Um cientista pode ser religioso?

A ciência e a religião têm um conflito histórico entre si. Mas será que elas não poderiam conviver pacificamente, pelo menos dentro de uma mesma pessoa?

“As pessoas constroem muros demais e pontes de menos” ― Joseph Fort Newton

Ao longo da minha vida, já tive sentimentos conflitantes sobre a relação entre ciência e religião.

Venho de uma família cristã, como a maioria dos brasileiros. Contudo, na infância e na adolescência, sempre tive curiosidade por outras religiões. Cheguei a visitar ou frequentar santuários dos mais variados credos: de igrejas católicas a evangélicas, de terreiros de umbanda a templos budistas, da religião à magia.

Logo depois que saí da escola e ingressei na graduação, eu não via problema algum em curtir dois mundos diferentes. Desde que cada um na sua, mas com alguma coisa em comum (como naquele comercial dos anos 80).

Ao longo da graduação e, mais tarde, na pós-graduação, acabei sendo influenciado pelo pensamento dominante no meio acadêmico. Isso me afastou completamente da espiritualidade por muitos anos. Sou de uma geração de biólogos criados lendo os livros do Sagan, Dawkins, Wilson, Gould, Diamond e cia., que sempre bateram muito duro em tudo que não fosse ciência estritamente acadêmica.

Bem mais tarde, já perto da meia idade e depois de ter completado a minha Jornada do Cientista, senti que faltava algo na minha vida. Não era uma crise de confiança na ciência, que amo profundamente e à qual dedico minha vida. Era apenas uma sensação de que ela não me dava tudo de que eu precisava.

Hoje vejo essa questão dentro de um contexto maior que chamo de “as cinco grandes culturas humanas”.

Há vários conceitos de cultura e muito debate sobre eles na literatura acadêmica. Vou ficar aqui com o conceito antropológico que consta no dicionário Michaelis:

“[cultura é] o conjunto de conhecimentos, costumes, crenças, padrões de comportamento, adquiridos e transmitidos socialmente, que caracterizam um grupo social.”

Esse conceito leva à conclusão lógica de que a humanidade é composta por várias culturas, já que ela contém uma grande diversidade de grupos sociais. Além disso, um mesmo grupo social pode conter mais de um tipo de subcultura, por exemplo, uma ligada à culinária, outra ligada à luta, outra ligada à construção e por aí vai.

As culturas humanas variam em termos de natureza, tamanho e longevidade. Está contido, por exemplo, dentro do conjunto da cultura brasileira, o conjunto da cultura dos moradores da sua cidade. Garanto que você, seus parentes e seus amigos preparam receitas, organizam festas e cultuam heróis só de vocês, que provavelmente não se conhece em outros lugares. Há ainda culturas efêmeras que duram pouco tempo, como um tipo de dança que vira febre por alguns carnavais e depois some, e culturas perenes que se mantém vivas por muito tempo, como o samba.

Meu foco aqui são culturas perenes que se manifestam em uma escala maior. Refiro-me às cinco grande culturas humanas que transbordam além de fronteiras políticas, geográficas e temporais. São, portanto, culturas transtemporais e transnacionais. Elas são a ciência, a filosofia, a religião, a arte e o esporte. Eis a minha visão pessoal sobre o assunto:

cinco grandes culturas.001
As cinco grandes culturas humanas transtemporais e transnacionais e suas interseções. Por exemplo, na interseção entre religião e arte temos a música sacra. Já na interseção entre arte, esporte e religião temos as artes marciais orientais. Os exemplos de crossover são vários.

Todas essas culturas existem há milênios e têm versões coletivas e individuais, acadêmicas e populares, internacionais e locais. Elas se transformaram ao longo dos séculos, mas nunca morreram.

Sim, acima de tudo, a ciência é uma cultura humana. Ela tem seus próprios valores, práticas e rituais. Pensemos, por exemplo, em um cientista que desenha um barplot ao invés de um boxplot só porque na área temática dele todo mundo faz assim. Esse tipo de imitação demonstra que o cientista está apenas seguindo um costume do seu grupo social e não pensando de forma livre. Isso também explica porque sociólogos escrevem de um jeito, enquanto ecólogos escrevem de outro. A única razão para essa diferença é que eles pertencem a subgrupos sociais diferentes, dentro da comunidade científica.

Apesar de terem escopos diferentes, as grandes culturas humanas têm algumas interseções. O barroco mineiro é um excelente exemplo de arte inspirada pela religião. A arte conversa também com a ciência através das ilustrações científicas, sejam pranchas desenhadas à mão ou gráficos produzidos no computador. Nessa mesma interseção, e dentro da minha especialidade acadêmica, hoje cresce o interesse por arte inspirada pela topologia de sistemas complexos.

Ciência e esporte dialogam, dentre outros campos, no treinamento de atletas olímpicos. Ainda no universo das olimpíadas, o doping é um tema que une as agendas da ciência, do esporte e da filosofia, pois envolve não apenas aspectos técnicos e estratégicos, mas também questões éticas.

A lógica é um dos principais pontos de contato entre filosofia e ciência. Vale lembrar ainda que essas duas culturas estão intimamente relacionadas, porque a primeira é mãe da segunda. Há ainda grandes perguntas existenciais, como a origem da vida, que unem as agendas da ciência, filosofia e religião. Indo para outro tema profundo, os limites do potencial humano despertam o interesse de todas as cinco grandes culturas.

Cada uma delas contribui para o legado da humanidade à sua maneira, ajudando-nos a entender o mundo, nosso lugar nele e nos fazendo superar limites. Isso faz com que elas preencham diferentes necessidades humanas. Grosso modo, e não esquecendo que há mais crossover entre elas do que se pensa, as pessoas procuram a ciência em busca de conhecimento, a filosofia em busca de reflexão, a religião em busca de conforto, a arte em busca de inspiração e o esporte em busca de superação. Nenhuma dessas culturas é capaz de suprir a falta da outra.

Agora chegamos a um ponto crucial desta reflexão. Muitos costumam pensar na universidade como uma espécie de templo da ciência, onde outras culturas “menos hard” não têm lugar. Contudo, nela também se estuda, desenvolve e pratica filosofia, religião, arte e esporte, principalmente em versões acadêmicas, mas também em versões populares. Assim, se não causa espanto aos colegas um cientista praticar jiu-jitsu como hobby ou estudar piano nas horas vagas, por que muitos torcem o nariz para um cientista que frequenta um terreiro de umbanda às sextas-feiras?

A nossa “herança maldita primata” nos faz viver em grupos e sempre achar que o grupo dos outros é inferior ao nosso. O preconceito visto na sociedade em relação aos ateus, por exemplo, muitas vezes tem sinal invertido dentro da universidade. Enquanto em várias sociedades os ateus, agnósticos e não-religiosos em geral representam uma minoria ínfima, dentro da universidade eles podem até não ser a maioria, mas compõe uma fatia demográfica bem maior. Além disso, uma visão de mundo não-religiosa predomina intramuros. Muitos acadêmicos hoje têm verdadeira repulsa por religião, magia ou qualquer forma de espiritualidade. Alguns divulgadores de ciência famosos chegaram a se transformar em militantes anti-religião. O ódio é contagioso.

Essa repulsa vem da perseguição histórica que os não-religiosos sofreram por muitos séculos, promovida principalmente pela Igreja Católica, mas não apenas por ela. Não faltam casos de cientistas profissionais que foram executados como hereges. Mesmo mulheres que praticavam uma ciência popular, na forma de medicina herbalista, por exemplo, foram rotuladas como bruxas e queimadas na fogueira pela Inquisição.

Infelizmente, mesmo no mundo contemporâneo, alguns líderes religiosos queimariam cientistas na fogueira com prazer, se isso ainda fosse socialmente aceitável. A maioria das pessoas, em pleno século XXI, apresenta rejeição maior a ateus do que a criminosos. No Brasil, país com uma onda de intolerância renovada, sair do armário pode ser tão difícil para um ateu quanto para um homossexual, dependendo da família em que a pessoa nasceu.

Vale ainda lembrar que, fora do campo religioso, muitos cientistas também já foram perseguidos por regimes políticos autoritários, tanto à direita quanto à esquerda. Nesses países e épocas, ideologias políticas dos mais variados matizes, levadas ao extremo, ocuparam o mesmo nicho social do fanatismo religioso. Hoje, na Era do Pós-Verdade, alguns líderes de estado voltaram a promover franca perseguição aos cientistas mais críticos que incomodam a grande indústria.

Em suma, historicamente, cientistas já apanharam muito e ainda apanham até hoje, de todos os lados, porque vivem cutucando feridas e questionando tudo. Logo, dá para entender a vontade de muitos de criar um porto seguro dentro da universidade. Só não dá para esquecer que cientistas, como todos os grupos sociais humanos, também têm sua bagagem de erros. Basta lembrar dos programas estatais de eugenia, uma pseudociência mortal, dirigidos por alguns cientistas profissionais entre os séculos XIX e XX. Podemos pensar também no preconceito que mulheres sofrem dentro da academia, muitas vezes sendo preteridas ou desacreditadas por colegas homens.

Daí conclui-se que preconceito e perseguição não são exclusividade das igrejas. Nada é mais perigoso do que pessoas autoritárias e ressentidas no comando de grupos grandes, sejam elas sacerdotes ou acadêmicos. Logo, ao invés de um grupo social ficar apontando o dedo para o outro, não seria melhor todos reconhecerem seus erros e estabelecerem novos pactos de tolerância mútua para o século XXI?

Tristemente, essa péssima relação histórica entre Academia e Igreja levou a um forte sentimento anti-religioso, que transformou a fé em tabu nas salas de aula e laboratórios. Muitos alunos acabam sofrendo preconceito velado ou até mesmo aberto por colegas e professores, ao professaram sua fé em público. Alguns alunos religiosos chegam até mesmo a se afastar das respectivas comunidades e práticas espirituais por sentirem vergonha de serem diferentes da maioria. Isso pode causar uma grave crise de identidade, levando ao desequilíbrio emocional e a psicopatologias.

Será que não haveria espaço para mais tolerância dentro da universidade? Tudo bem, acabar com a ignorância e o preconceito anti-ciência não é uma tarefa simples. Mas fomentar o preconceito invertido certamente não ajuda ninguém.

Pense bem: se você for a um templo de qualquer religião, não vai encontrar ciência, apesar de poder encontrar filosofia, arte e até mesmo esporte. Além disso, em um templo, quase com certeza você encontrará apenas uma religião e não várias. Se, por outro lado, você for a um clube esportivo, poderá encontrar também arte e ciência, mas dificilmente encontrará religião e filosofia.

O único lugar na sociedade moderna onde essas cinco grandes culturas convivem diariamente é a universidade, apesar de elas entrarem em conflito algumas vezes. Quem nunca assistiu a brigas de ego entre “sacerdotes” dessas cinco culturas em câmaras, congregações e conselhos?

Voltamos então à nossa pergunta central: será que ciência e religião não podem conviver dentro de uma mesma pessoa?

O fato é que muitos cientistas profissionais cultivam um lado espiritual. Entre nós, é possível encontrar colegas cristãos, judeus, muçulmanos, budistas, xintoístas, hinduístas, umbandistas, wiccansneopagãos e nórdicos, por exemplo. Há até mesmo pastafaris (rs). Aposto que pelo menos um colega que você admira é religioso na vida pessoal, mas não fala sobre isso na Academia.

Contudo, é bom deixar claro que não vale misturar as estações. Por exemplo, não adianta montar um experimento mal-desenhado e depois rezar para a sua previsão ser confirmada. Tampouco adianta buscar na ciência conforto para as suas inquietações existenciais.

Há, infelizmente, muitos picaretas que tentam fabricar evidências pseudocientíficas para validar narrativas e dogmas religiosos. Isso pode ser visto nas tentativas espúrias de fazer parecer que evolucionismo e criacionismo são teorias concorrentes, e não uma teoria científica e um dogma religioso, respectivamente. Outro exemplo triste são religiosos que tentam dar uma roupagem científica ao preconceito que têm contra homossexuais, fazendo propaganda de curas milagrosas para coisas que não são doença. Do lado da ciência também há extremistas, como aqueles que gostariam que a sociedade criasse leis e tomasse decisões apenas com base em informações técnicas. Alguns desses acadêmicos radicais chegam a propor que a ciência deveria ser usada como base até mesmo para definir padrões morais.

Não podemos dar espaço para pseudociência ou pseudorreligião, pois elas são quimeras que desonram ambas as culturas. A boa ciência não precisa da fé para construir conhecimento. E a boa religião não precisa de explicação científica para a fé.

E, acima de tudo, líderes de qualquer uma dessas cinco grandes culturas não deveriam tentar empurrar sua visão de mundo goela abaixo do resto da sociedade. O debate e a tomada de decisões na democracia só funcionam de forma eficiente, quando vários atores sociais estão dispostos a ouvir uns aos outros. Ouvir de verdade, ou seja, estando dispostos a aprender uns com os outros e não fazendo questão de ganhar quedas-de-braço em nome da vaidade ou do poder.

Bom, tomando cuidado com o domínio de validade de cada cultura, dá para ser cientista e religioso ao mesmo tempo. Na minha opinião, basta a pessoa deixar essas duas faces da própria personalidade atuarem em suas devidas dimensões. Isso é possível e há exemplos concretos de sucesso.

Um belo exemplo é a meditação. Quase todas as religiões usam alguma variante dessa prática. Isso inclui desde rezar um terço católico (sim, essa é uma forma de meditar) até dançar em uma cerimônia sufi ou cantar mantras hinduístas fazendo mudra com as mãos. Quem pratica artes marciais orientais certamente já meditou pelo menos uma vez durante o treino. Por exemplo, a prática do kihon no karate é, no fundo, meditativa e leva ao que hoje se chama de estado de fluxo (mushin, 無心, ou “não-mente”). É o mesmo fluxo que um acadêmico atinge ao trabalhar por horas a fio em um artigo científico, quando bate a inspiração, tornando-se uno com o texto. A meditação tem até mesmo versões ligadas ao sexo, como no tantra indiano.

Uma dessas formas de meditação representa a espinha dorsal do zen-budismo: o zazen (坐禅). Trata-se de uma forma minimalista de meditação sentada (seguindo o fundamento shinkantaza, 只管打坐, ou “apenas sentar”). Ela é praticada junto com outras formas de meditação, como o kinhin (経行, meditação andando) e a meditação de concentração plena em atividades cotidianas, como lavar a louça ou fazer uma refeição.

A meditação zazen foi absorvida pela cultura americana, especialmente californiana, e transformada no que hoje conhecemos como mindfulness. Depois de vários estudos em psicologia e neurociência apontarem possíveis benefícios da meditação para a saúde física e mental, muitos cientistas começaram a praticá-la. Os objetivos variam de pessoa para pessoa, mas geralmente têm a ver com controlar a ansiedade, melhorar a concentração ou alcançar maior equanimidade.

Hoje, felizmente, há pessoas que vão na contramão do preconceito e constroem pontes entre mundos. Por exemplo, o modo zen de ver o mundo tem inspirado até mesmo revistas científicas. O catolicismo, antigo inimigo da ciência, hoje admite em bulas papais que temas técnicos, como meio ambiente, são mais bem tratados pela segunda. O diálogo entre razão e fé tem crescido, mesmo que aos poucos. Como diria Heráclito, “nada é constante, a não ser a mudança”. Bauman e seu mundo líquido que o digam.

Uma sociedade democrática deve ser diversa, inclusive no que diz respeito à espiritualidade. O fortalecimento do Estado laico no século XX nos garantiu a liberdade de ter qualquer religião, mesmo que minoritária, e professá-la. Ou mesmo a liberdade de não ter religião alguma e não ser importunado pelos outros por causa disso. Não podemos abrir mão disso.

Assim, mesmo no caos egocêntrico do mundo de hoje, podemos nos inspirar com alguns bons exemplos. Afinal de contas, quando você vê uma flor-de-lótus (ou sua versão neotropical, uma ninféia), prefere focar nela ou na lama embaixo dela?

Se uma prática originalmente religiosa como a meditação caiu no gosto da comunidade acadêmica, mesmo que transformada em uma versão não-religiosa e, portanto, mais palatável para acadêmicos, porque um cientista não poderia professar uma religião por completo?

Convido você a refletir sobre isso.

gandhi

Recomendações:

  1. Se você for ateu ou agnóstico, não sinta vergonha de ser diferente da maioria da sociedade, mas trate quem tem espiritualidade com respeito.
  2. Se você for religioso ou tiver qualquer tipo de espiritualidade, não sinta vergonha de ser diferente de muitos colegas na academia, mas saiba manter cada cultura dentro do seu devido domínio de validade.
  3. Independente de você ser religioso ou não, membro da academia ou de outra cultura, desconfie profundamente de líderes que pregam a raiva e não a compaixão.

Agradecimentos:

Sou grato a três amigos meus que deram sugestões para este texto antes da publicação: Bruna Cassettari, Marcos Monteiro e Bernhard Meirose. Foi ótimo poder saber a opinião de gente que pensa diferente de mim para poder equilibrar melhor a argumentação.

Sugestões de leitura

  1. Meditação. Pare. Respire. E Mude Sua Vida
  2. Crer ou não crer
  3. Relationship between religion and science
  4. Fides et ratio: sobre as relações entre fé e razão
  5. O poder do mito
  6. Por que não sou cristão
  7. União de arte e ciência é essencial para o saber, dizem pesquisadores

Vídeos sobre o assunto:

Anúncios

22 respostas para “Um cientista pode ser religioso?”

  1. Este é um assunto que realmente deve ser discutido no meio acadêmico. Eu não necessariamente concordo em dividir os diferentes aspectos da cultura em cinco grandes regiões, porque acho que é uma super-simplificação de cada aspecto que esconde muitas nuances — algumas delas cruciais. Por exemplo, eu vejo o cristianismo quase como diametralmente oposto ao budismo: enquanto o primeiro está mais focado na comunidade (regras de convivência, um Deus onipresente vigiando todo mundo…), o segundo é muito mais focado no indivíduo (desapego, compaixão, o caminho da liberação…). De fato, é possível ser cristão e budista ao mesmo tempo! Outro ponto é que, na prática, realmente a reza de terço e meditação tem muito em comum, mas possuem motivações completamente diferentes! Ou seja, são rituais parecidos mas que preenchem necessidades diferentes, o que me leva ao meu próximo ponto.

    A maneira como eu pessoalmente prefiro enxergar esse assunto é que nós humanos temos necessidades (fisiológicas, psicológicas etc.) e que essas necessidades são como buracos. Por exemplo, nós cientistas temos um buraco enorme sem fim: a curiosidade. Mas também temos outros buracos, como a necessidade de pertencer a um grupo ou ter a sensação de propósito. O tamanho de cada buraco varia de pessoa pra pessoa. Algumas pessoas buscam na religião cristã o preenchimento para essas necessidades de conviver em grupo e ter um propósito. Outras buscam esse preenchimento na filantropia, esportes ou mesmo artes.

    No meu ponto de vista que utiliza a analogia dos buracos, nós temos a liberdade de preencher nossas necessidades da maneira que preferirmos. Por exemplo, podemos adotar diversos costumes do budismo e ignorar os preceitos que não nos interessam. De fato, muitas pessoas preferem ignorar a crença na reencarnação, que faz parte do pensamento budista. Na verdade, é até possível ser um cristão praticante sem acreditar em Deus! O próprio Albert Einstein, diz a lenda, tinha seu “deus” pessoal.

    1. Sim, Leonardo, essa questão é complexa e pode ser vista por vários ângulos. Eu queria justamente provocar esse tipo de reflexão e discussão, obrigado por sua mensagem. Vamos debater por partes.

      No caso de “preencher os buracos com liberdade”, concordo. E justamente daí vem o sincretismo. Não existe religião pura: todas vieram de alguma prática ancestral e muitas beberam nas fontes umas das outras. O mesmo vale para as ciências, as artes, os esportes e as filosofias. E ainda há o crossover entre as cinco grandes culturas.

      Quanto à simplificação dos conjuntos que propus, ela é como todo modelo de pensamento: você tenta capturar a essência de um problema complexo através dos seus parâmetros e princípios centrais. No caso do exemplo que você comentou, Budismo e Cristianismo têm muito mais coisas em comum entre si do que com a Matemática ou as Artes Plásticas, por exemplo. Por isso, acho que pertencem a um mesmo conjunto, mesmo que vejam a espiritualidade de formas diferentes. Isso fica claro nas diferentes formas de meditação, que você comentou. Concordo que, hoje, as pessoas rezam um terço ou sentam em zazen com motivações diferentes, mas a origem dessas práticas e seus efeitos espirituais são muito parecidos.

      Por fim, o Budismo é, de fato, uma forma de espiritualidade mais individual do que o Cristianismo. Contudo, a sangha (i.e., a comunidade) é uma das três joias do Budismo, junto com o budha (a realidade divina dentro de nós) e o dharma (o caminho ou doutrina). Ou seja, a experiência social, em grupo, também é fundamental no Budismo.

      Essa conversa daria uma ótima mesa redonda de congresso, com gente de cada uma das cinco grandes culturas…

  2. Tema bastante atual. Os círculos esotéricos da Ciência são, eventualmente, como algumas religiões: muitos dogmas, algumas crenças e muitos sacerdotes que não dão chance de refutação ou contra-argumentação. Muito bom.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.