Uma boa cover letter deve ser como um aríete

Todos sabem que está muito, muito difícil publicar nas melhores revistas científicas. Aqui vou dar algumas dicas sobre como usar a cover letter para abrir os grandes portões de Minas Tirith!

Neste blog já abordei diversos temas relacionados à redação científica, incluindo como fazer artigos, resumostítulos e citações. Já falei também sobre a importância das publicações, como funciona o peer review e como responder uma revisão. Agora é hora de falar sobre um passo crucial para dar início ao processo de publicação: a carta de apresentação do artigo.

Como não me canso de repetir, vivemos em um mundo lotado de cientistas competindo por verbas, bolsas, empregos e atenção dos pares. Um grande problema atual é que publicar artigos nas melhores revistas científicas de qualquer área se tornou uma tarefa muito árdua. Muito mesmo. As rejeições, mesmo no caso de artigos bons e excelentes, são muito mais frequentes hoje do que há dez, vinte anos. Isso porque revistas com ótima reputação ou alto fator de impacto ficam com filas gigantescas de artigos submetidos, muitas vezes publicando menos de 10% do que recebem. É preciso convencer os editores e revisores em várias etapas de que o seu artigo merece ser publicado.

A primeira etapa na linha de filtragem dos manuscritos que chegam a um editor é o título,  a segunda é o resumo. Se esse cartão de visitas não estiver formidável ou ao menos bom, o editor provavelmente nem vai ler o resumo com atenção e criará má vontade, o que certamente levará a uma rejeição. Acreditem, nas revistas top, artigos são rejeitados sem nem serem lidos. Algumas têm até mesmo uma “presubmission inquiry“: ou seja, uma consulta do autor correspondente ao editor antes da submissão formal, para diminuir a chance de ambos perderem tempo com um manuscrito que não tem chances nem de ir para revisão. A fila é longa e precisa andar…

Contudo, mesmo as revistas que não têm uma análise pré-submissão exigem desde sempre uma cover letter. Mas, Marco, que diabos é isso? Ela é como um aríete em uma batalha medieval, usado para arrombar portões de castelos e permitir a entrada do exército invasor. Resumidamente, trata-se de um carta de apresentação do manuscrito, endereçada ao editor-chefe, editor associado, editor de área ou editor de recebimento, dependendo da hierarquia da revista.

Em uma cover letter, o autor deve cumprir as seguintes metas:

  1. Apresentar ao editor o título e a lista de autores do manuscrito.
  2. Explicar em uma ou duas frases em qual área e tema o seu trabalho pode ser considerado inovador.
  3. Explicar um pouco melhor, em um parágrafo, quais novidades o seu artigo traz e o que ele tem a ver com o escopo da revista, de movo a convencer o editor de que ele tem que ser publicado nela, especificamente.
  4. Declarar que os autores não têm conflitos de interesse. Caso haja potenciais conflitos, eles devem ser declarados e justificados.
  5. Dependendo da revista, pede-se que seja incluída uma lista de revisores sugeridos para os artigos. Mas a maioria das revistas tem um campo próprio para isso no formulário online de submissão.

Muito cuidado: uma carta de apresentação não é uma mera chatice burocrática! Quanto mais top e competitiva for a revista na qual você quer publicar, mais caprichada deve ser a cover letter. Quando não há a tal análise pré-submissão na revista, pode ter certeza de que a cover letter cumpre esse papel. Se você escrever mal a carta, isso pode levar à rejeição direta do artigo ou, pelo menos, diminuirá muito a chance de ele ir para os revisores. Boas revistas não fazem como as revistas picaretas, que mandam qualquer porcaria para os leões, jogando para os revisores a responsabilidade pela rejeição. Boas revistas barram o lixo na porta. E saiba que uma carta mal feita pode ser interpretada como proxy de que o seu trabalho é lixo. O bom cientista capricha em todas as etapas e presta atenção aos detalhes.

Poxa, Marco, então que cuidados devo ter ao escrever uma cover letter?

  1. Enderece a carta à pessoa correta. Não comece com saudações vazias do tipo “Prezado Editor”. Faça o seu dever de casa: consulte no site da revista quem provavelmente vai ser o primeiro a por as mãos na carta. Algumas revistas deixam que você até mesmo sugira o editor associado responsável, de acordo com o tema. Isso mostra que você está se empenhando em fazer a coisa certa.
  2. Saiba exatamente qual peixe quer vender. Só comece a escrever a carta, depois que definir muito claramente qual é a moral da história do seu artigo e porque ela é interessante. Mostre muito bem o que o seu trabalho tem a oferecer à comunidade acadêmica.
  3. Situe claramente a moral da história em um contexto maior. Por exemplo, uma teoria popular ou um problema atual. Não deixe o seu manuscrito flutuando no ar, “forever alone”. Use como guia o escopo da revista e que tipos de trabalhos ela tem publicado mais recentemente. Lembre-se de mostrar precisamente como a sua história se encaixa nas histórias que a revista gosta de contar.
  4. Não exagere no marketing, mas também não dê um tiro no pé. Concentre-se em falar sobre os pontos positivos do seu manuscrito, mas sem exagerar. Não comente sobre as limitações; deixe isso para o texto completo. Não comente em quais revistas o manuscrito já foi rejeitado; todos sabem que emplacar um artigo de primeira é quase impossível hoje em dia.
  5. Economize nas palavras. Uma boa cover letter deve ter no máximo uma página, incluindo cabeçalho e assinatura. Concentre-se em destacar a moral da história. Deixe para lá tudo o mais. A exceção são as cover letters de resposta, que você escreve para fazer uma nova submissão de um artigo que já voltou da revisão com possibilidade de ser aceito após modificações; estas podem e devem ser mais longas, listando as respostas às críticas.
  6. Capriche na redação. Construa as frases informativas e curtas, de forma clara e concisa, sem cometer erros de ortografia ou gramática. Mande não apenas o manuscrito, mas também a cover letter, para um tradutor científico profissional ou um proofreader (nativo do idioma ou não; o importante é ser profissional e especializado em biologia).
  7. Se puder, sugira com cuidado alguns revisores. Caso a revista te dê essa opção, tome muito cuidado com a lista de revisores sugeridos, pois a combinação de revisores influencia fortemente a probabilidade de aceitação de um artigo. É, meu bróder, a ciência não é tão impessoal e objetiva quanto nos fazem acreditar… Muitos ou todos os revisores sugeridos provavelmente serão aceitos, já que hoje está bem difícil conseguir colegas para avaliar um artigo. Busque um equilíbrio entre pessoas que são autoridades ou rising stars no assunto, pessoas que têm reputação de serem críticas ou construtivas, pessoas que estão fora ou dentro do seu círculo de contatos acadêmicos. Evite sugerir estrelas de ego inflado ou colegas conhecidamente agonistas. Evite também os grandes medalhões, que nunca têm tempo para revisar os trabalhos de meros mortais; convidá-los é quase sempre desperdiçar um tiro. Prefira postdocs e doutorandos talentosos e com boa índole. Não sugira colegas próximos demais a você, que trabalhem na mesma universidade ou participem do mesmo programa de pesquisa, pois isso é anti-ético e queima o seu filme. Se lhe pedirem uma lista negra de revisores a serem evitados (isso está ficando cada vez mais comum), evite preenchê-la; na boa véi, ela serve mais para alimentar fofocas acadêmicas do que para evitar conflitos de interesse.

A estrutura de uma boa cover letter deve ser mais ou menos assim:

  1. Cabeçalho: nome completo, universidade, endereço, site, e-mail e telefone do autor correspondente.
  2. Data: por extenso.
  3. Destinatário: nome, endereço ou site da revista.
  4. Saudação: deve ser nominal ao editor que provavelmente receberá o manuscrito. Algo como “Dear Prof. Denethor”. Muitas revistas apresentam a lista de editores de área no site ou no formulário online e ainda deixam você escolhê-lo: faça o seu dever de casa e veja qual editor tem mais a ver com o seu artigo. Em países germânicos e anglo-saxões, lembre-se de que o título de professor é mais alto do que o título de doutor e que não se usa os dois juntos, então prefira o primeiro, quando for o caso, acompanhando apenas o último nome do editor.
  5. Primeiro parágrafo: apresentação do título e dos autores do manuscrito.
  6. Segundo parágrafo: explique o resumo da ópera, focando em demonstrar que o seu manuscrito é original, interessante e potencialmente impactante na área.
  7. Terceiro parágrafo: declaração de conflitos, despedida e agradecimento.
  8. Saudação final: algo como “Yours sincerely”.
  9. Nome: apenas o seu primeiro e último nomes, com os do meio abreviados, incluindo o seu título mais alto. Algo como “Prof. Aragorn S. Arathorn, PhD”.
  10. Cargo ou posição: diga na linha seguinte se é professor, postdoc, doutorando etc. e de qual área ou organização. Algo como “Professor of Ecology”.

Recomendação final: não morra na praia! Redija a cover letter do seu artigo com ainda mais capricho do que o artigo em si. Peça a ajuda de colegas mais experientes, que publiquem com freqüência nas revistas top da sua área, ou melhor, nas über-tops como Science e Nature.

Sugestões de leitura

Grond

Fonte: LOTR Wikia.

11 opiniões sobre “Uma boa cover letter deve ser como um aríete

  1. Eu era um dos que achava que era “uma mera chatice burocrática”
    Este tipo de informação não se encontra em qualquer lugar.
    Quase nenhuma revista da minha área orienta quanto à elaboração da carta.
    Agradeço pelos esclarecimentos.

  2. Obrigado, Marco. Precisava ler isso para dar mais atenção na escrita e gramática da cover letter. Eu achava preciosismo demais enviá-la para um serviço de revisão do inglês, mas não acho mais!!! Abraço

  3. Pingback: Meu paper foi rejeitado: e agora? | Sobrevivendo na Ciência

  4. Marco, você acha interessante que a carta seja em papel timbrado/oficial, com cabeçalho e rodapé da universidade, por exemplo? Ou seria exagero?

    • Pavel, ainda nos anos 1990, na época da submissão impressa, a gente mandava a cover letter em papel timbrado mesmo. Mas hoje não tem a menor importância. Na verdade, com os novos sistemas de submissão online, você acaba copiando e colando o texto da cover letter em um campo do formulário da revista.

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