Sete perguntas incômodas para ajudar você a definir o seu perfil como orientador

Depois que um aspira conclui a Jornada do Cientista e se estabelece na Academia, uma das primeiras missões da “vida adulta” é descobrir que tipo de orientador ele é e, portanto, que tipo de grupo de pesquisa gostaria de montar. Vamos refletir sobre isso.

Este é mais um texto que escrevo na linha da introspecção e do autoconhecimento, como aquele outro sobre o ikigai. Desta vez, vou voltar à questão da orientação, um dos pilares da Academia, pois envolve a formação das novas gerações de cientistas. Aqui já escrevi, por exemplo, sobre a importância de um bom orientador, a natureza da relação orientador-aspira e o que fazer quando você não curte o seu orientador. No livro do blog, que acaba de ser publicado, falo também aos novatos sobre o que fazer quando você não curte o seu aluno (texto inédito!).

Mas, Marco, eu comecei a orientar alunos bem cedo, então já sei qual é o meu perfil.

Calma, meu caro novato, as coisas não são tão simples assim. No Brasil, muitas vezes, mestrandos, doutorandos e postdocs atuam como coorientadores formais ou informais de aspiras mais novos, mesmo que isso seja arriscado por diversas razões. Assim, na prática, a experiência no campo da orientação acadêmica começa cedo demais para muitos de nós, quando ainda estamos longe de ter maturidade para cuidar dos outros. No meio de toda essa maluquice, é comum vermos algumas distorções surreais, como alunos de iniciação científica “orientando” outros alunos de iniciação científica. É óbvio que alunos mais experientes devem ajudar alunos mais novos, mas orientação de verdade é uma tarefa que cabe aos cientistas que já concluíram sua jornada. Infelizmente, começar cedo não garante que nos tornemos bons orientadores, pelo contrário, pode gerar vícios e traumas.

Distorções como essa levam novatos a ficarem confusos quanto ao próprio perfil como orientadores. Alguns acumulam experiências tão negativas, que ficam reticentes e criam barreiras para afastar aspiras. Deveríamos conversar mais abertamente sobre esse tema, de modo a permitir que os novatos ponderem melhor sobre qual caminho devem seguir e evitem cometer erros tolos.

Variáveis que definem um grupo de pesquisa

É bom considerar que diferentes variáveis definem o jeitão de um grupo de pesquisa. A configuração adequada ao seu perfil é uma coisa que só você vai descobrir através de reflexão e prática. Eu diria que as variáveis mais importantes são: (i) tamanho do grupo, (ii) perfil dos aspiras, (iii) nível de disciplina, (iv) nível de cobrança e (v) aspirações profissionais dos egressos. Em um primeiro cenário hipotético, um orientador novato pode, por exemplo, descobrir que atinge o seu ótimo de rendimento com um laboratório pequeno, composto apenas por alunos muito estudiosos, com uma disciplina de trabalho bem rígida, mantendo cobrança firme em termos de prazos e metas, e tendo por objetivo formar novos cientistas. Em um segundo cenário, outro novato pode partir para o caminho de fundar um laboratório grande, com perfis múltiplos de aspiras, disciplina hierárquica, nível de cobrança flexível e tendo por missão formar não apenas cientistas, mas também outros tipos de profissionais que usam a ciência. Não existe certo e errado nessa questão, apenas adequado e inadequado ao perfil do coordenador do laboratório.

O truque é você, novato, descobrir qual configuração te faz atingir o seu ótimo de rendimento. Independente do proxy usado para medir rendimento (fator de impacto médio das revistas em que os artigos do grupo são publicados, número de citações desses artigos, número de patentes registradas etc.), o importante é identificar os fatores que fazem o rendimento variar. Um dos fatores fundamentais que afetam o rendimento de um orientador novato e do respectivo laboratório é o tamanho do grupo em termos do número de aspiras. Minha opinião é que toda curva “tamanho vs. rendimento“, no caso de grupos de pesquisa, tem a forma de um sino. Ou seja, no começo da curva, cada aspira adicionado ao grupo aumenta o rendimento pessoal do orientador e do grupo como um todo, pois aumenta o número de cabeças pensantes e há mais mãos para realizar as tarefas cotidianas. Contudo, depois a curva se estabiliza, porque cada aspira novo adicionado ao grupo representa não apenas ganho, mas também gasto de tempo, energia e verba por parte do orientador. Ao final, o rendimento tende a cair quando o grupo fica inchado demais, porque a atenção e os recursos do orientador ficam tão diluídos, que ele não consegue mais se dedicar o suficiente a cada aspira. A menos que o orientador consiga atrair verbas abundantes e montar uma cadeia de comando bem eficiente, formando um grupo que contenha também técnicos e postdocs além dos aspiras. Agradeço ao colega Marcos Callisto pelo insight sobre essa relação.

Na figura abaixo, a linha tracejada indica o ponto ótimo no eixo X que cada orientador deveria tentar identificar. O fator de impacto das revistas é apenas um exemplo dos possíveis termômetros do rendimento do laboratório. Recomendo usar mais de um termômetro, todos ajustados às suas convicções e metas profissionais.

tamanho-vs-rendimento

Mas, Marco, então qual deve ser o tamanho do meu grupo?

Cabe a você, novato, descobrir isso sozinho. Alguns cientistas gostam de ter entre 1 e 5 alunos, outros trabalham bem com um grupo entre 5 e 10 alunos; há até mesmo aqueles que precisam marcar reunião de laboratório no Maracanã. Vou tentar te ajudar a pensar sobre essa e outras variáveis.

Os pressupostos da nossa conversa

Antes de prosseguirmos, quero deixar claro que, aqui, estou partindo de três pressupostos:

  1. Você não é um aspira, mas sim um novato; isto é, já conquistou o título de doutor e acaba de ganhar o seu primeiro emprego estável em uma universidade, instituto de pesquisa, indústria, empresa etc.;
  2. Você é um bom cientista, com um belo registro de descobertas reportadas através de publicações feitas em revistas importantes nas suas áreas de interesse;
  3. Você é um profissional ético e responsável, preocupado com a formação de novos cientistas;

Bom, se você furar o pressuposto (1), leia este texto com cautela, pois ainda vai levar um tempo até você passar de verdade pela experiência de ser responsável por um laboratório e orientador principal de aspiras; na prática, às vezes a teoria é outra. Se você atender o primeiro, mas furar os pressupostos (2) ou (3), deixe este texto para lá e mude de carreira. Se você atender todos esses três pressupostos, maravilha, prossiga na leitura.

Quero propor sete perguntas incômodas para te ajudar a definir o teu perfil como orientador. Faça essas perguntas a você mesmo e medite cuidadosamente sobre as respostas. Note que, atendendo todos os três pressupostos acima, não há respostas certas ou erradas para as perguntas abaixo. Não tenho fórmulas mágicas para oferecer a ninguém. Quero apenas estimular a reflexão.

(1) Que tipo de pessoa eu sou?

A primeira pergunta menor dentro dessa pergunta maior é: você gosta mesmo de humanos? Falando francamente, se você não curte a companhia dos membros da sua espécie, nem pense em montar um laboratório. É melhor conseguir um emprego de pesquisador independente, sem cargo de liderança, talvez como freelancer. Se gosta de humanos, você tem medo da solidão ou da multidão? Isso é fundamental para definir o tamanho do grupo que você pretende criar. Pode ser arriscado um cientista introvertido formar uma equipe gigante, a menos que desenvolva um bom método de gerenciamento adequado para superar suas limitações no trato interpessoal. Já se você for um extrovertido nato, pode precisar diluir sua energia entre as pessoas de um grupo grande, pois poderia sobrecarregar de atenção as pessoas em um grupo pequeno. Além disso, você gosta de centralizar decisões ou prefere delegar responsabilidades? Se for do tipo centralizador, talvez seja melhor fundar um laboratório pequeno, no qual possa acompanhar cada aspira de perto. Se for uma pessoa com perfil de gerente corporativo, pode ser que consiga criar uma estrutura hierárquica eficiente, capaz de fazer um grupo maior do que 10 pessoas trabalhar sintonizado.

(2) Qual é a dimensão da minha paciência?

Você tem paciência com crianças? Pergunto isso, pois muitos aspiras das novas gerações chegam imaturos e mimados na universidade. Logo, é preciso ser capaz de lidar com crianças grandes, algumas delas cursando mestrado ou doutorado, incapazes de ouvir “não” ou lidar com frustração. Independente disso, não se esqueça de uma coisa: você vai ficando cada vez mais velho, porém os alunos entram na graduação, em média, sempre com a mesma idade. Assim, a diferença de idade e o choque de gerações entre você e seus orientados só cresce com o tempo. Aprenda a lidar com isso e não tente bancar o Peter Pan. Outra coisa importante: você tem paciência com alunos teimosos? Se não tiver, selecione bem os seus orientados e prefira os mais abertos a críticas, pois essa pode ser uma fonte de estresse bem séria. Que tipos de erro você é capaz de tolerar? Tem pessoas que são verdadeiros santos e toleram todo e qualquer tipo de erro, enquanto outras não toleram sequer erros de ortografia. Outras pessoas separam claramente erros profissionais de falhas de caráter, sendo capazes de tolerar uns, mas não outros. Você curte orientar apenas os alunos mais inteligentes ou tem paciência para orientar também os mais limitados? Não adianta dar murro em ponta de faca, especialmente no que se refere à capacidade intelectual mínima que você espera dos seus alunos.

(3) Qual é a dimensão da minha humildade?

Você é do tipo que chora de alegria quando um aluno seu recebe um prêmio? Ou você é do tipo que não suporta ver alguém brilhar mais do que você no laboratório? Você tem humildade suficiente para reconhecer os seus erros e limitações, especialmente se tiver que orientar pessoas bem mais inteligentes do que você? Não apenas os aspiras têm que ser humildes, mas os orientadores também. Nada é melhor para a humildade do que conviver com pessoas melhores do que você, que te puxam para cima.

(4) Qual é a minha praia na ciência?

A ciência com a qual você trabalha e a subárea dentro dela na qual se especializou influenciam muito o tamanho do laboratório que você precisa montar e o perfil das pessoas que vai colocar dentro dele. No caso do perfil dos seus aspiras, há diferenças enormes entre subáreas de uma mesma ciência, sendo que estudantes com diferentes tipos de personalidade podem se enquadrar melhor em uma subárea do que na outra. Via de regra, laboratórios mais empiricistas precisam de uma equipe maior e com mais habilidades manuais do que laboratórios mais teóricos, que funcionam bem com equipes pequenas formadas por pessoas mais cerebrais. Para exemplificar, na Ecologia há laboratórios que focam mais no trabalho de campo, enquanto outros cultuam o trabalho de bancada e outros piram na análise de dados. Diferentes alunos se adaptam a diferentes laboratórios.

(5) Que tipo de profissional eu quero formar?

Essa é uma das perguntas mais importantes, pois é fundamental que você se orgulhe dos alunos que educa. Cada cientista tem a sua própria visão da ciência, assim como preferências pessoais sobre temas, abordagens e métodos. Enquanto alguns orientadores preferem educar aspiras com perfil bem específico, outros são capazes de educar aspiras dos mais variados tipos, bem diferentes entre si. Pense sobre o quão generalista como orientador você é. Não adianta reclamar de peixes que só conseguem nadar e aves que preferem voar.

(6) De qual infraestrutura eu disponho?

Depois de refletir com cuidado sobre sua personalidade, preferências e metas, você precisa comparar as suas expectativas com a realidade. Pode ser que você conclua que adoraria formar uma equipe grande, com 30 membros (aspiras + técnicos + postdocs), mas acabe sendo contratado por uma universidade que sequer vai te dar uma cadeira para sentar nos primeiros anos. Ou seja, às vezes, o ajuste à realidade pode ser bem duro e te obrigar a atuar longe do seu ótimo. Entretanto, se a infraestutura que te derem for absurdamente inadequada ao seu perfil e não tiver perspectivas de melhorar, considere seriamente a possibilidade de mudar de emprego. Hoje em dia, prestar mais de um concurso e mudar de universidade está deixando de ser tabu, mesmo que, em algumas instituições mais provincianas, muitas pessoas ainda se comportem como membros de seitas. De que adianta ter um emprego vitalício, se você sofre para levantar da cama e ir trabalhar todo dia?

(7) “Você diz que seus pais não te entendem, mas você não entende seus pais?”

Lembra quando você mesmo era um aspira e teve conflitos com algum dos seus orientadores? Agora, no papel do mestre, você está repetindo os mesmos erros que criticava? Ou por outro lado, estando do outro lado do contínuo, você percebe que alguns dos “erros” dos seus antigos mestres na verdade não eram de fato erros? É muito importante fazer esse tipo de comparação para amadurecer e até mesmo quebrar maldições.

Conclusão

Como em tudo na carreira acadêmica, é fundamental conhecer bem a si mesmo para se tornar um bom orientador. Não é errado ser seletivo ou generalista, mais rígido ou menos rígido, formar equipes menores ou maiores. Errado é não refletir com cuidado sobre qual é o seu perfil e que tipo de aluno você é bom em orientar. Não pensar sobre essas coisas pode te levar a desperdiçar muito tempo, energia e dinheiro público. Aprenda a dizer não sem se explicar demais.

Conselho final

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Enquete divertida para auto-reflexão

Em qual perfil de orientador, dentre os caricaturados abaixo, você acha que se enquadra melhor? Eu gostaria muito de saber como os meus colegas enxergam a si mesmos, mesmo que só por curtição (rs). As respostas individuais serão mantidas anônimas.

orientadores dent cartoon

Fonte da imagem.

 

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3 Replies to “Sete perguntas incômodas para ajudar você a definir o seu perfil como orientador”

  1. Enquete respondida…hehe.

    Uma questão: na linha dos “2 masters”, como você vê um grupo de pesquisa com 2 co-líderes?
    As vezes, por motivos variados, a coisa se “encaixa” desta maneira: recursos, lab, programa de pós, trabalhar realmente em grupo… Você acha “impossível” que isso dê certo?
    Abç.

    1. Impossível não é, mas é complicado se não houver uma hierarquia clara entre os coordenadores. Na verdade, grupos de pesquisa multiprofessor são uma excelente forma de usar recursos púbicos de maneira mais eficiente, especialmente no caso de pesquisas que requerem equipamentos caros. Contudo, a coisa só funciona bem, se um dos professores for o coordenador geral e tiver poder para mandar nos outros. Já vi tentativas de fazer grupos mistos mais horizontais fracassarem devido ao “efeito república”: sempre acaba sobrando um monte de louça suja na pia para alguém lavar e um dia a pessoa se cansa, rs.

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