novo.

  6. Thiago, concordo contigo que há alguma correlação entre levar um dos lados do trabalho a sério e levar também os demais lados a sério. Só acho que as habilidades de fazer pesquisa e ensinar são independentes uma da outra: às vezes uma pessoa tem ambas, às vezes só uma delas. Por outro lado, dar boas aulas, dar boas palestras e fazer boa divulgação científica são habilidades que me parecem muito correlacionadas. Mas me incomoda o poder excessivo que a CAPES tem hoje em dia sobre a pós-graduação, até mesmo porque a própria CAPES não é perfeita e comete alguns erros grotescos em diversos casos. Acho que esse poder de vida e morte totalmente centralizado não é saudável para a ciência brasileira a longo prazo.

  7. Marco. Como Sempre, adorei o texto. é incrível sua capacidade de descrever o cotidiano. E vou até mais longe em uns pontos. Curiosamente, a meritocracia virou palavrão… algo politicamente incorreto… para alguns das Ciências sociais e humanas (posso até citar fontes se for o caso). E vivo isso bem de perto, infelizmente. Não há argumentos a favor do “tudo para todos” que não sejam apelos emocionais.

    Também na sua crítica contra os cientistas serem acomodados, divirjo parcialmente. Cientistas são ALIENADOS. E uma mente talhada pra o cientificismo, sem dados, trava. E cá entre nós, a alienação é quase necessária em alguns casos. O processo de se manter up-to-date em sua área quase impele ao cientista em se alienar, e não ser um jack of many trades, hehehe. E sim, vejo excelentes pesquisadores realmente alienados em questões políticas. Eu o sou em vários casos, admito.

    Mas juntando o “tudo para todos”, os comentários e a postura cientificista, dá-se o cenário atual. Quando alguém fala algo em uma reunião de departamento que lhe parece ilógica, simplesmente se aceita para que a peleja acabe e raras as vezes se confronta. É impressionante como um “prove o que vc disse!” acaba com essas informações toscas criadas, as vezes, em outras situações. Invariavelmente o que informa o arremeterá ao superior, que lhe arremeterá ao superior do superior (provavelmente já chegamos a um pró-reitor) que lhe perguntará “de onde tiraste essa besteira?” Sempre assim. O chato é ter paciência de trilhar esse caminho para acabar com boatos…

    Agora, indo para a pós-graduação e em se tratando da nossa área específica (Biodiversidade) vejo que a Capes bate duro! Acho excelente. As vezes vejo que outras áreas são moleza perto da nossa, mas isso é longe de ser ruim. E de fato, as pós em Biodiversidade, me parece muito mais profissionais em sua postura. Ainda falta? ô! Ainda faltam umas coisinhas que são arrastadas fazem anos, como a punição por formar poucos discentes. O que implica que toda a reprovação prejudica o curso. Lógico que isso pode ser produto de uma seleção mal-feita, ou apenas ser um produto natural estatístico. E, antes que se pergunte, sim há cursos que passam a mão na cabeça de alunos a ponto de alguns alunos até perguntarem se há reprovação em mestrados. De qualquer forma, esse é um ponto que, se não observado cuidadosamente, pode ser análogo a (extremamente imbecil e criminosa) progressão continuada que há no colégio, proposta pelo ministro de FHC, Paulo Teixeira e mantida com alegria pelo governo atual. A progressão continuada na pós-graduação pode ter consequências igualmente nefastas a graduação.
    De fato, muitos pós-graduandos querem o título para prestarem concursos públicos e terem uma porcentagem a mais no salário… e Isso é inadmissível… Em que momento da história as pessoas deixaram de perceber que isso é corrupção?

    E lá fui eu prolixo de novo.
    Se quiser, apague Marco.

    1. Oi Thiago, obrigado! Valeu pelo seu comentário. A progressão continuada, as cotas e o “alunismo” na pós-graduação são todas faces do populismo, que aqui no Brasil é usado pela esquerda como estratégia para perpetuação no poder (na Europa a moda é o populismo de direita). E isso só é reforçado pela maldita e interminável onda do politicamente correto e seu patrulhamento ideológico.

      Já com relação à CAPES, por um lado acho muito importante a cobrança que ela tem feito, pois há alguns anos a maioria dos professores universitários (não todos, claro!) não se preocupava sequer em trabalhar direito, quanto mais em produzir com qualidade. Mas, por outro lado, penso que a CAPES está precisando de freios atualmente, pois em sua sanha avaliadora tem aumentado os problemas, ao invés de resolvê-los. Minha maior crítica à CAPES é o excesso de detalhamento e burocracia nas regras, que muitas vezes beiram a numerologia. Não dá para ser assim: ciência é um negócio muito complicado e a qualidade de cientistas individuais e programas de pós-graduação deveria ser avaliada através de uma combinação de parâmetros qualitativos e quantitativos, além do peer-review, sem exagero no número de critérios.

      De tanto detalhar a avaliação, a tendência atualmente é homogeneizar as pós-graduações, por mais que digam o contrário: a maioria esmagadora quer pesquisar apenas as coisas que estão na moda, usando as abordagens e análises que estão na moda, a fim de garantir artigos na meia dúzia de revistas com IF alto cultuadas como selo indiscutível de qualidade. Livros, por exemplo, ficaram totalmente desvalorizados, apesar de serem fundamentais tanto para a ciência quanto para o ensino e formação de novos cientistas. Atividades fundamentais do nosso dia a dia, como a revisão de artigos e projetos, não são sequer pontuadas. Reprovar alunos virou tabú, porque a CAPES pune os cursos onde ocorrem desistências, como se a culpa fosse sempre do programa, não do aluno ou do seu orientador. Essas maluquices da avaliação da CAPES também estão matando a meritocracia, por mais contraditório que isso pareça à primeira vista.

      Por fim, levando em conta que a maioria dos cientistas brasileiros atua também como professor/administrador, devemos valorizar mais as atividades de ensino, extensão e gestão.

      1. Justo.

        O populismo é claro, e visa apenas se manter no poder. Não ser justo. É o politicamente correto incorreto.

        A avaliação Capes é complexa. E creio que eles estão se esforçando para ir em direção ao melhor. Fato é que qualquer decisão que envolva filtros, gerará algum problema. Se vc quer resolver, invariavelmente alguém lhe chamará de tirano…Não dá pra agradar todos… Senõ vira populismo, rs…
        O problema dos livros é a desonestidade da nossa categoria (sim!) e a incapacidade de criar parâmetros para julgar sua qualidade. Um ISSN custa 50 reais e vc pode comprar e colocar num relatório de Impacto ambiental, ou algo assim. Qualquer porcaria passa como livro. Tentaram gerar um padrão para editoras.

        De rocha, acho que a Capes adotou uma política baseando-se em uma lógica simples: Em média, o pesquisador que publica muito, tb escreve livros, ensina, administra e coordena. Os que não o fazem, geralmente fazem pouco mesmo. Se ordenarmos os pesquisadores por suas atribuições, provavelmente teremos uma padrão aninhado e o “core” serão papers, hehehehe.
        Lógico que haverão exceções. Mas exceções são exceções.

  8. Tadeu, é impressionante a covardia dos cientistas. Ninguém ouviu nada concreto de ninguém, muito menos recebeu ordem direta de reitoria alguma. Mesmo assim, várias PGs, com medinho (uuiii!), decidiram acreditar no boato. Fico profundamente irritado com a capacidade dos nossos colegas de se conformarem com tudo sem briga, até mesmo num caso esdrúxulo como esse.

  9. Oi Marco. Você sabe se a ideia do “tudo para todos” está formalizada em formato de lei, ou isso é uma decisão da universidade/ppg?

    1. Cara, estou tentando traçar a origem disso, mas está difícil. Parece que tudo começou com uma briga entre a ANPOCS e a UnB, que foi parar no Ministério Público e tudo mais. Só sei que, do nada, várias federais começaram com essa palhaçada. Se espalhou com um câncer, essa história do casamento arranjado entre orientador e aluno.

      1. Eu escutei uma conversa parecida – não sei se envolvendo também o ministério público – em Goiânia. Estamos bolando o processo seletivo aqui e essa conversa apareceu. Porém, ninguém sabe se temos autonomia para decidir. Eu vou consultar a acessoria jurídica da unesp para saber mais sobre o assunto.

    2. Olá Marcos,
      Defendi a minha tese a um tempo e não consigo publicar meus resultados porque meu orientador e eu não conseguimos chegar a um acordo viável, apesar de diversas negociações. Como devo proceder para conseguir a publicação? Teria que colocar o nome dele? Ele se recusa a abdicar da participação, mas também não quer permitir a publicação.

      1. Vixe, complicado. Não há outra saída, a não ser negociar mais ainda. Tentem chegar num denominador comum. Seria mais fácil, se alguém abrisse mão de uma coisa ou de outra.

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