As três principais tentações que podem derrubar até mesmo bons aspiras

Na Jornada do Cientista, não há atalhos, apenas desvios. É muito fácil um aspira promissor perder o rumo e acabar sabotando a própria carreira, por cair em uma das inúmeras tentações que surgem. Vamos analisar as mais perigosas aqui.

Já comentei em outros textos que um aspira acadêmico precisa, dentre várias outras coisas, ter um bom equilíbrio entre humildade e ousadia. Mesmo um bom aspira, depois de um certo ponto da jornada, acaba enfrentando tentações que podem torná-lo excessivamente ousado e ansioso por queimar etapas. São perigos reais, que parecem representar oportunidades de ascensão meteórica ou reconhecimento prematuro, mas que sempre se revelam ciladas (Bino), inclusive para aspiras que estão seguindo seu próprio ikigai na Academia.

“Mas, Marco, que tentações são essas?”

São várias. Elas costumam crescer em número e risco, conforme um aspira avança na carreira: graduação > mestrado > doutorado > pós-doutorado > cargo estável > maturidade acadêmica > faixa vermelha-e-branca. A cada etapa vencida na Jornada do Cientista, um bom aspira passa a ser tornar um exemplo (role model) para os colegas que estão nas etapas anteriores. Ou seja, passa a receber cada vez mais atenção e tem o ego massageado. Alguns aspiras chegam a se tornar “gurus juniores”, especialmente em grupos ou instituições onde a qualidade média é muito baixa. Nesses casos, alguns aspiras acabam sendo incensados até mesmo por colegas em fases mais avançadas da carreira. Em terra de olho, quem tem um cego… Errei!

Reconhecimento, obviamente, não é uma coisa ruim. Pelo contrário, é muito recompensador começar a colher os frutos do trabalho duro desde cedo. Há rising stars que começam a brilhar antes dos colegas da mesma coorte e merecem de fato estar nos holofotes, sendo que os elogios podem lhes servir como incentivo. O perigo é como alguns aspiras lidam com essa atenção prematura. É o mesmo perigo enfrentado por um virtuose do futebol, por exemplo, que começa a ganhar milhões antes mesmo da maioridade e acaba fazendo um monte de besteiras por causa do deslumbramento. Ele deixa de se desenvolver, perde a disciplina e enterra a própria carreira.

Destaco a seguir as três principais tentações pelas quais aspiras em ascensão costumam passar, em ordem crescente de perigo.

(3ª) A tentação da comodidade

Essa armadilha está cada vez mais comum, tendo se tornado uma doença na geração Y e uma epidemia na geração Z.

Um bom aspira deve sempre estudar por conta própria, mergulhando na leitura e na introspecção. Contudo, dois fatores tornam isso muito difícil hoje em dia, especialmente no Brasil. Primeiro, o nosso sistema educacional embota a mente dos jovens, pois estimula a repetição e a obediência, ao invés da criatividade e autonomia. Segundo, muitos jovens da geração Z se acostumaram a receber tudo pronto, mastigado, imediatamente acessível. É aquela mentalidade conhecida também como “não apareceu na primeira página da busca do Google, logo não existe”. Essa armadilha engatilhada pela comodidade costuma ter como isca elogios de professores que gostam de alunos puxa-saco, dando mais valor aos imaturos que grudam neles do que aos que têm bom desempenho autônomo.

O que um bom aspira deve fazer, quando quer aprender um tema ou habilidade novos, é conversar com alguém que entende do assunto, seja pessoalmente ou por e-mail, e pedir dicas de por onde começar. Depois desse pontapé inicial, o aprendizado deve acontecer por conta própria, através dos livros e artigos sugeridos, além de outras leituras encontradas a partir das iniciais.

Outra variedade dessa tentação é a busca bibliográfica passiva. É importante, sim, seguir as contas das melhores revistas nas redes sociais, assim como assinar TOC, RSS e alertas dessas revistas ou de bases como o Google Scholar. Contudo, é fundamental que um bom aspira faça buscas ativas regularmente, tanto em bases bibliográficas, quanto nos sites das melhores revistas. Isso serve para diminuir a chance de deixar algum trabalho importante passar despercebido, além de aguçar os sentidos para se tornar um bom caçador de literatura. Quem cai mais seriamente na tentação da busca bibliográfica passiva pode chegar a se tornar uma daquelas patéticas figuras que aparecem em fóruns e redes sociais pedindo aos colegas “me passem tudo que vocês têm sobre o tema X”.

Há ainda uma outra face da tentação da comodidade, que se revela na forma de decisões preguiçosas. Você certamente conhece algum colega que tem jeito para a ciência e apresenta bom desenvolvimento, porém insiste em dar murro em ponta de faca. Pode ser um colega que fez a iniciação científica com um determinado professor, detestou a experiência, mas por comodidade decidiu continuar no mesmo laboratório no mestrado. Ou talvez seja um outro colega que sofreu miseravelmente no mestrado com outro professor, mas resolveu fazer o doutorado também com ele, porque, por exemplo, ganhou a chance de fazer a conversão para o doutorado direto. Afinal de contas, o que importa é garantir uma bolsa, não?

Aspira que prioriza comodidade em detrimento de desafio não chega a lugar algum. Para se formar cientista, é preciso estar sempre em movimento.

(2ª) A tentação da docência prematura

Vivemos em um país com péssimos indicadores educacionais. Temos ainda milhões de analfabetos completos ou funcionais. Até nas universidades há muita gente que mal sabe interpretar um texto simples ou sequer consegue escrever uma dissertação coerente no próprio idioma materno. Mesmo entre os que tiveram uma boa educação básica, muitos acabam aprendendo uma visão de ciência atrasada e bairrista demais em universidades arcaicas que pararam no século XIX.

Assim, qualquer aspira que parece entender de algum tema sofisticado (ou mesmo um tema corriqueiro, dependendo do lugar) corre o risco de ser alçado prematuramente à condição de docente. O aspira é convidado a dar aulas e cursos sobre assuntos que mal começou a estudar e ainda está muito longe de dominar. Pense, por exemplo, nos casos muito comuns de aspiras que aprendem os rudimentos de uma determinada análise ou teoria da moda: eles acabam sendo tratados como experts por uma massa de colegas mal-formados ou preguiçosos. Nossa cultura latina contribui muito para piorar essa tentação, pois muitos aspiras, quando querem aprender uma habilidade nova, ao invés de pedirem dicas de bibliografia e depois mergulharem na leitura e introspecção, como dito anteriormente, preferem colar em um colega que parece ter essa habilidade e sugá-lo até a morte. Isso sem contar o verdadeiro fetiche que temos pela sala de aula: parece que a única forma de aprender alguma coisa é na base do cuspe-e-giz.

O perigo é justamente esse: um jovem cientista em formação precisa focar em  estudar, em desenvolver a própria tese, e não em ensinar, senão ele interrompe o próprio desenvolvimento. A docência pode ser focada depois, quando o aspira tiver terminado a formação necessária. Quem troca a ordem das coisas pode não se tornar nem um bom cientista, nem um bom docente. Fora o risco que o docente prematuro oferece aos colegas, pois pode vir a ensinar muita coisa errada, por não ter ainda profundidade e experiência suficientes na área.

“Mas, Marco, isso significa então se fechar numa concha durante a pós-graduação e não ajudar os colegas?” Não, de forma alguma. Significa apenas gerenciar bem o próprio tempo e não assumir um papel para o qual ainda não está preparado. Para ajudar os colegas, é melhor formar grupos de estudo e clubes temáticos em pé de igualdade com eles, ao invés de assumir um papel de docente. Também não significa que uma experiência docente formal não é importante para alguém que está trilhando a Jornada do Cientista. Aspiras devem ser treinados também em ensino e ter contato real com a sala de aula, porque muitos almejam ser professores universitários e não pesquisadores. A questão é ter essa experiência sob a tutela de um bom professor e não de forma “feral“, sem supervisão.

(1ª) A tentação da falsa excelência

Como já comentei, em um ambiente com qualidade média muito baixa, é fácil um aspira promissor, mas ainda imaturo, se destacar e virar celebridade. Esse é o veneno mais doce e perigoso para um cientista em formação.

Vamos ilustrar isso com exemplos. Sabe aquele colega que manja um pouco de R e consegue executar scripts que copiou de terceiros, mesmo que não saiba programar de verdade e não entenda a fundo os testes estatísticos que executa? Caras assim parecem grão-mestres das abordagens quantitativas, quando vivem cercados de analfabetos matemáticos e computacionais. Sabe aquele outro colega inexperiente, mas bom de oratória, que se destaca em seminários graças a uma boa capacidade de enrolar sem estudar, enquanto os colegas são todos patologicamente tímidos em público? Sabe ainda um outro colega que tem bom raciocínio lógico e consegue detectar falácias nos projetos e teses de todo mundo, inclusive dos professores, em um meio no qual todos só sabem fazer estudos arcaicos, descontextualizados e desconectados da ciência internacional?

Pois é, colegas assim têm dons belíssimos que poderiam ser desenvolvidos através de treinamento e prática; talvez um dia eles se tornassem bons cientistas. Contudo, a atenção prematura que recebem os convence de que já estão prontos, melhores do que os próprios mestres, afastando-os assim do verdadeiro shoshin (初心). Ou seja, eles perdem a mente de principiante, que está sempre aberto ao aprendizado, e acabam ficando com a mente do perito, que acha que já sabe tudo de que precisa. Um bom cientista é um trabalho em andamento, nunca deve se sentir completo.

Essa é a tentação mais perigosa de todas, um verdadeiro Tiamat a ser enfrentado na Jornada do Cientista. Ela pode transformar bons aspiras em eternas promessas nunca cumpridas. Quem cai no “Canto de Ossanha”, como diria Vinícius de Morais, vai chorar, vai sofrer.

Conselho final

Não tenha pressa, curta a jornada.

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Imagem: Narciso por Caravaggio (1597).

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15 opiniões sobre “As três principais tentações que podem derrubar até mesmo bons aspiras

  1. Oi Marco,
    Gostei do texto, mas discordo da parte sobre a docência… Concordo que ela não deve ser exagerada, mas acredito ser uma parte essencial da formação para a Academia. As aulas que dei durante minha pós-graduação ajudaram muito para as disciplinas que ministro agora no pós-doc, e elas provavelmente ajudarão em disciplinas que ministrarei no futuro. Além disso, dar aulas me estimulou a estudar mais a fundo um assunto, com uma abordagem mais geral do que eu teria feito focado apenas na pesquisa.
    Eu acho importante ministrar aulas sim, mas com um ótimo preparo para elas e sobre um tema já bem dominado (justamente para não passar informações erradas). Aprendi muito sobre estatística ministrando minicursos de Past, por exemplo, e na segunda metade do doutorado comecei a ministrar aulas sobre influência de borda, tema que eu estudava desde o começo do mestrado e do qual já tinha um bom domínio… E tudo isso me ajudou muito na minha própria formação e para a minha tese – e, mais ainda, para a minha atuação no pós-doc… É claro que estou tirando conclusões com base em um N de 1 (eu mesmo), mas, como disse o Jeremy (ou foi o Brian?…), ensino é uma série de estudos não-replicados. xD
    Eu acho que podemos até dizer que a docência, quando não feita de forma exagerada, é uma oportunidade de sedimentar o que foi aprendido e ampliar o seu foco. (Mas, pensando bem, acho que isso vai de encontro ao que você falou com “A docência pode ser focada depois, quando o aspira tiver terminado a formação necessária.” 🙂 )
    Sobre o terceiro exemplo – também falando por mim, ser visto como alguém que entende de estatística me estimulou muito a entender cada vez mais do assunto. É que nem quando alguém passa de faixa antes de dominar a técnica – é um estímulo para fazer jus ao reconhecimento. (O que também vai de encontro ao que você falou sobre um bom cientista ser um trabalho em andamento…)

    • Oi Pavel, no fundo, pelo que li do seu comentário, não discordamos. 🙂 Eu acho a experiência docente muito importante, sim. O ponto é não exagerar na quantidade, não dar cursos sobre algo que aprendeu ontem e sempre contar com a supervisão de alguém mais experiente. Quanto ao reconhecimento prematuro como expert, isso é uma vaca de dois legumes: pode servir como incentivo para estudar ainda mais, como no seu caso, ou pode servir como incentivo para se acomodar, como em vários casos que já vi de perto. Na verdade, toda tentação tem essa dualidade dentro de si, por isso mesmo elas são perigosas.

      • Sim, quando tava escrevendo meu comentário comecei a perceber que não discordamos… 🙂 Principalmente a parte de supervisão de alguém mais experiente é bem importante! Por exemplo, na primeira aula sobre influência de borda que dei, em Rio Claro, o Miltinho estava presente, e acho que isso foi muito importante pra eu melhorar pras edições seguintes.

      • Pois é, li o comentário do Pavel e tive a mesma sensação … ele não discorda hehe. Nas aparentes discordâncias, o que vejo é um relato de caso específico que se encaixa exatamente no ponto que o Marco ressalta “O ponto é não exagerar na quantidade, não dar cursos sobre algo que aprendeu ontem e sempre contar com a supervisão de alguém mais experiente.”

      • Pavel é exceção em vários sentidos. Ele se destaca desde cedo e vem construindo uma carreira muito bonita. 😉

  2. Que belo! Traduziu a realidade nua e crua. Gostei muito sobre as geração Z querer ‘ receber tudo mastigado’. Tenho lido suas postagens e refletido muito. Comecei a ler sobre inteligência emocional. Seria muito interessante se pudesse escrever algo sobre isso. Parabéns! Seus textos são motivadores!

    • Obrigado, Vanessa. Minha geração é a Y, também muito problemática. O triste é que os problemas pioraram na geração Z.

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  4. A mão do “compartilhar diretamente por e-mail” para algumas pessoas chega a tremer hahaha…

    Já ouvi algumas vezes de pesquisadores da universidade que há muitos moleques que se acham os cientistas da NASA… E é incrível a popularidade de péssimo docente (principalmente na questão da arrogância) desses “experts da NASA” entre os alunos de graduação.

  5. Olá, Marco.

    Sua análise do ambiente científico é sempre certeira.

    Eu tive o desprazer de conhecer alguns cientistas “estrelinhas”, como dizemos por aqui, e torço todos os dias para não me tornar um deles. E pude notar que a docência exagerada e a falsa impressão de excelência andam juntas. Quanto mais um cientista recebe reconhecimento não merecido, mais disciplinas ficam sob sua responsabilidade.

    Gostaria de pedir sua licença, mais uma vez, para divulgar a campanha para lançamento do meu livro de título ousado, mas que não pretende ser literatura formal sobre metodologia científica:
    http://www.kickante.com.br/campanhas/livro-como-escrever-uma-dissertacao

    Espero que possa acabar ajudando alguns aspiras quando for lançado.

    Muito obrigado e um abraço,
    Lucas Palhão

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