Um artigo publicado não é a palavra final em um debate

Apesar de ainda representar a minoria dos casos, está ficando cada vez mais comum alunos de pós-graduação chegarem no dia da defesa com um ou mais artigos da tese já publicados ou aceitos em revistas. Isso é ótimo e tem representado uma grande mudança na cultura acadêmica brasileira. Porém, como em toda novidade, novas questões acabam surgindo naturalmente. Aqui quero focar em uma delas: um artigo publicado não representa a palavra final no assunto estudado.

Como não me canso de repetir, quase como um mantra, uma novidade científica não existe até ter sido formalmente publicada em uma revista científica revisada por pares. Por isso, é ótimo estimular cientistas aspiras de todos os níveis, da IC ao postdoc, para que levem seus projetos até o final: ou seja, uma publicação na melhor revista possível, dentre as mais adequadas ao escopo e abordagem do trabalho.

Já que a maioria dos cientistas brasileiros têm finalmente aceito essa obviedade (com alguns séculos de atraso, como sempre…), tornou-se comum ver teses já semi-publicadas no dia da defesa. Quando convidados a compor a banca de uma dessas teses, alguns professores ficam inseguros e se questionam: será que ainda posso criticar o capítulo X da tese, considerando que ele saiu na TREE (ou na Ecology, JANE, PRSB, Oikos, Biotropica etc.)?

“A regra é clara, Arnaldo”: sim!

Mas, Marco, o trabalho já foi revisado por pares em uma revista de boa qualidade e já foi julgado por um editor, então sua qualidade é inquestionável…

“Sabe de nada, inocente!” A qualidade de um trabalho e muito menos a veracidade das suas conclusões são inquestionáveis! Ciência é a arte de fazer e responder perguntas, então um bom cientista deve ser crítico o tempo todo. Primeiro, porque sai muito trabalho ruim em revista boa. Não se iluda, mesmo na Science saem groselhas algumas vezes. O fato de um artigo ser publicado ou ir para o limbo depende não apenas da sua qualidade, mas também de fatores sociológicos e psicológicos. Segundo, porque a publicação de uma descoberta científica é apenas o começo da história.

Mas, Marco, você não tinha dito antes que a publicação era o estágio final de um projeto? Sim, do projeto, mas não da descoberta feita ou do novo conhecimento gerado. Publicar um artigo significa que você conseguiu ter uma idéia, transformá-la em um projeto, planejar e executar a pesquisa e, por fim, comunicar os seus resultados e interpretações à comunidade. A partir do ponto em que você conseguiu colocar as suas idéias preto-no-branco em uma boa revista, na forma de um artigo na lingua franca do seu tempo, elas se tornam disponíveis para cientistas e interessados do mundo todo. Aí é que a parte mais social da brincadeira começa!

Depois de encontrarem e lerem o seu artigo, seus colegas podem concordar ou discordar das suas interpretações (ruim mesmo é se eles ficarem indiferentes a elas…). Os que estudarem o mesmo tema e concordarem contigo irão provavelmente citar o seu trabalho. Já os que não concordarem contigo poderão simplesmente deixar de citar o seu trabalho, citá-lo negativamente (ou seja, dizendo que vêem a questão de outro jeito) ou até mesmo escrever uma réplica para a revista (se ficarem realmente incomodados).

Ou seja, além da revisão por pares antes da publicação, há também uma revisão pós-publicação (veja uma série de discussões sobre isso nesse outro blog). Ela sempre existiu, mas com o advento da internet e das redes sociais ela vem ficando cada vez mais forte e importante. Além da revisão pós-publicação formal, através de citações e réplicas, hoje há  também uma revisão difusa, e às vezes selvagem, feita no Facebook, Twitter, blogs e até mesmo no próprio site das revista (no caso das mais modernas, como a PLoS One). Essa revisão pós-publicação feita nas redes sociais pode ser até mesmo cruel, raivosa ou injusta em alguns casos, mas contribui para o debate e oxigenação do conhecimento científico.

Portanto, se você for um pós-graduando defendendo uma tese, não se ofenda se um membro da banca descascar um dos capítulos no dia da defesa, mesmo que o trabalho em questão já tenha o selo de aprovação da NASA e do Vaticano, ou tenha sido editorado pelo Chuck Norris.

Já se você for um cientista convidado a compor um banca, não tenha medo de criticar um capítulo da tese que já tenha sido publicado: publicação não garante 100% de correção e muito menos monopólio da verdade.

Lembre-se disso: a publicação é o fim do projeto, mas apenas o início do debate público.

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Fonte: Cheezburger.

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