Use a sua posição de poder para melhorar a Academia

Assédio moral, assédio sexual, serial bullying, plágio e fraude. Infelizmente, esses são termos que ouvimos cada vez com maior frequência na Academia. E, sim, você pode ajudar a melhorar a situação.

Blogs como o Retraction Watch e jornais como o The Chronicle of Higher Education não nos deixam desviar os olhos do lado sombrio da Academia. Contudo, é mais cômodo pensar que as tretas listadas lá no começo deste texto acontecem apenas no país dos outros. O problema é que o desconforto vai ficando cada vez maior, quando você fica sabendo de casos ocorridos também no seu país. A coisa complica mais ainda, no dia em que você vê uma notícia de um caso ocorrido na sua própria universidade. Qual será o último refúgio de Pilatos: dizer que isso só acontece no laboratório dos outros?

Não adianta tapar o Sol com a peneira. O lado sombrio faz parte da alma humana e qualquer profissão ou instituição tem algum grau de sujeira embaixo do tapete, mesmo que seja apenas fofoca e mesquinharia. Logo, é tolice fazer como muitos aspiras inocentes, que abandonam a Academia por achar que ela é sombria demais, apostando que vão encontrar mais luz em outros lugares. Onde houver humanos, haverá sombras.

O que você pode fazer, se tiver certeza de que está na profissão certa, é tentar se proteger e melhorar o microcosmo onde trabalha. Nessa linha, dada essa enxurrada de péssimas notícias sobre práticas acadêmicas que variam do desrespeito ao crime, uma pergunta tira o sono de quem tem pelo menos um pouco de empatia: esses problemas têm aumentado de frequência ou apenas têm sido noticiados mais abertamente?

Eu diria que essa pergunta deve, sim, ser respondida em algum momento. Contudo, respondê-la é bem complicado e talvez esse não deva ser o nosso foco. Há uma pergunta mais importante, que cada um de nós deve fazer a si mesmo, e que merece resposta mais urgente:

O que eu posso fazer para melhorar a situação?

Tendo essa pergunta como norte, este texto foi escrito não com foco nos aspiras, mas sim nos novatos e seniores. “Mas, Marco, por que você está se dirigindo principalmente aos faixas pretas, neste caso?” Simples. Aqui estou me baseando em um princípio: quem tem mais chance de mudar a situação é quem ocupa posições de poder.

Parto desse princípio porque aspiras, algumas vezes, não têm maturidade suficiente para diferenciar bronca justa de assédio, por exemplo, e tampouco conhecem a máquina burocrática das universidades por dentro. Já vi aspiras fazendo reclamações justas, mas de forma infantil ou pelas vias erradas, levando casos relevantes ao arquivamento. O mais importante é que as pessoas que já ocupam cargos estáveis, especialmente se forem cargos vitalícios, têm mais experiência e têm menos a perder ao comprarem brigas com os colegas. Vale lembrar ainda uma coisa: quem já é professor tem a chance de ocupar cargos administrativos que conferem poder concreto para mudar normas institucionais e instaurar inquéritos da maneira correta.

Infelizmente, para cientistas em todos os níveis da carreira, a Academia é especialmente suscetível a problemas como serial bullying, especialmente por causa da assimetria de estabilidade no emprego e da falta de mecanismos de controle independentes. Postdocs são especialmente suscetíveis a assédio moral, por exemplo, porque estão na fase final da Jornada do Cientista, dispostos se submeterem a quase tudo, porque investiram pesado na carreira e não querem desistir perto do final. Aqui neste texto não tenho uma solução mágica a oferecer, porque essa questão é extremamente complexa. Logo, limito-me a fazer apenas duas recomendações:

  1. Se você for um novato ou senior, não faça vista grossa para os problemas de quem está abaixo de você na hierarquia. Aspiras com problemas entre si podem representar de fato apenas uma questão de “briga de criança”, como alguns pensam. Contudo, casos de aspiras com problemas relacionados a superiores hierárquicos devem levantar uma bandeira amarela e levar a um exame mais cuidadoso. Dependendo da gravidade do caso e das evidências disponíveis, a solução pode ir desde uma reunião conciliatória com os envolvidos até um processo administrativo ou mesmo um processo na justiça comum, em último caso. E os réus e vítimas podem ser tantos os aspiras, quanto os faixas pretas, pois contravenção e crime não são exclusividade de ninguém.
  2. Se você for um aspira ou postdoc, por um lado, não tenha medo de denunciar abuso de todo tipo. Converse com pessoas de confiança em posições de poder e procure os canais oficiais de reclamação. Mas, por outro lado, não caia na moda do denuncismo venenoso das redes sociais (uma forma moderna de “caça às bruxas”; veja aqui um dos casos mais bizarros), que destrói reputações apenas por maldade ou leviandade, e trivializa um tipo de problema que é sério demais e não pode cair em descrédito.

“Mas, Marco, por que você insiste em falar sobre essas coisas desagradáveis, ao invés de apenas nos dar dicas técnicas?”. Meu cara aspira, faço isso para tentar quebrar maldições e contribuir para a nossa Academia evoluir. Já vi muitos jovens cientistas promissores se deixarem seduzir pelo lado sombrio da Força, transformando-se em verdadeiros Anakin Skywalkers acadêmicos, tão logo ganham acesso a um micropoder qualquer. Assim, perpetuam o ciclo de péssimas práticas e esse ciclo muitas vezes se transforma em uma espiral que arrasta várias pessoas para o fundo do poço.

Não podemos continuar a varrer esses problemas para debaixo do tapete. O mundo acadêmico está mudando rápido nos países civilizados. Cabe a nós, brasileiros, acordarmos para o século XXI ou sermos atropelados por ele.

Pensem sobre isso. A Academia somos nós: quem nós queremos ser?

Sugestões de leitura:

dark side force anakin

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3 Replies to “Use a sua posição de poder para melhorar a Academia”

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