A importância de fazer um nome

“Fez a fama, deite na cama”. Quando criança, todo mundo já ouviu isso de uma avó ou de outra pessoa mais velha. Aproveitando um gancho dado por uma leitora do blog, resolvi escrever sobre um dos temas mais importantes para um cientista, assim como para qualquer profissional: a reputação.

Um bom networking é fundamental na carreira de cientista, como já comentei em outros artigos. Isso porque a ciência é como um quebra-cabeças cooperativo internacional. Você só consegue ter uma boa visão do jogo, participar de forma relevante e ser reconhecido por seus pares, se cultivar a fundo hábitos como estudo, redação e contato social.

Sua atividade social, incluindo os artigos que você publica em revistas científicas e as palestras e pôsteres que apresenta em congressos, leva à construção de uma reputação: ou seja, uma imagem que a comunidade científica faz de você. Uma reputação tem várias faces. Ela inclui, por exemplo, seu estilo de redação: Cascão escreve chato, Cebolinha escreve de maneira didática, Mônica é hermética demais. A reputação também tem a ver com a forma como você trata seus colegas: Huguinho é produtivo mas estúpido igual a um cavalo, Zezinho é mal-agradecido e carreirista, Luizinho é prestativo e leal. Outro aspecto da reputação é o seu modo de trabalho: Rafael é criativo e ousado, Michelangelo faz apenas mais do mesmo, Donatello só enrola e não produz nada.

Mas o que pretendo focar aqui neste artigo é o aspecto técnico da reputação. Um biólogo, por exemplo, pode ser lembrado como o Mário do Morcegos, Brigite das Bromélias ou Luizão dos Lofoforados. Outras possibilidades, estas mais modernas, seriam por exemplo Ricardão do R, Gina do GLM ou Marcinha da Multivariada. Grosso modo, você pode acabar sendo lembrado pelo táxon com o qual trabalha, o assunto de que mais gosta, o ambiente onde sempre faz campo ou a análise complicada que domina, dentre outras possibilidades.

Parece um saco ser rotulado, não? Sim, isso é mesmo chato por um lado. Mas, por outro lado, ao contrário do que diz o senso comum (sempre ele, o famigerado senso comum…), há vantagens em ser reconhecido por um epíteto profissional, desde que o mesmo não seja pejorativo (“Teresa da Tese Trancada”). Não é à toa que o Seu Sebastião, que consertou a sua fechadura semana passada, escreveu no cartão de visitas “Tião das Chaves”. Consegue mais clientes quem é facilmente reconhecido no mercado por sua especialidade.

Isso vale também para a ciência. Muitas vezes, cientistas, técnicos, jornalistas, empresários ou tomadores de decisões em geral se interessam por um determinado assunto, porque precisam resolver um problema acadêmico ou prático relacionado a ele. A primeira coisa que lhes vem à cabeça é “quem entende dessa parada?”. Hoje em dia, há várias ferramentas de busca, como o Lattes e o LinkedIn, que permitem encontrar profissionais dos mais variados ramos. Só que nada substitui a famosa propaganda boca-a-boca. Se um interessado, seja ele um colega cientista ou não, procurar informações sobre um assunto e o seu nome for indicado como sendo um perito por uma pessoa de confiança ou por várias pessoas, pode ter certeza de que você muito provavelmente será contatado. Aí cabe um adendo: a chance de você ser reconhecido como perito em alguma coisa é muito maior, se você concentrar suas atividades em apenas uma área principal.

Mesmo no caso dos cientistas que publicam sobre múltiplos assuntos e passeiam à vontade entre a Física, as Belas Artes e a Antropologia, às vezes é possível achar um fio condutor em sua obra. O sujeito provavelmente vai acabar sendo reconhecido por esse fio condutor, que pode ser um táxon, um fenômeno, um tema, um método ou um ambiente, por exemplo. Há também cientistas generalistas, que mesmo publicando aqui e acolá e não tendo um “fio condutor”, acabam se destacando em diversas áreas e são reconhecidos como peritos em mais de uma coisa. Mas não é todo dia que nasce um Da Vinci.

Tudo bem. Não importa se a comunidade científica te deu um desses “rótulos técnicos”: deixe de bobeira e faça proveito dele. Escreva no seu cartão de visitas, mesmo que mentalmente, “Tião das Chaves”. É claro que um rótulo não te impede de diversificar suas atividades científicas. Uma das coisas mais divertidas na carreira é justamente poder pular de galho em galho, seguindo suas curiosidades aonde elas forem. Contudo, cultive pelo menos uma especialidade que definirá seu nicho profissional. Este não é o único caminho para o sucesso, obviamente, mas facilita as coisas ser prontamente reconhecido pelos pares. A menos que você seja um sujeito onipotente como o Chuck Norris. Pense na máxima inglesa: “Jack of all trades, master of none” – em tradução livre, “Joca faz-tudo, que não entende de porcaria nenhuma”.

https://i1.wp.com/www.davidmansaray.com/wp-content/uploads/2011/03/jack-of-all-trades-jpeg-300x233.jpg

Fonte

Anúncios

17 respostas para “A importância de fazer um nome”

  1. Cada dia que passa eu admiro mais seu perfil como profissional e como divulgador de ciência. Uma pessoa que se preocupa em passar aquilo que sabe de mão aberta para as pessoas que estão começando só tende a se valorizar profissionalmente e pessoalmente. Parabéns… sou seu fã. Abraços

  2. Marco, na sua opinião, é bom ou ruim começar a carreira com diversos artigos menores sobre assuntos diversos não relacionados ao seu tema principal? Ou pode ser algo positivo? Pergunto porque o que eu estudo mesmo é efeitos de borda e fragmentation, mas minhas publicações até agora são de alometria vegetal (2), educação ambiental (2) e arborização urbana (1) rs. (Pretendo ter pelo menos duas sobre efeitos de borda em 2013…)

    1. Pavel, depende do ponto de vista. Tem duas coisas a serem consideradas. Primeiro, na minha opinião, os melhores cientistas são justamente aqueles capazes de publicar sobre diferentes temas, transitar entre as áreas. Mas não é assim que a maioria vê as coisas: a comunidade dá mais valor aos especialistas. Segundo, no seu caso, se você quiser um dia ser reconhecido como um especialista em efeito de borda, precisa publicar sobre isso pelo menos um bom paper. Com essa segunda parte eu concordo, porque só é um cientista ativo em um determinado tema quem de fato publica sobre ele. Trocando em miúdos, o fato de você já ter publicado cinco artigos antes de defender o doc é bom, pois mostra claramente que você tem talento pra cientista; mas você tecnicamente ainda não nasceu no seu tema principal. Tenho certeza de que é só uma questão de tempo e seus artigos sobre efeito de borda vão sair e fazer sucesso!

  3. Agora complementando meu próprio texto com um “causo” (gente, como estou referencial hoje!). Quando eu estava no fim da graduação, um colega mais velho, taxonomista botânico renomado, me perguntou: você quer ser especialista em animais ou plantas? Eu disse que gostava de interações animal-planta. Aí ele me disse: “não pode! Tem que ser um táxon ou outro” (bem ao estilo do Seu Myagi, “te pegam que nem uva”, rs). Do ponto de vista de um taxonomista, é claro que isso faz todo sentido. Mas não do ponto de vista de um ecólogo. Não tem problema, se você for um ecólogo, especializar-se em interações, biodiversidade, demografia, produtividade ou outro tema independente de um táxon. Você também tem a opção de combinar um tema com um táxon e virar especialista na interface, por exemplo, tornando-se “Pepe, Ecólogo de Pepinos-do-mar”. Reforçando o que eu disse no artigo, o importante para a maioria dos cientistas é ter uma especialidade clara, facilmente reconhecida por seus pares.

  4. Gostei do post Marco!

    Isso se aplica não apenas na ciência mas em todo o mercado de trabalho… O negócio é fazer o filme sempre!

    Grande abraço.

    1. Oi André, obrigado! Os biólogos em geral não são treinados em marketing pessoal, o que é uma pena. Acham que fazer propaganda do próprio trabalho é coisa de picareta ou metido. Não sabem que existe a má e a boa propaganda. A boa é mais ou menos como “fiz isso, aqui está se você tiver interesse”, enquanto a má é do tipo “olhe o melhor artigo do mundo, escrito por mim”. É mais fácil do que parece separar uma da outra.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s