Como escrever um currículo

Para progredir na carreira e, quem sabe um dia, estabelecer-se como cientista, você precisa trabalhar duro e divulgar suas descobertas. Supondo que você cumpriu bem a primeira parte, aqui neste artigo quero te ajudar com a segunda.

Para que servem currículos?

Mesmo quem não curte ou não sabe fazer marketing pessoal tem que preparar currículos várias vezes ao longo da carreira, especialmente em momentos de decisão. Mas como fazer um currículo eficiente para usar na Academia?

Sim, o currículo também é uma forma de marketing pessoal. A diferença é que o currículo é a maneira mais sisuda e “oficial” de divulgar o seu trabalho. É uma propaganda usada apenas em momentos-chave, nos quais você precisa competir com colegas por vagas dos mais variados tipos.

Podem ser vagas em uma disciplina, vagas em um programa de pós-graduação ou mesmo vagas de emprego (temporário, estável ou permanente). Como vivemos em um mundo lotado de cientistas, é fundamental se destacar na multidão e aumentar suas chances de aproveitar as oportunidades que aparecem.

O bom currículo

“Ok, Marco, mas o que diferencia um currículo bem elaborado de outro tosco?”

Simples: o foco e a atenção aos detalhes. Um bom currículo é preparado com o maior capricho, tendo sempre em mente o objetivo a ser alcançado. Você deve considerar fatores como a finalidade da vaga em questão, o seu estágio na carreira, a instituição que está oferecendo a vaga, a pessoa específica encarregada da seleção e as regras da seleção. Nada é pior do que um currículo genérico, sem alma.

Antes de tudo, observe a regra magna: não minta no currículo! Primeiro, porque isso é desonesto (esta razão deveria bastar, mas…). Segundo, porque mesmo que não peçam comprovantes junto com o currículo, a mentira fatalmente será detectada depois, seja na entrevista ou no estágio probatório.

Imagine, por exemplo, botar no currículo que você é fluente em inglês e depois ser pego de calça curta, quando o avaliador da seleção tentar conversar contigo em inglês só para testar. Ou imagine outra situação hipotética: você diz no currículo que é craque em R, começa no estágio e, na primeira vez em que o orientador te pede para fazer uma análise, fica claro que você não sabe sequer carregar um arquivo no programa.

Nada queima mais o filme do que, depois de alguém te dar uma oportunidade, perceber que aquela super-habilidade ou aquele paper maneiríssimo do seu currículo eram fake news. Erros gramaticais também queimam muito o seu filme.

Ajustando o foco

Voltando ao que deve ser levado em conta, o fator mais importante é o perfil da vaga. O que estão oferecendo e o que pedem em troca? Isso define bem o conjunto de características desejadas e te dá uma orientação sobre o que destacar no currículo.

Por exemplo, se é uma vaga em uma disciplina de pós-graduação oferecida por outra instituição que não a sua, você terá mais chances de ser aceito, se mostrar que tem trabalhado ou se interessado por temas relacionados ao curso.

Se for uma vaga como bolsista ou celetista em um projeto de pesquisa, vale ressaltar os pontos do seu currículo que têm diretamente a ver com o tema, o táxon, o método ou o ambiente.

Se for uma vaga de professor, comece seu currículo com a seção relacionada à experiência de ensino. Se for uma vaga de pesquisador, comece pelos artigos publicados e projetos coordenados.

É bom lembrar também que espera-se coisas diferentes de cientistas em diferentes estágios da carreira. Quem oferece uma vaga voltada para um graduando não espera que ele já tenha artigos publicados. O avaliador provavelmente vai prestar mais atenção a coisas como participação em congressos e cursos extra-curriculares, que demonstram apetite para aprender. De um mestrando espera-se apresentações (pôsteres e palestras) em congressos e também colaboração em projetos de pesquisa.

Já de um doutorando é esperada uma experiência e maturidade profissional bem maiores, incluindo pelo menos uma publicação como primeiro autor em uma revista científica revisada por pares. De um pós-doutorando então, espera-se ampla experiência em pesquisa, publicação, ensino, administração, culinária, mecânica de automóveis, relações internacionais, contabilidade e logística militar, dentre outras coisas.

Para rolar um match 💕

Avalie o quanto o seu perfil combina com o perfil do contratante. Suas chances aumentam, quando o seu perfil casa bem com o perfil não só da instituição, mas também do responsável pela seleção. Mesmo dentro de uma determinada especialidade há diferentes abordagens e vieses, que definem clubinhos científicos.

Não adianta, por exemplo, você ser forte em pesquisa e se candidatar a uma vaga em uma instituição completamente voltada para o ensino. Pensando em outro exemplo, se você for um biólogo mais ou menos generalista e se candidatar a uma vaga em um grupo de pesquisa focado em ecologia animal, seria melhor ressaltar seus trabalhos com bichos, deixando as contribuições botânicas em segundo plano.

Tipo e formato

Outra informação fundamental é o tipo de currículo exigido. Isso varia enormemente, desde elegantes résumés que vão direto ao ponto até currículos elefantes no delicioso formato padrão da Plataforma Lattes. Às vezes, vão te pedir um currículo romanceado, também conhecido como memorial.

Muitas vezes há um formato exigido explicitamente na seleção. Se for esse o caso, siga esse formato à risca, pois o avaliador e seus assessores ad hoc vão se guiar pelos tópicos listados na hora de pontuar atividades e comparar candidatos. Se eles encontrarem tudo organizado da forma que pediram e na ordem esperada, terão menos trabalho na avaliação, o que diminuirá a chance de cometerem erros. Por exemplo, deixar de pontuar uma atividade relevante que você fez, mas que eles não encontraram no meio do emaranhado de informações.

Seguir o formato à risca é especialmente importante no caso de seleções formais das quais participam dezenas de candidatos, como as de cursos de seleção de mestrado ou concursos públicos em geral. Nenhum avaliador vai perder tempo caçando informações no seu currículo, tendo ainda outros 419 para avaliar até o final do dia. Ou está tudo claro, ou você perde pontos. Esse é um terrível encosto chamado “barema”, que pode te assombrar por muitos anos, se você não se benzer.

Nos concursos públicos e seleções em geral, preste atenção também à documentação anexa. Não esqueça nenhum comprovante e identifique todos seguindo a mesma numeração usada no currículo. No maravilhoso mundo da burocracia, atividade não comprovada é o mesmo que atividade não realizada.

Quando não houver um formato padrão exigido para o currículo, confira se, pelo menos, há regras quanto ao tamanho e o foco. Nos casos em que a liberdade é total, recomendo investigar nos bastidores se há alguma preferência não explicitada pela instituição. De um modo geral, nos países latinos prefere-se formatos prolixos com muitas e muitas páginas, além de muito detalhamento. Impressiona mais quem mostra mais volume, não necessariamente qualidade. A exceção são as poucas universidades e institutos de excelência que há por aqui, que seguem mais os valores dos líderes da ciência mundial, como EUA e Alemanha.

Nesses países anglo-saxães ou germânicos, são preferidos formatos mais enxutos, como o résumé de duas páginas. Neste segundo caso, vence o sniper, que sabe dar um tiro certeiro. Ou seja, o sujeito que consegue ressaltar melhor seus pontos fortes, convencendo o avaliador de que nasceu para preencher aquela vaga.

Em países em estágios intermediários de desenvolvimento científico, como o Brasil, as estratégias se misturam e alguns lugares preferem currículos prolixos, enquanto outros preferem os enxutos. Não há outro jeito, senão fazer seu dever de casa e levantar mais informações sobre seu potencial empregador.

Caso o processo seletivo não defina um modelo de currículo padrão nem dê diretrizes claras, tente montar o seu de acordo com os pontos temáticos listados no edital. Essa é uma oportunidade de ouro de fugir do insuportável formato Lattes e tentar algo mais clean e eficiente. Existem vários layouts possíveis, muitos com qualidade já comprovada.

Um CV típico

Pensando então nas situações em que você pode fugir do formato chato e prolixo do Lattes, seguem algumas dicas sobre como estruturar um CV de maneira mais livre.

É importante começar pensando em quais seções você vai incluir no CV. Via de regra, sugiro montar uma versão “completona”, com todas as seções possíveis e todas as atividades pertencentes a cada seção. A partir dessa versão, enxugue e crie versões mais direcionadas e enxutas, conforme as particularidades de cada oportunidade que surgir.

De qualquer forma, um CV acadêmico típico costuma conter as seguintes seções, listadas a seguir. Algumas delas entram em CVs de pessoas em todas as fases da carreira. Outras entram apenas em CVs júniores. Já algumas cabem melhor em CVs sêniores. A ordem que você apresenta cada seção também depende do estágio da carreira em que você está e da vaga sendo disputada.

  1. Informações pessoais: coloque seu nome completo, endereço profissional, e-mail profissional, website e links para o Lattes, ORCID, Publons, Scopus e outros portfólios acadêmicos. Pode incluir também os handles de algumas redes sociais, se as usar para trabalho, e não para postar fotos do seu café-da-manhã.
  2. Formação: diga quais graus fez em quais instituições e quando os colou. Geralmente, começamos a partir da graduação. Mas, se você ainda estiver na graduação, pode até mencionar o ensino escolar.
  3. Interesses profissionais: explique sucintamente, em um parágrafo curto, o que desperta o seu interesse na ciência, o que te motiva a trabalhar.
  4. Cargos ocupados: liste os cargos que já ocupou, incluindo universidades, institutos de pesquisa, sociedades acadêmicas, empresas e outras organizações.
  5. Sociedades acadêmicas: conte de quais sociedades acadêmicas você participa formalmente e desde quando. Em alguns casos, esta pode virar uma subseção dentro de Extensão ou Gestão.
  6. Publicações: este é o coração de um CV acadêmico, então capriche. Liste todas as publicações científicas de todos os tipos que já produziu. E organize-as em subseções, como “artigos revisados pelos pares”, “artigos não-revisados”, “livros”, “capítulos de livros” etc.
  7. Ensino: esta é a seção para apresentar a sua experiência docente como professor, tutor e monitor. Em quais disciplinas já ajudou? Por quais disciplinas já foi responsável? Quais disciplinas já criou do zero? Crie subseções para graduação e pós-graduação. Disciplinas de extensão (por exemplo, cursos MOOC em plataformas abertas) podem entrar aqui ou na respectiva seção.
  8. Orientação: liste todos os alunos que está orientando e já orientou, organizando-os por níveis acadêmicos: postdoc, doutorado, mestrado, especialização, iniciação científica, TCC, iniciação científica júnior e outros tipos de orientação.
  9. Extensão: aqui entram todas as suas atividades voltadas para o público fora da universidade. A extensão é um mundo maravilhoso e gigantesco, que engloba desde a divulgação científica em blogs até a consultoria ambiental, passando por atuação em jornais, hospitais, museus, comitês do governo, secretarias de educação e muitas outras instituições, com os mais variados focos. Nesta seção podem entrar também as revisões e editoria para revistas científicas, mas você também pode colocá-las em uma seção à parte, perto das publicações. Em alguns lugares, elas entra na seção da gestão.
  10. Gestão: nem só de ciência vive um cientista, mas também de burocracia. Aqui você conta a sua experiência na gestão acadêmica, incluindo assentos em órgãos colegiados e comissões, cargos de chefia e afins. Cargos em sociedades acadêmicas podem entrar aqui ou na respectiva seção.
  11. Indicadores de produtividade: no final do CV, sugiro incluir uma tabela com o resumo da ópera. Ou seja, informações numéricas e telegráficas, resumindo os pontos fortes das outras seções. Tipo: “10 artigos publicados, fator H = 7, 3 disciplinas ministradas, 5 alunos orientados etc.”

Além de cuidar de estrutura e conteúdo, capriche na identidade visual do CV. Busque por aí templates elegantes e eficientes, como os usados no mundo corporativo. Um CV bem organizado e bonito faz os olhos de qualquer banca brilharem. Quer ver um CV superelegante? Dê uma olhada no CV do Maurício Vancine, lá nos comentários.

Conselhos finais

Enfim, preparar um bom currículo é uma arte, envolve técnicas específicas e melhora com a prática.

Para iluminar o seu caminho, peça os currículos de colegas da mesma área que você admira, e que venceram disputas importantes, de preferência na mesma instituição na qual você quer entrar. Estude a forma como estruturaram seus currículos e quais metas eles tinham.

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Fonte: PhD Comics.

(Fonte da imagem destacada)

30 respostas para “Como escrever um currículo”

  1. Fiz meu CV no R, para variar rsrs…

    https://mauriciovancine.github.io/cv/cv-mauricio-vancine-en-academic-complete.html

    Usei o pacote pagedown (https://github.com/rstudio/pagedown). O repositório é esse: https://github.com/mauriciovancine/cv.

    Eu gostei bastante do formato e da praticidade de ser gerado em .html e .pdf, sendo fácil adicionar à página que criei, também no R: https://mauriciovancine.github.io/.

    Há limitações, como quebras de linhas dentro outras coisas, mas o que achei mais legal foram os links e ícones.

    Há outras formas de criar CVs no R com outros pacotes:

    vitae (https://cran.r-project.org/web/packages/vitae/vignettes/vitae.html)

    datadrivencv (http://nickstrayer.me/datadrivencv/)

    http://svmiller.com/blog/2016/03/svm-r-markdown-cv/

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    1. Muito maneiro, Mauricio! Obrigado por compartilhar a sua solução, com direito a receita e ingredientes! Será que dá para fazer chá no R? Eu adoro trabalhar tomando chá e seria ótimo unir esses dois mundos, rsrsrs.

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    2. Pensando em outro ponto agora. Uma das maiores vantagens de produzir documentos acadêmicos em linguagens como RMarkdown ou LaTeX é fazer atualizações automáticas de números, figuras e tabelas, vinculadas a diferentes bancos de dados. Seria possível vincular os dados do Lattes ao seu CV em R, por exemplo, mandando atualizar o segundo automaticamente?

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      1. Se bem que poderíamos tentar um bem bolado: pegar os dados do Lattes, organizar, mandar para o google sheets, e depois gerar o CV… Fica aí um desafio legal para um post kkk

        Vou tentar assim que as coisas ficarem mais calmas por aqui, estou num turbilhão de tarefas kkk

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          1. Opa! Muito obrigado pelo convite.

            Será uma grande honra poder contribuir =]

            Aliás, não esqueci daquela proposta da divulgação científica, é que está faltando tempo mesmo…

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  2. Esse é o mesmo texto de “Como preparar bons currículos para diferentes situações”?
    Há o link no meu RSS (Reader), mas não há o texto.
    Abç.

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  3. Agora respondendo algumas perguntas que me fizeram fora do blog. O que contém um résumé? Um bom résumé deve ter no máximo três páginas (de preferência, só duas) e sintetizar o que você tem de mais importante no seu currículo. Mas o que é o mais importante? Como eu disse no texto, depende da vaga almejada e do estágio da carreira em que você está, além de outros fatores. Para exemplificar: suponha que um mega-projeto está contratando pesquisadores, por exemplo, para cargos temporários de postdoc (isso é mais comum na Europa e nos EUA). O coordenador quer provavelmente contratar alguém que tenha boa experiência em pesquisa e, mais especificamente, dentro do tema do projeto. Normalmente também pega bem você já ter coordenado alguns projetos, mesmo que pequenos (um postdoc é uma espécie de sous-chef científico). Então você vai concentrar o seu résumé em tópicos como “temas de interesse”, “formação acadêmica”, “projetos coordenados” e “publicações”. Se você for um cara super-produtivo e tiver várias atividades em cada uma dessas categorias, vai ter que escolher as cinco mais importantes de cada tipo. Por exemplo, na parte de publicações, você vai listar apenas aqueles quatro papers que publicou em revistas top e que têm pelo menos alguma relação com o tema do projeto; você vai colocar também aquele livro ou capítulo do qual participou e de que todos na área já ouviram falar ou usam como referência. É mais ou menos por aí. Mas, se você está no Brasil, não se preocupe: ninguém vai te pedir um résumé. Vão querer mesmo é o famigerado lattes, de preferência na “sucinta” versão completa…

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    1. Que legal Marco, obrigada mais uma vez pelas dicas.

      Adoro seus textos porque além de informativos também são divertidos! XD

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