O que fazer quando um artigo empaca?

Cumprindo uma promessa feita recentemente, resolvi escrever sobre um tema que interessa tanto aos aspiras quanto aos faixa-pretas da ciência: a dificuldade de desempacar artigos que ficaram estagnados.

Como já dizia o Prof. Magnusson, a ciência é uma cultura humana. Logo, a pesquisa é uma empreitada feita em grupo. Um cientista profissional desenvolve a grande maioria dos projetos e artigos dele em parceria com colegas. Hoje em dia, essas parcerias envolvem cada vez mais gente, muitas vezes de países diferentes. Alguns artigos oriundos de grandes programas de pesquisa chegam a ter dezenas ou mesmo centenas de autores. Como gerenciar esse monte de gente, ainda mais considerando os conflitos de interesses, gerações e culturas?

Não há uma resposta única e milagrosa. O fato é que, infelizmente, muitos artigos científicos iniciados nunca são concluídos, indo parar na Biblioteca do Sonhar. Uma parte desses trabalhos é ruim mesmo, seja por qual razão for (por exemplo, pergunta sem originalidade ou desenho amostral falho), então é melhor ficarem no limbo. Mas uma outra parte teria potencial para virar uma contribuição de verdade para a ciência, só que um ou mais autores sabotam o plano e acabam levando o trabalho para um atoleiro. Há diversas armadilhas psicológicas que podem causar isso, como vaidade, procrastinação, falha na comunicação, preguiça ou incompetência pura e simples.

Essas armadilhas são especialmente perigosas na nossa cultura latina, que não valoriza compromissos de longo prazo. Muitos empenham a palavra, aceitando participar de um artigo, e mostram grande empolgação no início, mas depois enjoam e começam a empurrar as tarefas com a barriga. Se pelo menos a maioria desses furões cancelasse formalmente o compromisso, seria menos mal. O problema é que muitos não fazem a parte que lhes cabe, mas mesmo assim querem continuar tendo o nome no trabalho.

Pior do que isso, alguns não fazem o que lhes cabe e ainda ficam magoados quando alguém toma as rédeas e toca a coisa para a frente. Há ainda os que criam ódio mortal aos colegas, quando são removidos de um artigo por não ajudarem em nada. Autoria científica não é uma questão fácil, mas alguns casos chegam a ser ridículos. Sim, lidar com pessoas não é mole, não, mas ninguém faz ciência sozinho.

O fluxograma abaixo pode ajudá-los a tomar decisões melhores em casos de impasse:

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Quais são os fatores principais a se considerar?

1. O seu grau de responsabilidade com o trabalho.

Se é um artigo derivado da sua monografia, dissertação ou tese, sinto muito, mas não existe a opção de desencanar. Se você tiver feito o trabalho usando dinheiro público, desistir é pior ainda, pois significa jogar impostos alheios no lixo. Em um país pobre e desigual como o nosso, isso deveria ser motivo de vergonha.

2. O que está fazendo o trabalho empacar.

Se o artigo parou no meio e nunca foi submetido à publicação, tente descobrir o que deu errado. Foi uma pessoa encarregada de uma análise, que nunca entregou os resultados? Foi um orientador omisso, que está há meses com o trabalho sem nunca fazer a revisão? Foi um colaborador sênior, que na prática não ajudou em nada e nem leu o manuscrito, mas que você fica constrangido de remover da lista de autores? Tudo isso tem solução, em alguns casos mais difícil do que em outros. Agora, se o trabalho é seu e você empacou porque você é desorganizado ou incompetente, tome vergonha na cara.

3. O quanto você se importa com o trabalho.

Pode ser que o trabalho não seja fruto de um projeto seu e que você nem ao menos seja o orientador do responsável. Em alguns casos, somos convidados a participar de trabalhos empacados, aos quais os responsáveis não dão muito valor, mas nos quais enxergamos um potencial que eles mesmos não veem. Caso te deem essa liberdade, pode valer a pena tomar as rédeas da situação. Se você optar por isso, não se esqueça de considerar pedir para se tornar pelo menos o autor correspondente. Agora, se você é “um cara lá no meio”, que não é responsável pelo trabalho e nem se importa muito com ele, para que se estressar? A maioria das colaborações pode ser considerada “exploratória”: você aceita, sente o terreno e, se notar que é uma cilada, corre, Bino! Só não vale colocar os colaboradores na friendzone acadêmica: avise que está deixando o barco.

Conselho final

Antes mesmo de começar um projeto, escolha muito bem quem você vai convidar para te ajudar e defina a priori as regras de participação e coautoria. Muita dor de cabeça seria evitada, se as pessoas colocassem mais energia nessa parte do planejamento.

Sugestões de leitura

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9 Replies to “O que fazer quando um artigo empaca?”

  1. Olá Prof. Marcos,
    Adoro seu blog, acompanho ele e o blog do Pdodonov, principalmente devido aos artigos relacionados a estatística. Sou graduado em farmácia e iniciando agora minha vida como pesquisador. Queria aprender de forma aprofundada sobre bioestatística (área que amo, mas que sei quase nada) e sobre as devidas aplicações dos testes estatísticos em saúde. Você teria algum livro bem didático que aborde o tema, principalmente sobre os testes, para eu estudar sozinho? (quais testes usar em x situações) Conhece algum lugar onde eu possa fazer algum curso e me especializar mais no assunto (bioestatística, spss, testes estatísticos, etc)? Moro em Brasília, mas vou a qualquer lugar desse país para aprender de verdade sobre Bioestatística. Grande abraço Professor.

    1. Obrigado! Sugiro fortemente o Estatística sem Matemática (Magnusson et al. 2015). É uma belíssima introdução à bioestatística.

  2. Prof. Marco, obrigado por mais um excelente artigo.

    Na área de exatas, posso dizer que há muitas similaridades mas, também, uma diferença importante, que destaco a seguir. Quando se trata de um artigo de modelagem matemática ou simulação, é muito comum que apenas uma pessoa faça o trabalho. Então, um artigo que seria, a princípio, seu e do seu orientador, acaba “ganhando” mais alguns autores. Entretanto, podemos agradecer por não atrapalharem.

    Não sei se isso também ocorre nas outras áreas. Tenho a impressão de que o trabalho de pesquisa é muito maior e, se feito por uma pessoa só, pode acabar se estendendo demais.

    Grande abraço,
    Lucas Palhão

    1. Oi Lucas, isso acontece na Ecologia também. Muitos projetos envolvem uma parte teórica, uma parte empírica (campo, laboratório ou banco de dados), análise estatística, modelagem e redação. É raro alguém fazer tudo isso sozinho. Então também é raro artigos “cowboy”, com apenas um autor. Eu pessoalmente, como gosto muito de análise, modelagem e redação. Então, na hora de escrever artigos independentes dos meus alunos, acabo fazendo parcerias com pessoas que coletam os dados e conhecem a história natural de cada sistema. Logo, meus artigos acabam tendo pelo menos uns três autores.

  3. É… nessa maré de publique (em grupo) ou pereça (sozinho), torna-se fácil ‘firmar’ parcerias que não dão certo, ainda mais para mim, que estou saindo da condição de aspira e sou de uma área que considero pouco competitiva (Geografia).

    1. Pois é, montar uma equipe para um projeto ou artigo é uma mistura de War com Detetive e Pega-Vareta, rsrsrs.

Comentários encerrados.