A ciência é mesmo o seu ikigai?

Você, aspira, que está trilhando a Jornada do Cientista, já se perguntou se esse é mesmo o caminho certo para você?

Na cultura de Okinawa, Japão, há um conceito muito simples e profundo, com infinitas camadas, conhecido como ikigai (生き甲斐). Em uma tradução aproximada, significa “razão de viver”. Também tem sido traduzido, de maneira bem livre, como “razão pela qual você se levanta de manhã”.

No Ocidente, o conceito de ikigai tem sido aplicado à orientação vocacional e ao coaching no mundo corporativo. Graças a alguns estudos muito interessantes e à menção do conceito em palestras para grandes públicos, como no caso desta instigante TED talk, ele tem sido estendido a várias outras áreas. Eu acho que ele deveria ser ensinado também no mundo acadêmico e, por isso, escrevi este novo texto. É o primeiro texto que escrevo depois que resolvi compilar os quatro primeiros anos deste blog em um livro.

Veja uma síntese gráfica do ikigai:

SintECO ikigai

Vamos considerar que qualquer atividade que desenvolvemos pode cair em um desses quatro grandes conjuntos: (i) aquilo que amamos, (ii) aquilo que fazemos bem, (iii) aquilo do que o mundo precisa, e (iv) aquilo que te pagam para fazer. Esses conjuntos têm diferentes interseções entre si. As interseções são a sua paixão, a sua missão, a sua profissão e a sua vocação.

Pode haver uma atividade que você ame e faça bem; se você descobrí-la, saiba que essa é a sua paixão. Outra atividade você faz bem e é rentável; essa é a sua vocação. Em alguns casos, há uma atividade que você e ama e da qual o mundo precisa; essa é a sua missão. E, por fim, quando o mundo precisa de uma atividade, está disposto a pagar por ela e você está disposto a realizá-la, essa é a sua profissão.

A maioria das pessoas tem apenas uma ocupação, que é um emprego ou bico que paga as contas, por mais que elas o detestem ou ganhem mal por ele. Outras mais realizadas têm uma profissão. Aquelas que têm mais sorte ainda encontram uma vocação e a realizam. Poucas pessoas conseguem ganhar dinheiro com uma paixão, deixando essa atividade no campo do hobby. Menos pessoas ainda conseguem botar pão na mesa com uma missão, mas, por acreditarem muito nela, acabam realizando-a no campo do voluntariado. Qualquer uma dessas quatro interseções pode levar a uma vida produtiva e feliz.

Contudo, para viver uma vida plena, ou seja “encontrar a si mesmo”, o ideal é conseguir colocar a principal atividade que você desenvolve na interseção dos quatro conjuntos. Este é o ikigai.

Ou seja, uma vida plena envolve ocupar a maior parte do seu tempo e energia com algo que você ama, faz bem, o mundo precisa e ainda te pagam para fazer. O ikigai de uma pessoa pode variar desde ser um grande líder mundial até cuidar dos próprios netos. Não existe certo ou errado, pequeno ou grande, pior ou melhor, quando falamos de ikigai.

É saudável, além dessa atividade principal, dedicar-se também a outras atividades paralelas, como hobbies, voluntariado, ajuda a familiares e amigos etc.  Por exemplo, pode ser que o seu ikigai seja trabalhar como cientista, porém você goste muito também de praticar artes marciais. Como essas duas coisas são muito diferentes entre si (elas estão em duas culturas diferentes, a ciência e o esporte, dentre as cinco grandes culturas humanas) e exigem talento, treinamento e prática, é improvável que o seu ikigai esteja nas duas. Pode ser que você ame ambas, mas faça uma bem melhor do que a outra. Se isso for verdade, provavelmente as pessoas estarão dispostas a te pagar por uma delas, mas não pela outra. Assim, a decisão mais sábia para alguém que presta atenção à própria voz interior é focar naquela em que pode ter um desempenho mais elevado e fazer dela sua ocupação principal, mantendo a outra como hobby.

Em alguns casos mais raros, acontece de a pessoa amar muito uma atividade, fazê-la bem, mas o mundo achar que não precisa dela e, por isso, ninguém estar disposto a pagar a conta. Quem cai nesse tipo de combinação pode se perder em um vórtice de frustração e auto-piedade, como muitos gênios incompreendidos que não dão em nada. Contudo, algumas dessas pessoas à frente do próprio tempo têm uma ambição tão grande e uma capacidade de convencimento tão forte, que conseguem mostrar ao mundo que ele realmente precisa de algo que sequer sabia existir. Pense no exemplo dos produtos criados pelo Steve Jobs, que não era bom em programação ou engenharia eletrônica, mas sabia como ninguém enxergar dois passos à frente e reger “orquestras” formadas por excelentes profissionais de diferentes áreas, que criaram gadgets e empresas que mudaram o mundo. Você pensou no iPhone, certo? Saiba que, além do iPhone, o Jobs liderou a criação do computador NeXT, no qual foi criada a internet… Isso, fora várias outras realizações.

O ponto é que há várias maneiras de não encontrar o próprio ikigai. Há também várias maneiras de planejar a sua vida focando em descobrí-lo e realizá-lo. É importante ressaltar que poucas pessoas conseguem atingir essa realização plena, algumas vezes por serem sabotadas pelos outros, mas, na grande maioria das vezes, por auto-sabotagem, mesmo que inconsciente. A vida não é fácil. Pode ser que você ame muito uma determinada atividade, mas não a faça bem, porque não tem o menor talento para ela. Em um caso como esse, insistir que essa atividade é o seu ikigai gera apenas desperdício de tempo e dinheiro, além de enorme frustração, podendo transformar você em uma pessoa triste e ressentida.

Isso, infelizmente, acontece com muitos aspiras acadêmicos. Como não me canso de repetir, a ciência é uma cultura belíssima e poderosa. Usufruir os benefícios gerados pelo conhecimento científico é para todos. Contudo, fazer descobertas científicas é para poucos. Não quer dizer que cientistas são iluminados, pessoas especiais, blablabla. Cientistas são apenas pessoas com um perfil bem específico. Em outros textos, comentei que, para se se tornar um cientista profissional, é preciso ter uma rara combinação de traços de personalidadetrabalhar durodar a sorte de encontrar um bom mentor. A formação de um cientista, do ensino infantil ao pós-doutorado, lembra muito a “Jornada do Herói“, como explicada por Joseph Campbell em seu livro “The hero with a thousand faces” de 1949.

Nós últimos anos, devido a um enxurrada descontrolada de bolsas, verbas e empregos, muitas pessoas acabaram caindo de pára-quedas na Jornada do Cientista, especialmente na parte depois do “limiar do desconhecido” (fases da graduação, mestrado e doutorado). Na minha opinião, esse é o principal motivo de, como resultado, vermos hoje uma multidão de gente estressada, frustrada e até mesmo seriamente deprimida na pós-graduação. Obviamente, há outros motivos extrínsecos, como orientadores sem ética, professores incompetentes, cursos mal-estruturados e universidades caóticas, e motivos intrínsecos, como a incapacidade de avaliar a si mesmo e ajustar as próprias expectativas. Só que esses problemas sempre existiram no Brasil, mas a depressão como epidemia acadêmica emergiu há poucos anos. De qualquer forma, ficar culpando os outros não ajuda ninguém a sair do buraco, então vamos pensar de forma proativa. Neste blog, tento ajudar quem está disposto a ajudar a si mesmo.

Essa gente mencionada acima sofre muito, aprende pouco, rende nada e, depois de pelo menos seis anos de trabalho duro, sai do doutorado já fora do páreo, sem a menor chance de competir com quem realmente está vivendo o próprio ikigai. Se você estiver no fim do doutorado e quiser fazer uma auto-avaliação bem simples das suas chances de virar um cientista profissional, analise os currículos dos candidatos que passaram nos concursos mais recentes para professor ou pesquisador nas melhores universidades brasileiras ou mesmo na sua própria universidade. Esse tipo de comparação é muito reveladora e ajuda pessoas sensatas, porém mal-orientadas, a cairem na real. Desde 2015, o funil apertou, devido à crise pela qual o Brasil e outros países passam (na Espanha, por exemplo, a coisa também não está fácil para os acadêmicos). Aquela abundância artificial e insustentável de oportunidades acabou da noite para o dia e agora a realidade bate à porta: ser cientista profissional é um ikigai para poucos, assim como ser atleta de nível olímpico, artista de vanguarda, filósofo pop, ou alto sacerdote. Alguns só se dão conta disso quando já estão entrando em depressão no doutorado ou caindo no terrível vórtice do “postdoc secretário“.

Por fim, deixo um conselho. Ninguém pode dizer a você qual é o seu ikigai. Descobri-lo é uma jornada pessoal, íntima e introspectiva. Contudo, você deve ficar constantemente atento aos sinais que indicam se você está ou não no caminho certo. Além disso, procure se cercar de pessoas que te puxam para cima e te deixam mais próximo do seu ikigai. Procurar o próprio ikigai pode parecer uma meta egoísta, mas uma pessoa plenamente realizada torna o mundo um lugar melhor para as outras pessoas, enquanto uma pessoa frustrada leva várias outras para o buraco junto com ela. Antes de arrumar o mundo, arrume o seu quarto.

Recomendo que você assista ao famoso discurso de Steve Jobs na Universidade Stanford, EUA, em 2005. Ele fala sobre ligar os pontos e descobrir o seu ikigai. Siga o conselho dele e não viva a vida de outra pessoa.

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12 opiniões sobre “A ciência é mesmo o seu ikigai?

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    • Obrigado, Tati! Espero levar os aspiras à reflexão com esses textos. A pior coisa da geração Z é a cultura do “deixa a vida me levar”. Reflexão e planejamento constantes são fundamentais em qualquer carreira.

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  4. Esse texto me lembrou uma passagem do livro: “Cartas a um jovem poeta”, do poeta alemão Rainer Maria Rilke. O livro é uma coletânea de cartas trocadas entre o autor e um poeta amador, um “aspira”! O rapaz manda algumas poesias para o autor e pede a sua opinião, perguntando se deveria continuar tentando a carreira de poeta. Uma parte da resposta do Rilke:

    “O senhor me pergunta se os seus versos são bons. Pergunta isso a mim. Já perguntou a mesma coisa a outras pessoas antes. Envia os seus versos para revistas. Faz comparações entre eles e outros poemas e se inquieta quando um ou outro redator recusa suas tentativas de publicação. Agora (como me deu licença de aconselhá-lo) lhe peço para desistir de tudo isso. O senhor olha para fora, e é isso sobretudo que não devia fazer agora. Ninguém pode aconselhá-lo e ajudá-lo, ninguém. Há apenas um meio. Volte-se para si mesmo. Investigue o motivo que o impele a escrever; comprove se ele estende as raízes até o ponto mais profundo do seu coração, confesse a si mesmo se o senhor morreria caso fosse proibido de escrever. Sobretudo isto: pergunte a si mesmo na hora mais silenciosa de sua madrugada: preciso escrever? Desenterre de si mesmo uma resposta profunda. E, se ela for afirmativa, se o senhor for capaz de enfrentar essa pergunta grave com um forte e simples “Preciso”, então construa sua vida de acordo com tal necessidade; sua vida tem de se tornar, até na hora mais indiferente e irrelevante, um sinal e um testemunho desse impulso. Então se aproxime da natureza. Procure, como o primeiro homem, dizer o que vê e vivencia e ama e perde. Não escreva poemas de amor; evite a princípio aquelas formas que são muito usuais e muito comuns: são elas as mais difíceis, pois é necessária uma força grande e amadurecida para manifestar algo de próprio onde há uma profusão de tradições boas, algumas brilhantes. Por isso, resguarde-se dos temas gerais para acolher aqueles que seu próprio cotidiano lhe oferece; descreva suas tristezas e desejos, os pensamentos passageiros e a crença em alguma beleza – descreva tudo isso com sinceridade íntima, serena, paciente, e utilize, para se expressar, as coisas de seu ambiente, as imagens de seus sonhos e os objetos de sua lembrança. Caso o seu cotidiano lhe pareça pobre, não reclame dele, reclame de si mesmo, diga para si mesmo que não é poeta o bastante para evocar suas riquezas; pois para o criador não há nenhuma pobreza e nenhum ambiente pobre, insignificante. Mesmo que estivesse em uma prisão, cujos muros não permitissem que nenhum dos ruídos do mundo chegasse a seus ouvidos, o senhor não teria sempre a sua infância, essa riqueza preciosa, régia, esse tesouro das recordações? Volte para ela a atenção. Procure trazer à tona as sensações submersas desse passado tão vasto; sua personalidade ganhará firmeza, sua solidão se ampliará e se tornará uma habitação a meia-luz, da qual passa longe o burburinho dos outros.

    E se, desse ato de se voltar para dentro de si, desse aprofundamento em seu próprio mundo, resultarem versos, o senhor não pensará em perguntar a alguém se são bons versos. Também não tentará despertar o interesse de revistas por tais trabalhos, pois verá neles seu querido patrimônio natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando surge de uma necessidade. É no modo como ela se origina que se encontra seu valor, não há nenhum outro critério. Por isso, prezado senhor, eu não saberia dar nenhum conselho senão este: voltar-se para si mesmo e sondar as profundezas de onde vem a sua vida; nessa fonte o senhor encontrará a resposta para a questão de saber se precisa criar. Aceite-a como ela for, sem interpretá-la. Talvez ela revele que o senhor é chamado a ser um artista. Nesse caso, aceite sua sorte e a suporte, com seu peso e sua grandeza, sem perguntar nunca pela recompensa que poderia vir de fora. Pois o criador tem de ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si mesmo e na natureza, da qual se aproximou.

    Mas talvez, depois desse mergulho em si mesmo e em sua solidão, o senhor tenha de renunciar a ser um poeta (basta, como foi dito, sentir que seria possível viver sem escrever para não ter mais o direito de fazê-lo). Mesmo assim não terá sido em vão o exame de consciência que lhe peço. Seja como for, sua vida encontrará a partir dele caminhos próprios, e que eles sejam bons, ricos e vastos é o que lhe desejo mais do que posso manifestar. O que ainda devo dizer ao senhor? Parece-me que tudo foi enfatizado da maneira apropriada; por fim, gostaria apenas de aconselhá-lo a passar com serenidade e seriedade pelo período de seu desenvolvimento. Não há meio pior de atrapalhar esse desenvolvimento do que olhar para fora e esperar que venha de fora uma resposta para questões que apenas seu sentimento íntimo talvez possa responder, na hora mais tranquila.”

  5. Parabéns Marco pelo texto. Parabéns também por mesclar aqui neste canal, textos com um viés bastante acadêmico ao mesmo tempo que ratifica conhecimentos que fogem do universo vinculado às ciências, principalmente a biológicas. Temas, fatos e informações que não são tão óbvios para os biólogos, físicos, químicos, e outros partidários das maravilhosas ciências, mas que poderão influenciar em suas vidas.
    Você trouxe novamente informações importantes para a rapaziada que está começando, mas orientativas também para os mais maduros, inclusive!
    Reforço aqui a importância para todos nós, independentemente da fase de nossas vidas (profissional ou pessoal) de se ter um Mentor (seja ele acadêmico ou não), um bom Coach ou mesmo um amigo sincero para nos alertar principalmente quando estamos “dando murro em ponta de faca”. Ou seja, pegando um trecho do seu texto, quando “…Pode ser que você ame muito uma determinada atividade, mas não a faça bem, porque não tem o menor talento para ela.”, que esta pessoa te alerte e você mude o caminho em tempo e saia da procrastinação.

    • Obrigado, Igor! Sim, um bom mentor é essencial em todas as fases da carreira, e não apenas na carreira acadêmica, mas também na vida. Infelizmente, nem todos têm a sorte de encontrar um mentor na vida. Bom, na falta de um mentor, pode-se pelo menos buscar auto-conhecimento.

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