Vale a pena escrever a minha tese no formato clássico de dissertação?

Esta é uma pergunta que muitos alunos me fazem e que já abordei en passant em outro post. Ela ainda gera polêmica, embora já esteja se chegando a um consenso sobre as vantagens de escrever teses* na forma de coletânea de artigos científicos. Aqui vou abordar essa questão do ponto de vista das ciências naturais.

Bom, partindo do começo. Desde muitos séculos até umas duas décadas atrás, trabalhos de conclusão de cursos de pós-graduação costumavam sempre ser escritos na forma de dissertação acadêmica. Ou seja, um texto longo, dividido não em capítulos, como seria feito em um livro, mas sim em seções, como em um artigo. Costumava-se usar, nas ciências naturais, a estrutura IMRAD (da sigla em inglês: introdução, métodos, resultados e discussão), que é clássica na redação de artigos científicos.

Contudo, ao longo do século XX, foi ficando cada vez mais claro que o que importa mesmo nas ciências naturais são os artigos e muitos alunos começaram a publicar suas pesquisas antes mesmo de terminarem a pós-graduação. Assim, lá pelos anos 2000, muitas universidades, a começar por Europa e EUA, mas depois também nos países periféricos, passaram a permitir que os mestrandos e doutorandos escrevessem as suas teses na forma de coletânea de artigos. Por exemplo, se o aluno já tivesse publicado uma parte das suas pesquisas antes de terminar o curso, poderia anexar os artigos como capítulos para compor a tese em si. As demais partes seriam também compiladas ao documento final no formato de artigos, mesmo que ainda não tivessem sido publicadas ou mesmo submetidas. Para que a tese demonstrasse coerência, sendo de fato uma tese e não uma colcha de retalhos, seria preciso ainda escrever uma introdução geral, que apresentasse o fio condutor dessas pesquisas feitas (rationale), e também uma conclusão geral, que buscasse fazer uma síntese de tudo que o aluno descobriu. Deu-se início então à era das teses em formato de coletânea de artigos.

Mas quais seriam as diferenças mais importantes entre esses dois formatos? Primeiro, no formato de dissertação, as pessoas tinham o costume de aproveitar a falta de limitação de espaço, então escreviam e escreviam sem parar, muitas vezes tornando o texto bem mais longo do que deveria ser. Além disso, tinham o costume de incluir uma infinidade de anexos à dissertação, como mapas, fotos, desenhos e outros materiais, quase sempre desnecessários, mas que deram trabalho para serem feitos e, por isso, causavam no aluno uma ânsia incontrolável de apresentá-los. O formato de coletânea, por sua vez, como se baseia em artigos já formatados para revistas-alvo pré-determinadas, passou a ter embutida a limitação de espaço imposta por cada revista. O aluno passou então a ficar proibido de escrever à vontade e de incluir infinitas figuras, tabelas e mapas, tendo que exercitar o seu poder de foco e síntese.

Muitos professores, saudosos do tempo das dissertações clássicas, fazem críticas ao formato de coletânea de artigos. Os principais argumentos que circulam por aí são: (1) no formato de dissertação, o aluno tem mais liberdade de escrever, então pode desenvolver melhor as suas idéias; (2) no formato de dissertação, o aluno não tem limitação de espaço, então pode enriquecer a tese com anexos; (3) no formato de coletânea de artigos, o aluno muitas vezes acaba escrevendo em inglês, o que torna a tese inacessível para muita gente; e (4) teses, de um modo geral, são importantes para ajudar na formação de alunos de graduação. Vamos derrubar esses argumentos fracos um por um.

Argumento (1): trata-se da velha falácia de que regras tolhem a criatividade. Na verdade, regras disciplinam e, principalmente, ajudam a canalizar a criatividade, dando-lhe foco e amplificando-a. O estilo da redação científica, apesar de poder ser dividido em sub-estilos diferentes, tem como características gerais a objetividade e a síntese. Ou seja, ao escrever, um bom cientista deve ir direto ao ponto, evitando rodeios, e deixando clara a  mensagem. Além disso, ele não deve usar duas palavras, quando apenas uma bastar. Por isso, é bom que os alunos sejam treinados desde cedo no estilo dos artigos científicos, porque é dele que precisarão para relatar as suas descobertas oficialmente. E esse estilo tem enormes vantagens, principalmente por permitir uma comunicação enxuta e clara. Algumas das melhores teses de doutorado que já li tinham menos de 100 páginas (um excelente exemplo é Nogueira 2003).

Argumento (2): a liberdade de incluir infinitos anexos serve apenas para estimular os alunos a serem prolixos e não desenvolverem o seu poder de foco e síntese. Tudo o que entra numa tese, incluindo textos, figuras, vídeos, mapas e demais materiais, deve fazer sentido no contexto geral e ajudar de fato a passar a mensagem central. Uma comunicação científica é um argumento contado como uma história coerente. O bom cientista deve ser saber de quais elementos ele precisa para sustentar esse argumento e convencer seus pares de que suas descobertas são válidas.

Argumento (3): estamos falando da maior tolice de todas, como já abordei em outro post. Nos dias de hoje, uma tese nada mais é do que uma exigência burocrática para colar grau de mestre ou doutor. Teses já foram um dos principais veículos de comunicação escrita entre cientistas alguns séculos atrás. Enfatizo: séculos! Já faz muito tempo que, nas ciências naturais, a comunicação escrita oficial se dá através principalmente de artigos e também de livros. Assim, se você está escrevendo para os seus pares em uma revista técnica, deve usar a língua franca do seu tempo, atualmente, o inglês. De qualquer forma, como as teses tratam de novidades científicas, cada vez mais técnicas e especializadas, nem mesmo teses em português podem ser plenamente entendidas por leigos. Não é uma questão de usar linguagem simples ou jargão: mesmo os textos mais bem redigidos e claros contém muita informação que requer anos de estudo para ser compreendida em profundidade. Ao redigir sua tese, pense: por que estou escrevendo e para quem?

Aqui vale um parêntese. Na verdade, o conhecimento novo, ainda não exaustivamente testado, nem deve ser passado aos leigos, pois isso só gera confusão. Pense no caos gerado por dietas e terapias milagrosas reportadas de maneira sensacionalista pela imprensa. Pense nos “doutores do google”, que se auto-medicam e brigam com médicos como se fossem peritos no mesmo nível. Se você quer divulgar o conhecimento estabelecido para os leigos (através de educação, divulgação ou extensão), faça-o de forma adequada. Por exemplo, através de matérias em jornais e revistas, blogs, vlogs, apostilas, manuais, guias e entrevistas para rádio, podcast ou TV.

Argumento (4): também se trata de um enorme confusão conceitual e didática. Os textos adequados para educar alunos são os livros-texto, livros técnicos e apostilas. Querer que um aluno se forme lendo teses é um grande equívoco, pois teses são textos escritos sob pressão, sem cuidado e que passam por revisão muito camarada (muitas bancas são compostas pelo orientador, co-orientador e co-autores do próprio aluno…). Além disso, teses são difíceis de conseguir, mesmo hoje, na era digital. Se você se preocupa não apenas em fazer descobertas, mas também em contribuir para a formação de novos colegas, faça-o da maneira correta. Há algumas teses, por exemplo, que tem como produtos não apenas artigos, mas também guias de campo e manuais (como, por exemplo, Silva 2009).

Devemos ainda considerar que, se o aluno redigir a tese no formato de dissertação e depois quiser publicar as suas descobertas corretamente em boas revistas científicas, terá que rescrever o texto inteiro como um ou mais artigos e ainda traduzi-los. Para que ter o seu trabalho multiplicado? Assim, recomendo fortemente que alunos de pós-graduação escrevam suas teses no formato de coletâneas de artigos, porque isso lhes poupa muito trabalho e os treina no tipo de comunicação que de fato usarão para relatar as suas descobertas.

Comentário final: escrever uma tese no formato de coletânea de artigos, especialmente se alguns já estiverem publicados antes da defesa, requer muito mais treinamento, foco e persistência do que escrever uma tese no formato clássico. No final das contas, em ambos os casos você terá muito trabalho, só que no primeiro a qualidade vale bem mais do que a quantidade.

thesis-writing

 

* Vale a pena esclarecer aqui a diferença entre tese e dissertação, como já fiz em outro post. Do ponto de vista da burocracia acadêmica brasileira, dissertação é o TCC (trabalho de conclusão de curso) do mestrado, enquanto tese é o TCC do doutorado. Porém, indo além da formalidade burocrática, há importantes diferenças a se considerar. Do ponto de vista da escrita, ambos os tipos de texto são dissertações, ou seja, textos argumentativos sobre um assunto de interesse; logo, toda tese é, no fundo, uma dissertação. Só que do ponto de vista científico, a dissertação de mestrado não é necessariamente um trabalho original, que traz novidade científica, podendo ser apenas um longo texto que resume o que se sabe sobre um assunto. O mesmo vale para os TCCs de graduação, também conhecidos como monografias. Por outro lado, uma tese de doutorado deve necessariamente ser um trabalho original, que traga à luz um novo conhecimento científico ou que derrube ou melhore um conhecimento científico já estabelecido. Contudo, nos últimos anos e nas melhores universidades, passou-se a exigir originalidade também dos graduandos e mestrandos, o que é muito saudável e contribui enormemente para a sua formação científica. Não faz o menor sentido treinar jovens cientistas sem ensinar-lhes a serem originais em suas pesquisas.

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5 respostas para “Vale a pena escrever a minha tese no formato clássico de dissertação?”

  1. Além do que se os “saudosos” quiserem os tais anexos e apêndices, nada impede que coloquem ao final dos capítulos.

    Concordo de gênero, de número e “degrau” e também acho que o formato deveria ser menor e impresso frente e verso, ficando como um livro: muito mais cool.

    Saudações atleticanas!

  2. Marco, primeiro parabéns pelo blog! Sobre o assunto do post, pergunto: De que maneira você vê a questão autoral dentro desta questão dos formatos. Aqui na UENF há esse debate, já que a tese em teoria é um documento gerado por uma pessoa como parte dos requisitos para se obter o título de doutor.Por outro lado, a maioria dos artigos são multi autorais e portanto expressam o trabalho e a visão de uma equipe. Como você vê essa questão?
    Saudações, Salomão

    1. Obrigado, Salomão! Eu vejo essa questão de maneira simples. O pós-graduando sempre foi o primeiro autor da sua própria tese, mas uma tese nunca é gerada por uma pessoa sozinha. Em 99% dos casos, desde sempre houve coautores, que acabavam só aparecendo depois que a tese era transformada em artigos. Logo, não vejo problema algum em haver coautores nos capítulos de uma tese. No mínimo o aluno tem o orientador como coautor. É a realidade do trabalho.

  3. Obrigado! Concordo com você que é melhor escrever as teses no formato de coletâneas de artigos, mas eu tenho uma pergunta.. as universidades brasileiras ainda requerem escrever as teses no formato clássico de dissertação?

    1. Ruben, são poucas que ainda exigem o formato clássico. A maior, pelo menos na Biologia, deixa o aluno escolher. Aí cada um faz do jeito que quiser.

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