Quer ser cientista? Então aprenda inglês!

Já ficou frustrado por não conseguir ler um paper fundamental para o seu projeto? Já se sentiu um mala por ter que ficar sempre pedindo para colegas traduzirem os seus manuscritos? Já passou vergonha dando palestra em um congresso internacional por falar um inglês macarrônico? Então não choramingue, mas vá à luta! Nunca é tarde demais para aprender inglês ou outros idiomas. Aqui vou contar minha experiência pessoal, responder as perguntas mais frequentes que me fazem e dar algumas dicas práticas.

Semana passada, um leitor do blog, Patrick, me perguntou sobre a importância do inglês para os cientistas. Achei esse um ótimo tema para um novo post. Obrigado pela inspiração.

Vamos começar deixando clara uma coisa: todo cientista tem que saber ao menos ler em inglês, senão estará condenado a viver em uma bolha de irrelevância acadêmica. De preferência, um jovem cientista, que almeja se tornar um bom profissional, deve também aprender a escrever em inglês.

Mas, Marco, o Google Translator não está aí para isso? Fala sério, brother… Se você acha que textos técnicos podem ser traduzidos decentemente apenas com a ajuda do Prof. Google, então precisa mesmo de um curso de inglês. O Prof. Google pode até ajudar no caso de palavras e expressões curtas, mas não serve para traduzir orações inteiras e muito menos textos mais complexos do que “the ebook is on the tablet“. O resultado costuma ser patético.

Voltando ao tema, saiba que 99% da literatura científica mundial está em inglês. Essa é a lingua franca da Academia e do mundo contemporâneo. A ciência é como um enorme quebra-cabeças cooperativo e internacional: se você não conseguir se comunicar com os colegas, vai ter que participar do jogo na base da mímica. Se você não dominar o inglês, como poderá saber que peças faltam no puzzle científico que lhe interessa? Já imaginou se cada cientista publicasse apenas no próprio idioma materno e você fosse obrigado a aprender pelo menos os dez mais importantes para começar a fazer pesquisa? Para nossa sorte, nas ciências naturais basta aprender o inglês. Não está a fim de aprender? Então pare de ler aqui e vá seguir outra carreira.

Ok, se você tem consciência de que precisa aprender inglês para ser cientista, vamos tratar de algumas questões mais específicas. Organizei meus conselhos na forma de perguntas e respostas.

Como foi a sua experiência em aprender outro idioma?

Aprendi inglês sozinho, jogando videogame, ouvindo músicas e assistindo filmes. Maluquice? Não, isso não tem nada de impossível. No começo você fica o tempo todo recorrendo a dicionários, mas depois o seu vocabulário aumenta, o seu Sprachgefühl fica mais forte e você consegue até mesmo intuir o significado das novas palavras que vão aparecendo. Depois fui aperfeiçoando os meus conhecimentos através da leitura, primeiro de textos literários e depois de textos científicos no original. Por fim, já depois de adulto, morar no exterior por alguns anos me deu um belo upgrade. Como eu comecei a aprender cedo, aos poucos, quando cheguei à universidade e tive que ler artigos técnicos em inglês no meu primeiro estágio, a dificuldade maior foi o conteúdo e não o idioma. Até mesmo porque o idioma usado era o “biologuês”, na verdade (rs).

Quão fluente o acadêmico precisa ser?

Quão fluente ele possa ser. Saber idiomas nunca é demais. Um cientista deve dominar a norma culta do próprio idioma materno e, além disso, ser fluente em inglês. Se possível, ele deve  aprender mais outros idiomas, como R, C++ e Fortran (rs). Quanto mais idiomas você puder aprender, melhor. Mas essencial mesmo é ler fluentemente em inglês, sem precisar ficar consultando dicionários o tempo todo. O aspira deve almejar também ser capaz de perceber as minúcias, entrelinhas e temperos do texto, pois mesmo os frios e ásperos textos científicos também têm seus 50 tons de cinza. O melhor mesmo é ser fluente também na escrita, porque senão você pode acabar falindo de tanto pagar tradutores. Na verdade, recomendo fortemente ir além disso e tentar ser fluente também na conversação, porque isso pode lhe abrir muitas portas no convívio com colegas estrangeiros, não só americanos e ingleses, mas do mundo todo. O contato interpessoal é fundamental na ciência.

Quais são as principais dificuldades?

A maior dificuldade são as barreiras mentais ilusórias que engessam um monte de gente. Por exemplo, “o Pedrinho é esperto pacas, mas tentou aprender e não conseguiu”, “um curso de inglês é caro demais, não posso pagar”, ou, a pior de todas, “odeio esses imperialistas e não vou me render ao idioma sujo deles”. Na boa véi: cresça! Aprender inglês não é tão difícil assim, pois se trata de um idioma sintético, elegante e onipresente na cultura pop. Essas são enormes vantagens, que quase permitem aprender inglês por osmose, se você abrir a sua mente. Aprender alemão ou francês é bem mais complicado, considerando os pântanos formados pelas interações entre artigos, preposições e casos nesses idiomas mais rebuscados. Fora isso, no geral, é sempre mais difícil criar mensagens do que entendê-las em um idioma estrangeiro. Ou seja, é mais fácil ler e ouvir do que escrever e falar. Essa dificuldade é vencida com treinamento e prática, muita prática.

Quais são as exigências?

As exigências são apenas disposição e grana. A disposição só depende de você e da sua disciplina de estudo. Já a grana pode ser mais complicada, pois os melhores cursos são caros. O importante é que esse é um investimento fundamental para o cientista aspira, então se vire e não fique engessado por desculpas esfarrapadas dadas a si mesmo. E, não, a desculpa do “eu não tenho tempo” não cola. Tempo se inventa, quando se quer.

Por onde começar?

Se você puder pagar um curso de inglês top, como Berlitz ou Cultura Inglesa, recomendo fortemente, pois isso te dará um belo head start. Aprender sozinho, como eu fiz, dá mais certo para quem começa desde cedo, sem pressa. Se você, aspira, já está na graduação, ou pior, na pós-graduação, e ainda não domina o inglês, está bem atrasado e precisa aprender para ontem. Na falta de opção, mesmo fazer o cursinho baratinho do seu bairro pode ser melhor do que ficar engessado, reclamando da vida e suas injustiças lingüísticas. Se você não tiver grana alguma para pagar um curso, nem o mais barato, mas tiver acesso à internet, aí não tem desculpa: há cursos online gratuitos e milhares de filmes, músicas e jogos legendados em inglês que te ajudam a se tornar um autodidata.

Cursos online ajudam mesmo?

Sim, claro. Mas vamos fazer algumas ressalvas. Há cursos online que variam de picaretas a ótimos. Só que, em geral, mesmo nos bons cursos online você aprende mais devagar do que nos presenciais. Nosso cérebro tem um hardware feito para aprender idiomas principalmente por imitação e repetição, no contato pessoal com falantes nativos, usando os neurônios espelho. É como aprendemos nosso idioma materno na primeira infância. Filhos de pais com diferentes nacionalidades e que moram num terceiro país conseguem aprender até dois ou três idiomas maternos na boa, sem estresse, imitando. Logo, o ideal é aprender pessoalmente com um bom professor nativo, seja em uma turma pequena ou aula particular. Cursos à distância só ajudam a aprender num ritmo mais rápido, se forem muito bem estruturados e usarem tecnologias de videoconferência em tempo real com nativos. Por outro lado, em sala com um professor particular, você aprende até mesmo batendo papo em inglês algumas horas por semana.

Eu não estou com pressa e prefiro aprender sozinho; como posso fazer?

  • Participe de alguma comunidade online de trocas de idiomas, em que você ensina português a um estrangeiro (inglês, americano, canadense, australiano etc.) e ele te ensina o inglês, tudo na base do chat.
  • Sempre que tiver a chance de conversar pessoalmente com um falante nativo do inglês, aproveite-a. Conversas ajudam muito!
  • Ouça músicas em inglês, mas dê preferência a versões gravadas por cantores com excelente dicção, como Frank Sinatra e Johnny Cash. Por mais que você Kurt Cobain, o inglês dele é level hard.
  • Assista filmes em inglês com legendas em inglês. Não coloque as legendas em português em hipótese alguma. Vá se forçando a entender tudo no original, com o dicionário ao lado. Aos poucos a coisa vai melhorando e, no final do processo, você abandona toda e qualquer legenda.
  • Curte jogar online, tipo World of Warcraft e afins? Então jogue nos servidores americanos ou ingleses, nunca nos brasileiros. Vá se forçando a entender as conversas e enredos e fuja da praga conhecida como “Huehuehue BR“. A zoeira imbecil não tem fim, mas a sua carreira de cientista pode ter…
  • Leia bons livros no original em inglês. Comece por leituras leves, como Harry Potter, The Hobbit, Eragon e até mesmo graphic novels, como Sandman e The Books of Magic. Depois passe para leituras mais densas, como The Lord of the Rings e The Silmarillion. Quando já estiver ficando craque, arrisque partir para Shakespeare, Yeats e Joyce.

Estou desesperado: como posso aprender para ontem?

Três dicas: imersão, imersão e imersão! Existem muitos cursos de verão ou inverno, com duração de um a três meses, oferecidos nos EUA, Inglaterra ou Austrália, através de escolas de idiomas brasileiras, estrangeiras ou internacionais. Dois meses de curso intensivo no exterior valem mais do que dois anos de aulas em sala no Brasil. A imersão cultural faz milagres! E você ainda terá o benefício adicional de conhecer outro país, outra cultura, outras pessoas, outra culinária, outras cervejas. O importante é não colar em outros brasileiros durante esses cursos, se isolando em guetos e falando só português fora da sala de aula, como fazem alguns manés. Mergulhe na cultura e no idioma do país que for visitar. Esqueça o seu país por um tempo; logo você volta e mata a saudade. Esses cursos são caros? Sim, mas o pagamento geralmente pode ser parcelado e o investimento sem dúvida vale a pena.

Qual seria o caminho ideal para aprender inglês depois de adulto?

  1. Procure um bom curso presencial, na melhor escola possível ou com um excelente professor particular, e crie uma disciplina de estudo. Não economize grana e nem tempo.
  2. Enquanto isso, jogue videogame e assista filmes em inglês com legendas em inglês, leia bons livros americanos ou ingleses no original e ouça músicas. Não precisa partir de cara para James Joyce; pode começar pela JK Rowling mesmo.
  3. Depois de ter aprendido o feijão com arroz (ou baked beans) no Brasil, faça um curso intensivo de verão ou inverno no exterior.

Mas, Marco, eu fiz tudo isso, mas ainda tenho vergonha de falar com colegas estrangeiros…

Quanto anos você tem: três? Fala sério, brother! Você não deve ter vergonha de falar, mas sim de não falar! Não importa quantos erros gramaticais ou de pronúncia você cometa no começo. Note que, mesmo os poliglotas, que conseguem alternar automaticamente entre três ou mais idiomas em uma conversa, cometem erros. Os erros gramaticais você corrige com estudo. Os erros de pronúncia variam desde falar errado até ter um sotaque leve (é muito difícil aprender depois de adulto e não ter algum sotaque) e você os corrige com a prática e a imitação. Aproveite toda e qualquer oportunidade de praticar o inglês. Eventos internacionais são ótimos para isso. Visitas de palestrantes estrangeiros à sua universidade também podem ser encaradas como sessões de treinamento. Enfiando a cabeça num buraco, igual a um avestruz, é que você não vai progredir. Perca a vergonha e solte o jab, jab, direto! Pratique, pratique, pratique!

Conselho final

Tem gente que faz dívidas de dez meses para comprar uma TV LED 52″ para ficar vendo novela, mas não tira o escorpião do bolso para pagar um bom curso de inglês. Ninguém te deve nada, foi você que escolheu ser cientista e, portanto, o interesse é todo seu. “A posse de qualquer coisa começa na mente” – Bruce Lee.

Para saber mais:

  1. Difícil aprender inglês? Não mesmo!
  2. Como eu aprendi inglês?
  3. A ciência da linguagem
  4. Em que idioma devo publicar?
  5. A importância dos intercâmbios acadêmicos
  6. Pare de mimimi e vá à luta

geracao de valor - suas justificativas paralisam voce

Fonte: Geração de Valor.

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11 Replies to “Quer ser cientista? Então aprenda inglês!”

  1. Ótimo texto! Vou me meter e dar mais duas dicas:

    – Pra quem tá com a grana insanamente curta – do tipo “comendo miojo todo dia de noite” – ou mesmo para quem quer complementar mais os estudos, então vale à pena conferir ferramentinhas online gratuitas, pois quebram um bom galho. Conheço o tal do Duolingo, mas com certeza devem ter outros por aí. Não é nenhuma maravilha, mas ajuda e serve de guia para quem está começando. O bacana é que como ele tem um esqueminha de pontuações e fases que você tem que passar, acaba estimulando o sujeito, pois lembra um jogo.

    – E além dos jogos online, que você mencionou, também tem uma parada bem legal: fóruns! Fórum de qualquer assunto que te interesse, que tenha uma boa movimentação.

    Há uns anos atrás eu aprendi muito daquele inglês mais informal, com uso de expressões mais complexas e tal, no fórum de um joguinho de computador (o bom e velho Mount & Blade). Foi uma experiência muito legal, pois eu estava curtindo o jogo e gostava de trocar idéias com o pessoal. Era um fórum bem movimentado, e boa parte da galera era bem educada e se preocupava em escrever direito (tá, na verdade uma boa parte eram uns “grammar nazis” FDPs, mas no fundo isso era legal também, hehehe).

    Então fica a recomendação: se você já manja do básico, procure um fórum legal de um tema que você curta, e vá bater papo sobre ele com gente do mundo todo. 😉

  2. Republicou isso em Caípee comentado:
    Realmente sem inglês não conseguiria desenvolver várias ideias de projetos de pesquisa para este ano de 2015 em Filosofia da Computação. Mas quero ir além, com Alemão e Francês.

    1. Elizandra, recomendo fazer pelo menos o nível básico em uma boa escola, porque aí você pode aproveitar bem mais um curso de verão. Mas há cursos de verão para os quais você pode ir até mesmo com quase conhecimento zero. Independente do nível que você já tiver, um curso intensivo, com imersão na cultura, sempre faz um diferença enorme.

    1. Oi Flora, obrigado! Quanto ao curso, estou sabendo, mas ainda não ouvi comentários sobre a qualidade. Com certeza vale a pena dar uma conferida.

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