Quer ser cientista? Então aprenda inglês!

Já sentiu frustração por não conseguir ler um paper fundamental para o seu projeto? Já se sentiu meio mala por ter que ficar sempre pedindo para colegas traduzirem os seus manuscritos? Já passou vergonha dando palestra em um congresso internacional por falar um inglês precário? Existem soluções para esses problemas!

“A posse de qualquer coisa começa na mente”

Bruce Lee

Semana passada, um leitor do blog, Patrick, me perguntou sobre a importância do inglês para os cientistas. Achei esse um ótimo tema para um novo post. Obrigado pela inspiração.

Nunca é tarde demais para aprender inglês ou outros idiomas. Aqui vou contar a minha experiência pessoal, responder as perguntas mais frequentes que me fazem e dar algumas dicas práticas.

Vamos começar deixando clara uma coisa: todo cientista tem que saber ao menos ler em inglês. De preferência, um jovem cientista, que almeja se tornar um bom profissional, deve também aprender a escrever em inglês.

“Mas, Marco, o Google Translator não está aí para isso?”

Se você acha que textos técnicos podem ser traduzidos decentemente apenas com a ajuda do Prof. Google, então precisa mesmo estudar mais. O Prof. Google pode até ajudar no caso de palavras e expressões curtas. Só que ele é péssimo para traduzir orações inteiras e textos mais complexos do que “the ebook is on the tablet“. O resultado costuma ser patético.

Adendo: Mais ou menos de 2017 para cá, o Google Translator melhorou muito na tradução de frases e parágrafos, graças ao milagre do machine learning. Mas ele ainda é muito falho na tradução de textos técnicos. De qualquer forma, quem alimenta as máquinas tradutoras são milhões de traduções postadas por tradutores profissionais na internet. O mais importante é que textos profissionais, quando escritos em outros idiomas que não o idioma nativo dos autores, sempre precisam passar por revisão humana, de preferência por um bom tradutor profissional. Ao contrário do que alguns editores e revisores com mentalidade colonialista pregam, falantes nativos nem sempre garantem qualidade.

Voltando ao tema, saiba que mais de 90% da literatura científica mundial está em inglês. Essa é atualmente a lingua franca da ciência, economia, política, cultura e lazer. Vale ressaltar que a ciência é como um enorme quebra-cabeças cooperativo e internacional: se você não conseguir se comunicar com seus colegas, vai ter que participar do jogo na base da mímica. Essa comunicação profissional não é possível sem o inglês.

Já imaginou se cada cientista publicasse papers apenas no próprio idioma materno e você fosse obrigado a aprender pelo menos os dez idiomas mais importantes do mundo para começar a fazer pesquisa? Para nossa sorte, nas ciências naturais basta aprender o inglês. Não está a fim de aprender? Então pare de ler aqui e vá seguir outra carreira.

Ok, se você tem consciência de que precisa aprender inglês para ser cientista profissional, vamos tratar de algumas questões mais específicas. Organizei os meus conselhos na forma de perguntas e respostas.

Como foi a sua experiência em aprender outro idioma?

Aprendi inglês sozinho, jogando videogame, ouvindo músicas e assistindo filmes. Maluquice? Não, isso não tem nada de impossível. E olha que eu comecei antes de abrirem a internet à população.

No começo você fica o tempo todo recorrendo a dicionários, mas depois o seu vocabulário aumenta, o seu feeling fica mais forte. Você passa até mesmo a intuir o significado das palavras novas que vão aparecendo.

Depois fui aperfeiçoando os meus conhecimentos através da leitura, primeiro de textos literários e depois de textos científicos. Por fim, já depois de adulto, morar no exterior por alguns anos me deu um belo upgrade.

Como eu comecei a aprender cedo, aos poucos, quando cheguei à universidade e tive que ler artigos técnicos em inglês no meu primeiro estágio, a dificuldade maior era entender “biologuês” e não inglês.

Quão fluentes acadêmicos precisam ser?

Quão fluente ele ou ela possam ser. Saber idiomas nunca é demais. Um cientista deve dominar a norma culta do próprio idioma materno e, além disso, ser fluente em inglês. Se possível, você deve  aprender também linguagens computacionais, como R, Python, Julia, C++, C# e Fortran. Quanto mais idiomas você puder aprender, melhor.

O crucial é ler fluentemente em inglês. Um aspira deve almejar também ser capaz de perceber as minúcias, entrelinhas e temperos de cada texto. Mesmo os frios e ásperos textos científicos também têm seus 50 tons de cinza.

O ideal é ser fluente também na escrita, porque senão você pode acabar falindo de tanto pagar tradutores. Na verdade, recomendo fortemente ir além disso e tentar ser fluente também na conversação. Isso pode lhe abrir muitas portas no convívio com colegas estrangeiros não só de países anglófonos, mas do mundo todo. O contato interpessoal é fundamental na ciência.

Quais são as principais dificuldades?

A maior dificuldade são barreiras mentais que engessam um monte de gente bem-nascida. Por exemplo, “o Pedrinho é esperto pacas, mas tentou aprender e não conseguiu”, “um curso de inglês é caro demais, não posso pagar”, ou, a pior de todas, “odeio esses imperialistas e não vou me render ao idioma deles”.

Uma outra barreira realmente séria é a socioeconômica. Felizmente, as universidades públicas cada vez se abrem mais aos alunos vindos das quebradas, favelas e comunidades tradicionais, tornando-se um pouco menos elitistas. Pessoas dessas novas fatias demográficas, em sua maioria, não tiveram uma boa educação de base nem no português, que dirá em idiomas estrangeiros. Além disso, a maioria delas não tem acesso a boas bibliotecas e outras fontes de informação de qualidade em casa. Nesses casos, o problema é real e aprender inglês se torna mais uma das grandes barreiras que elas tem que enfrentar para sobreviver na ciência.

De qualquer forma, em todos os casos, aprender inglês não é tão difícil assim e essa lacuna de formação pode ser preenchida de diferentes formas. Isso porque estamos falando de um idioma sintético, elegante e onipresente na cultura pop. Essas são enormes vantagens, que quase permitem aprender inglês por osmose, se você abrir a sua mente e tiver acesso aos meios adequados. Aprender alemão ou japonês é bem mais complicado, considerando as gramáticas e sistemas de escrita mais complexos e diferentes dos nossos, além do pouco contato que temos com esses idiomas no dia a dia.

Fora isso, no geral, é sempre mais difícil criar mensagens do que entendê-las em um idioma estrangeiro. Ou seja, é mais fácil ler e ouvir do que escrever e falar. Essa dificuldade é vencida com treinamento e prática. Muuuuuuita prática!

Quais são as exigências?

As exigências são apenas disposição, acesso à internet e, se possível, alguma grana. A disposição só depende de você e da sua disciplina de estudo. Já o acesso à internet e a grana são mais complicados, pois os melhores cursos são caros e nem todo mundo tem internet boa em casa. O bom é que a grana necessária tem diminuído muito nos últimos anos. A oferta de cursos gratuitos cresceu bastante.

O importante é que o investimento em aprender ingles é fundamental para um aspira. Então vire-se e não fique engessado por desculpas esfarrapadas. Não, a desculpa do “eu não tenho tempo” não cola. Tempo se inventa, quando algo é prioridade para você.

Por onde começar?

Se você puder pagar um curso de inglês top, como Berlitz ou Cultura Inglesa, não pense duas vezes. Isso te dará um belo head start. Aprender sozinho, como eu fiz, dá mais certo para quem começa desde cedo, sem pressa. Se isso estiver fora do seu orçamento, veja as alternativas que sugiro a seguir.

O ponto é que, se você, aspira, já está na graduação, ou pior, na pós-graduação, e ainda não domina o inglês, precisa preencher essa lacuna com urgência. Na falta de opção, começar pelo cursinho básico da esquina é melhor do que ficar engessado, reclamando da vida e das injustiças lingüísticas.

Se você não tiver grana alguma para pagar um curso tradicional, mas tiver acesso à internet (nem que seja só no lab), aí não tem desculpa. Há cursos online gratuitos que ajudam muito. Isso, fora milhares de filmes, músicas e jogos legendados em inglês que adiantam o seu lado como autodidata.

Cursos online ajudam mesmo?

Sim, claro. Mas vamos fazer algumas ressalvas. Há cursos online que variam desde picaretas até ótimos. Em geral, mesmo nos bons cursos online você aprende mais devagar do que nos presenciais. Vale lembrar que, por pressão da pandemia de Covid-19, escolas de idiomas tradicionais também criaram excelentes versões remotas dos seus cursos presenciais.

Nosso cérebro tem um hardware feito para aprender idiomas principalmente por imitação e repetição, no contato visual com falantes nativos, usando os neurônios-espelho. É como aprendemos o nosso idioma nativo na primeira infância. Filhos de pais com diferentes nacionalidades e que moram num terceiro país conseguem aprender até dois ou três idiomas nativos na boa, sem estresse, por imitação.

Logo, o ideal é aprender diretamente com um bom professor nativo, seja em uma turma pequena ou em aulas particulares. Não importa se o curso é presencial ou remoto. O importante é ser um curso bem estruturado, com pedagogia eficiente.

Outra ferramenta fantástica são os apps de idiomas. Eles não substituem um bom curso dado por uma escola especializada, mas ajudam muito.

Eu não estou com pressa e prefiro aprender por conta própria: #comofaz?

  1. Use apps gratuitos, como Duolingo, para dar os primeiros passos no inglês;
  2. Participe de alguma plataforma online de troca de idiomas, como Cambly, em que você ensina português a um estrangeiro falante nativo (inglês, americano, canadense, australiano, nigeriano, jamaicano etc.) e ele te ensina o inglês, na base do chat ou videochamada;
  3. Sempre que tiver a chance de conversar com um falante nativo do inglês, aproveite-a. Conversas ajudam muito!
  4. Ouça músicas em inglês, mas dê preferência a versões gravadas por cantores com excelente dicção, como Frank Sinatra e Johnny Cash. Por mais que você Kurt Cobain, o inglês dele é level hard;
  5. Assista filmes em inglês com legendas em inglês. Você pode ver um mesmo filme mais de uma vez, para treinar. Comece usando legendas em português. A partir da segunda assistida, coloque as legendas em inglês. Vá se forçando aos poucos a entender tudo no original, com o dicionário ao lado;
  6. Você curte jogar online, tipo LOL, COD, Rainbow Six, Fortnite, Warcraft e afins? Então jogue nos servidores dos países de língua inglesa, nunca nos brasileiros. Vá se forçando a entender as conversas e enredos e fuja da praga conhecida como “Huehuehue BR“. A zoeira imbecil não tem fim, mas a sua carreira de cientista pode ter;
  7. Leia bons livros no original em inglês. Comece por leituras leves, como Harry Potter, The Hobbit, Eragon. Ou graphic novels, como Sandman e The Books of Magic. Depois, aos poucos, passe para leituras mais densas, como The Lord of the Rings e The Silmarillion. Quando já estiver ficando craque, arrisque Milton, Melville ou Joyce.

Estou desesperado: como posso aprender para ontem?

Três dicas: imersão, imersão e imersão! Existem muitos cursos de verão ou inverno, com duração de um a três meses, oferecidos nos EUA, Inglaterra, Austrália, Nova Zelândia e outros países anglófonos, através de escolas de idiomas brasileiras, estrangeiras ou internacionais. Dois meses de curso intensivo no exterior valem mais do que dois anos de aulas em sala no Brasil.

A imersão cultural faz milagres! E você ainda terá o benefício adicional de conhecer outro país, outra cultura, outras pessoas, outra culinária, outras cervejas. O importante é não colar em outros brasileiros durante esses cursos, se isolando em guetos e falando só português fora da sala de aula, como fazem alguns manés. Mergulhe na cultura e no idioma do país que for visitar. Esqueça o seu país por um tempo; logo você volta e mata a saudade.

Esses cursos são caros? Sim, mas o pagamento geralmente pode ser parcelado e o investimento sem dúvida vale a pena. Se você não tiver mesmo grana, outra opção é simular uma imersão cultural na sua própria casa: crie um microcosmo anglófono no conforto do seu lar, através de jogos, músicas e filmes. Troque as settings do seu videogame, smartphone ou tablet para inglês, por exemplo.

Qual seria o caminho ideal para aprender inglês depois de adulto?

  1. Se você tiver grana, procure um bom curso presencial ou remoto, na melhor escola possível ou com um excelente professor particular;
  2. Se você não tiver grana, procure um dos cursos oferecidos gratuitamente pelas universidades públicas ou pela Capes e o CNPq;
  3. Em ambos os casos, crie uma imersão cultural na sua casa usando apps de idiomas, games, músicas, filmes e séries, além de mudar o idioma usado em todos os seus gadgets;
  4. Depois de ter aprendido o feijão com arroz (ou baked beans) no Brasil, faça um curso intensivo de verão ou inverno no exterior.

Mexa-se!

“Mas, Marco, eu fiz tudo isso, mas ainda tenho vergonha de falar com colegas estrangeiros…”

Quanto anos você tem: três? Fala sério! Você não deve ter vergonha de falar, mas sim de não falar! Não importa quantos erros gramaticais ou de pronúncia você cometa no começo. Note que, mesmo os poliglotas, que conseguem alternar automaticamente entre três ou mais idiomas em uma conversa, cometem erros.

Erros gramaticais você corrige com estudo. Erros de pronúncia variam desde falar errado até ter um sotaque leve (é muito difícil aprender depois de adulto e não ter sotaque) e você os corrige com a prática e a imitação. Na verdade, se a sua gramática estiver correta e a sua pronúncia for inteligível para um nativo, o sotaque vira charme pessoal.

Aproveite toda e qualquer oportunidade de praticar o inglês. Eventos internacionais são ótimos para isso. Visitas de palestrantes estrangeiros à sua universidade também podem ser encaradas como sessões de treinamento. Enfiando a cabeça num buraco, igual a um avestruz, é que você não vai progredir. Pratique, pratique, pratique!

Conselho final

Tem muito cientista bem-nascido por aí que faz dívidas de dez meses para comprar uma TV LED 50″ 4K para ficar vendo futebol. Mas não tira o escorpião do bolso para pagar um bom curso de inglês, geralmente bem mais barato. Ninguém te deve nada, foi você que escolheu ser cientista e, portanto, o interesse em aprender inglês é todo seu. Mesmo se você não for uma pessoa privilegiada e não tiver tanta grana para investir no inglês, precisa correr atrás das várias soluções gratuitas que tem por aí.

Para saber mais

  1. Difícil aprender inglês? Não mesmo!
  2. Como eu aprendi inglês?
  3. A ciência da linguagem
  4. Em que idioma devo publicar?
  5. A importância dos intercâmbios acadêmicos

Ouça também o Arata:

24 respostas para “Quer ser cientista? Então aprenda inglês!”

  1. Ótimo texto! Vou me meter e dar mais duas dicas:

    – Pra quem tá com a grana insanamente curta – do tipo “comendo miojo todo dia de noite” – ou mesmo para quem quer complementar mais os estudos, então vale à pena conferir ferramentinhas online gratuitas, pois quebram um bom galho. Conheço o tal do Duolingo, mas com certeza devem ter outros por aí. Não é nenhuma maravilha, mas ajuda e serve de guia para quem está começando. O bacana é que como ele tem um esqueminha de pontuações e fases que você tem que passar, acaba estimulando o sujeito, pois lembra um jogo.

    – E além dos jogos online, que você mencionou, também tem uma parada bem legal: fóruns! Fórum de qualquer assunto que te interesse, que tenha uma boa movimentação.

    Há uns anos atrás eu aprendi muito daquele inglês mais informal, com uso de expressões mais complexas e tal, no fórum de um joguinho de computador (o bom e velho Mount & Blade). Foi uma experiência muito legal, pois eu estava curtindo o jogo e gostava de trocar idéias com o pessoal. Era um fórum bem movimentado, e boa parte da galera era bem educada e se preocupava em escrever direito (tá, na verdade uma boa parte eram uns “grammar nazis” FDPs, mas no fundo isso era legal também, hehehe).

    Então fica a recomendação: se você já manja do básico, procure um fórum legal de um tema que você curta, e vá bater papo sobre ele com gente do mundo todo. 😉

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  2. Republicou isso em Caípee comentado:
    Realmente sem inglês não conseguiria desenvolver várias ideias de projetos de pesquisa para este ano de 2015 em Filosofia da Computação. Mas quero ir além, com Alemão e Francês.

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    1. Elizandra, recomendo fazer pelo menos o nível básico em uma boa escola, porque aí você pode aproveitar bem mais um curso de verão. Mas há cursos de verão para os quais você pode ir até mesmo com quase conhecimento zero. Independente do nível que você já tiver, um curso intensivo, com imersão na cultura, sempre faz um diferença enorme.

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    1. Oi Flora, obrigado! Quanto ao curso, estou sabendo, mas ainda não ouvi comentários sobre a qualidade. Com certeza vale a pena dar uma conferida.

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