Não peça aulas, peça referências

No sistema educacional brasileiro, somos adestrados a esperar, obedecer e imitar. Quem ousa sair da linha de montagem costuma ser desdenhado ou mesmo ridicularizado por colegas e docentes. Contudo, aspira, se você quer mesmo ser cientista, precisa seguir um caminho diferente.

Lembra no ensino infantil, quando você começava a fazer uma escultura de massinha e se empolgava de verdade, deixando a imaginação voar solta, mas aí chegava a “tia”, ria da sua cara e mostrava o seu trabalho para a turma toda, dizendo que parecia um cocô?

Lembra no ensino fundamental, quando, ao fazer uma prova, você tentava dar uma resposta correta e concisa, mas aí o professor zerava a questão, dizendo que não bastava acertar e era preciso dar a “resposta completa”?

Lembra no ensino médio, quando a professora falava alguma besteira, você a questionava respeitosamente, mas aí ela reagia agressivamente, muitas vezes te esculachando na frente da sala?

Pois é, o nosso sistema educacional é péssimo e deixa marcas profundas. Muitas vezes ele produz traumas, que castram nossa autonomia e criatividade. Não é à toa que muitos alunos chegam à universidade incapazes de ser originais. Pela minha experiência, eu diria que a esmagadora maioria dos alunos, em qualquer turma de graduação, vai para a sala esperando apenas assistir aulas expositivas, estudar para as provas, vomitar os slides e livros de volta na cara do professor e se livrar da treta, passando com A ou B, mas valendo também um C. Por outro lado, muitos professores vão para a sala quase que arrastados, com uma má vontade contagiosa.

Eu não culpo esses alunos. Na verdade, para ser sincero, até culpo alguns deles no meio desse bolo, pois há toda uma “geração whatever” profundamente descompromissada com a vida e a profissão. Contudo, a grande maioria dos alunos está apenas reproduzindo o adestramento que recebeu. Para piorar, muitos professores ruins repetem no ensino superior as mesmas mazelas do ensino básico, completando o ciclo do adestramento em linha de montagem.

O ponto é que, se você é um desses alunos padronizados, mas sonha em se tornar um cientista profissional, vai ter que acordar, sair da linha e quebrar esse ciclo vicioso. Será preciso praticamente morrer e renascer, como uma fênix nerd.

“Mas, Marco, do que você está falando?”

Caro aspira, estou falando de reaprender a aprender.

Vou, como de costume, dar contra-exemplos para esclarecer a questão. Nas turmas de pós-graduação brasileiras, é comum alunos se “ajudarem” mutuamente. Essa “ajuda” é mais comum ainda entre colegas de laboratório. Mas como ela se dá na prática? Vamos lá.

Caso 1: Zézim precisa produzir um gráfico para a monografia dele, mas, como deixou tudo para a última hora, acha que não vai ter tempo suficiente para aprender essa habilidade. Logo, pede para um colega de laboratório apertar os botões e criar o gráfico num passe de mágica.

Caso 2: Xiquinha está trabalhando na dissertação de mestrado dela, mas fica bloqueada com uma análise estatística cabeluda. Seguindo o mau exemplo de vários colegas de pós-graduação, ela pede a um “guru júnior“, reconhecido por todos como “otoridade”, que rode a análise para ela. Ela, para não parecer folgada, ficado ao lado do guru, assistindo a análise de camarote.

Caso 3: Epaminondas se empolga com uma nova teoria que pode servir como arcabouço para a tese dele, dando mais sentido a expectativas e observações. Contudo, essa teoria é muito complicada. Logo, ele julga não ser capaz de aprendê-la sozinho e decide esperar alguém oferecer um curso milagroso. Epaminondas, infelizmente, dá azar e o tal curso nunca é oferecido durante o tempo que ele tem para concluir o doutorado. Isso o obriga a deixar a ideia para lá e fazer uma tese mais sem sal do que poderia ter feito.

No casos 1 e 2, que acontecem todos os dias às toneladas, o Zézim e a Xiquinha perdem ótimas oportunidades de aprender habilidades novas. Na carreira acadêmica, você nunca estará tão motivado para aprender algo, como quando precisar desse conhecimento para a sua monografia, dissertação, tese, artigo ou livro. Poucas pessoas se dedicam ao estudo de um tema complexo, quando não precisam concretamente dominá-lo. Se você pede para alguém fazer  qualquer coisa que seja por você, nunca aprende de verdade, mesmo que sente ao lado do pajé e observe o passo-a-passo da mágica. O que poderia ter sido aprendido de forma autônoma continuará sendo sempre isso para você: uma mágica.

No caso 3, o Epaminondas provavelmente foi adestrado durante toda a vida escolar a esperar o conhecimento vir do professor para o aluno, sempre nessa direção e sentido. Assim, ele não tem autoconfiança suficiente para meter as caras nos livros e artigos e tentar estudar por conta própria, sem a ajuda de um docente e sem um esquema de aula “cuspe-e-giz”. Se ele tivesse dado a sorte de estudar em uma das pouquíssimas escolas “fora da caixinha” que há no Brasil, talvez tivesse tido contato com pedagogias mais eficientes, como “estudo orientado por projetos”, “aprendizado com os pares” e “classe invertida”. Dessa forma, ele poderia ter sido mais proativo e partido imediatamente para um aprendizado autodidata, incorporando à sua tese aquela abordagem maneira.

“Mas, Marco, você não fala sempre que cientistas não devem ser autodidatas?”

Calma lá, aspira, não é bem assim! O que eu falo é que, para trilhar a Jornada do Cientista, um aspira precisa contar com a ajuda de um orientador ou, se der muita sorte, um mentor. Só que orientadores e mentores servem para ouvir, tirar dúvidas, aconselhar, elogiar e puxar orelhas, mas não servem como babás. O aprendizado de um aspira, na escala de cada problema individual, deve acontecer, sim, de forma autodidata, mas sob a supervisão geral de um bom orientador, que tem a função de ajudar a ligar os pontos. Isso parece uma ambiguidade, mas é e não é.

O seu orientador não precisa se sentar contigo, pegar a sua mão e teclar junto na hora de calcular uma estatística. Ele deve é te indicar qual livro ler, quando você disser para ele que precisa aprender um determinado teste. Se você tiver iniciativa e tiver feito o seu dever de casa, chegando para o seu orientador com uma pergunta do tipo “é melhor eu seguir pelo caminho A ou B?”, ele poderá te dizer qual caminho parece melhor para você e por quais razões. Mas você não deve chegar para ele simplesmente perguntando por onde deve seguir, no geral, sem foco.

É importante lembrar que um bom aspira não pode depender exclusivamente do orientador: ele deve beber também na fonte dos colegas. Por exemplo, se uma colega da sua pós-graduação dominar uma teoria que pareça ser útil para a sua tese, pergunte a ela quais são as referências-chave dessa teoria e por onde você deveria começar as leituras.

Não peça aulas, peça referências.

Obviamente, em alguns casos você precisará mesmo pedir ajuda. Mas deve fazer isso apenas quando o volume de conhecimento a ser aprendido for realmente impeditivo, e sempre pedindo uma colaboração e não um curso. Por exemplo, se você é um ecólogo e precisa de uma análise genética em um determinado estudo, dificilmente vai aprender o que precisa do dia para a noite. É melhor convidar para o paper um colega geneticista. É nesses casos que se faz pesquisa multidisciplinar. Em outros casos mais maneiros ainda, você pode acabar se interessando por um problema que atrai pessoas de várias ciências diferentes. Nesse cenário, pode vir a ter a oportunidade de fazer uma pesquisa realmente transdisciplinar, cujo escopo não cabe na gaveta de uma área específica.

Ainda nessa vibe da participação de terceiros no seu projeto, hoje em dia eu sou contra o esquema de “coorientação à brasileira”. Ele quase sempre gera mal-entendidos e estresse, pois acaba culminando no dilema do “muito cacique para pouco índio”. Um pós-graduando deve ter apenas um único orientador, que se responsabiliza por sua formação e pelos trabalhos que ele desenvolver na tese. O que acaba sendo necessário adicionar à equipe, em alguns casos como o do parágrafo anterior, é um colaborador. Por exemplo, um cientista de outra universidade que receba o aluno para um estágio sandwich no exterior, a fim de desemaranhar uma parte da tese que nem o aluno nem o orientador seriam capazes de resolver sozinhos. Note que esse colaborador fica sendo responsável por ajudar nessa parte específica e não na tese como um todo, muito menos na formação integral do aluno.

No Brasil, infelizmente acontece a situação oposta com constrangedora freqüência: o orientador apenas oferece infraestrutura, mas joga o peso acadêmico todo nas costas do coorientador, que geralmente é um postdoc ou professor novato e fica com todo o ônus mas nenhum bônus, até mesmo porque poucas dissertações e teses viram de fato publicações formais. Em alguns casos, o orientador deixa o aluno à deriva por meses ou anos, e o coorientador é obrigado a formar o aluno ou mesmo pensar em uma tese para ele. No final, ainda acontece de o orientador dizer que está tudo errado e mandar o aluno refazer várias coisas, jogando o trabalho do coorientador no lixo. Isso é sintomático no caso dos “orientadores patrão de fábrica“, típicos r-estrategistas que enchem os laboratórios de alunos, dão atenção para 1% deles e esperam que alguns dêem certo por serem pontos fora da curva ou por receberem ajuda mágica.

Voltando ao ponto central, uma outra excelente opção, no caso de temas mais complexos, é você, aspira, fazer cursos online, que permitam que você imprima o seu próprio ritmo ao aprendizado, estimulando o raciocínio e a autonomia. Por exemplo, os cursos oferecidos na plataforma Coursera, cuja filosofia é dar um pontapé inicial em cada tema, tornam mais fácil o aluno andar sozinho depois.

Acredite, aspira, estudar por conta própria faz toda a diferença do mundo! Quem sempre depende de aulas para aprender, nunca aprende nada a fundo e continua achando tudo difícil. Por outro lado, quem sempre tenta sozinho primeiro e só pede ajuda depois de se esforçar muito e empacar, acaba achando cada vez mais fácil adquirir conhecimentos e habilidades sem muletas. Isso deveria ser estimulado desde o ensino infantil. Mas como as coisas infelizmente não são assim, tente adquirir essa postura no estágio em que estiver da carreira.

Como eu sempre digo, na Jornada do Cientista não há atalhos, apenas desvios.

Você é capaz de aprender o que quiser, não precisa de muletas ou mutretas!

Portrait of a student  girl studying at library

Fonte da imagem.

12 opiniões sobre “Não peça aulas, peça referências

  1. Fantástico, prof. Marco!
    Obrigado por compartilhar.

    Sou filho do método Montessori, então aprendi a ser um pouco mais autodidata, mas ainda não tanto quanto gostaria.
    Entretanto, ouço reclamações de que sou muito individualista, comportamento que é um bocado incentivado pelo método.
    Bom, não se pode ter tudo, não é mesmo?🙂

    Abraço!

  2. Muito bom!

    Professor, gostaria de expressar minha admiração por este site e pelo seu trabalho. Encontrei por acaso em 2015, durante o início do meu projeto para conclusão de curso e, desde então, acompanho regularmente. Hoje, quase dois anos após conhecer este site, fui aprovado em primeiro colocado na seleção do mestrado. É só o meu primeiro passo na minha Jornada, mas posso dizer que o seu trabalho serve de inspiração a cada nova postagem.

    Obrigado!
    Yuri.

  3. Sensacional🙂
    Eu pessoalmente gosto de cursos e aulas, mas mais porque eu acho divertido e uma boa forma de aprender coisas fora da minha área, expandir os horizontes. Sim, faço ciência porque é divertudo, e pra salvar o mundo rs. Às vezes cursos são bons como aprendizado inicial; mas estudar por conta é o mais importante e o que melhor funciona. E grupos de estudo! Mas mais pra desenvolver habilidades comunicativas.

  4. Marco, Meu Nome é Caio Cesar Biólogo (Paleontologia – Instituto de Geociências USP), ultimamente vejo que as universidades adestram os alunos de forma errônea e vou mais além ensino os colegas a detonar outros colegas de outras universidades. Parece que estou dizendo a pura realidade. precisamos ensinar orientadores e orientando a ter ética nos trabalhos. Obrigado por escrever essa postagem. Sinto aliviado. Publique esse seu trabalho em Revistas Cientificas, em Congressos e no You Tube !!!

    • Obrigado pelo comentário, Caio. Precisamos mudar muita coisa no nosso sistema educacional, do infantil ao doutorado. Como um outro leitor disse acima, acho que umas ideias a la Montessori resolveriam boa parte do problema. No caso específico da pós-graduação, acho que uma pedagogia que funciona maravilhosamente bem são os cursos de campo estilo OTS. Venho tentando reproduzir alguns métodos dos cursos de campo mesmo em cursos de sala.

  5. Conheci o blog hoje através de uma pesquisa no Google sobre “currículos”. Estou no último semestre da graduação, fiz Iniciação Científica e a pouco tempo apresentei meu TCC. Já estou quase na página 40 do blog e adorei todo o conteúdo, alguns posts me fizeram até me arrepender de não ter conhecido o blog a tempo de aprender tanta coisa! Mas nunca é tarde e eu que pelo menos até o momento (ainda no início de uma vida profissional), não tenho planos de continuar na pesquisa, sei que o blog pode me acrescentar muito!
    Senti falta de uma página no Facebook, ver os seus posts mais recentes no blog através do site ia ser bem legal, além de poder divulgar para amigos! Fica a sugestão…
    No mais, gratidão por esse achado, linguagem fácil e amigável (leia-se: me sinto como um aluno seu, que tem um professor que realmente se preocupa em passar a verdade e de ensinar para vida!)
    Beijos

    • Oi Amanda, obrigado, fico muito feliz por você ter gostado do blog. E quanto ao timing, não é tarde de forma alguma. A graduação fica ainda bem no começo da jornada, no mundo conhecido. Veja este post. Com relação a manter uma página no Facebook, depois de alguns anos de uso abandonei completamente essa rede social este ano. Na minha opinião, a forma como o Facebook é construído expõe demais os usuários e estimula a vaidade e as tretas, logo, não vale a pena o custo-benefício. Um abraço.

  6. Pingback: Para que servem congressos? | Sobrevivendo na Ciência

  7. Pingback: A Jornada do Cientista | Sobrevivendo na Ciência

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