Os cinco traços de personalidade cruciais para se tornar um cientista profissional

Já escrevi neste blog sobre algumas coisas que são necessárias para se tornar um cientista profissional, o fato de essa carreira ser muito dura e o quanto o seu sucesso depende da sua própria postura. Agora quero focar em uma questão controversa, mas fundamental: importa também como você é e não apenas o quanto você se esforça.

Em tempos de polícia do pensamento, primeiro quero deixar claras três coisas:

  1. Não estou aqui para dizer que cientistas são pessoas melhores do que as outras, que outras profissões são piores do que a ciência, blablabla, mimimi. Estou aqui para falar de forma franca, sem firulas, sobre o que é preciso em termos de personalidade para se dar bem na carreira de cientista. Falo aqui com base na minha experiência própria como cientista, professor, formador de novos cientistas, assessor de agências de fomento e membro de bancas de concurso.
  2. Esforço é, sim, fundamental. Não basta nascer com tudo o que você precisa para ser cientista, financeira e psicologicamente falando. Como você usa esses dons faz toda a diferença na sua carreira, pois profissionais que brilham não nascem prontos e muita gente bem-nascida desperdiça oportunidades que caem no colo.
  3. O potencial para uma pessoa se tornar um cientista profissional não depende diretamente de sexo, idade, “raça”, renda familiar, ideologia política, espiritualidade, índice de massa corporal, simetria facial, marca de cachaça favorita, time de futebol, ou ser fã de DC ou Marvel. Até há estudos que encontraram relações entre alguns desses fatores e o sucesso na carreira de cientista, mas essas são meras correlações sem causalidade. O que importa mais na prática são as causas últimas, que são psicológicas e não sociais. O ponto é que há uma combinação de traços inatos de personalidade, independentes desses fatores sociais, que é crucial para você ter chances concretas de sucesso na Academia. Alguns desses traços podem ser trabalhados, mas outros, não, infelizmente.

Como em qualquer carreira de alto nível, extremamente competitiva e árdua, não basta ter apenas um ou alguns desses traços. Você precisa ter todos! É claro que a dose de cada um e a mistura final variam de cientista para cientista. É claro que há exceções, mas elas são muito poucas. Contudo, as suas chances de sucesso aumentam vertiginosamente se você tiver pelo menos um bocadinho de cada um desses traços. Se você tiver todos em nível alto, pode até mesmo vir a se tornar uma estrela da ciência.

Sei que alguns podem até me chamar de elitista por dizer isso. Vamos então fazer um experimento mental. Imagine que você goste muito de lutar. Você pratica uma arte marcial desde adolescente e frequenta um dojo regularmente. Contudo, após anos de prática, você continua sendo ruim de dar dó. Você apanha até mesmo do faixa branca magrelo que entrou no grupo semana passada. Ou seja, você não nasceu para ser lutador.

Assim, por mais que se esforce, não chegará nem mesmo a um patamar minimamente bom para se tornar um profissional. Faria sentido então largar tudo e tentar uma carreira como lutador do UFC? Claro que não. Você até pode continuar praticando a sua arte marcial favorita, mas como hobby e não ganha-pão. Agora aplique essa lógica à carreira acadêmica. Ou à carreira de artista. Ou à carreira de sacerdote. É a mesma coisa.

Contudo, nunca se esqueça: se você tem um sonho, você deve ser o primeiro a acreditar e lutar por ele. Assim, não são os outros que devem dizer que você não nasceu para ser cientista. Se você quiser muito ser cientista, tente e veja se dá certo ou não.

Bom, antes de continuar lendo este texto, reflita: a ciência é mesmo o seu ikigai?

Se você respondeu sim à pergunta acima, prossiga.

“Mas, Marco, quais são esses traços então?!”

Vamos a eles!

1. Curiosidade.

Este é o traço de personalidade número 1 de qualquer cientista. Não há nenhuma outra razão para tentar uma carreira acadêmica, a não ser ter obsessão por fazer e responder perguntas. O melhor motivo para desenvolver um projeto de pesquisa é o projeto em si  mesmo.

Além disso, um cientista profissional passa a vida inteira, até mesmo depois da aposentadoria, estudando e gerando conhecimento. Logo, se você não for uma pessoa naturalmente curiosa ou se você for uma pessoa que se contenta com qualquer resposta meia-boca para as coisas, pare tudo e mude de carreira. Por outro lado, se você é do tipo inquieto, que sempre quer saber o porquê de tudo e como as coisas funcionam, então talvez a ciência seja uma boa opção de carreira para você.

Muito importante: quem é naturalmente curioso vê a leitura de “livros enormes e sem figuras” como diversão, nunca como uma obrigação chata.

2. Inteligência.

É politicamente correto dizer que qualquer um pode se tornar cientista, que não é preciso ser brilhante para seguir essa carreira, que basta uma boa educação etc. Tolice. Usufruir os avanços proporcionados pela ciência é para todos, mas fazer ciência é para poucos.

Um cientista profissional não pode ser mentalmente medíocre. Para ter alguma chance de se formar como cientista e se estabelecer em um emprego na área, o aspira deve ter uma inteligência acima da média. Não precisa necessariamente ser um gênio, dois desvios-padrão acima da média, mas também não pode ficar perto ou abaixo dela.

É claro também que o aspira não precisa ficar acima da média em todos os tipos de inteligência. Alguns cientistas têm QI alto, mas inteligência emocional baixa e inteligência corporal tendendo a zero. Importam mesmo a sua inteligência lógico-matemática e a sua capacidade criativa. É o mesmo tipo de inteligência que se vê nos detetives e investigadores em geral: uma habilidade inata para montar “puzzles“.

3. Disciplina.

Além de ser curioso e inteligente, um cientista profissional precisa ter uma disciplina fora do normal.

Na maioria dos empregos científicos (professor universitário, pesquisador de instituto, pesquisador de indústria etc.) você não terá um chefe propriamente dito, te dando ordens diretas, cobrando resultados e fiscalizando um relógio de ponto. Cientistas profissionais, em geral, têm uma grande liberdade no trabalho, incluindo horários flexíveis. Isso pode ser uma benção ou uma maldição, dependendo do quanto você sabe usar bem o seu tempo. Logo, um bom aspira não faz as tarefas que lhe cabem porque alguém mandou, mas sim porque tem um apetite gigante por ver o resultado de cada uma delas.

E um bom aspira não deixa para amanhã o que pode fazer hoje, simplesmente porque não vê a hora de ler logo aquele artigo que acabou de sair ou conferir logo o resultado daquela análise que acabou de aprender. É uma questão de paixão, apetite. Cientistas profissionais bem-sucedidos costumam ter uma rotina bem planejada e bons hábitos de trabalho.

4. Perseverança.

Sim, muitas vezes as coisas dão errado no dia a dia de um cientista, mesmo que você cuide muito bem do planejamento dos seus projetos. Para a grande maioria das bolsas que disputamos, projetos que submetemos a agências de fomento e artigos que tentamos publicar em boas revistas a resposta que recebemos é “não”.

Como diria o bom e velho Churchill, que sabia se reinventar como ninguém, “sucesso é ir de fracasso em fracasso sem perder o entusiasmo”. Logo, o bom aspira não desiste de publicar, só porque um artigo derivado da tese foi rejeitado pela primeira revista. O bom aspira não desiste de um projeto, só porque o piloto não saiu exatamente como ele esperava. O bom aspira não desiste da carreira, só porque um colega que começou junto com ele já chegou muito mais longe.

O bom aspira só se compara a si mesmo e tem a atitude de um bom capoeira, que pode até levar uma rasteira, mas se levanta na mesma hora sem tocar no chão.

5. Capacidade de receber críticas.

Chegamos agora em um ponto crucial. Não estou falando das críticas que costumamos receber através de comentários estúpidos feitos na internet, mas das críticas sérias que recebemos no mundo real. Se você quiser mesmo ser cientista, vai ter que aprender a lidar com críticas de forma positiva.

Sim, aquele seu projeto perfeito pode ter um furo que você não viu. Sim, o seu artigo lindo pode estar com a redação pior do que você consegue perceber. Nós, cientistas, somos criticados o tempo todo. Por colegas de outros países, quando tentamos publicar artigos em revistas internacionais. Por colegas do mesmo país, quando tentamos conseguir patrocínio para projetos ou quando competimos por bolsas e empregos (a experiência de um concurso para professor lembra muito uma vivisseção…). Por colegas da mesma instituição, acomodados pela estabilidade fácil do serviço público brasileiro, quando tentamos implementar mudanças ou simplesmente fazer as coisas funcionarem como deveriam. Pela população em geral, quando bate uma crise econômica e as pessoas começam a se questionar sobre a utilidade de gastar dinheiro de impostos com educação, ciência e tecnologia.

Logo, ou você aprende a encarar a crítica como a sua melhor amiga e a usá-la para crescer, ou não sobrevive. Pense no caso específico das publicações cientificas. Ficamos com muita raiva, quando temos um artigo rejeitado por uma revista na qual sempre sonhamos publicar. Na verdade, a maioria dos artigos hoje em dia passa por pelo menos três revistas antes de conseguir ser publicada. O ponto é que o artigo que acaba finalmente saindo costuma ficar muito melhor do que a versão original rejeitada pela primeira revista, graças ao milagre do peer review, o nosso sistema oficial de críticas.

Marco, o que fazer se sou fraco em alguma dessas coisas?

Durante a minha caminhada na ciência, já vi vários colegas e alunos com bom potencial para crescerem na Academia sabotarem a si mesmos, porque lhes faltava um ou mais dos traços de personalidade mencionados aqui. Acho que o maior matador de aspiras, na minha experiência, é a falta de disciplina.

A ficção científica e os quadrinhos constroem nas nossas mentes a falsa imagem do cientista maluco com uma atitude caótica, que mesmo assim faz as mais loucas descobertas e invenções. A realidade está muito longe disso e os melhores cientistas são altamente sistemáticos. Quem procrastina nunca publica e quem nunca publica não faz descobertas de verdade, porque nunca submete suas ideias à revisão pelos pares (é muito fácil sair por aí se dizendo o maioral em tudo, mas sem nunca dar a cara a tapa).

Eu diria ainda que o segundo maior matador de aspiras é a imaturidade para receber críticas. Sério, isso é triste. Já convivi com pessoas brilhantes, mas impermeáveis a críticas e sugestões, e tive alguns alunos com esse defeito irritante. Essas pessoas não tinham maturidade emocional alguma e desmoronavam ou se enfureciam toda vez que alguém apontava o que estava errado no que elas faziam. Como se pode imaginar, não foram muito longe na ciência.

Vale lembrar também que a inteligência interpessoal (capacidade de estabelecer e manter boas relações com outros humanos), apesar de não ser essencial para seguir uma carreira de cientista, ajuda muito em qualquer carreira.

Então você acha que manda mal em algum desses traços? Simples: reconheça as suas limitações e lute para melhorar. Por exemplo, se você é desorganizado, um procrastinador nato, passe a usar um dos vários métodos de gerenciamento do tempo existentes. Se você faz beicinho quando te criticam, entre para um grupo de meditação ou vá servir o exército. Se você se deprime a cada derrota, procure um terapeuta. Sério. Jovens da geração Z às vezes parecem feitos de cristal, mesmo tendo nascido em uma era de bonança (ou talvez por isso mesmo…). Você só não pode é ficar parado, reclamando da vida e botando a culpa nos outros. Agora, se você não nasceu curioso ou inteligente, sinto muito, mas aí a coisa realmente complica.

Pode ser duro dizer isso, mas, na ciência, apesar de um esforço hercúleo e constante ser fundamental, ele não basta por si mesmo.

Sugestões de leitura

Personality-goes-a-long-way

Fonte.

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16 respostas para “Os cinco traços de personalidade cruciais para se tornar um cientista profissional”

  1. …Expandindo um pouco sobre o quesito Criatividade e sobre o comentário da Amanda acima…
    …Tenho percebido em alguns meios (incluindo cientistas altamente competentes!) uma mudança de visão, trocando a Criatividade pela Publicabilidade. Sim, eu concordo plenamente que publicações são fundamentais e uma pesquisa não publicada só serve de experiência formadora a quem a executa, mas como pesquisa de fato não existe. Mas acho que isso pode levar a uma mudança no pensamento que pode ser bem perigosa, na qual um pensamento “Nossa, que fenômeno interessante, como será que isso funciona?” dá lugar a um pensamento “Hum, acho que estudar isso pode dar um artigo na Science!”.
    E então deixamos de pensar em como contribuir para a Ciência e pensamos apenas em como ter nosso nome na Science; não mais entender a Natureza, e sim ter nosso nome na Nature.
    Isso se aplica também a outras etapas do processo científico – frequentemente ouço dizerem que a análise X tem sido mais aceita pelas revistas, então é melhor usar ela; ao invés de pensar qual análise responde melhor a pergunta do estudo ou se adequa melhor à natureza dos dados.
    É claro que uma forma como essa de pensar pode levar a pesquisas excelentes, e a vejo em cientistas altamente competentes. Mas temo que possa ser um caminho sem saída e potencialmente danoso ao progresso científico como um todo.

    1. Concordo, Pavel. Reforçando o que eu sempre digo, um artigo em uma excelente revista deve ser visto como a finalização ideal de um projeto bem planejado e bem executado. Assim como um belo mata-leão, aplicado para ganhar uma luta bonita de se ver! 😉 A descoberta é a meta, o artigo é meio de comunicação oficial. A gente precisa, sim, estar sempre antenado com as teorias, hipóteses, fenômenos, abordagens e análises que estão mexendo com os nossos colegas e saindo nas principais revistas, mas isso não significar seguir qualquer modinha nova.

  2. Sabe, as vezes fico me perguntando se a demasiada importância que os cientistas dão a publicação de seu trabalho em uma revista famosa( apesar de aumentar a probabilidade de avanço na ciência, levando em consideração as grandes mentes analistas ) não for maior que a sua vontade de descobrir a fundo a natureza do objeto de estudo. Num primeiro momento pensa-se ser saudável essa vontade de ser aceito na comunidade científica, até concordo em certo ponto, quando sua atenção deixa de ser a finalidade ou inicio da construção teórica do que se estuda para ser alvo de um extenso currículo lattes, onde sua “vida acadêmica” é transparecida em inúmeras páginas e ganha ‘importância no mundo intelectual”. Isso, na minha opinião, favorece parcialmente a ciência. Eu sou a favor de uma entrega total naquilo que se estuda, e deixar a preocupação de aumentar o currículo em segundo plano. É como se eu quisesse que a Discovery Chanel fizesse um documentário a respeito do meu trabalho( situação hipotética, kkkk ) em gravitação universal e esquecesse dos motivos básicos e necessários de se aprofundar nesse tema, mas parece ser cultural essa visão de quanto mais artigos publicados, melhor é o cientista. Sabe, uma pequena descoberta isolada do mundo midiático pode ser a chave de muitas respostas e novos questionamentos, e a competência e o esforço do cientista naquilo que dedicou anos de sua vida, pode ser mais crucial que vários artigos citados na Scientific American. Não estou desmerecendo a importância de se publicar um trabalho, mas sim na inversão da ordem de prioridade no que realmente vale a pena: a ciência ou a atenção do público.

    1. Eu concordo contigo: não se pode confundir a missão com o meio. É como apontar um dedo para a Lua: não se concentre no dedo ou perderá toda a glória celestial. A obsessão por fazer currículo é, sim, contraproducente para a formação de um aspira e nociva para a ciência como um todo. Contudo, publicar é fundamental, pois a ciência é uma cultura humana e as novas ideias precisam ser colocadas à prova. Ou seja, o ponto é focar nas descobertas, caprichar na divulgação das mesmas, independente das modas que envolvem certas revistas e editoras, e encarar a construção do currículo como uma consequência natural de um trabalho investigativo bem-feito a médio e longo prazo.

  3. Prof. Marco,

    Mais uma vez, fantástico texto.

    Quando você comenta que “só não pode é ficar parado, reclamando da vida e botando a culpa nos outros”, tenho pena da maior parte dos brasileiros, que se acredita vítima, sem poder para mudar as coisas. Trompenaars e Hampden-Turner criaram um modelo cultural em sete dimensões e uma delas é, justamente, como uma sociedade enxerga sua capacidade de mudar seu ambiente. Sinceramente, espero que os cientistas brasileiros estejam acima da média não apenas na inteligência, mas também em sua autoestima.

    Caso queira saber mais sobre o modelo que citei, escrevi sobre ele essa semana:
    https://lucaspalhao.wordpress.com/2015/08/31/por-que-o-brasil-nao-vai-para-frente-ou-do-lado-errado-do-modelo-cultural-de-sete-dimensoes/

    No meu caso, a perseverança tem faltado algumas vezes. Mas vou continuar tentando. Seus textos, Marco, são muito motivadores e ajudam a vencer esse bloqueio que me acomete de tempos em tempos.

    Obrigado e um abraço.

  4. Excelente texto Prof. Marco,
    Vale ressaltar que a curiosidade é o que faz você descobrir algo. Mesmo que precise acordar as 4:30 h da manhã, ir para o meio do mato, ser “comido” vivo por mosquitos [mesmo com repelente]. Almoçar um pão, chegar exausto e repetir isso várias vezes. Porém, tudo vale a pena quando vê os resultados na tela do computador, todo seu esforço e disciplina ali. É algo lindo.

    Abrçs

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