Mente acadêmica, mente de principiante

Um cientista tem que manter um equilíbrio entre humildade e ousadia na carreira. Aqui vou focar em um aspecto fundamental da humildade: a mente de principiante.

Primeiro, quero deixar claro que não estou falando aqui da falsa humildade, demonstrada por colegas que sempre falam de si mesmos e de suas publicações de forma supostamente depreciativa, mas que, no fundo, se acham a única pipoquinha doce do saco rosa. São aqueles aspiras que ouvem críticas e sugestões do orientador com calma e até agradecem, mas depois fazem o oposto ao recomendado, por pura teimosia. São também alguns novatos, que chegam para você dizendo “olha só, publiquei um trabalhinho aqui” e, logo em seguida, mesmo sem serem perguntados, dizem como quem não quer nada que o paper saiu na revista mais top do momento. Ou até mesmo mestres que parecem gente boa no convívio da universidade, mas que acabam se tornando verdadeiros déspotas, quando ganham um micropoder acadêmico qualquer.

Bom, voltando ao ponto: shoshin (初心) é uma ideia recorrente nas religiões  e filosofias orientais, sendo um dos pilares do zen-budismo japonês. É também o título de um famoso livro chamado “Zen mind, beginner’s mind“, escrito por Shunryu Suzuki em 1970. Na prática, shoshin significa manter-se sempre aberto ao aprendizado. Isso inclui todas as formas de absorver conhecimento e habilidades, como por exemplo o estudo formal, a leitura, as sugestões de bancas de conclusão de curso, as críticas recebidas no sistema de peer review e o que a gente aprende na rua das fontes mais insuspeitas.

Uma máxima do Suzuki Sensei explica bem esse conceito: “na mente do principiante há muitas possibilidades, na mente do perito há poucas”. Ou seja, se você acha que já aprendeu suficiente sobre um determinado assunto, bloqueia sua mente e perde a oportunidade de aprender cada vez mais.

Um bom cientista é um trabalho em andamento. Na minha carreira, conheci muitos aspiras que pareciam promissores, mas cuja arrogância acabou tirando-os da jornada. Também topei com novatos rising star, que por arrogância acabaram virando gigantes vermelhas e depois apagando. Ousadia é fundamental para o cientista, mas arrogância é o exagero da ousadia, que envenena mente e espírito.

“Mas, Marco, por que devo manter uma mente de principiante, mesmo depois que já tiver conquistado alguns títulos acadêmicos?”

Se você ainda não entendeu, apresento-lhe três razões, meu caro aspira ou novato:

(1) Uma pessoa com “mente de perito” fica cega para as próprias limitações. Ninguém é bom em tudo e, mesmo nas coisas em que uma pessoa acha que é fera, ela tem limitações. Sempre há alguém melhor do que você em qualquer coisa que pensar; mesmo um grande campeão sempre acaba substituído por outro. Um cientista arrogante briga até mesmo com editores e revisores de revista, perdendo belas oportunidades de melhorar papers que, na verdade, não estão tão maravilhosos quanto o “perito” pensa.

(2) Uma pessoa com “mente de perito” deixa de tentar aprender coisas novas, porque acha que já tem conhecimento suficiente. Especialmente no mundo acadêmico, isso é mortal. Novidades aparecem o tempo todo. Ideias sólidas são derrubadas de repente. Abordagens novas sempre jogam luz sobre velhos problemas mal-resolvidos. Se um cientista para de aprender coisas novas e se torna uma eterna repetição de si mesmo, deixa de ser um cientista. Por exemplo, um aspira que começa a se achar perito cedo demais fica impermeável a conselhos e sugestões, o que pode matar por asfixia seu cérebro.

(3) Uma pessoa com “mente de perito” se torna insuportável na convivência social. Isso porque um ego inflado tende a ficar cada vez maior, ainda mais se a pessoa em questão for um aspira e trabalhar em um ambiente com média de desempenho muito baixa. Ninguém faz ciência sozinho; logo, ter pelo menos um pouco de inteligência emocional e social é importante. Como o passar do tempo, o “perito” afasta pessoas que poderiam lhe alçar a novos patamares e acaba atraindo apenas parasitas que o puxam para baixo.

É bom lembrar que um mestrado é equivalente a uma faixa marrom em artes marciais, enquanto um doutorado é equivalente a uma faixa preta. Depois da faixa preta não vem o fim: ainda há muitos dans a conquistar. E, depois dos dans, um verdadeiro grão-mestre (faixa vermelha e branca) deixa de se importar com faixas.

Reflita sobre isso e mantenha a sua mente de principiante. A Academia seria uma comunidade bem mais agradável e produtiva, se aspiras, novatos e mestres reservassem em seus laboratórios mais espaço para os livros do que para os egos.

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Fonte da imagem.

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14 Replies to “Mente acadêmica, mente de principiante”

    1. Oi Endell, obrigado, boa sugestão. Já comentei en passent sobre isso no post sobre pós-graduação, mas concordo que valeria a pena um post exclusivo focado no tema.

      1. Oi, Marco!
        Também mandei pro pessoal aqui.
        Excelente trazer conceitos das filosofias orientais pra nossa vida. Gosto muito deste livro.
        Você recomenda algum outro do mesmo autor?
        Obrigada.
        Manoela

        1. Oi Manoela, desse autor, só li esse livro mesmo. Mas recomendo outros livros zen clássicos: (i) A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen (Eugen Herrigel, 1984), (ii) A Tigela e o Bastão ( Taisen Deshimaru, 1988) e (iii) An Introduction to Zen Buddhism (DT Suzuki, 2014).

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