Uma crítica ao esquema de coorientação à brasileira

Sabe aquele costume aqui no Brasil de todo mundo ter coorientador, até mesmo alunos de iniciação científica? Sente-se, pegue um chá e vamos conversar seriamente sobre isso.

Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará um e amará o outro, ou será leal a um e desprezará o outro.” (Mt 6:24)

Se você é um aspira trilhando a Jornada do Cientista no Brasil, provavelmente sabe que ter um coorientador é moda por estas terras. Em algumas universidades é quase uma obrigação. Aposto que você mesmo, caso esteja no doutorado ou outra etapa mais avançada, já teve ou tem um ou mais coorientadores. Nos EUA e Europa, raramente essa figura existe.

O perigo nessa história é que, quando um costume se torna padrão, acabamos achando que ele é a coisa mais natural do mundo. Muitas vezes, até fica parecendo que não há outro jeito de fazer as coisas. No caso da “coorientação à brasileira”, como comentei en passent em outro texto, a maneira como as coisas geralmente acontecem não faz o menor sentido. Vou explicar porque.

Para começo de conversa, sempre gosto de deixar claro que um bom orientador é fundamental para um aspira trilhar bem sua jornada e conclui-la de forma proveitosa.

“Mas, Marco, então não seria melhor ter tantos orientadores quanto possível, para diversificar a experiência?”

Sim, mas ao longo da jornada, em sequência, um após o outro, não todos ao mesmo tempo. Cientistas costumam aprender diferentes coisas com diferentes mestres ao longo da carreira e da vida, desde o ensino infantil até o pós-doutorado. Muitas vezes, ainda na infância, fora da escola, algum parente mais velho acaba sendo o nosso primeiro mestre acadêmico, por nos apresentar à ciência. Alguns sortudos, depois de aceitarem o chamado para a aventura, encontram um mentor e ficam sob tutela direta dele por boa parte da formação. Cada um desses mestres acrescenta um tijolo que falta na nossa parede.

No Brasil, infelizmente, as coisas quase nunca acontecem assim, porque poucos colegas pensam mais a sério sobre o que significa uma coorientação.

Vou apresentar aqui algumas razões para não ter um coorientador:

  1. Um coorientador adicionado à tese por comodidade atrapalha a autonomia do aspira. Muitas vezes um segundo professor ou postdoc é adicionado ao binômio orientador-aspira, teoricamente por entender de uma análise ou tema que ambos não dominam. Contudo, em vários desses casos, o aspira seria perfeitamente capaz de aprender o que é preciso sozinho, se vivêssemos em uma cultura acadêmica que valorizasse mais a autonomia. Ou seja, adicionar um coorientador à tese, quando isso não é necessário, é comodismo, uma das principais tentações que derrubam aspiras.
  2. Um coorientador pode acabar virando substituto de um orientador preguiçoso. É comum orientadores do tipo “patrão de fábrica” arrumarem coorientadores para quase todos os alunos do laboratório que chefiam. Isso, perdoem o meu francês, é  picaretagem. Portanto, olho vivo, aspira! A responsabilidade de te formar como cientista é do teu orientador. Se ele terceirizá-la, não é um bom orientador, mas um malandro que criou uma máquina de fazer números, não cientistas. Várias vezes, o coorientador acaba tendo o trabalho pesado, mas quem leva o bônus acadêmico é o orientador folgado, especialmente na hora de computar pontos para obter ou manter bolsas de produtividade. Contudo, não confunda a picaretagem típica de muitos laboratórios com a hierarquia bem-definida de alguns grupos de trabalho grandes e bem gerenciados (mais raros aqui), nos quais pessoas em estágios mais avançados da Jornada do Cientista ajudam a cuidar de colegas em estágios anteriores, todos sendo supervisionados pelo coordenador do grupo.
  3. Um coorientador pode acabar entrando em um conflito de hierarquia com o orientador. Esse fenômeno também é conhecido como “muito cacique para pouco índio”. Sabe aquela citação sobre os dois senhores que coloquei no começo do texto? É bem por aí. Teoricamente, a palavra final na tese de um aspira é sempre do orientador principal. Mas, e se ele for omisso ou confuso, e o coorientador tiver que te ajudar a tomar algumas decisões importantes? E se o orientador depois não gostar dessas decisões e mandar refazer tudo? Aspira, tu consegue imaginar o tamanho da treta?

Agora quero falar com os coorientadores novatos, pensando no terceiro vértice desse triângulo amoroso acadêmico. Coitados dos faixas pretas juniores que caem nessa cilada, Bino… Geralmente, o resultado é estresse, mal-entendidos e desperdício de tempo. Quem acabou de virar doutor e está vivendo no moinho do postdoc costuma estar faminto por experimentar atividades novas e melhorar o currículo, a fim de amadurecer como cientista e aumentar as chances de se estabelecer. Aí, tragicamente, vira presa fácil de picaretas seniores, que prometem mundos e fundos, dizendo que coorientações contam muitos pontos em concursos, dão experiência, multiplicam as publicações etc.

Caro novato, use o seu senso crítico. Coorientações podem, sim, ser boas oportunidades de treinamento para jovens orientadores inexperientes, mas não contam quase nada no currículo, a não ser quando o aluno realmente publica um paper derivado da tese. E o número de publicações de um orientador não aumenta indefinidamente com o número de aspiras orientados; pelo contrário, essa curva costuma crescer no começo, estabilizar em um ponto, e depois cair de novo. Ou seja, um número excessivo de alunos pode diminuir a sua produtividade! Portanto, descubra aos poucos qual é o seu número mágico pessoal. Mais importante: ao ser convidado para uma coorientação, converse com calma sobre as condições e expectativas com todos os envolvidos. Quando as coisas não são discutidas e definidas claramente a priori, ou o coorientador acaba virando o orientador efetivo do aspira sem ganhar os louros, ou um conflito de hierarquia se estabelece, gerando um grande mal-estar.

“Ok, Marco, então quando seria recomendado ter um coorientador?”

Bom, como toda história tem sempre pelo menos dois lados, vou apresentar razões para, sim, adicionar um segundo mestre ao seu mestre principal:

  1. Para desatar um nó com o qual nem orientador nem aluno seriam capazes de lidar sozinhos. Pode ser, por exemplo, para aplicar um framework complicadíssimo aos dados, que está fora da expertise de ambos. Ou quando a tese une dois campos diferentes da ciência, mas orientador e aluno só transitam em um deles; por exemplo, uma tese em Ecologia que necessita de algumas análises em Genética. Entretanto, esse tipo de ajuda não precisa ser formalizada no esquema conhecido como coorientação. Pelo contrário, as coisas ficam muito mais tranquilas e os papeis ficam muito mais claros, se o segundo mestre for classificado como colaborador, sem vínculo burocrático com o aspira ou o programa de pós-graduação, e sem responsabilidade pela tese dele.
  2. Quando o aspira precisa ir para fora aprender uma habilidade complexa que ninguém domina no país. Em alguns programas de intercâmbio internacionais, o segundo professor, que recebe o aspira no exterior, é chamado de coorientador. Esse é um bom uso do termo, porque durante estágios sandwich de mestrado e doutorado, o aspira realmente acaba sendo acolhido pelo segundo professor, que se responsabiliza pelo seu bem-estar acadêmico e pessoal durante esse período. Mesmo assim, esse segundo mestre fica responsável por apenas uma parte da tese, não pela formação completa do aspira.

Portanto, meu caro aspira, recomendo adicionar colaboradores à sua tese quando estritamente necessário, mas não coorientadores. Se quiser muito mesmo ter um coorientador formalmente registrado, considere a segunda razão descrita logo acima. Já vi casos de doutorandos que acabaram colecionando até quatro coorientadores além do orientador; o resultado é medo, terror e escuridão.

Finalizo voltando ao começo: “ninguém pode servir a dois senhores”. Medite sobre isso.

two-masters

Fonte da imagem.

Anúncios

16 respostas para “Uma crítica ao esquema de coorientação à brasileira”

  1. Marco, pesquisando na net, vi que na UFRJ é comum que os mestrandos/doutorandos tenham DOIS orientadores, com atribuições iguais. Nas teses isso fica claro. Você sabe a origem disso? Em algumas instituições gringas isso ocorre também.

    Abraço e parabéns.

  2. Olá Marco,

    Parabéns pelo post. Muito bom ler suas mensagens para a academia.
    Conforme adiantei na minha IES a coorientação era regimentalmente obrigatória. A maioria das pessoas trabalha com coorientadores por “tradição” e “pelo espírito de equipe”. Inclusive aconteciam casos (hoje mais raros) da banca ser composta majoritariamente por membros do staff de orientação. Daí você imagina um outro post…. sobre as bancas de defesa em Terra Brazilis…

    Abraço.

    1. Obrigado! Nossa, surreal coorientação ser algo mandatório em regimento… Cada vez tomo ciência de casos mais bizarros. Sim, um dia escrevo sobre as nossas bancas fajutas de mestrado e doutorado, cheias de coorientadores, coautores e cúmplices.

  3. Interessante… No geral concordo! Principalmente sobre o trabalho pesado ficar nas costas do coorientador. Isso é muito errado.
    Mas… No meu doc coorientei três ICs. Em uma fiz quase 100% da orientação, em uma metade, e em uma uns 20% (principalmente em campo). Não valeu nada pro currículo, mas estão entre as melhores experiências que tive. Foi um ótimo crescimento pessoal e acadêmico, e acho que pras orientandas tb foi bom no geral… Eu não levar tanto o crédito é injusto, mas a vida não é justa.
    Agorq cooriento uma mestranda, e tá sendo bem legal pq dividimos as atribuições: eu oriento na estatística e o orientador na parte maos biológica. Sem conflitos até o momento.
    Então, complementando, quando coorientar: quando téns motivos pra crer que não haverá conflitos e qdo o curtículo não lhe importa. E qdo queres ter a experiência e define bem com a/o orientanda/o. 🙂
    Mas é bem provável que eu mude de ideia em alguns anos. rs

    1. Oi Pavel, eu pensava como você no seu estágio da carreira, rs. Desejo de coração que você tenha uma proporção maior de experiências boas. Eu, pessoalmente, acumulo 4 aspiras sob minha orientação ou coorientação no momento, e mais 34 aspiras que já chegaram até o fim do compromisso. Se eu for contar os que largaram o projeto no meio ou foram convidados a sair do lab, passo dos 50. Por alto digo que, dentre as coorientações, apenas umas 10% valeram a pena, por diferentes razões.

      PS: Talvez este seja um dos temas mais controversos que já levantei aqui no blog. Estou curtindo ver as experiências de vocês!

      1. Oi Marco,
        Legal que você pensava assim! Tô pensando agora em escrever sobre o tema no meu blog. “Coorientação: uma resposta (ou não) ao Marco Mello.” xD
        A época que você se refere é quando você estava na UFSCar?
        Ter coorientado durante o doutorado também teve um efeito interessante: decidi orientar bem pouco no pós-doc. Tanto que comecei a orientar a Bianca depois de avaliar o projeto dela e ver que me interessa profundamente e que eu poderia contribuir de verdade (afinal, é sobre efeito de borda!). Acho que o pós-doc é um período complicado pra orientar porque 1) o tempo de permanência é muito incerto, e 2) é um período mais para desenvolver a sua própria pesquisa.
        Por outro lado, gosto de como o Miltinho faz, se eu estiver entendendo certo. No LEEC via de regra estudantes de IC têm coorientação de alguém do doutorado ou até mestrado; essa pessoa fica responsável por acompanhar de perto o projeto, ajudar nas análises etc e o Miltinho faz um acompanhamento mais geral do trabalho, pensando mais nas perguntas e implicações e também no financiamento (o que é bem diferente de deixar todo o trabalho nas mãos de quem coorienta…).
        Acho que tal experiência durante o doutorado pode ajudar muito no futuro, quando chegar a hora de orientar de verdade. Lidar com pessoas não é fácil, e cada pessoa é diferente, e é legal termos alguma oportunidade de treinamento com isso antes. É claro que tem a questão de conseguir de fato passar alguma coisa pra pessoa orientada, e pra isso um acompanhamento de alguém experiente é essencial, até pra dar um feedback sobre como orientar. Daqui a alguns anos espero conseguir testar essa minha hipótese. rs
        É claro que coorientar tira um pouco do foco do próprio doutorado; mas os temas sendo relacionados, não tira tanto o foco… E ter contato com um maior número de pesquisas ajuda a ter a mente mais aberta… Mas isso entra no que você se referiu como colaborações.

        1. Oi Pavel, o esquema do 1000tim é diferente do que a maioria faz por aqui. Mas esse caso dele, no fundo, não é bem coorientação. Nunca fui aluno dele, então não posso afirmar nada com certeza. Contudo, me parece o esquema típico de grupos de trabalho grandes nos EUA e Europa, em que o orientador (PI, principal investigator) cria uma hierarquia. Ou seja, há uma cadeia de comando, em que as pessoas de um determinado nível acadêmico são supervisionadas diretamente por pessoas no nível logo acima, sucessivamente, de forma aninhada, e todas se reportam em momentos críticos (definição do projeto, elaboração de relatório de fomento, redação de artigo etc.) para o PI. Apenas os postdocs ficam em contato constante com o PI. Quanto o PI de um desses grupos deixa bem claro qual é o papel de cada pessoa e o que cada uma tem a ganhar e oferecer com a pirâmide, tudo funciona bem. É a melhor forma de gerenciar grupos com mais do que 10 pessoas. Adicionei esse caso ao texto. O problema é que, aqui no Brasil, muitas pessoas tentam imitar esse esquema hierárquico em grupos gigantes (> 30 membros), mas têm preguiça de fazer o trabalho gerencial de base para a estrutura funcionar, e sequer acompanham os postdocs de perto. Aí o resultado é medo, terror e escuridão. 😉

  4. Marco, antes de mais nada, gosto muito do seu blog e concordo com quase tudo que escreve. E mesmo discordando, como acontece com o caso deste post, acho a discussão pertinente e fundamental entre acadêmicos. Sobre o tópico em si, vejo alguns problemas que podem decorrer do fato de compartilharmos visão sobre áreas distintas. Eu sou das ciências sociais. Bem, nos EUA, até onde eu sabia, não é incomum ter coorientação. No Brasil, na área de ciências sociais, ao menos no meu entorno — no meu grupo de trabalho –, percebo esse aumento da “coorientação”, mas dentro de uma certa informalidade, pois sempre é necessário o orientador formal para assinar documentos, etc. Eu particularmente vejo essa tendência com bons olhos diante da maior especialização da área e o aumento do uso intensivo de computação etc. Sobre suas críticas, acho que elas não estão associadas à coorientação, mas à coorientação ruim; e, em um sentido mais amplo, à orientação ruim.

    1. Oi Flávio, a discordância é muito bem-vinda aqui, quando feita com civilidade, como no seu caso. Obrigado pelas informações trazidas ao debate! Bom, voltando ao ponto, você tem razão. Muito do que escrevo aqui tem o viés do meu nicho dentro da ciência, que envolve a interface entre algumas tribos específicas, como Ecologia, Zoologia, Botânica, Conservação, Redes Complexas, Estatística etc. Alguns costumes realmente diferem entre tribos. Que bom que o esquema de coorientação tem dado certo na sua área, mesmo em outros países. Na minha área, o que vejo funcionando bem e crescendo com sucesso na comunidade internacional são as colaborações, não as coorientações. Às vezes a diferença entre uma coisa e outra é mais sutil do que parece. Acho que a colaboração, e não a coorientação, é a chave para transdisciplinaridade e para a autonomia dos aspiras. Quanto à diferença entre coorientação boa e ruim, eu diria que a fronteira é tênue, logo todo cuidado é pouco. O segredo é definir os papeis de cada um dos envolvidos de forma bem transparente desde o início. Um abraço!

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s