Pergunte-me o que quiser! (1ª edição)

Seguindo uma tendência atual em blogs e vlogs, resolvi abrir um espaço para responder as perguntas dos leitores de forma mais direta.

Vocês, estudantes de qualquer nível e profissionais da pesquisa, que dúvidas têm sobre a ciência de um modo geral e, mais especificamente, a carreira acadêmica?

Podem me perguntar qualquer coisa! O que eu não souber responder sozinho, tentarei responder pedindo ajuda a colegas.

Façam as suas perguntas através de comentários nest post. O espaço ficará aberto por duas semanas*.

*O espaço vai continuar aberto! A interação com vocês aqui está muito legal.

The School of Athens, fresco by Raphael (1509–1510)

A Escola de Atenas pintada por Rafael.

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39 opiniões sobre “Pergunte-me o que quiser! (1ª edição)

  1. Nossa, esse post vai ser um verdadeiro Santo Graal… rs
    Bom, queria perguntar sua opinião sobre prioridades – no que devemos mais investir o tempo, de um ponto de vista mais moral e ético que prático.
    Entre diferentes atividades a que nós cientistas nos dedicamos – produção científica; orientação de estudantes; ensino (graduação e pós-graduação); extensão universitária (em suas várias formas, blogs inclusive!); avaliação de artigos para revistas; ajuda a colegas; e, além de tudo, estudo para se manter atualizado e aumentar seu próprio conhecimento na área, pois é com isso que trabalhamos – como escolher o que priorizar, a que dedicar nosso tempo?
    E em relação à produção científica, alguma sugestão de como priorizar a que artigos dedicar seu tempo? Frequentemente coletamos muitos dados e começamos muitos projetos, grande parte dos quais nunca termina (inclusive pesquisas financiadas com dinheiro público que nunca vêem a luz do sol e nem a sombra de uma TREE). Sugestões quanto a isso?

    • Oi Pavel! Bom, vou dividir a resposta em duas partes.

      Primeiro, a questão de quais atividades acadêmicas priorizar. Isso depende principalmente do tipo de emprego que você têm, em qual instituição trabalha e de qual é o seu perfil profissional. Algumas instituições te dão mais liberdade, outras menos. Algumas focam em ensino, outras em pesquisa, outras em extensão. E por aí vai. Bom, considerando o seu emprego então, se ele te der relativa liberdade, minha sugestão é: foque no que você faz melhor, porque os resultados naturalmente serão melhores. O senso comum diz “faça o que você ama”. O ponto é que nem todo mundo é bom naquilo que ama. Não adianta ser um incompetente bem-intencionado. Melhor focar no que você faz bem e aprender a amar essa atividade, ao ver os resultados fluindo. Qualquer uma dessas atividades acadêmicas (pesquisa, ensino, orientação, extensão e administração) tem importância para a academia e a sociedade, e tentar ranqueá-las por importância invariavelmente leva a discussões estéreis e ideológicas. Logo, tanto faz a qual dessas atividades você se dedica mais. O importante é almejar a excelência nela.

      Segundo, realmente não é simples decidir, dentre vários artigos em andamento, qual priorizar. Eu usaria a sabedoria Jedi nesse caso e diria: “search your feelings”. Primeiro, faça uma lista de todos os artigos seus que estão em andamento e separe aqueles que são (1) sua responsabilidade daqueles em que (2) você está apenas ajudando. Segundo, sabendo claramente qual é qual, separe-os novamente em três grupos: (a) ground-breaking, earth-shattering, mind-blowing; (b) original, maneiro e relevante, mas não tão impactante assim; e (c) mais do mesmo. Em caso de falta de tempo ou energia, eu desencanaria direto do grupo 2c. Deixar de lado o 1c é complicado, ainda mais se você tiver recebido verba pública para desenvolver o projeto; se tudo deu errado, pelo menos faça um bom relatório para a agência de fomento, explicando como a coisa desandou. Cuidado, pois algumas agências não são muito compreensivas com falta de publicação após o projeto. Nos casos 1a e 2a, eu não deixaria o samba morrer, nem acabar. Mesmo quando você não é o responsável pelo trabalho, se ele for mesmo ground-breaking, lute para que ele não vá parar na Biblioteca do Sonhar. Por fim, não abandone 1b e 2b, mas só cuide deles depois de concluir os trabalhos do grupo (a).

      Espero ter ajudado! 😉

      • Oi Marco,
        Muito boas suas sugestões, obrigado! Boa a sugestão de focar no que se faz bem mais do que no que se ama. E eu não tinha pensado nas categorias ground-breaking, dahorinha e mais do mesmo. Pensar assim com certeza facilita! 🙂

  2. Olá Marco, o que você diria a um jovem orientador (pos doc, como no meu caso) sobre a condução de conversas com aspirantes ao mestrado? Devemos esperar que os alunos proponham ideias ou seria melhor propormos as ideias? Como você costuma agir nestes casos? Muito obrigado e um abraço!

    • Oi Murilo, depende muito do seu perfil como orientador. Você deve se perguntar: o que eu espero de um aluno de mestrado? Não há uma resposta única universalmente válida. Vou te explicar meu ponto de vista pessoal. Eu considero o mestrado acadêmico, como ele está estruturado hoje na área ambiental (Ecologia, Zoologia, Botânica, Conservação etc.), como uma espécie de warming-up para o doutorado. Isso porque é no doutorado que o aspira vai ser forjado de verdade como um cientista independente, capaz de pensar questões e soluções por si próprio. Logo, só oriento no mestrado quem eu acho que tem perfil para se tornar cientista e muito provavelmente vai querer fazer doutorado depois. Estou cada vez mais exigente, devido a experiências ruins que tive, então espero dos candidatos ao mestrado comigo três coisas concretas. Primeiro, que o candidato tenha como meta de vida se tornar cientista e mostre bons níveis dos cinco traços de personalidade que considero essenciais. Segundo, que o candidato tenha obtido alguma experiência em uma boa iniciação científica, feita com um orientador que tenha boa reputação na praça. Terceiro, que o candidato tenha tirado boas notas na graduação e demonstre que sabe respeitar normas, prazos etc. Eu peço que o candidato me apresente uma ideia de projeto apenas no doutorado, não no mestrado. Mas, entre dois candidatos ao mestrado, sempre prefiro aquele que já chega com uma ideia na cabeça. Não precisa ser uma ideia totalmente pronta, pois o mestrado serve justamente para aprender a fazer ciência. Contudo, precisa ser uma ideia interessante e pela qual o candidato esteja apaixonado. Tem mais chances de sucesso no mestrado e no doutorado quem está obcecado por resolver a própria pergunta de trabalho.

  3. Já estou seguindo o blog, gostei muito desse post… Me encaixei nesse traços de personalidade!
    Então, estou participando de um grupo de iniciação na atual graduação que estou fazendo. Como já possuo uma primeira graduação e uma das orientadoras no grupo gostou do meu projeto pessoal, ela me incentivou a tentar uma vaga no mestrado no próximo ano, com essa linha de pesquisa e devidas bibliografias exigidas pela banca.
    Eu amo minha linha de pesquisa atual, no entanto, tenho outra linha de pesquisa pela qual sou apaixonada e uma não tem nada a ver com a outra! Agora me encontro numa verdadeira dúvida entre qual devo escolher e preciso dessa confirmação pessoal para dar os primeiros passos. Preciso dos seus conselhos! Obrigada

    • Lia, é sempre um prazer ver paixão nos aspiras! Bom, se você gosta igualmente das duas linhas de pesquisa, foque naquela que parece ter potencial para trazer resultados mais interessantes. Nada te impede de, em paralelo e mais devagar, investigar a outra linha em segundo plano. O mais importante mesmo no mestrado e também no doutorado é aprender a fazer ciência. Às vezes a gente pode até acabar não fazendo uma tese sobre o assunto número 1 da nossa preferência, mas do que a gente não pode abrir mão é fazer a PG com um bom orientador. Boa sorte em seu caminho!

    • Essa é uma grande pergunta filosófica na linha “nature vs. nurture”. Para ser bem-sucedido na ciência o aspira precisa de uma série de traços de personalidade essenciais, além de fazer as escolhas certas ao longo do caminho, o que torna essa carreira bem difícil e restritiva. Assim, minha opinião pessoal é que o aspira precisa, sim, nascer com esse pacote mental básico para se tornar um cientista profissional. Contudo, isso não basta. Educação, treinamento e planejamento são essenciais para transformar potencial em realização. De qualquer forma, tornar-se pesquisador é menos restritivo como carreira do que se tornar cientista, então mais gente pode se envolver em uma carreira científica de diferentes formas. Querer se tornar um cientista profissional é mais ou menos como gostar de correr e querer se tornar medalhista olímpico. Muita gente pode praticar corrida no fim de semana? Sim, claro. Mas poucos são capazes de virar um atleta de alto rendimento e é preciso dar a sorte de nascer com o corpo certo para isso.

  4. Muito legal essa iniciativa… mas é nessas horas que as dúvidas vão embora!
    Dúvida simples: por quanto tempo sugere que os dados (físicos ou digitais) de projetos finalizados (relatados, publicados, etc.) devam ficar guardados?
    Valeu!

    • Oi Patrick! Bom, por lei, os documentos de um projeto (notas, recibos etc.) devem ser mantidos arquivados por 5 anos. Quanto aos dados em si, sugiro guardar para sempre, tanto as anotações originais, quando os dados computados. De preferência, criando um repositório ou banco de dados bem organizado no laboratório. No caso dos dados usados em uma publicação específica, hoje a tendência é disponibilizá-los ao público na forma de um suplemento online junto com o artigo ou depositá-los em um repositório online de livre acesso.

      • Uso os 5 anos (do CNPq) como padrão para guardar documentos… mas estou tendo dificuldade para guardar os dados. Trabalho com imagem de sensoriamento remoto e costumo guardar uma cópia de cada etapa do processamento… o problema é que são imagens (cada vez mais) pesadas e tenho que ter backup de tudo.
        De qualquer forma, é como eu imaginava.
        Muito obrigado.

      • Ah, entendi. É complicado mesmo. Quem trabalha com bioacústica tem o mesmo tipo de problema. É necessário acumular vários HDs externos ao longo dos anos e com backups redundantes por garantia.

  5. Olá professor Marco!
    Estou na metade do curso de Ciências Biológicas, sou IC em um laboratório, com um bom orientador… mas não me sinto motivada com a sua linha de pesquisa. Na verdade ainda não encontrei algo que realmente me inspirasse! Penso em ir para a taxonomia mas nem sei qual grupo eu gostaria de trabalhar! Passo horas stalkeando o Lattes de professores em busca que iluminação, mas fico mais confusa ainda! O pior que tenho colegas que passam pelo mesmo e acabam se conformando. Nesse caso, é melhor se acomodar?

    • De forma alguma! Nunca, em fase nenhuma da carreira, acomode-se. Aproveite que tem um bom orientador para aprender o máximo que puder. Mas, se chegou em um ponto de insatisfação com a área ou o tema, use essa insatisfação como força criativa e produtiva. É normal ter dúvidas e demorar um pouco para se encontrar na carreira acadêmica, pois as opções de áreas, temas e abordagens são muitas. Por exemplo, em uma área em que trabalho, interações animal-planta, só na minha universidade há pelo menos quatro laboratórios que se ocupam disso, mas o dia a dia e a abordagem em cada um deles são completamente diferentes. Sugiro três coisas. Primeiro, tente frequentar outros laboratórios e fazer outros estágios de curta duração, por exemplo, nas férias, para ver se outra área te cativa mais. Segundo, tente ir a congressos de outras áreas para ter uma ideia do que está rolando em mundos paralelos e de como são os colegas que vivem neles. Terceiro, converse muito com outros alunos e professores, pois muitas direções são apontadas por quem e quando a gente menos espera; networking é fundamental. Boa sorte!

  6. Olá Prof. Marco,

    Estou no doutorado e trabalho como professor substituto no ensino médio em uma instituição federal. Já tendo essa pequena estrada e algumas pessoas(graduados que estão fora da academia, alunos de IC, graduando que não estão ou estiveram vinculados a um projeto de pesquisa) têm me procurado pedindo conselhos sobre as seleções de mestrado e doutorado…. Em geral, eles querem dicas para se aproximarem dos professores líderes dos grupos de pesquisa acreditando que os processos seletivos estão cheios de cartas marcadas e dizendo que são injustos. Em geral, minhas dicas vão em direção de frequentar congressos e eventos para verem as palestras/conferências e serem vistos (É claro! Porque também não dá para ser bobo!kkk) e também se aproximar de uma área ou temática pela qual eles têm interesse, estejam apaixonado(ler muitas coisas) e só assim se aproximar de um professor após saber mais ou menos o que querem e saberem se esse professor quer algo semelhante, mas eles acreditam que a vinculação é somente por interesse. E aí o que o senhor me diz? São dicas boas? O que esses alunos precisam saber mais? O que o senhor diz para a gente que já está na estrada e que tipo de conselho devemos dar quando nos procuram? O que o senhor fez quando estava na mesma situação? Isto é, quando os “aspiras”(kkk) já iniciados são procurados pelos realmente neófitos. O que devemos fazer e falar? Estou com isso na cabeça, pois é uma situação ambígua…. sabe? Não sou orientador não tenho experiência, então porque estão me procurando.

    Cordialmente,
    Fabrício Vinhas

    • Fabrício, em qualquer fase da carreira networking é fundamental. Recomendo fortemente que aspiras e profissionais de todos os níveis acadêmicos procurem se integrar à tribo que escolheram através de congressos, estágios e visitas. Isso é especialmente importante para quem deseja fazer mestrado ou doutorado. Não é uma questão de “cartas marcadas”, uma velha lenda repetida por muita gente para justificar o próprio fracasso. O que acontece é que, em geral, os alunos com mais iniciativa para interagir com os professores são também aqueles com mais iniciativa para desenvolver projetos e maior maturidade para estudar por conta própria. Logo, são eles que costumam ter mais sucesso em processos seletivos e no próprio curso de PG em si. Outra coisa mal-compreendida por muitos é a proporção de alunos “da casa” que passam em processos de seleção de mestrado. Pela minha experiência, nos melhores PPGs acabam passando alunos de diferentes origens. Já em PPGs piores acaba ocorrendo uma certa dominância dos alunos “da casa”. Não é uma questão de favorecimento, mas apenas um reflexo do fato de os PPGs com melhor reputação atraírem gente de mais longe, porque suas boas histórias acabam alcançando distâncias maiores. Existem casos mal-explicados ou mesmo picaretagem explicita em alguns PPGs? Sim, claro. Mas não dá para generalizar, ainda mais num país com tantos PPGs em tudo quanto é canto. Só na minha área, Ecologia, são mais de 40! Logo, recomendo, sim, que os aspiras frequentem congressos e eventos em geral e procurem se enturmar e conversar com professores e alunos mais avançados. Isso é importante não só para os alunos ficarem conhecidos, mas também para que eles conheçam melhor os professores e tomem decisões mais bem embasadas ao escolherem orientadores e PPGs.

  7. Vou deixar o post aberto por mais tempo. Se tiverem mais alguma dúvida, fiquem à vontade para postá-la aqui.

  8. Oi Marco,

    Aproveitando o espaço quero tirar umas dúvidas.

    Primeiramente, tenho 20 anos e sou estudante do quinto semestre de Agronomia no IFMT. Possuo certificação de Mestre em Língua Inglesa pelo Centro Cultural Anglo-Americano, inclusive fui professor neste por dois anos. Digo isso pois estive pesquisando a respeito de traduções de Artigos Científicos escritos por professores, amigos, colegas da faculdade, etc; com intuito de estar traduzindo (do português para o inglês) os mesmos (publicações, trabalhos de conclusão de curso, etc.) e levar crédito em meu currículo pelas traduções.

    Minha dúvida é: isso é possível de ser feito? Se sim, após as traduções, posso anexá-las ao meu Currículo Lattes na área de “Traduções”?

    Desde já, obrigado.

    • Oi André, sim, isso é perfeitamente possível. Mas que coincidência, eu também trabalho com tradução científica em Biologia. Antes de me formar biólogo, formei-me em alemão e aprendi inglês e outros idiomas por conta própria. Hoje tenho uma empresa de tradução científica em sociedade com minha esposa: http://www.katztrad.com. Nunca coloquei esses trabalhos no Lattes, pois levo-os como uma carreira paralela.

      • Caramba, que bacana! Parabéns! Então se pretendo fazer isso pelo menos dentro da minha faculdade por enquanto, preciso apenas da autorização dos autores e posso colocar no meu lattes posteriormente? Muito obrigado.

      • Sim, sempre peça autorização aos autores, pois o serviço de tradução pressupõe sigilo. Contudo, não sei se o Lattes seria o melhor lugar para colocar isso. Talvez a informação fique perdida lá, em uma parte que ninguém consulta. Sugiro divulgar seu trabalho de tradutor em um site pessoal ou plataforma de tradutores. Boa sorte!

  9. Olá Marco,
    Desculpe o número excessivo de questões… mas vamos lá!

    – Um artigo completo em congresso invalida a posterior publicação em revista?
    – Qual sua opinião sobre disciplinas no doutorado? Apoiaria um fim dos créditos nessa fase?
    – E sobre o fim do mestrado? O ex-reitor da UFBA é a favor do fim do mestrado nos moldes atuais.
    – Seu manuscrito está há 4 (!) anos em uma revista de uma sociedade científica brasileira. O editor-chefe é só “status” e não responde e-mails, quem toca é um funcionário. O que fazer?
    – É a favor da escrita de teses em capítulos (artigos)?
    – O que acha do Qualis classificar uma revista como “A2” em uma área e “B3” na outra?
    – Resultados e Discussões juntos ou separados? Me parece que há visões distintas nessa questão.
    – Até onde vai a liberdade do orientador “escolher” o orientado? Como você vê esse dilema, afinal a vaga na Uni é “pública” mas o orientador não é “obrigado” por contrato a orientar…

    Muito obrigado e parabéns pelo blog!
    (Como fiz muitas perguntas, pode ser bem seco nas respostas, sem problemas, o que eu gostaria é da sua percepção sobre esses temas!).

    • Não tem problema fazer muitas perguntas, o post é para isso mesmo. Vamos por partes:

      – Um artigo completo em congresso invalida a posterior publicação em revista?
      Depende da área, pois a interpretação disso varia muito entre diferentes ciências. Só não pode é ser exatamente igual nos dois meios.

      – Qual sua opinião sobre disciplinas no doutorado? Apoiaria um fim dos créditos nessa fase?
      Eu acho que disciplinas mais atrapalham do que ajudam, tanto no mestrado, quanto no doutorado. O pós-graduando deveria mesmo é estudar por conta própria, usando os professores do PPG como guias em um sentido amplo, que sugerem literatura, corrigem erros e abrem portas, ao invés de receber conhecimento de forma passiva como no ensino básico. Na PG, sou a favor apenas de disciplinas mais ferramentais (método científico, desenho experimental, estatística, comunicação científica etc.), nunca obrigatórias e com carga horária reduzida em sala, mas com muito dever de casa. As demais “disciplinas” deveriam ter formato de workshop, ou seja, ser mais baseadas em active learning, peer instruction e problem-oriented learning, e visar produtos concretos como trabalho final.

      – E sobre o fim do mestrado? O ex-reitor da UFBA é a favor do fim do mestrado nos moldes atuais.
      Eu seria a favor do fim do mestrado, mas apenas se adotássemos o antigo sistema alemão (Diplomarbeit + Doktorarbeit), que infelizmente foi extinto na própria Alemanha por causa da Reforma de Bolonha. Ele era baseado em uma graduação mais longa (5+ anos), com uma iniciação científica bem forte ao final, que servia para ensinar o que hoje se aprende no mestrado. E, depois, quem queria virar cientista profissional podia fazer um doutorado longo (5+ anos). Apenas extinguir o mestrado sem mudar o resto seria muito ruim, pois a grande maioria dos aspiras sai muito crua da graduação no Brasil. O mestrado hoje serve como “supletivo” de graduação e warming up para o doutorado, por isso é importante.

      – Seu manuscrito está há 4 (!) anos em uma revista de uma sociedade científica brasileira. O editor-chefe é só “status” e não responde e-mails, quem toca é um funcionário. O que fazer?
      Run to the hills! Sério, quatro anos? Tire o seu manuscrito dessa revista com urgência, pois ela não é séria.

      – É a favor da escrita de teses em capítulos (artigos)?
      Sim, totalmente. Artigos são a principal forma de comunicar descobertas científicas ao pares em todas as ciências no mundo todo. Então é essa habilidade que deve ser treinada nas teses. Livros, manuais, matérias populares etc. também têm muita importância na ciência, mas servem a outros fins, e não à comunicação de descobertas (conhecimento novo, ainda não estabelecido). Um aspira em formação deve aprender não apenas a comunicação na forma de artigos, mas deve também passar pela experiência do peer review, que é o principal sistema de controle de qualidade da ciência mundial. Assim, não tem sentido escrever a tese no formato clássico prolixo para depois ter que transformá-la em artigos mais objetivos e enxutos.

      – O que acha do Qualis classificar uma revista como “A2” em uma área e “B3” na outra?
      Maluquice, numerologia. A ciência do século XXI não respeita mais essas “gavetas”, sendo orientada por problemas e feita de maneira metadisciplinar. O Qualis vai na contramão da história.

      – Resultados e Discussões juntos ou separados? Me parece que há visões distintas nessa questão.
      Separados em artigos, juntos em palestras. Resultados é a seção onde você coloca os fatos concretos que observou em seu estudo. Discussão é a seção onde você coloca a sua interpretação sobre esses fatos, contrastando-os com suas expectativas e religando isso tudo às teorias que serviram de base ao projeto. Por isso, é didático separar essas coisas nos textos acadêmicos. Contudo, em uma palestra, onde o público não pode ir e vir nas páginas, é melhor apresentar e explicar cada resultado de uma vez só, para ao final apresentar as conclusões.

      – Até onde vai a liberdade do orientador “escolher” o orientado? Como você vê esse dilema, afinal a vaga na Uni é “pública” mas o orientador não é “obrigado” por contrato a orientar…
      Acho que o orientador deveria ter total autonomia na escolha dos orientados, tanto no mestrado quanto no doutorado. Esse papo de que “a vaga é pública, então não pode haver escolha prévia” é uma interpretação completamente burocrática, criada por “mimimistas” que não entendem nada de academia ou ciência. A relação orientador-aluno não tem nada a ver com a relação professor-aluno ou patrão-empregado. É uma relação mestre-aprendiz, em que os aprendizes pedem oportunidades e os mestres julgam quais deles as merecem. E faz parte do desenvolvimento do jovem cientista aprender a vender o seu peixe, a conquistar oportunidades por si próprio e a ser convincente. Existem professores que praticam nepotismo, apadrinhamento etc.? Sim, infelizmente, mesmo não sendo a maioria. Mas o problema não é do sistema de seleção de mestrado em si, e sim dos concursos públicos malucos, da estabilidade fácil na carreira e da própria estrutura torta do fomento à ciência no Brasil. Ainda temos muito a mudar por aqui, não adianta mexer só na ponta ou em uma parte isolada do sistema.

      Espero ter ajudado.

  10. Oi professor, espero que ainda seja possível fazer perguntas porque só agora conheci este blog. Sou das ciências humanas e faço um mestrado em outro país. Gostaria de saber a sua opiniao sobre quais seriam metas nos diferentes níveis de PG de acordo com a produtividade que é exigida hoje no Brasil (pretendo voltar e aqui a exigência é bem diferente). Por exemplo, o que se espera que um estudante de mestrado e de doutirado tenham no currículum (minimamente) depois de receber a titulaçao? Quantos artigo, participaçoes em congressos, etc. deveríamos ter? Uma outra dúvida é sobre os processos fundamentais pelos quais, na sua opiniao, um estudante de PG deveria pasar (publicar, participar de grupo de pesquisa, etc.) Pretendo seguir a sua dica e me planeja, estabelecer metas, etc., mas sei pouco sobre as opçoes existentes dentro so mundo acadêmico e nao sei o que incluir nessas minhas metas além de publicar. Finalmente, duas dúvidas sobre o post que fala da publicaçao de resumo em congressos. A primeira é se publicar artigo completo nos anais tambem te parece inútil e a segunda é sobre quais as formas possíveis e compatíveis de publicar os resultados de uma mesma pesquisa sem ser anti-ético (como no caso de publicaçao salame): pode publicar como artigo para anais + artigo em revista + pôster, por exemplo? Ou deixaria de ser inédito quando utilizada uma das formas? Muito obrigada, é muito bom que existam pessoas que ainda se proponham a compartilhar sua experiência com os calouros da ciência!

    • Oi Diana, não conheço o dia a dia das Humanas no Brasil, então não posso falar com propriedade. Essas coisas variam muito entre áreas. Dê uma olhada nos Lattes de colegas na mesma fase da carreira para ter uma ideia. Só cuidado para não entrar na paranoia da comparação, que aflige alguns hoje em dia.

      Quanto à formação de novos cientistas em PPGs, penso que, independente da área, todos deveriam aprender a:
      1. Encontrar informações sobre os temas de interesse em diferentes fontes.
      2. Delinear lacunas de conhecimento interessantes a serem preenchidas dentro de um tema escolhido para virar projeto.
      3. Elaborar perguntas, hipóteses e previsões a fim de gerar conhecimento novo e preencher a lacuna em questão.
      4. Comunicar suas descobertas aos pares na forma de pôsteres, palestras e artigos.
      5. Comunicar conhecimento bem estabelecido ao público leigo na forma de entrevistas, matérias populares, livros populares, blogs e vlogs.
      Aprendendo essas 5 coisas, para receber o título de doutor o aspira deveria provar então que é capaz de conduzir um projeto do início ao fim, ou seja, desde o delineamento até a comunicação. Ou seja, deveria provar que se tornou um cientista independente.

      Agora respondendo sua terceira dúvida, sei que isso também varia entre áreas. Mas, independente da área e de costumes tribais específicos, eu penso que o certo é:
      1. Publicar as suas descobertas como artigo em revista revisada por pares e indexada em uma base bibliográfica respeitável e de amplo acesso.
      2. Comunicar essas descobertas ao pares na forma de palestra ou pôster em um congresso, deixando esse evento registrado na forma de um resumo nos anais.
      3. Divulgar conhecimento bem estabelecido relacionado ao projeto em meios não-acadêmicos, para um público tão amplo quanto possível. Não recomendo divulgar descobertas recentes ao público leigo, pois elas precisam primeiro ser digeridas e testadas pelos pares, para que passem pelo teste de qualidade. Senão cria-se problemas como dietas e terapias da moda.
      Você pode divulgar um mesmo projeto em mais de um meio, mas desde que com fins diferentes e para públicos diferentes, sem obviamente auto-plagiar o seu texto.

      Espero ter ajudado!

      • Muito obrigada professor. Me ajudou muito sim! Continuarei acompanhando as novidades do blog.

        Um abraço!

        *Diana Stanzioni 11 6909-4867*

  11. Professor, fiz um comentário ontem e quando atualizei a página ele não estava. achei que ele precisaria ser aceito pelo senhor para aparecer no blog. Mas até agora nada, e ja vi 2 comentários posteriores, acho que teve algum problema na hora de enviar o comentário. Devo refazer o comentário?

  12. Olá Marco,
    Obrigado pelas respostas. Muito didáticas e esclarecedoras.
    Acho que um ponto a mudar seria o mestrado. Mesmo mexendo em uma pequena parte eu vejo é que agora, com a (búuuu) crise, a procura do mestrado como “espera emprego” já aumentou muito. Concordo que extinguir mais atrapalharia do que ajudaria, mas eu:
    – acabaria com as bolsas, direcionando-as ao doutorado.
    – reduziria o tempo de curso para 1 ano e o aluno carente poderia permanecer no alojamento.
    – manteria o nível de exigência, sendo que os trabalhados poderiam ser (i)reprovados, (ii) convertidos em especialização e (iii) aprovados.
    Afinal, não dá para comparar alguns mestrados bem exigentes como temos aqui e nos US com alguns “TCC plus” que agora tem-se com o Bolonha na União Europeia.

    Obrigado mais uma vez pelo blog.

  13. Ola Prof. Marco.
    Agradeço a oportunidade para as perguntas. Eu tenho 2 perguntas:

    1) Estou terminando meu doutorado em breve. Na minha graduação eu trabalhei com ciclo de nutrientes em decomposição de macrófitas aquáticas, no meu mestrado mudei para ecologia de communidades e trabalhei com metacommunidades de peixes. E finalmente no meu doutorado aumentei a escala das minhas perguntas, me direcionando para a macroecologia, utilizando dados de zooplankton e simulações em computadores. A minha pergunta é: como você definiu o sistema que ia trabalhar e os tipos de perguntas que queria fazer? Foi algo que já sabia desde o começo ou foi nos pos-doutorados que você se fixou numa linha? E no meu caso que mudei bastante meu enfoque até o doutorado, como serei visto a hora de procurar um pós-doc ou emprego como pesquisador? Até o momento eu estou em interessado em fazer perguntas, em diversos campos, sem me fixar muito numa linha de pesquisa em particular.

    2) Durante toda minha pós graduação eu tive 0 trabalho de campo. Quer dizer, para ser honesto tive 3 dias de campo durante o meu doc para coletar zooplancton, mas acabei não usando os dados. Enfim, todo o meu inicio de carreira como pesquisador foi baseado analisando dados já coletados (ou fazendo simulações em computador). Como isto é visto na hora de procurar um emprego?

    Abraços

    Renato

    • Oi Renato, de nada! Bom, indo por partes:

      1. Eu defini os meus temas de pesquisa com base no que eu achava mais maneiro em cada fase da minha carreira, mas também aproveitando ótimas oportunidades que foram surgindo. Antes de entrar na universidade eu já gostava de morcegos, então pensava em trabalhar com eles. Aí, por sorte, no segundo período da graduação, apareceu um estágio com ecologia de populações de morcegos e eu agarrei a oportunidade com unhas e dentes. No mestrado, continuei trabalhando com morcegos, porém o foco eram as interações entre eles e plantas e como elas afetam a reprodução de ambos. No doutorado, continuei estudando interações entre morcegos e plantas, porém ampliando o foco do estudo para diferentes fenômenos. Em paralelo ao mestrado e ao doutorado comecei a participar de pesquisas sobre outros temas, já diversificando meu portfolio acadêmico. Essas oportunidades apareceram, porque resolvi estudar mais a fundo método científico, delineamento experimental e estatística. Isso fez com que colegas começassem a me convidar para ajudar em artigos e projetos. Durante o estágio sandwich do doutorado, na Alemanha, tive contato com pesquisas de ponta em várias áreas da Ecologia, Zoologia e Botânica, o que abriu muito mais a minha mente. Ao voltar ao Brasil, no meu primeiro postdoc, resolvi entrar de cabeça na ecologia de comunidades. E aprendi, com a ajuda de um grande amigo, a mexer com teoria de redes. A partir daí surgiram cada vez mais convites para trabalhar com temas e táxons variados. Hoje trabalho com diferentes fenômenos em diferentes escalas ecológicas, mas no meu segundo postdoc, na Alemanha, defini como meu foco principal os mutualismos. E, nos últimos três anos, mesmo tendo definido esse foco de longo prazo nos mutualismos, comecei a me interessar também por antagonismos, então expandi ainda mais minha atuação. Em resumo, a minha carreira, assim com a de muitos colegas, não foi perfeitamente linear, planejada em detalhes desde o início: eu planejei a meta geral de ser cientista, mas a gente tem que saber aproveitar as oportunidades que aparecem pelo caminho. Lembre-se daquela máxima do filme “O Grande Dragão Branco”: “- Manter a minha mente aberta, nunca me limitar a um só estilo. – Para que? – Para honrar o senhor, shidoshi!”

      2. Depende de onde você vai procurar o tal emprego. Na Ecologia, assim como no mundo real, há preconceitos para todo gosto, rs. Tem gente que acha que o verdadeiro ecólogo é o de campo, outros acham que só nerds de computador são cientistas stricto sensu, e por aí vai. Pode ser que você dê sorte e não encare preconceito quanto a isso. Eu, pessoalmente, acho que na Ecologia há montanhas de dados mal-aproveitados por aí, logo precisamos de mais ecólogos dispostos a não ir a campo, mas sim a cuidar do number crunching. Eu sugiro: não se importe com essas bobagens e siga a sua curiosidade e intuição. A coisa mais divertida na carreira acadêmica é poder estudar o que você quiser, do jeito que você quiser.

      Boa sorte na carreira!

  14. Olá, prof. Marco.

    Não sei se o espaço ainda está aberto para questões, mas na dúvida tentarei.

    Como você mesmo já comentou aqui no blog, “networking” é muito importante na vida acadêmica (como provavelmente é em boa parte das outras profissões). No entanto, algumas pessoas são mais introvertidas. Este traço de personalidade dificulta que conheçamos tantas pessoas e que nos façamos conhecidos. Assim, peço para que você comente e, se possível, dê alguma dica para tentar lidar com essa situação conflitante. Uma vez que por um lado sabe-se que é importante conhecer o máximo de pessoas possível na área, mas por outro, ser “outgoing” não faz parte da natureza de algumas pessoas, dificultando a formação de “networking”.

    A segunda pergunta que tenho também está mais ligada com a parte política do que científica da academia. Tenho recebido algumas críticas por ser muito direto em minhas colocações quando discuto temas científicos. (Fui criticado por essa razão na minha defesa de mestrado, por outros professores em que discuti meu projeto e também costumo receber críticas em relação a isso no meu próprio laboratório). O fato de ser direto, na interpretação de algumas pessoas soa como deselegante, ou até mesmo rude. Então minha pergunta é: de que forma lidar com o trade-off entre ser direto vs parecer que está dando muitas voltas e soar artificial?

    Agradeço sua atenção.

    • Oi Julio, ainda está aberto, sim. Bom, indo por partes.

      1. As pessoas supervalorizam os extrovertidos hoje em dia, mas os introvertidos podem perfeitamente fazer ciência também. É claro que o networking é importante para ambos. Como fazer no caso dos introvertidos então? Networking por e-mail e redes sociais me parece a melhor solução. Não precisa forçar sua natureza. Seja quem você é e use os melhores meios de comunicação no seu caso. Recomendo esta leitura.

      2. Eu também tenho problemas com isso, rs. No Brasil, infelizmente, a maioria das pessoas valoriza mais o “beija-mão” e o “tapinha nas costas” do que a sinceridade e a honestidade, tanto na Academia, quanto fora dela. Meu conselho: seja você mesmo e passe um tempo fazendo sandwich ou postdoc em um país com uma cultura mais direta e sincera, como Alemanha, Inglaterra, França ou EUA. Um adendo ao conselho: no Brasil, não deixe de ser sincero, mesmo que isso incomode os outros, mas pratique a arte de dizer a verdade, porém ferindo menos. Leva tempo para pegar o jeito, mas não é impossível.

      Um abraço!

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