Meu projeto está dando errado: e agora?

Calma! É muito comum projetos de alunos darem errado em suas primeiras versões. Além de comum, isso é perfeitamente normal. Afinal de contas, projetos de IC, mestrado e doutorado servem justamente para ensinar aos aspirantes como se faz ciência. Mas o que fazer, quando você percebe que aquela sua idéia maravilhosa não está funcionando na prática? Quem poderá nos defender: Spectreman? Neste artigo, comento alguns dos problemas mais comuns e apresento possíveis saídas desses becos.

1. O projeto escangalhou? Conserte-o!

Vivemos numa era em que tudo que apresenta problemas é imediatamente jogado fora e substituído, de projetos a casamentos. Só que eu ainda sou do tempo em que a gente primeiro tentava consertar as coisas antes de jogá-las fora, então recomendo sempre dar uma geral no projeto antes de partir para o Plano B. Aliás, se você já soubesse de antemão como fazer um bom projeto de pesquisa, não precisaria ingressar em um curso de pós-graduação, não é mesmo? (A maioria dos “gênios auto-didatas” que desdenham a educação formal faz pesquisas bem furrecas e nem se dá conta disso) Problemas todo mundo enfrenta, até mesmo os caciques da ciência, apesar de sua ampla experiência em pesquisa e sua extensa rede de colaboradores. Quem disse que ciência é um troço fácil? O que separa homens de meninos é a forma como eles lidam com os problemas que aparecem. Não adianta ficar de mimimi, chorar pelos cantinhos ou entrar em depressão (meu bróder, olhe um pivete abandonado na rua, antes de reclamar da sua vida). Pare, respire, analise o problema, converse com seus colegas, consulte seu orientador e pense numa solução viável. Sempre existe uma saída, mesmo que ela não seja elegante e sofisticada como nos seus sonhos. Parece que quanto mais fácil o “fazer ciência” foi ficando no Brasil (aumento de verbas, vagas etc.), mais moles e “deprimíveis” os aspirantes se tornaram…

2. Descubra onde está o erro: apenas em uma parte ou no projeto inteiro?

Pode ser que no começo da implementação do seu projeto alguma coisa não funcione como esperado. Depende de quão complexo o seu projeto é e de quantas partes o constituem. Pode ser que o problema esteja apenas em uma determinada linha dentro do esquema maior e, se você arrumá-la ou, em último caso, descartá-la, o resto fluirá bem. Aliás, eu sempre recomendo fazer projetos que têm mais de uma parte, porque, se uma der errado, você ainda tem as outras. Mas se você chegar à conclusão de que tudo está dando errado e o projeto como um todo tem algum erro, pense se o problema é operacional ou conceitual.

3. O que é um problema operacional?

Este é o tipo de problema mais fácil de resolver. Como já comentei em outro artigo neste blog, uma parte fundamental em um projeto de pesquisa é a operacionalização. Ou seja, a forma como você vai representar conceitos abstratos através de entidades do mundo real, que possam ser medidas objetivamente. Então, para testar as previsões que você derivou da sua hipótese central, é necessário escolher os “termômetros” adequados. Pode ser que as suas previsões acabem se mostrando “intestáveis”, simplesmente porque você escolheu variáveis que não representam bem o fenômeno de interesse. Ou pode ter acontecido também de alguma calibragem no seu equipamento estar errada. Ou talvez você tenha comprado redes-de-neblina vagabundas, que deixam os morcegos escaparem, dando a falsa impressão de que a sua área de estudo tem poucos morcegos. Ou, no pior dos cenários, talvez ainda não esteja disponível a tecnologia necessária para medir as coisas que você escolheu como “termômetros”. Há várias formas de um termômetro não funcionar direito e apenas uma de funcionar. Cheque a sintonia entre as variáveis teóricas e operacionais e cheque também os instrumentos de medida e demais materiais escolhidos para o projeto.

4. Preciso fazer um piloto?

Sim, é claro! Ecólogos brasileiros não têm esse costume, mas pilotos deveriam fazer parte da nossa rotina. No caso de resultados preliminares esquisitos ou muito fora do esperado, desconfie sempre primeiro da sua operacionalização. Aliás, por isso é fundamental fazer um bom planejamento e saber claramente quais são os resultados esperados, senão você fica sem ter como saber se as coisas estão dando certo ou não. Depois de definir os resultados esperados, vá para o campo, o laboratório, a biblioteca ou o computador e faça um piloto. Em outras palavras, realize uma versão em miniatura do projeto, para ver o quanto ele é realmente viável. Tendo em vista a sua pergunta de trabalho, suas hipóteses e previsões e o seu delineamento experimental, defina o que é uma unidade amostral no seu estudo. Ou seja, a menor unidade de dados que será coletada e analisada. Pode ser um mês, uma espécie, um indivíduo, um hábitat, uma molécula etc. Depende da sua pergunta de trabalho, como tudo na ciência. Através de um piloto, veja se realmente consegue obter essas unidades amostrais e quanto tempo e dinheiro custa cada uma delas. Sempre consulte um estatístico ou um usuário experiente de estatística para ajustar seu delineamento, antes de fazer o piloto. A análise estatística deve ser decidida ainda na fase de planejamento e não depois de terminada a coleta de dados. Se o piloto der errado, volte para o planejamento, mude o que achar necessário e depois consulte novamente algum perito nas análises.

5. Posso usar gambiarras?

A resposta é simples: apenas se não encontrar alternativas, depois de ter avaliado exaustivamente a situação. Se você quiser medir uma coisa para a qual ainda não foi inventado um instrumento adequado, talvez tenha que adaptar outro instrumento ou criar uma gambiarra do zero. Mas não torne as gambiarras uma rotina. Sempre use a ferramenta certa para o trabalho certo, como dizem os ingleses. Talvez as medidas estejam saindo muito fora do esperado, só porque você está usando ferramentas inadequadas. Muitas vezes os projetos de alunos naufragam, porque as gambiarras dominaram a cena, seja por falta de grana, por falta de orientação ou por falta de vergonha na cara.

6. O que é um problema conceitual?

Esse é o tipo mais grave de problema. Talvez as coisas não estejam indo para frente, porque algo no projeto não faz sentido. Algumas vezes, você pode ter partido de premissas furadas que levaram à construção de hipóteses frágeis e de previsões que, por isso, nunca se confirmam. Pode ser também que a abordagem dada ao problema de interesse seja equivocada; talvez ele fosse resolvido mais facilmente, caso tivesse sido olhado por outro ângulo. Outra possibilidade é você ter construído as bases do projeto através de literatura desatualizada; você pode estar perdendo tempo em um beco sem saída, cuja placa de “sem saída” já foi posta lá há anos. Como diria o Seu Myagi, “quando a raiz forte, bonsai forte”. Seja muito cuidadoso ao elaborar as bases conceituais do seu projeto, ou todo o resto irá por água abaixo.

7. Eu tomei todos esses cuidados, mas nada está dando certo: e aí?

Bom, como eu disse no começo, se o seu projeto tem mais de uma parte e apenas uma delas está dando errado, talvez seja necessário abandoná-la, depois de procurar exaustivamente por soluções. Mas se o seu projeto inteiro está naufragando, talvez seja o caso de partir para um Plano B. Por isso é importante fazer um experimento piloto antes de começar para valer a coleta de dados. O piloto já deixará claro para você se a idéia como um todo é viável ou não. O pior é se você não fizer um piloto e, ainda por cima, postergar demais o começo do projeto: isso pode acabar te colocando numa situação em que não terá mais tempo hábil para corrigir os problemas, nem para ativar o Plano B (muitos cometem esse erro, infelizmente). Se você for aluno de doutorado, sinto muito, mas estará em maus lençóis. Tomara que o seu curso tenha um sistema de qualificação que permita detectar problemas graves a tempo. Se você for aluno de mestrado, tchau, um abraço…

8. Recomendação final

Invista muito no planejamento do seu projeto. Quanto mais energia você aloca no antes, menos dor de cabeça tem no depois.

Fonte: PhD Comics.

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6 Replies to “Meu projeto está dando errado: e agora?”

  1. Começarei, no próximo mês, como coordenador, meu primeiro projeto financiado por uma agência de fomento. Guardarei estas dicas no favoritos. Tomara que não precise utilizar nenhuma 🙂
    Valeu pela ajuda.

    1. Oi Patrick, parabéns! É só planejar com extremo cuidado e fazer um piloto para ajustar o plano à realidade, que as chances de sucesso aumentam muito.

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