O que é um professor universitário?

No Brasil, é comum ouvir tolices como “O Prof. Fulano reclama de dar aulas demais, mas o cargo dele é de professor, né?”. Ou seja, há muita confusão sobre quais seriam as reais atribuições de um professor universitário. Como esse é o cargo mais importante na carreira acadêmica, vale a pena dedicar um post inteiro a esclarecer essa questão.


É claro que, na prática, o que cada professor faz no dia a dia varia muito entre universidades. Na verdade, há uma enorme variação mesmo entre professores de uma mesma universidade. As atribuições também vão mudando, conforme se progride verticalmente na carreira: substituto > assistente > adjunto > associado > titular. Aqui não vou tocar em problemas como concursos-gincana, acomodação, estabilidade fácil, isonomia salarial, salário defasado em relação à inflação etc., que merecem outros posts. Vou focar no sentido maior do cargo.

Em outros idiomas e culturas, a diferença entre um professor universitário e outros tipos de professor fica clara já no vocabulário. Por exemplo, no inglês, o termo professor se aplica apenas ao professor universitário, enquanto teacher é o professor de escola e lecturer é o docente universitário, geralmente com doutorado, mas sem título de professor. Sim, nos EUA, Inglaterra e outros países, professor, mais do que um cargo, é um título. No alemão também se diferencia o professor universitário através do termo Professor, enquanto quem dá aulas em escolas é um Lehrer e quem dá aulas na universidade sem ter o título de professor é um Dozent. Não é uma questão de qual tipo de professor é melhor do que o outro. Cada professor tem o seu papel no sistema educacional e todos são importantes. É apenas uma questão de diferenciar as carreiras e títulos, para se definir claramente o que se espera de cada professor.

Então o que diferenciaria o professor universitário dos outros? Simples: esse cargo foi inventado para ser ocupado por profissionais que associam pesquisa e ensino. Sim, essas duas atividades são indissociáveis no conceito original de professor universitário.

“Mas, por que, Marco?”

Porque espera-se que um professor universitário esteja sempre na vanguarda da sua área. Espera-se que ele atue na formação de profissionais de nível superior, ensinando-lhes não apenas o conhecimento já sedimentado, mas também as novidades e macetes.

Aqui vale fazer um adendo: digo pesquisa, aqui neste texto, no sentido de investigação científica. Não estou me referindo à pesquisa no sentido popular, que abarca desde a leitura de um verbete de uma enciclopédia para fazer o dever de casa até um tratado informal sobre um determinado assunto. Ou seja, no sentido popular, pesquisa é qualquer levantamento de informações. Por outro lado, no sentido acadêmico, pesquisa é uma atividade feita para gerar conhecimento novo, original, usando o método científico.

Voltando ao ponto. Para se formar em uma profissão de nível superior, o aluno tem que ser apresentado tanto aos fundamentos quanto à vanguarda. Acima de tudo, espera-se que um professor universitário produza ele mesmo algumas novidades. Sim, um professor universitário tem a obrigação não apenas de transmitir, mas também de produzir conhecimento. E a transmissão de conhecimento se dá principalmente em sala de aula, passando informações  consolidadas para os aspiras, e também divulgando descobertas em revistas técnicas indexadas e revisadas por pares.

“Mas, Marco, em teoria, então um professor universitário tem que fazer pesquisa também?”

Sim! Ninguém se atualiza tanto em uma área, quanto alguém que precisa disso para fazer as próprias pesquisas, porque ama a ciência. Contudo, no Brasil espera-se que o professor universitário seja uma espécie de faz-tudo, tendo que desempenhar mesmo funções para as quais não tem o mínimo preparo.

And the plot thickens… Pelas leis brasileiras federais, e também pelas estaduais em alguns casos, a carreia de professor universitário envolve, via de regra, cinco pilares:

  1. Ensino: coordenação e participação em disciplinas de graduação e pós-graduação, presenciais ou à distância.
  2. Pesquisa: investigação científica ou tecnológica para produção de conhecimento. Na verdade, a área da pesquisa envolve mais um monte de coisas além da investigação e publicação, como revisão de artigos, editoração de revistas científicas, organização de congressos, administração de sociedades científicas, assessoria ad hoc para agências de fomento e muito mais.
  3. Orientação: formação de novos cientistas através de estágios e projetos orientados de iniciação científica júnior (para o ensino médio), iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado. A orientação de pupilos também pode ser voltada para ensino e extensão.
  4. Extensão: assessoria e divulgação de conhecimento científico e técnico para o público externo à universidade através de assessoria, consultoria, palestras, cursos, exposições em museus, publicações e muito mais. Extensão é algo muito amplo, que engloba desde publicar artigos populares em jornais e revistas, até dar assessoria técnica em audiências públicas e fazer consultoria para empresas ou governos. Mais um excelente exemplo de extensão é o atendimento médico, odontológico, veterinário e jurídico prestado de graça à população em muitas universidades.
  5. Administração: cargos de chefia em geral, cargos em órgãos representativos da universidade (câmaras, conselhos, colegiados e congregações), gerenciamento de projetos, captação de verbas externas, contabilidade, direção de laboratórios, etc.

Dependendo da universidade e do seu regimento interno, espera-se que o professor se envolva com no mínimo dois ou três desses pilares. Os melhores acabam se envolvendo com todos. O único pilar obrigatório é o ensino. Só fica desobrigado parcial ou totalmente de dar aulas quem ocupa altos cargos administrativos, como chefe de departamento, diretor de instituto, pró-reitor ou reitor. Significa que, contratualmente no Brasil, nem todo professor universitário é obrigado a fazer pesquisa e alguns ficam temporariamente desobrigados de dar aulas.

Vamos destrinchar um exemplo mais concreto: as universidades federais brasileiras. De acordo com a lei que rege essas instituições, o professor universitário “padrão” (sem cargo de chefia ou outras condicionantes) é obrigado a dar de 8 a 12 créditos por semestre. Cada crédito representa mais ou menos 15 h em sala de aula. Ou seja, o sujeito é obrigado a passar dentro de sala entre 120 e 180 h por semestre.

Só que essa é apenas a carga dentro de sala. Um professor veterano dedicado, que de fato gasta tempo e energia com as aulas, sempre investindo na atualização do conteúdo a cada edição de cada disciplina, precisa de no mínimo 2 h de preparação (slides, leituras, material biológico para aulas práticas, preparação de computadores etc.) para cada 1 h em sala. Se o professor é um novato, dando aquela disciplina pela primeira vez, só a preparação das aulas teóricas pode chegar a uma proporção horária de 1:10 (sala:preparação).

Para fazer um cálculo concreto de horas, vamos considerar que uma disciplina obrigatória de graduação tem 4 créditos (60 h) e costuma ser organizada de forma a ocupar 4 h em sala por semana, sendo ministrada por um professor veterano. Logo, das 40 h de trabalho semanais determinadas por lei, o professor acaba passando no mínimo 4 h envolvido com a disciplina em sala. Isso, fora as horas gastas com a atualização das aulas teóricas e práticas, além de atendimento de alunos e correção de trabalhos e provas. Assim, a conta pode facilmente chegar a 12 h por semana ocupadas com cada disciplina em cada semestre. Como o contrato federal obriga os professores a darem no mínimo 8 créditos por semestre, ou seja, o equivalente a duas disciplinas obrigatórias, estamos falando de um tempo mínimo de 24 h por semana focadas no ensino. Ou 360 h por semestre, em um semestre padrão com 15 semanas letivas.

Isso, porque 8 créditos são o mínimo. É comum em várias universidades os professores novatos serem explorados pelos colegas veteranos, que acabam jogando sobre seus ombros uma parte da carga que caberia a eles mesmos. Assim, não é difícil encontrar por aí professores federais em estágio probatório com cargas de 12 créditos ou mais, apesar de esse ser o teto legal.

Para se ocupar com um mínimo de 2 disciplinas de 4 créditos por semestre, totalizando 8 créditos, e realmente ministrá-las com qualidade, atualizando cada disciplina a cada edição e dando toda a atenção que os alunos demandam, o professor universitário não poderia se envolver com mais nada! A quem estamos enganando?

A única forma de aliviar essa carga é através de ajuda formal ou informal. Por exemplo, ajuda de pós-doutores ou pós-graduandos que atuam como tutores e de graduandos que atuam como monitores em disciplinas. Em algumas universidades, há também um esquema de duplicação de créditos permitida pelos colegiados de alguns cursos. Isso faz com que dois professores dividam uma disciplina de 4 créditos, com cada um recebendo 4 créditos, e não 2. Mas, dentro de uma mesma universidade, não é todo curso que permite isso.

Para piorar nem todo professor ou toda disciplina contam com o apoio de auxiliares. Os tutores remunerados conhecidos internacionalmente como “TAs” (teaching assistants), comuns nos EUA, Alemanha, França e UK, chegaram a ter uma versão brasileira temporária durante o Reuni. Só que o programa foi planejado para durar apenas cinco anos. Só para variar, nada é pensado a longo prazo neste país, tudo é jeitinho.

Como alguém pode se dedicar de verdade à pesquisa de ponta tendo sobre os ombros uma carga didática massacrante como essa? Como alguém pode fazer extensão e atender de outras formas o mundo real fora da Academia, sendo obrigado a dar aulas igual a um burro de carga? Na verdade, como seria possível conciliar qualquer um dos outros quatro pilares da carreira com um ensino de qualidade em grande quantidade?

Qualquer pessoa que tenha um mínimo de experiência com pesquisa cientifica séria, de qualidade internacional, sabe que não dá para se dedicar a fazer descobertas relevantes e se manter na vanguarda da área, contando apenas com esse tempo que sobra. Ou seja, 16 horas por semana, sem contar o cansaço gerado pelas atividades de ensino, que demandam, além de tempo, muita energia. Isso, se o professor não estiver, ainda por cima, com algum cargo de subchefia ou assento em algum órgão colegiado, que via de regra não geram minimização de carga didática, nem remuneração extra.

Esse sistema massacrante acaba sendo driblado na base do jeitinho e da malandragem por alguns professores sem ética. Que artifícios eles usam para diminuir sua carga real?

  1. Enviam doutorandos e postdocs do laboratório em seu lugar para dar a maioria das aulas. Tem professores cara-de-pau que sequer aparecem na aula inaugural das próprias disciplinas;
  2. Tratam as disciplinas, especialmente as de graduação, com total descaso. Faltam a aulas, furam o cronograma que eles mesmos criaram, ou dão as aulas com uma má vontade contagiante;
  3. Preparam cada disciplina apenas uma vez e continuam dando sempre as mesmas aulas pelos próximos 30 anos.

Esses picaretas não são a regra e sim a exceção. De qualquer forma, a maioria dos professores ficam em algum tom de cinza entre os picaretas totais e os mestres dedicados que se matam pelos alunos.

Talvez um problema mais comum sejam os professores que, massacrados pelo sistema e passando anos apenas com incentivo para se acomodarem, acabam jogando a toalha. Eles são responsáveis e atenciosos com os alunos, mas cumprem tabela burocraticamente. Infelizmente, eles não têm tempo nem motivação para atualizar suas disciplinas a cada ano. A ciência avança cada vez mais rápido, mas as aulas desses colegas desmotivados permanecem alheias às descobertas e revisões feitas em cada área. Tais professores tampouco atualizam seus meios de ensino ou estratégias pedagógicas, ficando alheios às novidades produzidas por pesquisas sobre ensino, cognição e psicologia social.

O problema é que o Brasil tem um verdadeiro fetiche pelo cuspe-e-giz! Em universidades de ponta pelo mundo, a carga semestral obrigatória do professor não ultrapassa 4 créditos. Na prática, os professores e alunos passam muito menos tempo em sala, justamente porque se dá mais valor à independência dos aspiras. O bom aluno do ensino superior em países líderes da ciência gasta a maior parte do seu tempo estudando por conta própria, sozinho ou em grupo, através de tarefas orientadas ou leitura espontânea. O momento em sala com o professor na aula teórica (lecture ou Vorlesung) serve para apresentar ou consolidar o conteúdo principal, receber orientações, tirar dúvidas e passar tarefas.

No Brasil, castramos a individualidade, a criatividade, a autonomia, a iniciativa e o livre pensamento, porque insistimos em adestrar os alunos em cativeiro. Ok, estou divagando. Voltando ao ponto de vista do professor, dá para entender porque nunca chegaremos ao mesmo nível de qualidade em ensino e pesquisa do primeiro mundo? Ficou claro porque estamos fadados a enxugar gelo e ficar sempre dois passos atrás dos nossos colegas mais afortunados?

Por favor, nunca mais diga que um professor universitário brasileiro não pode reclamar de dar aulas demais, porque “tem cargo de professor”. Isso é tão estúpido quanto dizer que um professor universitário que tem bolsa de produtividade está desrespeitando a dedicação exclusiva, porque é também “pesquisador do CNPq”.

“Mas, Marco, você não vai propor nenhuma solução, só vai reclamar?”

Já propus uma solução, na qual acredito piamente, em outro texto. Resumidamente, acho que a carreira universitária deveria ter mais subdivisões.

Todos conhecem professores universitários que são excelentes cientistas, mas péssimos docentes. Há também os que dão aulas maravilhosas, mas não tem gosto pela pesquisa científica. E não podemos nos esquecer daqueles que fazem pesquisa morna e ensino morno, mas são gestores natos, sempre colocando ordem na casa, quando pegam cargos de chefia. Há ainda os colegas que sabem se comunicar com maestria com o público leigo, realizando projetos de extensão de grande impacto na sociedade, mas não manjam tanto de pesquisa ou administração.

Por que não criamos carreiras separadas para cada um desses talentos, fazendo com que cada pessoa se especialize no que faz melhor e seja cobrada apenas por isso? O cargo de professor poderia ser reservado aos poucos que conseguem fazer bem todas essas coisas, enquanto a maioria seria contratada como pesquisador, docente, administrador ou divulgador de ciência, por exemplo. Orientação todos nós fazemos no final das contas, cuidando de pupilos em cada um desses ramos. Essa estrutura de carreira é usada no Reino Unido e outros países com muito sucesso, pois valoriza o que cada um tem de melhor e promove um sistema diverso.

Leia também:

Unknown
Fonte: PRISM

Nota: atualizei este texto em 31 de agosto de 2017, a fim de torná-lo mais claro e incluir algumas informações importantes que talvez não sejam óbvias para quem está fora da Academia.

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32 respostas para “O que é um professor universitário?”

  1. Caro Marco,
    sou professor de física na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e queria dizer que concordo mais do que 100% com o seu texto, se é que isso é possível ! Converso e discuto diariamente com meus colegas sobre essa distorção da função do professor universitário (estou me referindo apenas as universidades federais, as particulares são outros 500 …), distorção fundacional, ou seja, vem da origem da universidade brasileira e, lamentavelmente, pouco se fez e se faz para melhorar a situação. Eu sempre digo que não me importo em dar dois ou quatro cursos por semestre, se fosse para isso que somos contratados. Mas é um hipocrisia pretender que devamos ainda formar alunos de pós-graduação, ocupar cargos na administração acadêmica, ser bom divulgadores do fazer universitário entre o grande público, produzir conhecimento científico competitivo a escala mundial, publicar nos melhores jornais científicos, participar em conferências apresentando nosso trabalho de alta qualidade, etc. etc. etc. E ser bons Professores, no sentido que você definiu perfeitamente, aquele que não só passa a frente o conhecimento já cimentado, mas é capaz de produzir novo conhecimento na fronteira do conhecimento humano. Claramente, a universidade brasileira não tem estruturação para poder cumprir com todas essas atribuições de forma consistente. Mas o que mais me preocupa é que, aparentemente, não quer ter, ou se ilude ao achar que a atual estrutura poderá leva-la um dia a ocupar lugar de destaque na produção de conhecimento universal.

    99% do público em geral não sabe o que é ser professor universitário, não sabe qual a função de um professor universitário, só identifica aquele que “da aula”, mas desconhece das inúmeras outras funções do professor universitário. E desconhece da projeção de uma verdadeira universidade para além da sala de aula. A prova está em algumas das opiniões dadas pelos leitores do seu blog. Por isso, a nossa universidade está a deriva na atualidade, embora os demagogos digam que é o contrário.

    Eu quero parabenizá-lo porque sua reflexão contribui para esclarecer um pouco sobre a realidade do dia a dia dos professores das universidades (federais e algumas, muito poucas, particulares) para além da simples demagogia à qual estamos tão acostumados.

    Daniel Stariolo

    1. Daniel, muito obrigado por suas palavras. Infelizmente, muita gente comenta textos na internet sem ter a menor noção do que está falando. Isso, fora as pessoas que não sabem mais ler até o final e interpretar textos. A universidade pública (melhor mesmo deixar a particular fora desta discussão…) sofre de um mal profundo da cultura brasileira: a cópia mal-feita. Não tem problema copiarmos e implantarmos “memes” estrangeiros por aqui. O conceito de universidade nada mais é do que um grande e transformador meme educacional. Só que, ao invés de criarmos e mantermos as universidades brasileiras do jeito certo, seguindo a filosofia que gerou o meme, acabamos por fazer versões bem toscas do original, infelizmente. A verdade, triste verdade, é que aqueles que amam a carreira e querem construir uma país melhor através da educação e da ciência muitas vezes se sentem falando com as paredes ou enxugando gelo por aqui.

  2. Perfeitas suas colocações, Marco.

    Apenas discordo parcialmente da afirmação de que “o bom aluno do ensino superior gasta a maior parte do seu tempo estudando por conta própria […]”. Não tenho dúvidas que esse modelo funciona muito bem no exterior, mas não como deveria em nossa realidade. Generalizando, basta flexibilizar um pouco a presença em sala de aula e o método de avaliação para os alunos colocarem a sua disciplina em segundo plano, estudando (se estudarem) de véspera. Ao mesmo tempo, tenho enfrentado dificuldade em prender sua atenção em sala de aula. Enfim, creio que não chegamos ainda a um modelo adequado…

    Aproveitando o gap…
    Faltou lembrar (não sei se já aconteceu em sua instituição), o stress que muitos professores têm tido para provar que as bolsas de pesquisa que recebem (vinculadas a projetos de P&D) são, de fato, não tributáveis (ou seja, NÃO são devido à prestação de serviços). A universidade é imensamente beneficiada pelo P&D, uma vez que possibilita o pagamento de bolsas à alunos de IC, mestrado, doutorado, bem como o direcionamento dos recursos da iniciativa privada para compra de equipamentos e estruturação de laboratórios (recursos, estes, que cairiam na vala comum dos impostos e seriam gastos sabe-se lá com o que).

    Abraço!

    1. Rafael, entendo o que você diz, pois infelizmente a falta de motivação e o excesso de mimimi dos alunos de hoje em dia desanimam qualquer um. O amor pela leitura, a autonomia no estudo e responsabilidade pelas próprias escolhas deveriam ser cultivados aos poucos em casa e na escola desde o ensino infantil. Tenho tentado incentivar a autonomia dos alunos nas minhas disciplinas, mas, toda vez que substituo atividades expositivas em sala por projetos orientados, GDs ou desafios bibliográficos, sou chamado de “folgado” por parte dos alunos e dos colegas. Nosso sistema educacional está falido desde a base. Junte a isso a mudança de postura geral que se vê hoje em dia, já que os jovens não são mais educados para lidar com frustração, e temos o desastre que vemos do maternal ao doutorado.

  3. Quem sabe o professor queira conhecer a realidade de um Professor Universitário em uma Instituição de Ensino privada. Ele tem carga horária de até 40 horas em sala de aula, muitas vezes não realiza pesquisa, e nem por isso é menos professor universitário do que aqueles que acabou de descrever. Compreendo sua luta pela redução de carga horária mas creio que está falando por apenas uma parte dos professores universitários brasileiros.

    1. E quem disse que eu não conheço essa realidade ou que não os considero professores? Não distorça minhas palavras, por favor. Quem não os trata como professores universitários são as instituições que os contratam e exploram. A maioria das universidades privadas brasileiras não é de fato universidade, mas uma distorção do conceito original, uma espécie de colegião de nível superior. É claro que há honrosas exceções.

  4. Concordo e discordo. Se, por um lado, a confusão sobre o significado de professor universitário reina em nosso país de modo tal que para o brasileiro comum, professor é aquele que dá aula… Por outro, não acho ruim a nossa prática de fazer com que os graduandos passem uma parte considerável de sua formação acadêmica dentro da sala de aula. Sou das humanidades. Mais especificamente, das Ciências Sociais. Quando fui fazer meu doutorado sanduíche na França, uma das coisas que notei dos alunos europeus formados nesta área, era a fraca formação teórica. Claro… Leram os clássicos da Sociologia de modo espontâneo, superficial, no ritmo da vida deles (ou seja, no ritmo das mensagens via Whatsapp)… Ora, não entenderam nada dos autores. Já nossos estudantes brasileiros têm uma formação muito sólida naquilo que chamamos clássicos da Sociologia (Durkheim, Marx e Weber) exatamente porque encontram em suas respectivas universidades uma fortíssima presença do professor. Por isso, penso que seja determinante para a formação de excelência, o papel do professor e de suas aulas. Ao meu ver, deixar os alunos de graduação à merce dos seus próprios estudos, sem qualquer orientação, de modo tal que a aula se transforme num bate-papo entre os próprios estudantes acerca de suas leituras geralmente oblíquas e limitadas (quando não repletas de tendenciosidade), é um grave erro para a educação… Por isso, considero a figura do professor e a prática de aula fundamentais para a formação acadêmica do graduando.

    1. Fabio, entendo o que você disse e realmente as coisas mudam de área para área. Mas eu não disse que os alunos deveriam ficar totalmente soltos. Apenas disse que eles não devem ficar totalmente presos, o tempo todo respondendo a comandos, sufocados em sala de aula. Acho que, entre um extremo e outro, eles deveriam ficar mais para perto da liberdade total do que do controle total ou mesmo da média. Comparando os alunos de Biologia entre EUA, Alemanha e Brasil, países cujos sistemas conheço melhor, vejo que nos dois primeiros eles passam muito menos tempo em sala, recebem muito mais tarefas para casa e, ao final do curso, saem muito mais bem preparados para exercer a profissão com autonomia, seja na área de pesquisa, ensino, consultoria ou gestão.

  5. Excelente texto ainda sobre o fetiche da sala aula é uma realidade no público e no privado vale a pena de leitura de uma sociedade sem escolas de Ivan Illich , Rubem Alves e Escola da Ponte
    sobre o conhecimento em redes…

  6. “Para se ocupar com 2 disciplinas de 4 créditos por semestre, totalizando 8 créditos, e realmente ministrá-las com qualidade, o professor universitário não poderia se envolver com mais nada! ”

    Posso discordar de você?

  7. Talvez uma reestruturação baseada nos títulos, como nos países de língua inglesa e alemã, que você citou, seja uma solução. Diferenciar o “professor” do “lecturer” ou “Dozent” nos concursos, implicaria em uma brutal diferença de função, fazendo com que a carga fosse melhor distribuída e cobrada dos que teriam que chefiar pesquisas e de quem precisa, por função, dar aulas. O que acho mais triste é quando se compara o salário de um professor (teacher ou Lehrer) do ensino básico com o do universitário aqui no Brasil e querem colocar todos no mesmo patamar nas greves da categoria. É um assunto complicado, cujo resultado se vê nos rumos que a educação anda tendo.

  8. Bem, só quero pontuar uma discordância: não há ensino sem pesquisa, portanto, professor-pesquisador -pesquisador-professor é qualquer professor seja ele universitário ou da educação básica. Essa dicotomia entre ser pesquisador e ser professor, afastou a academia da escola, isso é agravante quando se trata dos cursos de formação de professores que atuarão nas escolas. Nos últimos anos tem se oportunizado vagas de pós-graduação a professores da educação básica; mestrados profissionais; e, investindo num maior diálogo entre academia e escola, claro entre os sujeitos não instituições.
    Mas, repito, concordando com Paulo Freire, não há ensino sem pesquisa. O professor é um pesquisador, a não ser que ele não seja comprometido, não comprometidos encontramos na academia e nas escolas de educação básica. abraços

    1. Não concordo com a visão do Paulo Freire. Você está usando o termo “pesquisador” em um sentido amplo demais, um erro muito comum no Brasil. Todo professor precisa ler e buscar informações para preparar aulas, claro. Mas pesquisa bibliográfica e pesquisa científica são coisas muito diferentes. O professor universitário se envolve com ambas: faz a primeira para subsidiar a segunda.

  9. Caro Marco,
    Gostei do texto, porém existem pequenas inconsistências no mesmo. A LDB exige que todo docente tenha no mínimo 8h aula por semana. Diferentemente do que foi citado por você, Professor em alguns países do exterior também é “docente universitário”! A careira docente, por exemplo no Reino Unido, é dividida em lecturer, reader e professor! Os famosos TA não ficam responsáveis por uma turma. Eles são como o próprio nome diz, assistentes. O TA no Brasil foi uma ideia surgida na UFMG e, s.m.j, só aplicada na UFMG. Naquela época a UFMG pediu, e o MEC aceitou, que parte da verba que a UFMG teria direito para a contratação de docentes seria usada como bolsa de pós-graduação e estes alunos de pós-graduação ficariam responsáveis por ministrar aulas. Este é o motivo de só ter durado 5 anos, enquanto as universidades que investiram na contratação de novos docentes não teve este problema. Na época o Reitor da UFMG (maior defensor da ideia) foi mt alertado sobre isto. Não sei se colocar alunos de pós-graduação para assumir aulas é uma boa ideia! Sou defensor de que os professores mais experientes devem, diferentemente do que se vê na maioria das universidades, devem assumir as disciplinas iniciais dos cursos, por terem uma visão mais ampla de todo o curso e assim aprofundarem mais em tópicos sabidamente de mais necessidade no futuro do aluno no curso. Bom se lembrar também que há, sob o meu ponto de vista, uma grande distorção na finalidade principal dos cursos de pós-graduação. Os cursos de pós-graduação têm a finalidade principal de formar cientistas, não professores.
    Robson Matos

    1. Robson, desculpe, mas discordo quanto às inconsistências que apontou. Conheço a bem carreira em alguns países europeus, como UK, Alemanha, Áustria e França. No UK, que você citou, com esses três cargos separados, eles fazem justamente o que eu proponho em vários textos aqui no blog: dividir as atribuições da carreira. E, na prática, nesses países, os TAs podem até não assinar as disciplinas, mas são eles que dão quase todas as aulas. O melhor exemplo disso é a Alemanha, onde apenas o Professor pode assinar as disciplinas oficialmente, sendo que geralmente há apenas um ou dois professores por departamento ou até mesmo instituto, dependendo do tamanho da universidade. Ou seja, um professor assina várias disciplinas, uma montanha de créditos, mas são os TAs, Privat Dozent (docente universitário), postdocs e até doutorandos que seguram os cursos em sala. Quanto ao caso dos TAs temporários da UFMG, sim, conheço bem a história que você relatou, só que ela não invalida o que eu disse. E tem outra complicação na história: a UFMG contratou um monte de novos docentes, sim, mas até agora nem sequer conseguiu arrumar espaço para eles trabalharem decentemente. Ou seja, outra decisão feita sem planejamento adequado.

  10. O artigo é bastante pertinente.A carga horária atribuida a um professor universitário é realmente incompatível considerando-se o seu efetivo papel de produtor ,orientador e lapidador do conhecimento adquirido pois de nada adianta atribuir -lhe uma carga horária excessiva para explanar conhecimentos em uma sala de aula, onde nem todos os presentes encontram-se em sintonia.Sintonia
    essa que deveria ser otimizado com uma melhor formação dos professores da educação infantil que lapidarão uma base ,efetivamente sólida ,para a autonomia dos
    Futuros acadêmicos.Em síntese: O professor da educação infantil constroi a base , o do ensino fudamental amplia e o professor universitário otimiza.Todos são imprescindíveis no processo de formação de cada cidadão.

  11. Parabéns pelo texto. Tenho certeza que algum europeu ou norte-americano vai concordar contigo. Lembro que muita gente acha que os professores não trabalham. Talvez seja o espírito agrícola do brasileiro comum.

    1. Aderbal, já ouvi mais de uma vez, de parentes, amigos e desconhecidos, a célebre pergunta: mas você só dá aula e faz pesquisa, não trabalha de verdade? É rir para não chorar…

  12. Até acho que a carga horária do professor universitário deveria ser reduzida. Mas o que dizer de um professor do ensino fundamental que tem a obrigação de dar 20 aulas semanais de 50min. com 4h e 10min por semana para preparar essas mesmas aulas? Além de corrigir provas, trabalhos, etc, etc, etc. Isso considerando apenas um turno de trabalho, o que daria algo em torno de R$1.800,00 bruto! Caso a pessoa possua doutorado pode-se atingir algo em torno de R$3.200, bruto. Para obter uma condição financeira mais digna o que nós fazemos é dobrar o salário. E não há mágica. Para conseguir essa proeza, dobra-se o trabalho. Comungo das posições do post quanto a carga horária dos professores nas universidades, mas o que se faz na educação básica, onde os pilares do conhecimento são forjados, é um verdadeiro absurdo!

    1. João, concordo plenamente. Nos mesmos países que citei no texto, professores do ensino básico (infantil, fundamental e médio) ganham salários muito bons e vivem bem confortavelmente, trabalhando em apenas uma escola, sem sobrecarga. Não há porque os salários-base serem tão diferentes entre básico e superior. Os vencimentos até devem aumentar em todas as carreiras de acordo com titulação, produtividade etc. via gratificações, mas a base teria que ser forte para todos. O que fazem com o professor de escola no Brasil é uma covardia. Há estudos que sugerem que a melhor estratégia para melhorar o ensino básico em um país, independente de todas as outras, é dar uma salário não apenas digno, mas excelente para os professores de escola. Isso faz a curto prazo com que as melhores mentes saídas dos cursos técnicos e superiores se interessem por dar aulas, ponderando entre outras possibilidades, além de manter motivado e valorizado quem tem paixão pela carreira e não escolheria outra.

  13. É… a realidade dói.
    Dói ainda mais quando conhecemos outras realidades.
    Na instituição na qual eu trabalho, a carga horária mínima obrigatória passou, na semana passada, de 8 para 12 créditos.
    Coincidentemente, estou em um intercâmbio em uma Universidade do Canadá e é exatamente como você descreveu.
    O pior é que o aumento da carga horária se deu com a aprovação do Conselho Universitário, para reduzir os custos com contratação de pessoal e evitar a “uspanização” do orçamento da Universidade. Acho difícil que os votantes conheçam outras realidades (talvez nem mesmo a da USP).

    1. Patrick, pior que você tem razão. Eu reclamo que os alunos e o público não conhecem nossa realidade, mas muitos dos absurdos na nossa carreira saíram das mentes brilhantes de colegas que não conhecem nada sobre a realidade de outros países e sobre como a universidade deveria ser. Não é só a carreira de professor, mas a estrutura toda das universidades brasileiras que está capenga.

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