A importância da humildade na carreira científica

A vaidade faz parte da natureza humana, assim como diversos outros sentimentos, sendo impossível classificá-los como absolutamente positivos ou negativos sem antes dar-lhes um contexto. Contudo, todo sentimento, quando em excesso, certamente traz prejuízos, principalmente para a própria pessoa. É o caso da vaidade, talvez o calcanhar de Aquiles de muitos cientistas e outros profissionais que seguem carreiras intelectuais. Em tempos de competição exacerbada, em que o individualismo impera, resolvi escrever sobre a vaidade acadêmica, a fim de dar um toque para quem está ingressando no Caminho do Cientista. A vaidade é o pior veneno para um neófito, tendo o potencial de cortar pela raiz uma carreira que poderia vir a ser brilhante.

Como já dizia o Mestre Yoda, “a vaidade se tornou uma falha comum entre os Jedis”. Na verdade, os cientistas sempre tiveram a fama de serem vaidosos e egocêntricos, mesmo que isso não seja verdade para a maioria de nós. Em parte essa fama vem do ciúme que algumas pessoas sentem de quem trabalha em profissões que gozam de certo prestígio, incluindo aí não só os cientistas, mas também artistas, empresários, estadistas, sacerdotes etc.

Só que, por outro lado, existem de fato muitos cientistas que acham que a Terra gira em torno dos seus umbigos. São pessoas tão vaidosas, que chegam até mesmo a desmerecer idéias brilhantes, apenas porque são contrárias às suas. Ou, quando esses caras têm algum poder político real, chegam a boicotar quem não segue sua cartilha. Geralmente colegas assim têm teorias e hipóteses de pelúcia e gostam de pensar que a natureza tem que seguir as leis que eles mesmos criam.

Esse é o caso de alguns cientistas já estabelecidos. Alguns deles têm talento de fato, mas a arrogância os torna míopes ou até mesmo cegos. Sem saber, eles boicotam a si mesmos, pois sua cabeça dura fica impermeável a novidades e descobertas. Quando menos percebem, já estão estagnados na carreira. Se tinham algum renome no início, a partir desse ponto começam a perder importância gradualmente e a sua imagem vai se apagando até eles caírem no limbo da irrelevância acadêmica e se transformarem em peças de museu. A arrogância mata carreiras que chegaram a ser ou poderiam ter sido brilhantes. De que adianta ter emprego garantido, se o professor narcisista vira uma espécie de zumbi acadêmico?

Só que a arrogância é muito mais prejudicial para os padawans, que estão começando a carreira. Neste artigo, tento alertar os neófitos sobre o problema, porque para eles ainda há esperança, já que cavalo velho não aprende truque novo.

Nos anos de treinamento científico, quando passamos pela iniciação, o mestrado e o doutorado, devemos trabalhar muito para desenvolvermos as habilidades naturais que porventura tenhamos. É a famosa Regra das Dez Mil Horas, sobre a qual já falei antes (ok, o número exato de horas varia de pessoa para pessoa, mas a idéia da necessidade de um esforço gigante no começo da carreira corresponde bem à realidade).

Aí é que está a pegadinha. Quem, seja lá por qual razão for, começa a pensar que já é um cientista pronto antes de o ser de fato, acaba relaxando e não se dedicando à própria formação o tanto quanto deveria. É aquela velha mentalidade tosca do “isso aí é muito fácil, não preciso estudar”. Meu chapa, mesmo os supostos gênios tiveram que estudar os respectivos assuntos de interesse a fundo e praticar, praticar e praticar, antes de despontarem naturalmente como outliers! Ninguém vira gênio ou expert só através do talento: é preciso treinamento e prática também.

Infelizmente, essa terrível falha de caráter chamada “vaidade cega” se tornou um problema de enormes proporções, pois vivemos num tempo de competição exacerbada, que começa já no berço (leia-se iniciação científica). O mundo acadêmico oferece muito mais oportunidades agora do que há uns 10 anos, porém o número de pessoas interessadas nessas oportunidades cresceu ainda mais. É um mundo lotado de cientistas competindo por bolsas, empregos e grants.

Vejo padawans, ainda não graduados, já se achando autoridades em assuntos que mal começaram a estudar. São pessoas imaturas e tolas, que fazem de tudo para aparecer, sendo blindadas contra críticas direcionadas a elas próprias. Para reconhecer esses padawans egocêntricos, pense naqueles coleguinhas que sempre fazem perguntas em qualquer tipo de apresentação, mesmo quando essas perguntas não acrescentam nada ou são até mesmo capciosas (a.k.a. “loucos de palestra“). Como todo texto na internet hoje em dia precisa de legenda para os haters e a polícia do pensamento, lá vai: é óbvio que ter curiosidade é essencial para um cientista, mas aqui estou me referindo àqueles que não perguntam compulsivamente por curiosidade, mas por vaidade. Pense também nos coleguinhas que nunca têm algo de positivo a dizer sobre colegas e professores. São aqueles sujeitos que parecem andar ao mesmo tempo com o nariz empinado e uma nuvem negra sobre a cabeça. Esses Anakins Skywalker, que muitas vezes ainda nem sabem manejar direito um sabre de luz, julgam-se mestres jedi logo após tomarem as primeiras lições. Isso também acontece com alguns, depois de lerem meia dúzia de papers ou, pior, quando ganham prêmios obscuros oferecidos em eventos pequenos, que têm algum significado apenas dentro de um círculo científico muito, muito específico (isso, se tiverem mesmo algum significado), mas que mesmo assim têm o poder de elevar jovens egos às nuvens. Vejo até mesmo alunos de iniciação científica posando de autoridades em redes sociais e sendo extremamente agressivos com os colegas, provavelmente numa tentativa de conquistar espaço na base do grito. Esse tipo de elemento eu chamo de “cientista pequinês”. Geralmente, isso tem uma certa correlação com ser um “aluno feral“.

Além da importância do treinamento e da prática, que não canso de ressaltar aqui neste blog, devemos considerar também a importância da experiência. Mesmo se você tiver talento, já tiver recebido treinamento e já tiver praticado as suas dez mil horas, mantenha sempre a sua mente aberta. Ouça quem já trilha o Caminho do Cientista há mais tempo. Antes de criticar os mais velhos, seguindo o calor da juventude, preste atenção ao que eles dizem; não tente reinventar a roda. Muitas vezes, a experiência leva os seus colegas mais velhos a enxergarem ângulos de um determinado tema que você nem sonhava existirem. Não estou dizendo que idade (não a biológica, mas a científica) é sinônimo de sabedoria. Mas idade quase sempre é sinônimo de experiência. Respeite os mais velhos e suba nos ombros dos gigantes, se quiser enxergar mais longe.

Portanto, colega neófito, se você ainda estiver em treinamento, tenha humildade. Ouça, peça conselhos, preste atenção, tenha paciência. Se você fizer o seu dever de casa com capricho, um dia será naturalmente reconhecido pelos seus pares. Estou dizendo isso para o seu próprio bem.

Sugestões de leitura:

Olhem o destino dos neófitos que se julgam experts…

Fonte: WikiMedia Commons.

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Ouçam o Prof. Karnal:

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Olhem o que acontece com caras muito bons, mas que não sabem manter a humildade:

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Por fim, uma excelente palestra sobre os tristes tempos de culto ao ego que vivemos:

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49 respostas para “A importância da humildade na carreira científica”

  1. Quando a gente sabe o que pode não é necessária a tentativa exagerada de tentar mostrar que sabe, isso sim com toda certeza é insegurança. Além de ser ruim para própria pessoa, se torna chato pra quem faz parte do convívio desse indivíduo. Não é simplesmente chato, mas insuportável, pq ninguém sabe de tudo. A pessoa parece que sempre está tentando competir, fugindo da melhor parte do conhecimento, a aprendizagem e a troca de informações, consequentemente novos conhecimentos. Gente assim precisa de gente sincera o suficiente pra deixar bem claro que isso é algo insuportável.

  2. Olá Marco, adoro visitar o seu blog! Em uma outra visita eu encontrei aqui um link para uma versão bem humorada sobre a importância da humildade acadêmica e uma representação gráfica do trabalho de doutorado, onde o avanço que alcançamos é apenas um “pontinho” na ciência. Gostaria de rever este link, mas não o encontrei. Poderia me indicar onde encontro?

  3. Depois de ler tudo, o post e os comentários, todos muito bons, mais eu reafirmo minha fé de que o grande problema do mundo são as generalizações de especificidades. rs…

  4. creo sumamente útil lo que escribes, como cientifico en formación sigo tus consejos, y me alegra que hayan personas como tú, que no imponen un abismo entre el profesor y el estudiante, sino que reconocen las habilidades y conocimientos del otro, pues los estudiantes, en un corto tiempo, pasan a ser colegas de esos “expertos”

  5. esse artigo me fez refletir acerca de um livro do Jonah Lehrer entitulado ‘Imagine:How creativity works’. Lá ele ressalta a importancia e, as vezes, necessidade do olhar despreparado e inexperiente para enxergar a resposta ou a pergunta certa. Posso imaginar o cenário onde um neófito, ‘por não saber que era impossível, foi lá e fez’, como diria Jean Cocteau. A experiência muitas vezes limita a audácia na experimentação, o ousar além do desconhecido.

    1. Geziel, essa é uma faca de dois gumes. Por um lado, os inexperientes pensam de forma mais livre, “selvagem”. Por outro lado, a experiência e o treinamento nos permitem pensar sobre coisas que não sabíamos existir, com uma profundidade que nem sonhávamos, quando ainda éramos ignorantes na área de interesse. Cuidado com os chavões educacionais sobre criatividade que certas correntes pregam como dogmas “libertadores”: em áreas que vão de escrever um poema a fazer uma descoberta científica, o treinamento, a experiência e a criatividade andam de mãos dadas.

  6. Muito interessante o seu modo de abordar esse tema, q se formos pensar convivemos com os “experts” arrogantes desde a infância. E na universidade não é diferente, tanto na graduação qto na pós-graduação. Entretanto a minha dúvida e principalmente a minha angustia está na busca desse equilíbrio q vc citou no comentário posterior. Meu maior problema é desacreditar do meu conhecimento e sucumbir aos arrogantes.

    1. Luciane, nunca deixe alguém te convencer de que você não é capaz de alcançar uma determinada meta. Mas, ao mesmo tempo, procure medir com realismo o quanto ainda falta para chegar lá. É mais ou menos por aí.

  7. Marco, amei o post. Encontrei seu blog por acaso, nem lembro o que estava pesquisando, mas tinha a ver com alguma coisa científica. Fiquei encantada com as fotos de ótima qualidade… (Ah, lembrei: acho que era sobre pôster). Comecei a ler.. e, o que você escreve é apenas o que acontece em todo lugar e nem todo mundo tem coragem de dizer. Parabéns pelo blog.

    1. Obrigado, Acácia. Os objetivos do blog são esses mesmos: falar sobre as coisas que as pessoas varrem para debaixo do tapete e dar dicas para quem está começando na carreira de cientista. Quando eu comecei, muitas vezes fiquei perdido, porque a postura da maioria é esperar que você aprenda por osmose. Mas graças aos conselhos preciosos de alguns colegas mais experientes, consegui ir avançando de grão em grão. Tento apenas retribuir o favor de forma mais sistematizada.

  8. Só complementando meu post, quero deixar claro, como aliás já fiz no texto, que há muita arrogância não só entre alunos, mas principalmente entre profissionais (professores, pesquisadores, consultores e gestores já formados). O fato é que, neste post, resolvi focar na arrogância dos alunos, porque falar da arrogância dos profissionais, notoriamente conhecida, é chover no molhado. Minha intenção neste post é alertar os alunos para o fato que o excesso de vaidade pode destruir ainda na raiz uma carreira que poderia vir a ser brilhante. A arrogância cega, mutila e aleija intelectualmente.

  9. Gostei muito do texto Marco, este é um tema importante, que deveria ser discutido abertamente nos programas de pós graduação, se os dirigentes destes permitissem é claro, uma vez que, muito da arrogância vem deles mesmos, e é por eles ensinada.
    Só gostaria de fazer uma observação, em um texto que prega a humildade é estranho ler “Em parte essa fama vem do ciúme que outras pessoas sentem de quem trabalha em profissões de alto nível, incluindo aí não só os cientistas…” alto nível? dizendo assim parece que cientistas, artistas, estadistas, ou seja quem for, tem mais valor que outras profissões.
    Se o chefe do seu laboratório, orientador ou pesquisador fica fora um mês, as vezes as pessoas demoram a perceber sua ausência, agora, se a faxineira faltar uma semana que seja, aí todo mundo percebe, sua falta, e seu valor.
    Realmente me desculpe se vc gostaria de expressar outra coisa, ou o trecho foi ironia e eu não consegui perceber, mas é que me soou muito estranho.

    1. Alexandre, desculpe-me se fui ambíguo nessa parte. “Alto nível” é uma expressão usada para definir profissões que exigem um grande preparo (leia-se, grande investimento na formação) e um nível de especialização maior do que em outras, o que geralmente leva quem trabalha nelas a ter mais influência na sociedade ou a receber salários maiores. Não quer dizer que outras profissões não sejam importantes ou que sejam de “baixo nível” no sentido pejorativo. É óbvio que a faxineira da universidade é uma servidora fundamental no nosso dia a dia. O ponto é que é mais fácil você substituir uma faxineira do que um professor titular, porque o primeiro cargo exige menos preparo do que o segundo. Se por um lado não podemos desvalorizar as profissões mais simples, porque todas têm uma função na sociedade, por outro lado também não concordo com a moda politicamente correta de botar todas as profissões no mesmo patamar, desvalorizando quem leva décadas para se preparar. Um relógio precisa de todas as engrenagens para funcionar, só que algumas são mais difíceis de produzir do que outras.

  10. E quando se unem a arrogância de uns com a falta de confiança de outro? E se o arrogante é o professor (ou colegas) e o sem confiança o aluno?
    Passei pela academia na graduação, mas fui entender melhor desse assunto no mestrado. Admito que entrei sem maturidade e não sabia direito o que queria fazer, mas via uma situação comum no laboratório: pessoas com mais experiência com arrogância tamanha que intimidava os alunos a fazerem simples perguntas. E cara, isso acaba com a auto estima do aluno. Principalmente se os sêniors forem muito conservadores. Mata a criatividade. A academia que deveria ser um ambiente vibrante e de novas idéias se transforma em um lugar tenso em que qualquer pergunta que se faça é risco de exposição e dúvida de sua capacidade. Falo com muito orgulho que foi com o meu jeito “não muito acadêmico” que consegui vencer esta etapa. Foi até engraçado, porque eu resolvi o problema na prática, do meu “jeito particular”, mas não encontrava resposta na teoria. Meu orientador disse que foi “bruxaria”… eu disse que foi “engenharia reversa”, rs. Claro que depois de algum tempo (e muita pesquisa bibliográfica) achei a resposta na teroria, mas tenho orgulho de ter colocado um toque da minha pessoa no trabalho, sem estar atrelado a tantas regras. Como dito em comentários anteriores, há de se ter um equilíbrio e o que eu via era um sistema que na maioria das vezes intimidava e matava a criatividade dos alunos. E sempre tinha aquele discurso: Engenharia é foda! Isso não é pra qualquer um! Tem que ralar! Tem que sofrer! Sangue, suor e lágrimas… Me pergunto: Precisa ser assim? Minha cabeça mudou demais e a experiência acadêmica ajudou um bocado nisso. Disso tiro duas conclusões minhas:
    – a maioria dos alunos hoje entra na academia imaturo (me incluo nessa).
    – não existem maus alunos, existem maus professores (há excessões).
    Quanto mais sábio, mais humilde.
    Outra impressão que tive é que muitos do meio acadêmico utilizam o status e a instituição como um muro contra suas reais fraquezas, suas decepções e frustrações. Mas isso dá pano pra manga… hehehe…
    Fica aí a minha opinião (meio que desabafo)…. Tô até um pouco mais leve, que beleza!
    Abraço a todos!

    1. Tom, sinto muito que você tenha passado por esses problemas. Sei bem do que você está falando, sei que é um problema real e eu mesmo já tive experiências parecidas. Concordo plenamente que existem maus professores e orientadores. Só que existem também maus alunos, do tipo que não está a fim de trabalho ou caiu de pára-quedas na carreira, sabe que não tem vocação e insiste em bater cabeça por teimosia, inércia ou outras razões mais obscuras. Existem até mesmo maus alunos bem intencionados, que têm disposição para o trabalho, mas não têm vocação alguma para a ciência e por isso não progridem. Virou moda botar toda a culpa nos professores hoje em dia, só que há frutos podres em ambos os cestos. Na Academia, você acha todo tipo de pessoa (bons e maus alunos e professores), assim como todas as combinações entre pessoas; isso é como em qualquer outra subcultura humana. Quanto aos maus professores arrogantes, como eu disse no texto, a punição natural para a maioria acaba sendo o limbo da irrelevância científica; por isso alguns frustrados e castradores se tornam tão amargos. Com relação ao conservadorismo ou liberalismo, de novo, também acho que um equilíbrio é necessário. Se a Academia fosse liberal demais, o risco de crescimento da má ciência ou pseudo-ciência seria bem maior. É saudável para a ciência que você tenha que suar a camisa para convencer os outros que a sua idéia faz sentido e de que os seus argumentos são sólidos. Por outro lado, a Academia não pode ser conservadora demais, senão morre a inovação, como você disse. É como naquela velha máxima do Arthur Sulzberg: “acredito em uma mente aberta, mas não tão aberta a ponto de o seu cérebro cair para fora”. De qualquer forma, concordo contigo que o dia a dia da ciência não precisa ser sofrido. É necessário muito trabalho e dedicação, mas o sofrimento desnecessário vem das más práticas de alguns alunos e professores.

  11. O grande problema disso tudo está em alguns orientadores que permitem que peguemos este caminho perigoso. Ausentes de suas responsabilidades como educadores, acham que seu dever é somente estar presente nas causas que dizem respeito ao trabalho científico, sem saber que necessitamos de um incentivo, de um tapinha nas costas, de uma opinião, de saber que precisamos visualizar um “mestre yoda” na figura do professor/admirador. Vocês têm por obrigação – sim, obrigação!!!- nos aconselhar e nos motivar.

    1. Marco, depois desse desabafo quero parabenizar o seu post!!! Muito bom. Quando me refiro a “Vocês” no comentário acima, não quer dizer que Marco faça parte disso, por favor. Falei de uma forma geral, aos que fazer jus ao perfil.

    2. Oi Filipe, concordo em parte contigo, pois esta já é uma questão mais complicada. Vamos por partes. O orientador não precisa necessariamente ser um mestre Yoda (se for um Obi-Wan ou Qui-Gon, já está de bom tamanho, rs), mas ele tem a obrigação de agir profissionalmente e levar a formação do aluno muito a sério. Há vários perfis de bons orientadores, incluindo os “mestres”, os “executivos”, os “quitandeiros”, os “burocratas” e os “paizões”. O orientador tem, portanto, a obrigação de aconselhar e orientar o aluno, mas ele não tem a obrigação de sempre incentivá-lo. O que é obrigação do orientador é dar tapinha nas costas quando merecido, mas puxão de orelha quando necessário. O bom orientador empurra e puxa na medida certa, tendo cuidado em seu julgamento (o que não é fácil). O que o orientador não pode fazer, em hipótese alguma, é abandonar o aluno ao sabor da maré, sem aconselhamento algum, apenas lavando vidros ou armadilhas de graça no laboratório. Muitos orientadores, por preguiça ou má fé mesmo, deixam os alunos largados, como se cientistas se criassem sozinhos, sem treinamento. É uma espécie de estratégia r: ter cem alunos para ver se uns cinco outliers dão certo sozinhos. Um bom orientador costuma ser K-estrategista: ele tem poucos alunos e investe muita atenção em cada um.

      1. Esse seu último comentário foi realmente a cereja desse delicioso bolo que foi o seu texto.

        Depois de muito apanhar na academia e ainda estar no início da longa estrada do aprendizado constante, eu percebi que também existe um fenômeno grave acontecendo. Alguns orientadores aos se depararem com algum erro de seu aluno ao invés de darem um puxão de orelha para tentar colocá-lo no caminho correto, preferem puni-lo sem dar qualquer ensinamento sobre isso. Normalmente isso resulta na expulsão do aluno de um laboratório, projeto ou participação em uma publicação. Isso traz um viés pesado para quem está no início do processo de aprendizagem e pode, como consequência direta, implicar na perda de um bom futuro profissional. Fico inclinado a acreditar que esse comportamento drástico de alguns professores-topo-de-cadeia seja consequência de seu distanciamento com a “categorias de base” causado exatamente pela falta de humildade.

        Logo, fazendo um exercício de causa/consequência é possível pensar que, além de atravancar o progresso científico, a falta de humildade de muitos cientistas pode ser uma das causas dos muitos problemas na formação de novos profissionais, nos conflitos de relacionamentos entre mestres e aprendizes e na qualidade de produção dos alunos.

      2. Roberto, há casos e casos. Por um lado, sim, há de fato chefes de laboratório que não têm paciência de ensinar e que, portanto, não merecem ser chamados de orientadores. Por outro lado, há também bons orientadores que chefiam grandes grupos de pesquisa, altamente profissionais e com estrutura hierárquica (incluindo postdocs, doutorandos, mestrandos, técnicos e alunos), que não têm como atentar para todos os detalhes do dia-a-dia do laboratório e, assim, tomam decisões com base no julgamento dos orientadores diretos do aluno em questão. As decisões tomadas por eles podem parecer sumárias, mas se você for examiná-las a fundo, elas apenas priorizam o funcionamento do grupo como um todo e não as idiossincrasias individuais. De qualquer forma, em alguns casos drásticos que resultam na expulsão de alunos, como você mencionou, há que se observar especialmente o modo como as coisas ocorreram. Em suma, quando o erro do aluno é fruto de desatenção, inexperiência ou um simples mau-entendido, tudo bem, desde que o erro não seja repetido e que o aluno se desculpe e mostre um arrependimento sincero. Garanto que a maioria dos orientadores perdoa ou simplesmente ignora esse tipo de erro; os orientadores mais acolhedores, além disso, ainda aconselham o aluno nessas horas. Só que, quando o erro é fruto de má fé, sinto muito, mas o aluno não merece uma segunda chance. Orientador não é confessor, terapeuta ou babá. Há alunos com extrema falta de humildade, com má índole mesmo, que só espalham intriga e desunião pelos lugares por onde passam. Se o aluno não chega com valores morais básicos ensinados pela família, não é papel do orientador cuidar da formação do seu caráter. O orientador não tem a obrigação de abrigar uma cobra peçonhenta em seu grupo de pesquisa. A severidade da punição depende, no fim, do tipo de erro, da atitude do aluno e do temperamento do orientador. Como eu já disse, hoje em dia é uma moda politicamente correta focar nos defeitos de alguns professores, porém o que não falta por aí são também alunos ruins. A nossa sociedade está doente com a falta de ética e de valorização do mérito; isso permeia todos os níveis sociais e econômicos. No final das contas, fica a máxima: nunca julgue uma briga, sem tê-la acompanhado de perto e ouvido os dois lados.

  12. Parabéns meu velho, onde estudo há uma sociedade de pessoas assim, infelizmente.
    Muito obrigado pelo texto, pode ter certeza que contribuiu muito na minha formão acadêmica e pessoal!

  13. Muito interessante.
    Tem que ser humilde por que de qualquer maneira sempre havera alguem que sabe de algum assunto especifico que é desconhecido para você. Ser arrogante so vai atrapalhar seu caminhar no mundo cientifico.

    Mudando totalmente de assunto nao sei se você conhece o Steven Presley mas é um post-doc de U. of Connecticut. O trabalho dele sobre estruturas de metacommunidades inspirou minha tese de mestrado. Ele esta a procura de parceria com pessoas que tem dados sobre morcegos. –> http://hydrodictyon.eeb.uconn.edu/people/willig/Research/activity%20pattern.html

    Ja que é sua area estou passando a mensagem.

    Abçs

    1. Valeu pela dica. Conheço o Presley e vou participar de um simpósio com ele em agosto. O cara está mexendo com a quiropterologia neotropical, gerando grandes avanços!

  14. Otimo texto onde requer mil discussões sobre essa palavra e/ou sentimento (humildade). Dentro desse contexto não podemos nos esquecer da “Pseudo-humildade”.
    Mas como já colocados em comentarios anteriores, tudo é baseado na justa-medida, onde o equilibrio se torna o pilar para caminho crescente do conhecimento.

  15. Muito, muito bom!
    Parabéns, sintetizou em palavras exatamente o que penso a respeito dos “experts”.
    Vivo nesse meio e desejo seguir tal maneira de vida, por isso sempre me dediquei a estudar e escutar aos outros. Esse é o melhor jeito.

  16. Concordo com você Marco e acho que, no caso da carreira científica, a humildade se torna algo não só importante, mas crucial. Isso porque os bons cientistas devem sempre assumir a possibilidade de estarem errados (a ciência não deve tolerar dogmas, certo?). Acho que somente uma atitude de humildade permite a um cientista aceitar (ou ao menos entender) opiniões diferentes da sua própria e, com isso, aprender coisas novas e novas formas de enxergar um mesmo problema.

    Como sempre, adorei o texto Marco e saiba que embora você já seja Doutor e Professor, continua sendo um excelente Mestre! XD Obrigada mais uma vez pelos ensinamentos Jedi e pelo exemplo!

  17. Esse texto me fez pensar também no assunto contrário, a falta de autoconfiança de muitos jovens cientistas. Excesso de confiança, do tipo “Eu sou um expert, curvem-se perante a mim!” é ruim, mas a falta de confiança, do tipo “Eu, um mero graduando/mestrando/doutorando/recém-doutor, não sei nada, não posso dizer nada, preciso me curvar perante a todos” é quase tão ruim quanto. Por exemplo, pensando em um projeto de iniciação científica – obviamente a/o graduanda/o que realizou o projeto não sabe tanto assim da teoria subjacente, das análises estatísticas, de por que tal método foi usado… Mas, por outro lado, ninguém conhece um projeto melhor do que a pessoa que o executou, que foi a campo coletar dados e que passou meses e meses pensando no projeto, mesmo que em background. Ou seja, a meu ver, precisa haver um equilíbrio, sem se achar o expert mas também sem achar que não sabe nada… 🙂

    1. Você tem toda razão, Pavel. Como dizia Buda: “a verdade está no caminho do meio”. Jovens cientistas precisam também ousar, mas sem perder a humildade. O equilíbrio só vem com o tempo e a maturidade. Eu mesmo já errei tanto para um lado, quanto para o outro.

      1. Eu gostei do comentário do Pavel.
        É sempre importante ressaltar a humildade, mas acho absurdo reprimir a pergunta dos mais novos. Sem a pergunta dos mais novos, o conhecimento dos mais velhos se torna inquestionável, e caminha pra uma educação autoritária. Eu sei, você não sabe!

        Reprimir a pergunta dos mais jovens é corroborar com o autoritarismo na ciência. E retira do estudante a parte mais apaixonante, que é o processo de aprendizado, é a caminhada. E esse me parece um processo cíclico: quando a pergunta de alguém é censurada, ele aprende que deve censurar a pergunta do próximo, e não buscar a resposta da sua dúvida. Paulo Freire deve estar se remoendo em seu túmulo, porque reprimir a pergunta do aprendiz é contra tudo que ele defendia com a educação libertadora.

        Existe uma frase mais ou menos assim: “Quem pergunta é tolo por um instante, mas quem não pergunta é tolo eternamente”. Eu sou tolo o tempo todo, porque sempre pergunto. E fazer perguntas faz parte do processo de aprender a fazer as perguntas certas.

        1. Só deixando claro, em momento algum falei em reprimir perguntas. Basta ler o artigo com atenção. Não distorça minhas palavras. No texto, refiro-me aos alunos arrogantes, que fazem muitas perguntas não para aprenderem, mas para aparecerem. Perguntas verdadeiras, feitas para tirar dúvidas, devem ser estimuladas. E não, não sou adepto da filosofia do Paulo Freire. Acho que existem muitos caminhos diferentes para ser um bom professor, sem seguir os dogmas “freireanos”. Penso que, na sala de aula, devemos ser professores, não educadores. Quem educa ou não são os pais. E sou absolutamente contra misturar ideologias políticas com a prática de ensino, criando aberrações como a “pedagogia do oprimido”. Como professor, minha missão é ensinar, não doutrinar.

      2. Entrando (ou reentrando) na conversa…
        Como o Marco disse, existe uma diferença entre perguntas que realmente esclarecem, e perguntas feitas “só pra aparecer”. Confesso que eu já fiz perguntas do tipo, e só percebi isso quando uma amiga me falou. Perguntas que não acrescentam nada à aula, feitas mais para testar o professor (eu não percebia que fazia isso, mas acho que fazia… Espero ter mudado! rs). E tem também um terceiro tipo de pergunta, aquele feito porque o/a professor(a) não se sente satisfeito até que alguém faça uma pergunta, mesmo que não haja nada de interessante para ser perguntado… Essas são entediantes rs
        Eu sou adepto à filosofia Freireana (o pouco que sei dela; principalmente por causa do meu trabalho em forma de hobby com educação ambiental), baseada essencialmente em uma relação mais humilde entre o professor e os alunos. E, na verdade, acho que Paulo Freire ficaria muito feliz em ver uma aula do Marco. 🙂

        1. Valeu, Pavel. O mais importante, gostando a pessoa do Freire ou não, é saber que há várias filosofias, e que cada um deve ter a liberdade de escolher a filosofia ou o método que julgar melhores.

          PS: dá gosto debater com alguém como você, que lê os posts com atenção e vai até o final, para só depois depois concordar ou discordar, sempre com argumentos claros. Já em outros casos, estou quase precisando fazer legendas para o blog… rs

      3. Marco e Pavel, concordo com seus argumentos. Saí do “caminho do cientista” para trilhar um caminho pararelo (da ilustração e tradução científica), mas creio que o equilíbrio entre autoconfiança e humildade é essencial não apenas para a carreira acadêmica, como também para as demais carreiras e para o lado pessoal de nossas vidas. No meu caso, a balança sempre pendeu pro lado do excesso de humildade, o que também é extremamente prejudicial, como descrito pelo Pavel. Mas também já vi colegas pecando pelo excesso de confiança, como descrito pelo Marco. Enfim, continuemos a busca pelo “caminho do meio”, e que “o tempo e a maturidade” nos ajudem a encontrar a direção certa!

        1. Isso mesmo, Carolina. Na vida, não há mestre melhor do que a dor. Depois de quebrar a cara algumas vezes, seja por excesso ou falta de humildade, a gente vai encontrando o equilíbrio na marra… Tem alguns que infelizmente nunca encontram e aí o resultado é desastroso.

    2. ‘Por exemplo, pensando em um projeto de iniciação científica – obviamente a/o graduanda/o que realizou o projeto não sabe tanto assim da teoria subjacente, das análises estatísticas, de por que tal método foi usado… Mas, por outro lado, ninguém conhece um projeto melhor do que a pessoa que o executou, que foi a campo coletar dados e que passou meses e meses pensando no projeto, mesmo que em background.” –> isso que você falou é muito comum. Não vale (mas acontece muito) membro de banca esmiuçar sobre a estatística que nem foi vista tão profunda na graduação (coisas de mestrado pra frente), pra tentar deixar o iniciante frustado, achando que não sabe nada.

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