Uma alternativa às soníferas introduções gerais

Quando foi a última vez que você leu a introdução geral de uma tese e não dormiu nos primeiros parágrafos?

Como vários de vocês já sabem e eu comentei em outro texto, hoje em dia é comum dissertações e teses em programas de pós-graduação acadêmicos serem escritas na forma de coletâneas de artigos. Para explicar ao leitor o fio condutor dessas coletâneas, geralmente os programas pedem que sejam adicionadas ao corpo do trabalho uma introdução geral e uma conclusão geral. Essa foi uma ótima mudança de cultura nos últimos 10-15 anos, pois, aos poucos, tem estimulado os aspiras brasileiros a planejarem melhor os projetos deles e a não engavetarem as publicações formais. Apenas os aspiras mais teimosos ainda insistem em ter o trabalho dobrado de escrever uma tese no formato clássico, só para depois se verem obrigados a dividir e rescrever tudo no formato de artigos propriamente ditos.

Ok, faz sentido incluir introduções e conclusões gerais em teses. O problema é como elas geralmente são escritas. Bom, aqui vou focar nas introduções.

Infelizmente, em muitas universidades brasileiras ainda impera a cultura da “resposta completa”. Sim, é a mesma praga vista no ensino básico que comentei em outro texto recente. Vários orientadores continuam pedindo que os aspiras escrevam dezenas de páginas de introdução geral, valorizando mais o volume do que a qualidade do texto. Mandam que eles vomitem erudição vazia no texto, fazendo uma “revisão bibliográfica completa”, sem propósito claro. Para piorar, raramente essas introduções são escritas com o mesmo capricho que os artigos, pois aspiras e orientadores as encaram como uma mera formalidade, a ser liquidada rapidamente aos 45 min do segundo tempo. O resultado são textos redigidos com má vontade, chatíssimos de ler e inúteis para a comunidade.

Essa mentalidade ainda se mantém viva hoje em grande parte por causa de uma crença anacrônica. Segundo alguns colegas congelados no século XIX, introduções gerais seriam fundamentais para ajudar outros aspiras a darem os primeiros passos no tema em questão. Parte-se de três pressupostos furados para sustentar essa crença. Primeiro, introduções gerais seriam mais fáceis de entender do que os artigos da tese em si, por usarem uma linguagem menos técnica e serem escritas em português, ao invés de inglês. Segundo, aspiras, especialmente de iniciação científica, supostamente teriam o costume de ingressar em temas complexos via teses. Terceiro, teses seriam trabalhos de acesso amplo, porque são gratuitas e ficam disponíveis de graça em bibliotecas universitárias.

Vamos derrubar essas falácias uma a uma.

Primeiro, como dito anteriormente, introduções gerais raramente são bem escritas e quase nunca aspiras e orientadores usam nelas uma linguagem menos técnica do que a dos artigos. Na verdade, poucos sequer pensar sobre qual estilo de redação deveria ser usado nessas seções especiais. A única diferença de legibilidade costuma estar relacionada ao idioma, mas o fato de as introduções serem escritas em português não as livra de serem herméticas ou simplesmente enfadonhas.

Segundo, bons orientadores ensinam aos seus pupilos que a melhor forma de começar a estudar um tema de interesse é ler revisões, livros-texto e livros técnicos, que são escritos com muito mais cuidado e revisados com muito mais rigor do que as teses. Para ingressar numa área, nada substitui ler livros.

Terceiro, você já tentou acessar uma dissertação ou tese do seu interesse? Quase ninguém mais se dá ao trabalho de visitar pessoalmente bibliotecas de outras universidades ou usar o sistema comut. Além disso, mesmo agora, na era digital, é muito mais difícil encontrar e acessar teses do que artigos, porque os sistemas de indexação e arquivamento das teses é difuso e confuso. Você acaba tendo que acessar o site do respectivo programa de pós-graduação e, ainda assim, nem todos postam as teses online; muitos sequer atualizam os sites regularmente. O Banco de Teses da Capes é incompleto e nem um pouco user-friendly. Muitas vezes, você acaba tendo que importunar o autor da tese e pedir o PDF, sendo que a maioria não curte a ideia de compartilhar esse tipo de documento antes de concluir a publicação formal dos artigos. Por falar nisso, muitas teses ficam inacessíveis em meio eletrônico por até três anos, como forma de proteger os trabalhos originais não-publicados que elas contém.

“Mas, Marco, o que você sugere que eu faça então?”

Caro aspira, quero propor uma alternativa que pode ser muito mais produtiva: escrever introduções gerais na forma de artigos de divulgação científica.

Estranhou a ideia? Vou explicar três vantagens de adotarmos esse formato e fazermos um crossover de estilos de redação em dissertações e teses.

(1) Artigos de divulgação científica são fáceis de entender.

Não apenas as introduções gerais dão sono. Infelizmente, a esmagadora maioria das teses costuma ser tão chata, que nunca é lida por ninguém além de autor, orientador e banca. A comunidade acadêmica só dá atenção mesmo para os artigos, livros e manuais que saem da tese, porque sabe que ficam bem melhores do que o produto original. Voltando ao ponto, se a missão de uma introdução geral é tornar mais fácil compreender o fio condutor de uma dissertação ou tese, nenhum formato é melhor do que uma conversa escrita com o público leigo. Esse estilo torna um texto acessível não apenas a acadêmicos iniciantes, mas também a pessoas que não trabalham na área ou mesmo pessoas de fora da Academia. Por exemplo, uma introdução geral escrita de maneira não-técnica, com uma prosa fluida e macia, pode facilitar a vida até mesmo de um jornalista científico, levando as descobertas da tese a serem divulgadas também na grande imprensa.

(2) Artigos de divulgação científica são ótimos como introdução a um tema.

Justamente por causa do estilo de redação mais amigável e sexy, um aspira que entra em contato com uma teoria, abordagem ou fenômeno através de um bom artigo de divulgação provavelmente tem uma excelente primeira impressão. Isso desperta o apetite pelo assunto, levando a uma busca mais empolgada pela literatura técnica. Certamente, esse é um primeiro contato muito melhor do que dar de cara com uma muralha de jargão e prolixidade.

(3) Artigos de divulgação científica são amplamente acessíveis.

Ao contrário das dissertações e teses, que ficam mofando nas bibliotecas de universidades na maioria dos casos, artigos de divulgação geralmente são publicados em veículos de grande circulação. Revistas como Ciência Hoje, Galileu e Superinteressante são vendidas até mesmo na banca da esquina, por isso os artigos publicados nelas atingem muito mais gente. Essa acessibilidade também é sensivelmente mais ampla do que a dos artigos técnicos, muitos dos quais ficam presos atrás de paywalls, chegando a custar US$40,00 por download.

Tendo em mente esses três argumentos, imagine como seria mais gostoso ler uma introdução geral escrita para ser publicada na Ciência Hoje, por exemplo, usando palavras mais simples, metáforas mais bonitas e mensagens mais diretas. O público da sua tese seria ordens de grandeza mais amplo.

Por isso, meu caro aspira, reforço a sugestão: já que você tem mesmo que gastar tempo escrevendo uma introdução geral, além dos artigos do miolo da tese, invista em um produto que vai agregar mais valor ao conjunto. Mesmo que depois você não consiga publicar essa introdução em um jornal ou revista de divulgação, pode postá-lo em um blog, por exemplo. Garanto que o texto será lido por muito mais gente do que se ficasse restrito à tese.

Se você for um aspira do outro lado da tese, querendo dar os primeiros passos em um tema, busque fontes adequadas para isso.

Pense nisso. Todos sairiam ganhando com essa mudança de cultura.

Exciting x Boring creative sign with clouds as the background

Fonte da imagem.

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13 Replies to “Uma alternativa às soníferas introduções gerais”

  1. Oi Marco tudo bem? Os seus posts estão me ajudando muito na minha pesquisa. Será que eu consigo um artigo de divulgação científica em alguma dessas revistas “populares” pra falar sobre Canto relacionado ao Teatro e divulgar com isso minha “tese”? Quais publicações para este tipo de artigo cientifico de divulgacao voce conhece? Obrigado!!!!

    1. Oi Marcelo, fico feliz em saber que o blog está te ajudando. Bom, hoje há menos opções de revistas de divulgação que aceitam matérias escritas por cientistas e não por jornalistas. Felizmente, a Ciência Hoje continua sendo uma boa opção: http://www.cienciahoje.org.br/revista/ch. Boa sorte!

  2. Ainda sou um “aspira” no meio do doutorado, então reconheço que minhas opiniões ainda não são maduras, mas percebo que, pelo menos na minha área (Eng. Mecânica) a Tese é vista como um documento do candidato para a banca, ou pelo menos para um público especializado.

    Alguns colegas, por exemplo, incluem um breve contexto histórico na Introdução da Tese, e a banca sempre acaba dividida: uns acham “até interessante”, outros acham completamente desnecessário. Como o colega comentou ali em cima, a reação da banca é bastante variável.

    Outro ponto: mais especificamente na minha área (tecnologias alternativas de Refrigeração), teses são algumas das melhores introduções ao tema, porque não existe quase nenhum livro publicado sobre o assunto.

    Ainda assim, vale a reflexão! Concordo que encarar a redação da Introdução como um “adendo”, algo a ser feito na última hora é receita para o fracasso. Para mim é sempre uma das partes mais difíceis de escrever.

    1. Oi Fabio, obrigado pelo seu comentário. É muito enriquecedor conhecer a realidade de outras áreas da ciência. Sim, esse é o ponto: pensar sobre o que está escrevendo e para quem está escrevendo. Um abraço!

  3. “O número médio de pessoas que lêem uma tese inteira é 1.6, incluindo o autor” (autor desconhecido [por mim]).
    Eu sou um daqueles aspiras teimosos que insistiram em escrever em formato de tese. rs Inclusive a dissertação de mestrado escrevi em português, mas antes de ser acusado por alguém de preguiça, eu escrevi em inglês e traduzi. rs Meu pensamento era justamente isso: apresentar uma introdução a quem quer adentrar no tema.
    Algumas pessoas até usaram a minha dissertação pra isso, e depois da defesa do doutorado escrevi uma introduçãozinha legal sobre wavelets. Mas depois percebi que este material seria muito mais acessível e útil em um blog do que numa tese. rs Isso seria a minha resposta aos três pressupostos furados… Uma postagem em um blog acaba sendo mais útil para difundir o conhecimento do que uma introdução geral em uma tese.
    Mas o que você acha sobre isso: https://scientistseessquirrel.wordpress.com/2016/11/24/the-three-functions-of-a-thesis/ ?

    1. Oi Pavel, pois é, para falar com um público amplo, blogs são uma excelente mídia moderna. Quanto ao texto que tu linkou, não o conhecia e achei bem maneiro; vai na mesma vibe deste texto. O formato modular, como esse cara do blog chamou, permite justamente o crossover de estilos que eu sugiro. As teses em formato clássico cumpriram uma função por séculos, mas agora o tempo delas passou. 🙂

  4. Ótima dica Marco! Acho que todas as introduções de trabalhos acadêmicos deveriam ser assim. E o novo layout do blog ficou muito bom. Um abraço!

  5. Excelente post! O timing do post, inclusive, é excelente também. Estou finalizando o doutorado no início do ano que vem e estava me arrastando para escrever a bendita introdução geral, pois não conseguia ver valor em escrever de forma prolixa e a esmo dessa seção.
    Para combater esse mito de que introduções gerais são utilizadas para iniciar os aspiras, fiz uma busca rápida no banco de teses da USP para ver o número total de teses, visitas e downloads. Após alguns momentos utilizando a famigerada matemágica básica, vi que o número de downloads por tese por visitante era inferior a 0,001 (de 2011 a 2014, anos para os dados estavam disponíveis). Esse cálculo nada padronizado sugere que mesmo as teses estando online ninguém faz o download delas – as teses estão em um limbo internético, acumulando poeira digital nos bancos online por aí.
    Felizmente consegui convencer meu orientador a fazer o que tu sugere no post: escrever um texto de divulgação baseado no tópico da minha tese. Muito bom saber que não estou sozinho nesse mundo!
    Além do mais, poder escrever de forma jocosa, utilizando hipérboles e metáforas é uma boa forma de desopilar e deixar a criatividade fluir.

    Parabéns novamente pelo post!

    1. Que legal, Alexandre! Muito obrigado por essa análise! Só mesmo um banco de teses bom como o da USP para permitir testar essas ideias. Fiquei feliz pacas em saber que tem gente na mesma sintonia, inclusive com planos concretos de botar a ideia em prática. E, com relação à tua colocação final, concordo totalmente e digo que esse é um dos motivos de eu ter começado o blog: poder escrever de forma mais livre aqui.

      1. Estou curioso para saber o que o pessoal da banca vai pensar dessa abordagem: escolhi um mix de pesquisadores da “velha guarda” com alguns mais jovens para ver se haverá alguma relação da opinião com o tempo de trabalho (amostra altamente tendenciosa, auto-correlacionada, com N baixo e especulativa, mas vai ser divertido ver isso).

        Fico imaginando o quão importante é aprender esse tipo de escrita durante a pós-graduação. Quem sabe, se houvesse algum treinamento voltado para isso algumas pessoas se interessassem por carreiras voltadas ao jornalismo científico. Em um mercado saturado de cientistas e sendo uma profissão que não é para todos (como alguns dos teus posts mostram), talvez essa seja uma maneira interessante de mostrar para os aspiras algumas carreiras não-acadêmicas que podem ser beneficiadas pelo treinamento recebido durante a pós. Quem sabe montar um blog e incentivar os aspiras a escreverem posts seja uma maneira de fazer isso?

        Fica aí o questionamento para quem estiver lendo os comentários 🙂

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