Sobre a relação orientador-aluno e o populismo acadêmico

Como já deixei claro em outros artigos, considero a relação orientador-aluno como sagrada no mundo científico. Não basta o aspirante ter inteligência, iniciativa e talento, se ele não encontrar um bom mestre que lhe ensine o be-a-bá da pesquisa científica e da vida acadêmica, e o ajude a se formar e encontrar seu próprio caminho. É preciso que o orientador e o aluno trabalhem em sintonia. Contudo, algumas universidades parecem ter se esquecido dessa regra de bom senso e agora apelam para políticas populistas de ingresso na pós-graduação. Aqui neste artigo explico o que está acontecendo, mostro porque o populismo acadêmico é nocivo e apresento algumas conseqüências que ele pode ter.

Um bom orientador é fundamental na formação de um jovem cientista por diversas razões, como comentei em outro artigo. Isso porque ciência é um negócio muito complicado, que exige um longo treinamento e a assimilação de uma infinidade de conhecimentos e habilidades. É fácil se perder nessa jornada e a maioria desiste no meio do caminho. Infelizmente, até mesmo alguns alunos com talento para cientista acabam desistindo durante ou logo depois do mestrado e do doutorado, porque esses cursos são extremamente exigentes e desgastantes. Mesmo quando todas as variáveis vão bem, é quase impossível evitar algum estresse e desespero durante a execução dos projetos de tese ou durante as disciplinas mais puxadas.

Portanto, é fundamental que o aluno e o orientador se entendam bem. Um bom orientador, além de ensinar ao aluno como se faz ciência, dá também dicas sobre que cursos fazer, que congressos freqüentar, de quais agências pedir verbas, em quais revistas publicar, quais laboratórios visitar etc. Sem um orientador, fica tudo mais difícil e o aluno se vê tendo que reinventar uma roda por dia. Orientador e aluno não precisam necessariamente ser amigos pessoais, mas devem ter uma boa relação mestre-aprendiz. Orientador e aluno necessitam de uma boa sintonia, principalmente no que se refere aos interesses científicos e à filosofia de trabalho. Por exemplo, um aluno de pós-graduação vai sofrer muito, se for um bon-vivant, mas cair no laboratório de um orientador workaholic. Ou vice-versa. Da mesma forma, um aluno que gosta de trabalhar sempre em grupo provavelmente não vai se dar bem no laboratório de um orientador que incentiva o individualismo. Um aluno que adora Ecologia certamente não tem muito o que aprender no grupo de pesquisa de um taxonomista. E por aí vai.

Isso sempre foi consensual na academia. Portanto, a regra vigente desde sempre foi que os professores tinham a prerrogativa de pré-selecionar seus alunos de pós-graduação, que depois deviam passar por um processo de seleção coletivo organizado por cada programa. Nos programas onde as vagas são coletivas, os alunos simplesmente eram ranqueados em conjunto de acordo com sua nota geral e os melhores, independente do orientador, ficavam com as vagas disponíveis em cada edital. Nos programas com um número determinado de vagas reservadas para cada orientador, os alunos deveriam competir entre si pelas vagas que o orientador escolhido oferecesse. Esse segundo modelo se tornou dominante nos últimos anos, principalmente devido às mudanças nas regras da CAPES. Assim, cada orientador primeiro entrevistava os interessados em trabalhar com ele e depois dava um ok para que apenas os mais promissores e mais alinhados com seus interesses científicos se inscrevessem no processo de seleção. Se, apesar dessa pré-seleção, o aluno acabasse não tirando uma nota suficiente para passar, sinto muito, mas ele estaria fora de qualquer jeito. Essa era uma forma de professores experientes filtrarem os candidatos e, assim, pouparem tempo e recursos ao programa de pós-graduação como um todo. Ser pré-selecionado por um orientador respeitado era uma bela forma de ter o seu mérito como aluno reconhecido. Os melhores alunos ganhavam esse crédito dos melhores professores e a qualidade do sistema como um todo tendia sempre a aumentar.

Esse esquema faz todo sentido, porque a pesquisa nas universidades é feita quase que exclusivamente com verbas públicas. Assim, dar chance a quem claramente não tem talento ou não tem disposição para o trabalho duro é jogar o dinheiro do povo no lixo. Infelizmente, algumas universidades federais resolveram subverter essa regra de bom senso nos últimos anos, de forma bem populista. Alguns colegas chegaram à brilhante conclusão de que, por ser um tipo de concurso público, a seleção de alunos para a pós-graduação deveria ser mais “democrática”. Parênteses: nunca vi uma palavra ser tão abusada nos últimos tempos como “democracia”; ela quase virou sinônimo de “sistema onde a minha ideologia é o que importa”.

Mas então o que significa “democrática” na sábia interpretação desses nobres “doutos”? Significa o fim da pré-seleção feita pelos orientadores e o fim do direito de cada professor de escolher os alunos que vai orientar. Ou seja, o fim da meritocracia. Sim, você não leu errado, é isso mesmo. Essas ilustres sapiências burocráticas decidiram, em várias universidades federais, que qualquer um pode se candidatar a uma vaga em um curso de mestrado ou doutorado e tem o “direito” de indicar por quem deseja ser orientado. O aluno passou a escolher o orientador arbitrariamente. Problema do professor, se ele souber de antemão que trata-se de um aluno sem talento ou vagabundo, que nem sequer se interessa pelos mesmos temas de pesquisa que ele, mas está de olho numa bolsa. Problema do professor, se ele souber que o aluno até é bom, mas é um notório encrenqueiro, que semeia a discórdia pelos laboratórios por onde passa. Problema do professor, se o aluno for bom, mas não quiser se integrar à nenhuma linha de pesquisa dele, deixando um buraco na equipe que só poderá ser preenchido no próximo ano, causando prejuízo científico e financeiro. Você gostaria de ver esse tipo de política totalmente desprovida de meritocracia sendo usada, por exemplo, para selecionar os médicos que te atendem no hospital perto da sua casa? Pois é…

Agora, graças à falácia populista do “tudo para todos”, professores têm sido obrigados a orientar alunos que não escolhem e em quem não acreditam. É claro que a moda pegou, porque, afinal de contas, os cientistas são especialmente hábeis em se conformar com qualquer coisa para não perderem tempo discutindo ou para não destoarem da maioria. É óbvio que educação básica, segurança e saúde deveriam mesmo ser gratuitas, públicas e “para todos”. Mas curso técnico e graduação, não! O ensino superior deveria ser reservado para quem tem talento, independente de sexo, idade, cor, religião, partido político, sindicato, time de futebol ou classe social. A pós-graduação então, nem se fala. Poucas pessoas têm talento para a ciência e não há nada de anormal nisso. Será que o mundo está perdendo o bom senso?

Concluindo, se nenhuma contra-medida for tomada, daqui a pouco estaremos nivelando por baixo também a pós-graduação. Ao invés de melhorarem o ensino básico, que só piora, o governo e as autoridades em geral fazem a população de tola, investindo em paliativos populistas no ensino superior, com as mais variadas formas, mas sempre o mesmo resultado: queda brutal na qualidade. Fica a dica para o aspirante a pós-graduando: não tente dar uma de malandro, entrando na pós-graduação por uma janela arrombada; no final das contas, quem mais sairá perdendo será você mesmo, porque uma relação orientador-aluno que começa com um “estupro científico” só pode dar errado.

16 opiniões sobre “Sobre a relação orientador-aluno e o populismo acadêmico

  1. Pingback: Pense duas vezes antes de virar cientista | Sobrevivendo na Ciência

  2. Oi Marco. Você sabe se a ideia do “tudo para todos” está formalizada em formato de lei, ou isso é uma decisão da universidade/ppg?

    • Cara, estou tentando traçar a origem disso, mas está difícil. Parece que tudo começou com uma briga entre a ANPOCS e a UnB, que foi parar no Ministério Público e tudo mais. Só sei que, do nada, várias federais começaram com essa palhaçada. Se espalhou com um câncer, essa história do casamento arranjado entre orientador e aluno.

      • Eu escutei uma conversa parecida – não sei se envolvendo também o ministério público – em Goiânia. Estamos bolando o processo seletivo aqui e essa conversa apareceu. Porém, ninguém sabe se temos autonomia para decidir. Eu vou consultar a acessoria jurídica da unesp para saber mais sobre o assunto.

    • Olá Marcos,
      Defendi a minha tese a um tempo e não consigo publicar meus resultados porque meu orientador e eu não conseguimos chegar a um acordo viável, apesar de diversas negociações. Como devo proceder para conseguir a publicação? Teria que colocar o nome dele? Ele se recusa a abdicar da participação, mas também não quer permitir a publicação.

      • Vixe, complicado. Não há outra saída, a não ser negociar mais ainda. Tentem chegar num denominador comum. Seria mais fácil, se alguém abrisse mão de uma coisa ou de outra.

  3. Tadeu, é impressionante a covardia dos cientistas. Ninguém ouviu nada concreto de ninguém, muito menos recebeu ordem direta de reitoria alguma. Mesmo assim, várias PGs, com medinho (uuiii!), decidiram acreditar no boato. Fico profundamente irritado com a capacidade dos nossos colegas de se conformarem com tudo sem briga, até mesmo num caso esdrúxulo como esse.

  4. Marco. Como Sempre, adorei o texto. é incrível sua capacidade de descrever o cotidiano. E vou até mais longe em uns pontos. Curiosamente, a meritocracia virou palavrão… algo politicamente incorreto… para alguns das Ciências sociais e humanas (posso até citar fontes se for o caso). E vivo isso bem de perto, infelizmente. Não há argumentos a favor do “tudo para todos” que não sejam apelos emocionais.

    Também na sua crítica contra os cientistas serem acomodados, divirjo parcialmente. Cientistas são ALIENADOS. E uma mente talhada pra o cientificismo, sem dados, trava. E cá entre nós, a alienação é quase necessária em alguns casos. O processo de se manter up-to-date em sua área quase impele ao cientista em se alienar, e não ser um jack of many trades, hehehe. E sim, vejo excelentes pesquisadores realmente alienados em questões políticas. Eu o sou em vários casos, admito.

    Mas juntando o “tudo para todos”, os comentários e a postura cientificista, dá-se o cenário atual. Quando alguém fala algo em uma reunião de departamento que lhe parece ilógica, simplesmente se aceita para que a peleja acabe e raras as vezes se confronta. É impressionante como um “prove o que vc disse!” acaba com essas informações toscas criadas, as vezes, em outras situações. Invariavelmente o que informa o arremeterá ao superior, que lhe arremeterá ao superior do superior (provavelmente já chegamos a um pró-reitor) que lhe perguntará “de onde tiraste essa besteira?” Sempre assim. O chato é ter paciência de trilhar esse caminho para acabar com boatos…

    Agora, indo para a pós-graduação e em se tratando da nossa área específica (Biodiversidade) vejo que a Capes bate duro! Acho excelente. As vezes vejo que outras áreas são moleza perto da nossa, mas isso é longe de ser ruim. E de fato, as pós em Biodiversidade, me parece muito mais profissionais em sua postura. Ainda falta? ô! Ainda faltam umas coisinhas que são arrastadas fazem anos, como a punição por formar poucos discentes. O que implica que toda a reprovação prejudica o curso. Lógico que isso pode ser produto de uma seleção mal-feita, ou apenas ser um produto natural estatístico. E, antes que se pergunte, sim há cursos que passam a mão na cabeça de alunos a ponto de alguns alunos até perguntarem se há reprovação em mestrados. De qualquer forma, esse é um ponto que, se não observado cuidadosamente, pode ser análogo a (extremamente imbecil e criminosa) progressão continuada que há no colégio, proposta pelo ministro de FHC, Paulo Teixeira e mantida com alegria pelo governo atual. A progressão continuada na pós-graduação pode ter consequências igualmente nefastas a graduação.
    De fato, muitos pós-graduandos querem o título para prestarem concursos públicos e terem uma porcentagem a mais no salário… e Isso é inadmissível… Em que momento da história as pessoas deixaram de perceber que isso é corrupção?

    E lá fui eu prolixo de novo.
    Se quiser, apague Marco.

    • Oi Thiago, obrigado! Valeu pelo seu comentário. A progressão continuada, as cotas e o “alunismo” na pós-graduação são todas faces do populismo, que aqui no Brasil é usado pela esquerda como estratégia para perpetuação no poder (na Europa a moda é o populismo de direita). E isso só é reforçado pela maldita e interminável onda do politicamente correto e seu patrulhamento ideológico.

      Já com relação à CAPES, por um lado acho muito importante a cobrança que ela tem feito, pois há alguns anos a maioria dos professores universitários (não todos, claro!) não se preocupava sequer em trabalhar direito, quanto mais em produzir com qualidade. Mas, por outro lado, penso que a CAPES está precisando de freios atualmente, pois em sua sanha avaliadora tem aumentado os problemas, ao invés de resolvê-los. Minha maior crítica à CAPES é o excesso de detalhamento e burocracia nas regras, que muitas vezes beiram a numerologia. Não dá para ser assim: ciência é um negócio muito complicado e a qualidade de cientistas individuais e programas de pós-graduação deveria ser avaliada através de uma combinação de parâmetros qualitativos e quantitativos, além do peer-review, sem exagero no número de critérios.

      De tanto detalhar a avaliação, a tendência atualmente é homogeneizar as pós-graduações, por mais que digam o contrário: a maioria esmagadora quer pesquisar apenas as coisas que estão na moda, usando as abordagens e análises que estão na moda, a fim de garantir artigos na meia dúzia de revistas com IF alto cultuadas como selo indiscutível de qualidade. Livros, por exemplo, ficaram totalmente desvalorizados, apesar de serem fundamentais tanto para a ciência quanto para o ensino e formação de novos cientistas. Atividades fundamentais do nosso dia a dia, como a revisão de artigos e projetos, não são sequer pontuadas. Reprovar alunos virou tabú, porque a CAPES pune os cursos onde ocorrem desistências, como se a culpa fosse sempre do programa, não do aluno ou do seu orientador. Essas maluquices da avaliação da CAPES também estão matando a meritocracia, por mais contraditório que isso pareça à primeira vista.

      Por fim, levando em conta que a maioria dos cientistas brasileiros atua também como professor/administrador, devemos valorizar mais as atividades de ensino, extensão e gestão.

      • Justo.

        O populismo é claro, e visa apenas se manter no poder. Não ser justo. É o politicamente correto incorreto.

        A avaliação Capes é complexa. E creio que eles estão se esforçando para ir em direção ao melhor. Fato é que qualquer decisão que envolva filtros, gerará algum problema. Se vc quer resolver, invariavelmente alguém lhe chamará de tirano…Não dá pra agradar todos… Senõ vira populismo, rs…
        O problema dos livros é a desonestidade da nossa categoria (sim!) e a incapacidade de criar parâmetros para julgar sua qualidade. Um ISSN custa 50 reais e vc pode comprar e colocar num relatório de Impacto ambiental, ou algo assim. Qualquer porcaria passa como livro. Tentaram gerar um padrão para editoras.

        De rocha, acho que a Capes adotou uma política baseando-se em uma lógica simples: Em média, o pesquisador que publica muito, tb escreve livros, ensina, administra e coordena. Os que não o fazem, geralmente fazem pouco mesmo. Se ordenarmos os pesquisadores por suas atribuições, provavelmente teremos uma padrão aninhado e o “core” serão papers, hehehehe.
        Lógico que haverão exceções. Mas exceções são exceções.

  5. Thiago, concordo contigo que há alguma correlação entre levar um dos lados do trabalho a sério e levar também os demais lados a sério. Só acho que as habilidades de fazer pesquisa e ensinar são independentes uma da outra: às vezes uma pessoa tem ambas, às vezes só uma delas. Por outro lado, dar boas aulas, dar boas palestras e fazer boa divulgação científica são habilidades que me parecem muito correlacionadas. Mas me incomoda o poder excessivo que a CAPES tem hoje em dia sobre a pós-graduação, até mesmo porque a própria CAPES não é perfeita e comete alguns erros grotescos em diversos casos. Acho que esse poder de vida e morte totalmente centralizado não é saudável para a ciência brasileira a longo prazo.

  6. “Escolher o corpo discente que vai fazer parte de sua equipe num projeto de pesquisa” nao vejo nenhum mal nisso. O problema é quando alunos incompetentes chegam em vagas que poderiam ser ocupadas por alunos mais promissores e compromissados. Já passei por isso, e realmente me senti desvalorizada. O aluno escolhido? Deu muito trabalho, causou muita humilhacao ao professor, que com certeza nao fará escolhas desse tipo de novo.

  7. Em toda essa confusão, ainda bem que minha orientadora (e olha que ainda estou na IC) tem contato direto com o pró-reitor, porque ouço desvarios embasados no ‘li num relatório de metas’ que você nem imagina…

  8. Olá, Prof. Marco,

    Também não gosto dessa cultura de “aceitos todos no meu lab”. Isso, para mim, só aumenta a noção de que estudante de pós-graduação é mão de obra barata. Algo que escreverei em breve em meu blog de divulgação científica prismacientifico.wordpress.com

    O que você acha do processo seletivo da maioria das universidades americanas, nas quais APÓS ser aprovado nas provas, os estudantes passam um tempo em cada laboratório do departamento e no final é selecionado por um professor (e pode ter o luxo de selecionar dentre os professores que o selecionaram, se mais de um). É um sistema bem meritocrático (como quase tudo nos EUA), no qual se tem a pissibilidade de acessar a performance de trabalho do estudante, e que ainda possui vários níveis de funilamento.

    Concordo com algumas coisas que disse no texto, mas não todas.

    A primeira é sobre a necessidade de talento para fazer academia. Isso é uma questão de aprendizagem. Com treino e lapidação por parte de um bom mestre, o estudante pode vir a adquirir talento e experiência em uma área. Aliás, é para isso que ele adentra em um laboratório para a pós-graduação, para ser treinado em um determinado campo. O fator limitante que, penso, você procura é a determinação/motivação. Sem isso, nem o mais autodidata e talentoso estudante fazer acontecer… Um bom exemplo disso são alunos que não são aprovados no primeiro ano de vestibular, mas o são no segundo (graduação tbm foi um dos cursos que você disse que não é para todos).

    A segunda é sobre as diferenças de personalidade no trabalho. Eu nunca deixo de comparar um laboratório a uma pequena empresa. Na empresa, se o chefe ou o colega de trabalho tem uma personalidade diferente (bon vivan ou workaholic) pouco importa, o que importa é que isso não faça a qualidade do trabalho decair. Na relação orientador-estudante penso que o mesmo ocorra (e digo por experiência própria de um doutorando workaholic em um lab de uma profa não tão presente assim). Mesmo por que, diferentes personalidades podem adicionar ao trabalho diferentes perspectivas, todas elas construtivas.
    Sem dúvida, pessoas sem motivação (vulgo vagabundo) são um problema e um gasto público desnecessário. E como você mesmo colocou, é dever do professor ou do processo seletivo da pós, de ‘filtrar’ esse perfil. Mas, em hipótese alguma, esse perfil pode ser atrelado a um perfil de personalidade, há menos que haja embasamento científico para isso. Desculpe o termo, talvez haja algum termo mais apropriado, mas escolher alunos pela personalidade e não pelo trabalho me parece um tanto quanto preconceituoso (inocente talvez).

    Desculpe-me as críticas. Só as faço no sentido de adicionar à discussão. Gostaria de ver a sua opinião a respeito.
    No mais, muito bom o texto. Começa a tratar de um assunto que já não é problema lá fora, mas que aqui ainda é um impecilho.

    • Cesar,

      Eu sou a favor da meritocracia, sempre. E acho que, para ela funcionar direito, todos devem ter boas oportunidades na base. Ou seja, os ensinos fundamental e médio públicos deveriam ter ampla oferta e alta qualidade. Só que o quanto cada um aproveita essas oportunidades e avança na carreira e na vida depende de uma mistura de talento, esforço e disciplina.

      Com relação à pós-graduação nos EUA, o sistema deles varia muito. Em alguns cursos, o aluno entra em acordo com o orientador antes de ingressar, como aqui. Lá não há uma homogeneização do sistema, outro sinal de que a meritocracia e a liberdade acadêmica são maiores em terras gringas. O mesmo vale para a Europa e seus sistemas mistos.

      Já com relação ao peso do talento a partir da graduação, reafirmo o que eu disse. Falo por experiência, pois já dei aula em vários níveis (até em cursos de idiomas!) e já estudei ou trabalhei em várias universidades, inclusive no exterior. Graduação não é para qualquer um e isso não depende de nacionalidade, cor, raça, religião, origem social, time de futebol ou partido político. Tem muito filhinho de papai que estudou nos melhores colégios e, mesmo assim, não tem a mínima vocação para bacharel, evidenciando uma enorme mediocridade na graduação. Por outro lado, há alunos de origem humilde, que penam muito para suprirem suas deficiências educacionais e acabam brilhando na graduação, após um enorme sacrifício pessoal. Há também alunos bem-nascidos que sabem o que querem, têm disciplina e aproveitam todas as oportunidades que lhes são dadas desde pequenos; esses decolam a jato na carreira. E há também alunos pobres que esperam que suas vidas melhorem por milagre, sem esforço, pondo a culpa de tudo nos outros. É questão de talento, esforço e disciplina, como já disse e faço questão de repetir. Sem essas três coisas, não adiantam oportunidades, por melhores que sejam.

      A grande maioria das pessoas, em qualquer país, tem mais vocação para o ensino técnico ou profissionalizante de um modo geral. Isso não tem nada de errado! O problema é que, aqui no Brasil, muitos acreditam na falácia de que só a universidade salva; acreditam em uma pirâmide educacional gorda no topo, que não faz o menor sentido. Veja os países europeus, por exemplo: lá a maioria das pessoas consegue ter um bom padrão financeiro e cultural apenas com o nível técnico. Isso tem a ver única e exclusivamente com o perfil de cada um: uns adoram estudar, enquanto outros preferem colocar a mão na massa logo. Não é uma questão de certo ou errado, melhor ou pior. O problema no Brasil é que a desvalorização política do ensino técnico leva uma multidão a procurar a graduação; muitos detestam a universidade e fazem de tudo para pegar o diploma logo, usando até mesmo artifícios desonestos (por exemplo, assinaturas fantasmas, provas googladas, monografias compradas na esquina), apenas para progredirem automaticamente no emprego ou poderem prestar concursos públicos de nível superior, mesmo que fora da área de formação. Essa é uma triste realidade no Brasil, que só tem piorado nos últimos anos. Você não tem noção de quantos alunos sem vocação eu já encontrei na minha carreira e de quanto desperdício eles geram para si mesmos, para os pais, para os professores e para o sistema público de ensino.

      Na pós-graduação então, a vocação se torna mais importante ainda. Não tem nem comparação. Não é todo mundo que nasceu para se debruçar obsessivamente sobre livros e artigos, além de gastar anos e anos com os estudos e pesquisas especializadas, que geralmente se estendem por toda a vida. Treinamento é quase tudo no ensino técnico, mas, apesar de importante, ele sozinho não adianta nada na graduação e na pós.

      Um abraço!

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