Sobre o Ciência sem Fronteiras e seu possível fim

Informações conflitantes sobre a crise do Ciência sem Fronteiras (CsF) têm circulado desde o ano passado, voltaram às manchetes recentemente e parecem anunciar a morte do programa. Que implicações isso pode ter para os aspiras acadêmicos brasileiros?

Devido à crise econômica-política-social-moral-futebolística deflagrada no Brasil desde 2013, o país entrou em recessão e, como em toda parte, as primeiras coisas a serem cortadas foram a educação, a ciência e a inovação (como na Espanha e outros países, quando o cinto apertou). Infelizmente, a humanidade nunca aprende.

O CsF, iniciado pela Capes em 2011, vem sofrendo cortes sucessivos desde então e parece estar com os dias contados, apesar de  tentativas de resgatá-lo. Gostaria de abordar o tema, como prometido um tempo atrás, respondendo algumas das perguntas que aspiras têm me feito com mais frequência.

1. O CsF acabou mesmo?

Sim e não. Ele subiu no telhado.

2. Você é contra ou a favor do CsF?

Fala sério. Essa mentalidade binária de “Fla vs Flu” (a.k.a. petrinha vs coxalha) já cansou. Assuntos como um programa desse porte são muito mais complexos do que meras brigas de cheerleaders.

3. Mandar aspiras para fora do país com dinheiro público é um bom investimento para o país?

Sim! Quero deixar a minha opinião bem clara. Mandar aspiras de diferentes níveis, inclusive os melhores da graduação, para intercâmbios acadêmicos é muito importante. No caso de estudantes de ciência e tecnologia, isso é fundamental.

Os programas de intercâmbio com caráter mais institucional, que existem no Brasil há décadas, têm sido cruciais para melhorar a nossa ciência a passos largos por pura e simples oxigenação. Isso porque a ciência é uma das cinco grandes culturas humanas transnacionais e transtemporais. Essas culturas precisam de um fluxo contínuo de ideias e pessoas para se manterem vivas e se desenvolverem. Ciência isolada morre asfixiada.

Além disso, em países em desenvolvimento, como o Brasil, é fundamental que os aspiras passem pelo menos alguns anos da formação no exterior, a fim de tomarem contato com ciência e universidades de ponta. Na volta, esses aspiras sempre ajudam a alavancar significativamente a nossa ciência, trazendo novas ideias e visões de mundo, o que ajuda muito a evitar a estagnação do sistema acadêmico nacional.

4. O intercâmbio acadêmico no Brasil começou com o CsF?

Não, de forma alguma. Vamos acabar com essa velha falácia política do “nunca antes”. Desde o século XIX (ou antes) se faz intercâmbio acadêmico no Brasil. Por exemplo, quando famílias abastadas mandavam seus filhos estudarem fora ou quando mecenas ou organizações patrocinavam os estudos de jovens talentos de famílias pobres.

Contudo, o intercâmbio como política pública começou a tomar corpo e se tornar uma instituição forte, independente de partidos ou governos, pelo menos desde a década de 1960. O CsF é o programa mais recente e mais gordo já criado. O problema foi a forma amadora e apressada como ele foi planejado e implementado.

Já havia vários programas públicos de intercâmbio acadêmico no Brasil antes de 2011, fossem eles estaduais, nacionais, binacionais ou internacionais. Havia programas focados na graduação como o Erasmus, programas para o doutorado como o DAAD e o Fulbright, e até mesmo programas de pós-doutorado como o Humboldt.

Logo, não deveria ter sido criado um programa extra, do dia para a noite, sem se consultar a comunidade acadêmica e sem se aproveitar o know-how dos programas já existentes. Até mesmo os servidores da Capes, já sobrecarregados, foram pegos de surpresa e realocados na marra para essa nova função hercúlea. O pior é que antigos programas binacionais de vários níveis já bem estabelecidos foram coagidos a se fundir ao CsF, com nítida queda de qualidade, inclusive administrativa.

O CsF tentou reinventar a roda de várias maneiras e cometeu erros tolos, como por exemplo mandar milhares de alunos de graduação para fora sem sequer terem em mãos um plano de estudos ou projeto de estágio. Ou não combinar direito com as universidades de destino como as coisas funcionariam, do pagamento de taxas à hospedagem.

Nos primeiros anos, a esmagadora maioria dos alunos pediu, preguiçosamente, para ir para países lusófonos ou hispanófonos, com altíssima concentração de escolhas em Portugal, sem sequer considerarem a qualidade das universidades de destino. É óbvio que Portugal tem algumas ótimas universidades; o ponto aqui é a malandragem de escolher fazer intercâmbio em um determinado país apenas porque lá se fala a mesma língua que aqui.

Muito dinheiro de impostos foi desperdiçado devido a uma forma de implementação irresponsável.

5. O que você faria de diferente, caso te dessem a grana do CsF e mandassem investí-la em intercâmbio acadêmico?

Vou dar três sugestões:

(i) Para começo de conversa, eu checaria primeiro se tínhamos mesmo essa grana toda para gastar. Não adianta criar nada que não se sustenta a longo prazo. A gigantesca verba aplicada no CsF deveria ter sido usada para fortalecer os muitos programas de intercâmbio já existentes, ao invés de coagi-los a serem centralizados de forma autoritária.

(ii) O processo de seleção de bolsistas deveria ter sido aperfeiçoado, visando dar a oportunidade a quem realmente tinha potencial para aproveitá-la. O valor das bolsas poderia ter sido aumentado para os aspiras contemplados. Grants poderiam ter sido adicionados aos pacotes individuais, por exemplo, para livros, equipamentos, participação em congressos, visitas técnicas, custos de publicações etc.

(iii) Os programas já existentes deveriam ter sido ampliados principalmente para os alunos de mestrado, que não eram contemplados por quase nenhum programa de intercâmbio. A graduação deveria, sim, ter sido incluída na ampliação, mas de forma mais criteriosa e com um planejamento mais bem feito.

6. Acabando o CsF, acaba o intercâmbio acadêmico no Brasil?

É claro que não. A maioria dos programas que já existiam antes continuam e continuarão existindo, especialmente aqueles que não dependem de dinheiro brasileiro e funcionam há décadas ou séculos.

A questão é que a comodidade do CsF e similares, entregues a qualquer aspira de bandeja quase sem contrapartida e cobrança, vai acabar. Muitos “pára-quedistas”, durante os anos da “bolha econômica na Academia”, foram ao exterior e desperdiçaram a oportunidade miseravelmente.

Será preciso voltar a fazer o dever de casa, buscar mais ativamente as oportunidades pelo mundo todo e disputar as vagas com grande empenho. Ou seja, voltar a planejar e mostrar resultados.

7. Que dicas você daria para um aspira que pretende fazer intercâmbio?

Primeiro, escolha um bom orientador em uma boa universidade, cuja linha de pesquisa você admire muito e que te dê boas condições de trabalho. Depois, descubra como você pode ir para lá. O resto é secundário. Leia este outro texto.

Pensamento final

Die gefährlichste Weltanschauung ist die Weltanschauung derer, die die Welt nie angeschaut haben” – Alexander von Humboldt.

Atualização: 5 de julho de 2017

Hoje, oficialmente, o CsF foi encerrado. Veja a notícia no site da Fapesp. Como eu disse neste texto, espero que o investimento em intercâmbio acadêmico continue e aumente no futuro. Mas que ele seja feito com um planejamento mais profissional.

publishorparis

Fonte: http://www.ilouvreparis.com/publish-or-perish/.

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13 Replies to “Sobre o Ciência sem Fronteiras e seu possível fim”

  1. ” And the price we paid was the price men have always paid for achieving a paradise in this life — we went soft, we lost our edge.” (Frank Herbert, Dune)
    O CsF foi quase um paraíso em termos de financiamento, e, quando as coisas são muito fáceis e depois voltam ao nível normal, elas podem parecer muito mais difíceis do que realmente são… Gostei de como você falou que o fim do CsF não indica de forma alguma o fim do intercâmbio – existem outras possibilidades, até por agências de fora do Brasil (por exemplo, minha bolsa no Canadá, em 2013, era de um programa do governo canadense destinado a estudantes da América Latina, e ele ainda existe!)

    1. Exato! O CsF foi apenas uma bolha. Se o ignorarmos e considerarmos a evolução dos intercâmbios no Brasil nas últimas décadas, certamente dá para dizer a situação vem melhorando. Hoje em dia há uma boa variedade de países que têm convênios com o Brasil em diversas áreas da ciência. É só fazer o dever de casa e planejar com cuidado, que dá para aproveitar uma dessas oportunidades.

    1. Sim, sustentabilidade é fundamental em qualquer projeto público. Não adianta botar o doce na boca da criança, só para tirar logo depois.

  2. Eu fui um aluno do CsF em 2013, e das poucas pessoas que eu conheço pessoalmente que também participaram do programa como estudantes de graduação, 2 já abandonaram o curso, outras 2 estão prestes a fazê-lo e alguns deles nunca fizeram iniciação científica. Dá medo imaginar quanto dinheiro investido nessas pessoas não retornaram ao nosso país em forma de conhecimento científico.

    É importante ressaltar que outras bolsas de intercâmbio são mais rigorosas nos critérios de aceite, principalmente em relação currículo do estudante: ter experiência com pesquisa é fundamental. Atualmente eu sou pós-graduando e estou em intercâmbio na Universidade de Chicago com uma bolsa BEPE da FAPESP, que é ótima: eles pagam o transporte, disponibilizam uma reserva para participar de congressos, dão um auxílio-mudança que pode ser usado para comprar um computador e as mensalidades são boas. Mas quem faz pesquisa no estado de SP provavelmente sabe que a FAPESP é bastante burocrática e exigente para a concessão de bolsas.

    Uma outra dica que eu acho importante e que foi o que abriu as portas para o meu atual intercâmbio: faça networking. Eu conheci o meu contato no EUA em um workshop no ano passado, e quando eu percebi a oportunidade para um intercâmbio, fui mexendo todos os pauzinhos para que ele pudesse acontecer (muitos emails, escrever um projeto, planejar o programa com o orientador do Brasil, etc.)

    1. Oi Leonardo, concordo contigo. Aliás, BEPE é um belo exemplo de como um programa de intercâmbio acadêmico deve ser. Mais uma vez, a FAPESP dá o exemplo.

Comentários encerrados.