Dicas para quem deseja começar um journal club

Clubes acadêmicos são um tesouro para a formação de cientistas, mas infelizmente são pouco explorados no Brasil. Aqui neste post dou algumas dicas sobre como implementar e manter journal clubs.

Lembro quando eu era um jovem graduando na UFRJ, contemplando preguiças gigantes forragearem felizes pelos campus. Naquela época, formamos um grupo de alunos empolgados e reativamos o Biofórum, que era um seminário organizado de tempos em tempos no Instituto de Biologia. Às vezes quem palestrava era algum aspira ou faixa preta do próprio instituto, outras vezes conseguíamos um palestrante externo. A empolgação era tanta, que reativamos também o Bioletim, uma revista de divulgação científica editada pelos alunos.

Voltando ao ponto, apesar de seminários como o Biofórum serem muito estimulantes, eles geralmente começam bem e depois minguam. O nosso, infelizmente, não foi exceção. Na verdade, ele sempre passou por ciclos de interesse e desinteresse, desde antes da minha geração e inclusive depois dela. Mais tarde, em outras universidades, participei de clubes semelhantes. E testemunhei a mesma curva que vai da hype ao fail.

O único clube do qual participei e que se mantém estável há décadas é o seminário quinzenal do Instituto de Ecologia Experimental da Uni-Ulm, na Alemanha, onde trabalhei. Lá havia também um clube de estatística e workshops frequentes sobre temas mais especializados. Na Europa e na América do Norte, essa é uma cultura sólida, com tradição de séculos.

“Mas, Marco, por que será que clubes acadêmicos via de regra não vingam no Brasil?”

Essa é uma pergunta complexa e eu queria muito ter uma resposta conclusiva para ela. Parece simples, mas muitos cientistas tentam organizar clubes dos mais variados tipos em universidades brasileiras e eles simplesmente não alcançam uma vida longa e próspera.

Por um lado, muitos aspiras brasileiros ainda não entendem a importância dessas atividades “extra-classe”, que não valem nota e nem créditos na grade de atividades suplementares. Por outro lado, muitos faixas pretas também sabotam os clubes, com a desculpa de que lhes falta tempo. Logo eles, que deveriam dar o exemplo e estimular atividades coletivas.

Já vi vários clubes começarem a todo vapor, depois minguarem, reduzirem-se a meia dúzia de empolgados e, por fim, morrerem. Bom, na minha opinião, o problema central é que não temos um forte cultura de clubes acadêmicos. A maioria das pessoas ainda precisa ser convencida sobre a importância deles.

“Mas, Marco, porque clubes acadêmicos são tão importantes assim?”

Primeiro, vale dizer que há vários tipos de clubes acadêmicos. Por exemplo, em alguns programas de pós-graduação os alunos organizam clubes de estatística, como aquele que comentei antes. Nesses clubes, os membros se propõem a estudar juntos as bases dessa ciência ou destrincham em grupo novas análises complexas que saem na literatura.

Também existem clubes focados em métodos mais específicos, como bioacústica ou telemetria. E existem até mesmo clubes de estudo focados em temas, como Ecologia de Mamíferos, em locais onde não há professores especializados orientando alunos e dando aulas sobre esses temas.

Esse tipo de atividade, além de contribuir para a sintonia de uma equipe, estimula a autonomia dos aspiras. Há ainda várias outras vantagens, mas só essas já justificam plenamente a formação de clubes acadêmicos. Portanto, vale a pena investir neles.

O caso dos journal clubs

Aqui quero dar algumas dicas para tentarmos fortalecer essa cultura. Para ser mais concreto, vou focar em um tipo específico de clube acadêmico: os journal clubs. Ou seja, clubes de periódicos ou revistas. No meu laboratório, o journal club tem dado muito certo, sendo mantido com regularidade há anos. Sei também de outros laboratórios que mantém journal clubs longevos. Por isso quero esmiuçar esse exemplo.

Para quem não sabe, journal clubs são, acima de tudo, clubes de leitura. Em geral, os participantes combinam de ler textos de interesse comum e os apresentam ou discutem coletivamente, com uma freqüência combinada a priori.

Journal clubs podem ser organizados pelos membros de um laboratório ou por pessoas de diferentes laboratórios. Eles também podem ser organizados por departamentos ou programas de pós-graduação.

Penso que todo laboratório deveria ter um journal club. Para quem deseja implementar essa atividade, é fundamental decidir os detalhes do formato. Vamos discutir isso na forma de perguntas e respostas.

Por que organizar um journal club?

Motivos principais:

  1. Estimular o hábito da leitura entre os aspiras do laboratório e ajudá-los a diferenciar literatura fundamental de literatura opcional;
  2. Aproveitar a sinergia criada por vários cérebros focados em um mesmo problema, a fim de desemaranhar questões complexas;
  3. Conscientizar os membros da equipe sobre problemas importantes na área de interesse e na carreira acadêmica de um modo geral.

O journal club deve ser organizado só para membros do meu laboratório ou aberto a quaisquer interessados?

Essa é uma decisão muito importante, que tem impacto sobre a longevidade e a utilidade do clube.

Via de regra, os journal clubs intra-laboratório funcionam melhor e têm mais longevidade do que os inter-laboratório. Isso porque é mais fácil achar temas de interesse comum entre os membros de uma mesma equipe.

Da mesma maneira, nos journal clubs internos fica mais fácil a maioria dos participantes manter a assiduidade, o que permite dar continuidade aos temas discutidos e aprofundar alguns deles. Um journal club pode ser usado, por exemplo, para discutir um conjunto de trabalhos importantes para um determinado projeto no qual vários membros do laboratório estão envolvidos.

Quando o clube mistura laboratórios, em geral o conjunto de pessoas que participa de cada evento acaba variando muito em tamanho e composição. Assim, o pool de artigos debatidos acaba ficando caótico, sem coerência temática. É justamente a continuidade e aprofundamento de alguns temas que motivam pessoas a frequentarem o clube assiduamente.

De qualquer forma, primeiro garanta o journal club do seu laboratório. Depois, tendo ele como bom exemplo, tente estimular essa cultura também entre os seus colegas. Você pode, por exemplo, plantar uma semente de journal club em maior escala entre os alunos do seu programa de pós-graduação, com a ajuda dos postdocs, que estão em contato mais direto com os alunos.

Que tipo de literatura deve ser focada?

Tem gente que decide ler no journal club artigos de qualquer tipo, escolhidos pelos membros do laboratório espontaneamente. Aí valem desde tratados gerais até estudos de caso menores, de interesse restrito. Eu, por outro lado, recomendo pensar com mais cuidado e definir um objetivo para a atividade e, com base nele, um foco para a literatura selecionada.

No meu laboratório, por exemplo, o objetivo do journal club é discutir ideias quentes em Ecologia e temas importantes para a carreira acadêmica. Valem tanto ideias recém saídas do forno, quanto ideias clássicas requentadas recentemente. Além disso, entram no journal club apenas artigos que interessam a todos os membros do laboratório, independente da linha de pesquisa individual.

Assim, costumam entrar na nossa pauta artigos conceituais, revisões, perspectivas e opiniões de escopo amplo. Além de artigos estritamente técnicos, discutimos também textos motivacionais e ensaios com dicas sobre a carreira acadêmica, indo desde saúde mental até marketing pessoal.

O importante é você definir o que espera como resultado do seu journal club e, assim, pensar em qual foco seria mais adequado para o seu laboratório.

A atividade deve ser baseada em apresentação ou discussão?

Já vi alguns journal clubs funcionarem na forma de seminários, em que a pessoa da vez deve ler o texto e depois apresentá-lo para o grupo. Uma das vantagens seria aproveitar a oportunidade para treinar habilidades de comunicação oral.

Eu, pessoalmente, não gosto desse formato. Primeiro, porque apresentar trabalhos alheios não motiva ninguém. Segundo, porque a discussão funciona muito melhor se todos dividirem a responsabilidade de ler o texto, sem se encostarem em um colega apresentador. Terceiro, porque a melhor forma de treinar a comunicação oral e testar apresentações antes de congressos ou defesas são seminários internos e não journal clubs.

Sendo assim, penso que o melhor para um journal club é todos lerem o mesmo texto e, depois, discutirem-no em conjunto de forma mais horizontal.

Qual deve ser a periodicidade?

Isso depende de quantas outras atividades coletivas você tem no seu laboratório.

Aqui no SintECO, por exemplo, temos journal club semanal, reunião geral mensal e seminário ocasional (marcado por demanda dos interessados). Todos são realizados sempre na quarta-feira à tarde, o mesmo dia que reservo para reuniões individuais mensais com cada membro do laboratório.

Penso que essa freqüência semanal tem funcionado bem por aqui. Se fosse quinzenal, seriam poucos os artigos que acabaríamos discutindo juntos por semestre, considerando as outras atividades das quartas-feiras, viagens para congressos e cursos etc. Mensal, então, seria quase como não fazer.

Uma semana é tempo suficiente para ler até mesmo os textos mais complexos. Tomamos cuidado apenas para não escolhermos textos longos demais, como capítulos de livros com dezenas de páginas.

O importante, independente da periodicidade escolhida, é mantê-la rigorosamente. Criar uma cultura de journal club é igual a criar qualquer tipo de bom hábito, como praticar exercícios físicos ou meditar. Você precisa de disciplina e tem que saber reconhecer gatilhos comportamentais, até o hábito se integrar à sua rotina.

Sugestões finais

Experimente organizar clubes acadêmicos e, principalmente, journal clubs! Você notará o quanto eles contribuem para a qualificação da sua equipe. Tente também infectar seus colegas com essa ideia. Apesar dos muitos casos mal-sucedidos, há belas histórias de sucesso no Brasil, como o Fritz Müller Seminars, o Café Existencial, o Biofórum/Unicamp,  e o Café Filosófico.

 

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8 respostas para “Dicas para quem deseja começar um journal club”

  1. Oi Marco,
    sinto dizer que JC nao morre so no Brasil. Aqui (em Berlim) ja morreu 2x e só estou comecando meu 2o ano hehe…
    mas dessa vez está sendo preparado por 2 pos docs. Vamos ver se melhora e a galera se empolga. Mas a maior desculpa aqui é de nao ter tempo para essas interacoes. ¯\_(ツ)_/¯
    Dai nao tem o que a gente fazer pra empurrar o povo ne…

  2. Muito legal, Marco.
    Desconfio que o sucesso desse tipo de iniciativa depende em grande parte do envolvimento e interesse de professores, não apenas dos “aspiras”.

    p.s.: Todas às quartas-feiras na USP/Ribeirão Preto acontece o “Café com Ciência” (https://goo.gl/x7FtgX). São seminários conjuntos organizados por dois PPGs da Biologia desde 2013.

    1. Oi Lucas! Sim, eu acho que a responsabilidade maior é dos orientadores. Cabe a eles apresentar as atividades importantes aos aspiras e reforçar a importância delas através do exemplo. Ou seja, ajudando a organizar e participando assiduamente. Quanto ao Café com Ciência, que maneiro! Já reparou que todos esses clubes se chamam “café alguma coisa”? Vou inaugurar um chamado “chá alguma coisa”. Talvez “chá comigo: grupo de apoio acadêmico”, rsrsrs.

  3. Excelentes dicas e reflexões! Eu sempre tentei agitar “clubes” de diferentes formatos desde que voltei para a vida acadêmica. Acho não só importante, mas extremamente prazeroso. É uma chance da gente passar um tempo estudando coisas que a gente escolhe estudar, algo que faz muita falta na graduação. Os journal clubs nunca vingaram, mas tem um grupo de estudos sobre evolução que tem se mantido na UFAL mesmo depois que eu saí (embora tenha mudado um pouco o formato). Aqui na UFG tem o seminário dos alunos, com palestras semanais no estilo do Biofórum, que parece que vai durar bastante.
    Infelizmente em todos estes clubes eu me deparei com essa barreira dos alunos de pós-graduação que simplesmente se recusam a fazer qualquer coisa que não seja trabalhar na própria pesquisa. Isso é muito triste porque os alunos de graduação se beneficiam muito do diálogo com os alunos da pós, e investir em atividades “extra-dissertação/tese” só faz o aluno de pós se tornar um pesquisador melhor. Conversando com meus colegas, surgiu o argumento de que isso é falta de incentivo por parte dos orientadores (o que por um lado é estranho, já que estamos falando de adultos que teoricamente deveriam ter mais domínio sobre a construção da própria carreira), então: orientadores, por favor, incentivem seus alunos a pensarem fora da caixinha.

    1. Oi Gracielle! Obrigado! Sim, clubes são o máximo! Quando criança, sempre via eles em filmes sobre nerds. Adorei descobrir que existem na vida real, rsrsrs. Quanto ao incentivo dos orientadores, acho que é bem por aí. Por mais que alunos de pós-graduação sejam adultos, alguns com mais de 30 anos, eles são “crianças” na carreira. Ou seja, inexperientes. Precisam que os orientadores reforcem positivamente comportamentos como participar de clubes.

    2. Ah, e concordo plenamente. As atividades extra contribuem muito para a formação geral dos alunos. Inclusive para a formação científica. Os clubes acadêmicos contribuem muito para o aprendizado com os pares e o aprendizado orientado a projetos. Outro exemplo: muita gente me critica por “desperdiçar” tempo escrevendo em blogs. Mas essa atividade extra ajudou muito a melhorar minha escrita de papers.

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