Meu paper foi rejeitado: e agora?

Inspirado por um caso recente resolvi escrever sobre uma das maiores frustrações pelas quais cientistas passam: a rejeição de um paper. Ok, a experiência é frustrante mesmo para os veteranos e pode ser devastadora para os aspiras. Mas o que você pode aprender com ela?

Antes de prosseguir, cito aqui mais uma vez Balboa, filósofo contemporâneo:

“O mundo é um lugar mau e sórdido, que não se importa com quão durão você é. Ele vai bater até você cair de joelhos e vai te manter ali para sempre, se você deixar. Você, eu, nem ninguém vai bater tão forte quanto a vida. Mas a questão não é quão forte você bate. A questão é o quanto você aguenta apanhar e continuar seguindo em frente. É assim que se vence!” – Rocky Balboa

Ou seja, o mimimi não é uma opção para o verdadeiro guerreio acadêmico!

Mantenha isso em mente, por mais dolorosa e frustrante que seja a experiência de ter um paper rejeitado após anos de trabalho duro. Muitas vezes a rejeição é injusta? Sim! Mas muitas vezes ela, além de justa, é benéfica. Ninguém bate tão forte na Academia quanto um top journal.

Mas o ponto não é esse. O ponto é olhar a questão por um ângulo mais produtivo, pegar o limão que a vida te deu e fazer uma caipirinha. Se você for alérgico a limão, foi mal aí… rs Sendo assim, como você pode tirar algo de positivo da rejeição de um paper?

Siga este passo-a-passo, quando receber um frio “não” sem chance de re-submissão. Se te derem uma oportunidade de melhorar o paper e re-submetê-lo, leia este outro post.

Premissa magna: o seu artigo é bom. Porque, bróder, se você estiver tentando vender porcaria, foi mal aí… Nunca deixe de considerar a possibilidade de o seu artigo estar ruim mesmo.

1. Esfrie a cabeça

Não tome decisão alguma no mesmo dia em que receber o e-mail de rejeição da revista. Conte até 10, respire, vá para a praia pegar onda, passe no boteco da esquina, dê 500 joelhadas com cada perna em um saco de pancada. Faça o que te relaxa.

Volte ao caso novamente no dia seguinte ou depois. Não se esqueça de agradecer o editor e os revisores pelo tempo e sugestões.

2. Disseque a rejeição

Você tem que procurar entender o que levou o seu artigo a ser rejeitado naquela revista específica. Após esfriar a cabeça, releia a mensagem do editor com calma. Analise ponto por ponto tudo o que ele e os revisores disseram.

Tente avaliar quais críticas fazem sentido e quais são apenas cismas pessoais. No caso das que fizerem sentido, pondere se vale a pena mesmo fazer a mudança ou se é preciosismo demais do revisor (há várias maneiras de fazer a coisa certa). Com uma visão global do trabalho e do fracasso parcial, reflita se o seu paper como um todo tem uma mensagem central que vale mesmo a pena ser contada em uma boa revista.

Se a espinha dorsal do trabalho for forte, uma hora ele encontrará um lugar ao sol. Converse sobre essa dissecção com os coautores. Se o pessoal da revista tiver reclamado do inglês ou do estilo de redação, procure os serviços de um tradutor ou proofreader profissional e especializado na área, seja ele falante nativo ou não.

3. Revise a revista

Na verdade, você precisa ter feito este dever de casa antes de submeter o paper, mas vai precisar repeti-lo depois. Veja novamente o que a revista andou publicando no último ano, prestando atenção especialmente aos artigos com escopo parecido com o seu. Que temas a revista prefere, dentro do assunto maior do seu paper? Em que abordagens ela acredita? Quais abordagens ela evita a todo custo?

Isso não serve para discutir com o editor, pois o tempo do diálogo aberto entre editores e autores já passou. Hoje em dia o processo de publicação é todo automatizado, impessoal, seco, arrogante e industrializado. Faça essa revisão da revista para tentar entender porque, em termos dos vieses dela, o seu paper pode ter sido rejeitado.

Muitas vezes, o problema não está no paper em si, mas na sintonia entre ele e aquela revista específica.

4. Siga em frente

Volte para a lista de revistas-alvo que você fez antes da primeira submissão e foque na que vem a seguir. Caso o trabalho tenha mesmo ido para os revisores e não tenha sido barrado de cara pelo editor, você provavelmente gastou meses na batalha. Então é hora de checar se a sua segunda opção continua a mesma.

Veja se o seu artigo ainda teria chances de entrar nessa segunda revista ou se seria melhor tentar uma terceira. Assustado? Pois é, o mundo da ciência gira ainda mais rápido do que o mundo real.

Hoje em dia essa tarefa de conhecer a cara de cada revista está cada vez mais difícil, pois encontramos os artigos que lemos através de buscas em índices globais ou através de alertas automatizados, então não temos mais o hábito de pegar uma edição de uma revista e lê-la de cabo a rabo.

5. Prepare-se para a luta!

Melhore tudo o que achar conveniente no artigo com base nas sugestões recebidas. Peça a opinião de terceiros (colegas que não são coautores). Formate o manuscrito de acordo com as normas da segunda revista. Capriche na cover letter. Pense em boas sugestões de editores de área e revisores.

Por fim, submeta a bagaça.

Vale a pena ressaltar: a seleção de revisores faz toda diferença do mundo, porque o tal do peer review não é tão objetivo quanto as pessoas querem acreditar. Portanto, pense com muita calma nas sugestões que vai dar. A sua parte na história é fazer o seu dever de casa bem-feito. O resto você não controla, então relaxe.

Hoje em dia é normal um paper ambicioso ser nocauteado por três ou mais revistas, antes de conseguir encaixar aquela cotovelada no queixo de um top journal. Paciência, jovem gafanhoto. Você aprenderá com o tempo que esse processo todo pode melhorar muito um artigo que já nasceu bom, levando-o a um novo patamar com o qual você nem sonhava.

Sugestões de leitura:

rocky balboa winning

Fonte da imagem.

Por fim, um vídeo motivacional:

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8 Replies to “Meu paper foi rejeitado: e agora?”

  1. Gracias Marco por esto, siempre es importante leer estas cosas, hay casos más pícaros en que los editores te juegan una mala pasada, seguro conoces la historia de Danny… si no él te puede contar….

  2. Gostei do post! 🙂 Como de todos os outros aqui…
    Eu talvez colocaria uma outra dica/conselho/direção: Não descartar a idéia de que o trabalho não é tão bom ou interessante quanto pensamos e que ele precisa sim de uma reestruturação global. Às vezes eu percebo certo… apego exagerado, talvez… a um trabalho que, reestruturado, poderia ser muito melhor. Eu fiz assim com os meus dois artigos mais importantes – mudei as análises e o enfoque geral do trabalho e deixei as conclusões dele bem menos triviais e mais interessantes. Tudo porque os revisores falaram “as conclusões do seu trabalho não são interessantes”. Gastei mais de um ano fazendo isso, mas valeu a pena.
    (Mas também já tive casos de artigo recusado sem motivos convincentes… aí o mandei pra uma outra revista que o aceitou de primeira. E foi interessante porque a que rejeitou era uma revista brasileira, e a que aceitou era uma revista neo-zelandesa… rs)

    1. Oi Pavel, concordo plenamente. É importante não nos apegarmos demais a um artigo, por mais trabalhoso que tenha sido produzi-lo. É para isso mesmo que serve o peer review: olhar a mesma coisa por outro ângulo. Veja os casos relatados nos links que botei no final do post. O caso do artigo que foi rejeitado na Ecology e depois ganhou o Mercer Award é emblemático.

  3. Particularmente, nunca mirei tão alto para conseguir minhas publicações e, portanto, não tive tantas rejeições. Creio que seja hora de almejar mais e seguir suas dicas para não desanimar.

    Gostei muito do seu blog. Seu tom irreverente nos posts os deixa muito fáceis e prazerosos de serem lidos.

    Continuemos na nossa luta pela ciência.
    Abraço,
    Lucas Palhão.

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