O que deveria ser considerado ao se montar uma banca de defesa?

Dentre as grandes provas enfrentadas na Jornada do Cientista, destacam-se as defesas de bacharelado, mestrado e doutorado. Infelizmente, essas bancas nem sempre são tão isentas quanto deveriam ser. Que tal mexermos mais uma vez em um tema espinhoso?

Este texto foi escrito para aspiras e novatos e visa estimular a reflexão e discussão. Como sempre gosto de deixar claro quando escrevo ensaios ou desabafos (dois dos três principais tipos de texto aqui no blog), aqui vou apresentar o meu ponto de vista e não o 11º mandamento.

Começando pelo princípio, há orientadores que escolhem os membros da banca à revelia do candidato, mas a maioria dá abertura para sugestões. Bom, na minha opinião, um dos costumes mais estranhos na Academia é justamente essa liberdade de os maiores interessados poderem escolher quem os julga.

“Mas, Marco, porque você acha isso estranho?”

Meu caro aspira ou novato, simplesmente porque o processo deveria ser o mais isento e rigoroso quanto possível. Pense em como é feito o peer review de manuscritos submetidos para publicação em revistas científicas. Compare agora o rigor do peer review com o rigor da grande maioria das bancas de defesa acadêmica. Há um certo descompasso entre esses dois tipos de avaliação, não?

O ponto mais importante nesse debate é que a avaliação da qualidade de um aspira de qualquer nível acadêmico não é apenas do interesse dele e do orientador. O interesse principal é da sociedade, ainda mais em programas de pós-graduação financiados com dinheiro público em países com grandes desigualdades educacionais e sociais. Quem recebe um título de mestre ou doutor ganha implicitamente um endosso como autoridade científica.

Infelizmente, graças à liberdade na montagem da banca, alguns orientadores e aspiras malandros acabam “dando um jeitinho”. É comum ver gente convidando para bancas acadêmicas os amigos do “clube do churrasco”. Alguns têm a cara de pau de incluir na banca até mesmo coorientadores do aspira e coautores dos papers da tese. Dentre as bancas das quais participei ou que apenas assisti, vi variações de 0 a 100% de camaradagem. Sim, algumas bancas são compostas apenas por “gente a favor”.

Esse problema ocorre não apenas no Brasil, mas também em outros países. O certo, para que uma defesa fosse realmente isenta e rigorosa, seria a banca ser escolhida pelo colegiado do programa de pós-graduação, sem interferência das partes interessadas. Espero que um dia o sistema mude, mas enquanto isso temos que fazer o melhor possível com o que temos.

Assim, o que deveria ser considerado ao se montar uma banca de defesa, de modo a tornar o processo mais sério?

(1) Uma banca de defesa endossa para a sociedade quem é cientista ou não.

Já comentei sobre esse endosso social, que é muito sério. Há casos registrados em países subdesenvolvidos de picaretas que conseguiram títulos acadêmicos fajutos, muitas vezes envolvendo plágio. Usando seus troféus como fonte de ethos, eles fizeram vários estragos nas respectivas sociedades (veja um desses casos). Há casos de títulos forjados até mesmo em países desenvolvidos (veja outro caso).

É óbvio que tanto orientador quanto aspira anseiam pela aprovação. E é justamente por causa desse conflito de interesses que a banca não deveria ser escolhida por eles. Além disso, é preciso ressaltar que uma banca avalia não apenas o trabalho de conclusão em si (monografia, dissertação ou tese), mas também o aspira e seu desenvolvimento como cientista.

Portanto, toda banca deveria ser o mais isenta quanto possível, congregando pessoas de fora do círculo pessoal e profissional do candidato.

(2) Uma banca de defesa deve fazer um peer review parecido com o de revistas.

A tese é apenas um documento usado para avaliar o candidato e permitir que ele cole grau. O texto depois fica arquivado na biblioteca da respectiva universidade e não é lido por quase ninguém além de aspira, orientador e banca.

Se a pesquisa feita pelo aspira for contada para o mundo apenas através da tese, sem nunca ser publicada de verdade em um veículo científico reconhecido pela comunidade internacional da área temática, é como se o projeto nunca tivesse sido feito. Publicar descobertas científicas na forma de artigos, livros técnicos e patentes é fundamental.

Portanto, também cabe aos membros da banca apontar melhorias no trabalho de conclusão que facilitem a sua publicação formal, não apenas discutindo os pontos mais importantes ao vivo, mas também entregando ao candidato um parecer escrito sobre o trabalho.

(3) Uma banca de defesa deve ser parecida com um julgamento criminal.

Um dos pilares da ciência é o costume de, ao invés de tentarmos provar pontos, trabalharmos duro para desmontar interpretações e questionar até mesmo a veracidade de fatos. Sólido é o conhecimento que não se consegue derrubar.

Além disso, já que cabe à banca avaliar tese e aspira em conjunto, no final das contas ela concentra os papeis de juri e acusação; a defesa cabe ao candidato sozinho. Se conquistar um mestrado é como receber uma faixa marrom e conquistar um doutorado é como receber uma faixa preta, o combate na hora do exame de faixa não deve ser feito ao estilo “WWE Raw Tag Team”, pedindo ajuda a quem está fora do ringue.

É natural que, em trabalhos científicos, muitas coisas tenham dois ou mais pontos de vista possíveis. Mas, independente do ponto de vista do aspira sobre cada interpretação de cada resultado ou a adequação de cada método, o mais importante é ele ser capaz de justificar o trabalho ponto a ponto. Aspiras preguiçosos costumam “terceirizar a tese“, por exemplo, pedindo a um colega para fazer os gráficos, a um segundo colega para fazer a análise estatística e a um terceiro colega para dar um gás na redação. Essa preguiça sempre é desmascarada na hora da defesa, quando o aspira tem que explicar tudo sozinho.

Portanto, devem ser convidadas para a banca pessoas com diferentes visões sobre o tema da tese, que sejam capazes de montar três “teses de acusação”: (i) as conclusões do trabalho não se sustentam (importante para avaliar se foi gerado conhecimento científico confiável ou não), (ii) o trabalho não é obra do aspira (importante para avaliar se houve plágio ou terceirização) e (iii) o aspira não se tornou um cientista de verdade (importante para avaliar se o candidato merece o endosso ou não). O aspira que consegue desmontar essas teses de acusação merece de verdade o título, pois conseguiu defender-se no sentido estrito da palavra.

Conselho final

Títulos acadêmicos nunca deveriam ser outorgados com base em politicagem, camaradagem ou pena. Endossar novos cientistas para a sociedade é uma responsabilidade seríssima e a forma como um endosso desses é feito diz muito sobre as práticas da respectiva comunidade acadêmica.

banca

Fonte da imagem.

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10 respostas para “O que deveria ser considerado ao se montar uma banca de defesa?”

  1. Olá Marco,
    Parabéns por mais um excelente texto que servirá de base para discussões muito úteis.
    Tenho sugestões de itens para pautas futuras:
    1) Como você vê a “indicação de potenciais referees” prática já usada por alguns journals e agora chegando ao Brasil?
    2) Como você vê o futuro da revisão por pares? O número gigantesco de papers a serem avaliados tem feito a tarefa de referee se tornar exaustiva e não recompensada. Tem muito material ruim sendo publicado por falta de um peneiramento mínimo no processo peer review.
    Saudações alvinegras.

    1. Obrigado, Vinicius. Sou totalmente a favor, especialmente no caso do doutorado, pois os alunos têm mais tempo para concluir pelo menos um artigo, tomar pau em uma ou duas revistas e conseguir ter o trabalho aceito em uma terceira. O ponto todo do doutorado é o aspira ser formado como cientista. Uma das principais provas (não a única) de ter aproveitado bem a formação é ser capaz de publicar um artigo científico em uma revista internacional. Isso porque, para publicar bem, é preciso convencer pessoas de fora do seu círculo social que você realmente fez uma descoberta científica. Veja outro texto em que toquei nessa questão.

  2. Bom texto, de fato Marco. Vejo muito na minha área, que é a Psicologia, por ser um tanto fragmentada em diversos posicionamento teóricos, alguns com mais evidência, outros menos, bancas de avaliação montadas só entre os que praticamente já aprovariam de qualquer maneira os trabalhos, independente da qualidade.

    Queria saber sua opinião sobre a possibilidade de participação da audiência numa avaliação de Mestrado ou Doutorado. Penso que seria interessante se elas contassem com um momento para que os interessados pudessem fazer comentários sobre o trabalho, para além dos avaliadores da banca. A audiência geralmente é composta de colegas dos estudantes que servem de testemunhas da fidedignidade do procedimento de avaliação. Porém, se as defesas fossam abertas e divulgadas pela universidade, poderíamos ter também membros mais imparciais nas audiências que possivelmente levantariam considerações importantes sobre os trabalhos.

    1. Oi Victor, obrigado. Sim, infelizmente, essa divisão forte em “escolas de pensamento” acontece em várias áreas aqui no Brasil, sendo particularmente forte em algumas ciências humanas, especialmente na educação; em alguns outros países há também divisões, mas não tão tribais. Certamente isso influencia as bancas de conclusão de curso. Quanto à participação do público na arguição, sou totalmente a favor. Quando presido bancas, sempre deixo claro para o público que eles podem fazer perguntas, se quiserem.

    1. Obrigado pela dica! É sempre interessante analisar esses casos e ver onde as pessoas erraram, em termos de não detectarem esses problemas éticos a tempo.

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