Seja grato aos seus ancestrais acadêmicos

Seguindo a tradição budista do Higan (お彼岸), celebrado semana passada no dia 21/3, equinócio de outono, gostaria de falar sobre um tema fundamental também na Academia: a gratidão aos ancestrais.

Como não me canso de repetir aqui no blog, ninguém aprende a fazer ciência sozinho. Às vezes até encontramos pelo caminho alguns “alunos ferais” ou outros tipos de pessoas arrogantes, que se auto-intitulam “self-made scientists“. Na esmagadora maioria dos casos trata-se apenas de amadores vivendo uma triste ilusão de profissionalismo. Os verdadeiros profissionais têm humildade suficiente para se submeterem ao treinamento dado por um sensei. Eles reconhecem o valor dos ombros dos gigantes sobre os quais subiram.

O ponto é que um bom orientador é fundamental para um aspira concluir cada etapa da Jornada do Cientista. Quem tem sorte pode até encontrar um mentor que o guie de forma mais próxima e pessoal. Assim, orientadores e mentores são nossos ancestrais acadêmicos em primeiro grau. E os mestres dos nossos mestres também são nossos ancestrais acadêmicos em segundo, terceiro ou mais graus. É possível até traçar genealogias acadêmicas, como fazem alguns colegas. Você pode ficar surpreso se fizer esse exercício; talvez descubra até que uma grande personalidade da ciência é a sua “bisavó científica”.

Por isso, mostre gratidão sempre que puder. Se a sua orientadora ou mentora ainda estiver viva, diga sempre que possível o quanto ela contribui para a sua formação. Cada vez que a sua orientadora lhe fizer um elogio, ou der um conselho ou uma bronca, por menores que sejam, agradeça de forma irrestrita. Se, infelizmente, a sua mentora já tiver morrido, honre a memória dela, contando para os colegas as coisas boas que ela fez por você. Sempre reverencie quem te passou conhecimento, abriu portas e apontou caminhos.

Mostre gratidão também de maneira formal, inclusive em trabalhos de conclusão de curso e publicações. Especialmente em monografias, dissertações e teses, onde o espaço para a seção de agradecimentos é ilimitado, não seja econômico ao reconhecer cada pessoa que ajudou você no trabalho específico em questão ou na sua jornada como um todo. Agradeça tanto os seus ancestrais acadêmicos, quanto outros sensei que você teve a sorte de encontrar pelo caminho. Por exemplo, algum professor que nunca te orientou, mas sempre esteve disposto a te aconselhar e amparar. Ou um outro professor que ministrou uma daquelas disciplinas transformadoras, que viram sua carreira de cabeça para baixo. Não adianta dizer para um sensei que ele teve um papel importante na sua formação, mas no dia da defesa de mestrado ele notar que sequer foi mencionado nos slides e textos de agradecimento.

Não faça como alguns aspiras egocêntricos das gerações Z e millenial, que, em seus agradecimentos “concisos”, dão a impressão de que os professores no máximo não os atrapalharam. Há muitos professores ruins por aí? Sim, claro. Mas duvido que, após no mínimo 25 anos de jornada (infantil + fundamental + básico + graduação + mestrado + doutorado), você não tenha encontrado ao menos um bom professor que fez diferença na sua carreira.

Neste Higan, dedico este texto à memória da minha grande mentora, Elisabeth Kalko, que me ensinou a fazer ciência e me mostrou o lado iluminado da Academia.

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4 Replies to “Seja grato aos seus ancestrais acadêmicos”

  1.  Excelente postagem.AtteDr. Augusto Fachín TeránCoordenador do Programa de Pós-Graduação em Educação e Ensino de Ciências na Amazônia (PPGEEC). Mestrado em Educação em Ciências na Amazônia. Editor da Revista AretéE-mail: fachinteran@yahoo.com.brUniversidade do Estado do Amazonas (UEA) – Escola Normal Superior (ENS). Avenida Djalma Batista, 2470, Chapada – Manaus – Amazonas. CEP: 69050-010 . Tel. (92) 3878-7726@Research Gate @GoogleScholar @Curriculo Lattes  Visite os sites relacionados com o nosso Programa@Revista Areté @SECAM@Grupo de Pesquisa @Mestrado em Educação em Ciências

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