Redes sociais são úteis para cientistas?

Sim! Vamos discutir o porquê.

Este é mais um post escrito a partir de uma sugestão de um leitor do blog. Obrigado, Patrick Tomaz!

Aviso: antes de continuar lendo este post, tome consciência de uma coisa: as redes sociais, com seu modelo de negócios atual, estão fazendo mais mal do que bem à sociedade. Elas foram desenhadas para manipular o seu comportamento e, portanto, podem prejudicar a sua saúde mental. A escolha mais cautelosa é ficar fora delas. Contudo, se você usá-las com muito cuidado, com base em uma estratégia bem planejada, pode obter benefícios profissionais concretos. Evite usar as redes sociais gerais e foque nas acadêmicas.

As redes sociais se tornaram onipresentes nas nossas vidas. Do Facebook ao Instagram, do Tinder ao Tender, quase todas as pessoas que usam a internet participam de alguma delas. Não dá nem para dizer mais que elas são uma “second life“, pois muita gente vive de forma mais intensa no mundo virtual do que no real. Confesso que, sendo eu um membro da geração X, isso me assusta muito. Acho que o universo do Black Mirror está logo ali, dobrando a esquina.

Bom, voltando ao ponto. Como tudo no universo, as redes sociais têm uma dualidade yinyang.

Por um lado, se usadas de forma tóxica, as redes sociais podem levar uma pessoa a sofrer de procrastinação ou até mesmo ansiedade e depressão. No mínimo, as horas que você gasta online roubam tempo de outras atividades mais produtivas e saudáveis. Por exemplo, ler livros impressos, que são infinitamente melhores para desenvolver o foco e a profundidade (leia mais sobre isso aqui). Algumas pessoas chegam a se perder dentro de bolhas, vagando pelos sombrios labirintos da polarização política, e nunca mais são encontradas pela família.

Por outro lado, se usadas com moderação e consciência, as redes sociais são uma excelente ferramenta para divulgação de atividades profissionais e marketing pessoal. No caso de quem está trilhando a Jornada do Cientista, eu diria que, hoje, deixar de usá-las é desperdiçar oportunidades. E isso vale tanto para aspiras quanto para faixas pretas e até mesmo mestres e silverbacks.

Aqui quero focar em um subgrupo dentro desse universo: as redes sociais acadêmicas e portfólios online em geral. Vamos destrinchar o tema na forma de perguntas e respostas.

1. Não basta eu fazer boa ciência e publicar papers em revistas top?

Não, foi mal. Esqueça a bobagem que muitos propagam de que “a sua ciência deve falar por si mesma”. Isso é papo de gente muito arrogante ou muito equivocada.

O ponto é que não basta fazer, você tem que mostrar. Ou seja, em um mundo lotado de cientistas, disputando verbas, bolsas e empregos em uma carreira hiper-competitiva, você não pode se limitar a publicar bem. Ainda mais agora, em tempos de crise. Na verdade, sempre foi importante divulgar suas descobertas e trabalhos de maneira mais ampla. A ciência, acima de tudo, é uma cultura humana. E não existe cultura sem comunicação.

A segunda forma de divulgação mais importante, depois dos artigos e livros, sempre foram os congressos. Contudo, desde que a internet começou a se popularizar nos anos 90, a comunicação online foi ganhando cada vez mais espaço.

Hoje, se um cientista quer se destacar no meio da multidão e fazer as pessoas descobrirem que seus trabalhos existem, ele precisa frequentar congressos, comunicar-se diretamente com os pares, fazer e receber visitas técnicas, e… ter uma presença virtual!

2. As pessoas vão mesmo prestar atenção em mim?

Ninguém consegue prever isso com certeza. Mas há formas de aumentar suas chances de ser notado.

Quem trabalha com redes complexas sabe: a internet tem uma distribuição de grau livre de escala. Traduzindo em carioquês, mermão, quer dizer que tu cria um site, todo meninão, mas aí ninguém te visita e tu fica bolado com a parada. Portanto, você precisa traçar uma estratégia.

O primeiro passo é criar um site pessoal, caso você ainda seja um aspira ou postdoc. Ou um site do seu laboratório, caso você já tenha se estabelecido e seja um novato ou mestre. Hoje há várias plataformas 0800, como WordPress e Wix. Você não precisa sequer ter fluência em HTML, PHP ou outras linguagens de programação, já que nelas os sites são construídos a partir de templates, usando editores visuais.

O seu site pessoal deve servir como a sua central na internet, onde você divulga de forma estável as informações mais importantes sobre os seus projetos, papers, livros, palestras, scripts, orientados, vídeos de popularização da ciência, matérias na imprensa etc. Todo o resto da sua presença virtual deve redirecionar interessados para essa central.

Mas só isso não basta. Você precisa atrair tráfego para o seu site. Uma boa maneira de fazer isso é conectar-se a sites muito acessados (os famosos hubs). Você pode, por exemplo, pedir para que sites populares, como aqueles de sociedades acadêmicas, incluam links para o seu site e o divulguem.

Outra tática eficiente é usar as redes sociais como outdoors. Poste matérias curtas sobre os seus trabalhos, incluindo uma frase de efeito, uma figura bonita e o link para o trabalho completo. Mas cuidado com as redes sociais gerais!

O ideal é criar a sua identidade online de forma bem pensada, usando técnicas de marketing e comunicação social. Você tem que chamar a atenção das pessoas, mas sem passar uma impressão de ser arrogante, spammer, flooder ou stalker. Achar o equilíbrio ideal, sintonizado com os seus objetivos, demora um tempo.

3. Quais redes sociais acadêmicas eu devo usar?

Via de regra, as mais populares. Como esse ranking muda com o tempo, fique ligado e adapte-se. Como eu disse lá no começo, aqui vou focar nas redes sociais acadêmicas. Sugiro evitar as redes sociais gerais. Use também os diferentes portfólios online que há por aí, como o Lattes.

Sim, para começo de conversa, você tem que ter um cadastro na Plataforma Lattes. Isso não é opcional. Você precisa dele para pedir bolsas e verbas, candidatar-se a vagas em PPGs e empregos em universidades, e ser incluído em análises cienciométricas sobre o seu tema de estudo, só para ficar com alguns exemplos. Sem esse RG nerd, você fica invisível para a ciência brasileira.

Além desse currículo online oficial, você precisa criar perfis nas redes sociais acadêmicas. Priorize as principais, que estiverem bombando. De um modo geral, foque a sua divulgação nas redes sociais acadêmicas e use as redes sociais gerais como amplificadores.

Atualmente, a melhor opção de rede social acadêmica é o ResearchGate, que tem feito um sucesso enorme no universo da ciência. O formato dessa rede é muito interessante, permitindo inclusive agrupar as suas atividades por projetos. Você pode postar PDFs dos seus artigos de distribuição livre ou mandar outros PDFs restritos em modo privado para os interessados. É possível também adicionar material suplementar à página criada para cada paper carregado. Como se isso tudo não bastasse, ela ainda mostra anúncios de empregos, bolsas e verbas, além de contar com um fórum de discussão. Pacote completo!

Há outras redes, como Academia e Mendeley. Contudo, elas são usadas por um número bem menor de cientistas e não têm ferramentas tão avançadas. A Academia se parece com o Research Gate, só que é mais limitada. Por sua vez, o Mendeley, recentemente, voltou a focar apenas na função de software bibliográfico.

Outra rede interessante é o Publons, que se especializou em compilar portfólios de revisores. Na verdade, atualmente ela é a única base de dados focada em peer review, sendo uma excelente forma de mostrar para o mundo (e para bancas de seleção) o que você faz nessa área. Nesse portfólio online também é possível interagir com outros usuários. Mais recentemente, a Publons se juntou à Researcher ID, filha da Web of Science. Então, na verdade, hoje as duas se tornaram uma só.

Para a galera mais nerd, recomendo fortemente o GitHub. Essa rede é bem mais especializada, pois tem como foco a programação. No fundo, ela é uma interface visual e online para um sistema de controle de versões (VCS) bem popular: o Git. Nela os usuários podem postar programas, pacotes, funções ou simples scripts escritos nas mais variadas linguagens, que podem ser trabalhados em tempo real com colaboradores selecionados ou com a comunidade toda. Para quem curte usar R, Python, MatLab, SciLab, Mathematica, Julia e similares, o GitHub é um must. E ele pode ser usado em combinação com fóruns de programação muito populares, como o StackOverflow, onde você encontra ajuda para resolver quase todos os seus problemas na área.

As opções especializadas não param por aí. Se você tem uma pegada mais artística e curte produzir fotos e vídeos, há outras redes que caem como uma luva. Muitos colegas biólogos e fotógrafos postam fotos de natureza no Flickr. Aliás, essa rede é ótima para buscar ilustrações de altíssima qualidade para usar em palestras, aulas e textos. Isso porque muitas delas são postadas com licenças Creative Commons. No caso das restritas, basta pedir autorização direto ao autor por mensagem privada.

No caso dos vídeos, a escolha óbvia é o YouTube. Ele é maravilhoso para quem gosta de atuar em ensino remoto ou divulgação científica online. Uma videoaula postada no YouTube torna o conhecimento acessível a muito mais gente do que uma videoaula presa no moodle da sua disciplina. De longe, o melhor canal de ciência brasileiro nessa rede é o Nerdologia, que prima pela excelência do conteúdo, eficiência do design e profissionalismo na postura.

Vale lembrar também que há outras redes sociais profissionais, que não são acadêmicas. O melhor exemplo é o LinkedIn. Ele tem sido usado como uma espécie de currículo online por gente de todas as profissões. Se você está buscando contatos e oportunidades fora da Academia, vale a pena botar um pé nele. Isso vale especialmente para pós-graduandos que almejam arrumar empregos em empresas, ONGs e OIs.

“Mas, Marco, as as redes sociais gerais?”

Tipo o Caralivro? Fuja dele e de todas as outras redes sociais gerais.

Se você quiser mesmo usar uma rede social geral, pode fazê-lo para amplificar o alcance das suas mensagens. Você pode, por exemplo, conectar as suas contas em diferentes redes umas às outras, a fim de replicar notícias entre elas. Se o seu site tiver sido construído no WordPress ou outra plataforma similar, cada novo texto que você escrever pode ser linkado automaticamente em várias redes.

Mas, sério, redes sociais gerais eu recomendo só para quem pode pagar assessores para cuidar delas, como faz o Prof. Pondé. Ficar lendo comentários estúpidos e entrar na dependência doentia de likes acaba com a saúde mental de qualquer pessoa.

Conselhos finais:

  1. Não tenha vergonha de divulgar o seu trabalho;
  2. Não saia postando qualquer coisa de qualquer jeito nas redes sociais. Elabore uma estratégia de comunicação focada em objetivos claros;
  3. Fale em público apenas sobre temas nos quais é perito. O mundo não precisa de mais “entendidos de tudo”;
  4. Ao usar as redes sociais, foque no positivo: não curta, comente ou compartilhe as coisas que te irritam ou indignam. E tampouco dê ibope para postagens com discurso de ódio e preconceito. Mesmo um dislike já aumenta o engajamento da postagem. Na verdade, fuja das redes sociais gerais e foque em usar apenas as acadêmicas;
  5. Não toque tambor para maluco dançar, como diz o Prof. Karnal. Se alguém se comportar de forma tóxica com relação a você nas redes sociais, por exemplo stalkeando, simplesmente bloqueie e ignore a pessoa. Tem muita gente com sérios problemas emocionais tornando a internet um lugar cada vez mais tóxico.

Veja também as dicas do Prof. Radfahrer:

Sugiro também que você leia este manual preparado pela USP, com dicas incríveis:

de cientista para jornalista

Leia também este livro publicado pela Universidade de Lisboa:

redes sociais para cientistas

Agora, outra dica de livro, mas só para te confundir:

dez argumentos redes sociais

Assista também a esse excelente documentário:

(Fonte da imagem destacada)

19 respostas para “Redes sociais são úteis para cientistas?”

  1. Excelente! Sobre o Instagram eu concordo com as utilidades apontadas mas na minha opinião ele é o novo Facebook (que foi o novo Orkut) porque acaba que hoje em dia ele tem tudo o que o Face tem e as pessoas migraram em massa pra ele junto com todas as loucuras que você aponta na thread do Twitter. Sobre a thread: o preconceito sofrido por não ter essas redes mencionadas é particularmente pesado e as pessoas insistem em não entender os motivos! Essa thread é perfeita para mostrar às pessoas que existem motivos reais para não usar esse tipo de rede, parabéns pela clareza!

    Abraço!

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    1. Obrigado, Cássio! E, sim, redes sociais podem ser muito tóxicas, perigosas até. Eu só uso Twitter e ResearchGate. Nem chego perto das outras, pois duas já me dão dor de cabeça suficiente.

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      1. Verdade! Eu experimentei a pouco tempo o Twitter e uma coisa que reparei lá é que muitos alunos de pós do exterior possuem um website, realmente uma “central na internet” pra divulgar as pesquisas conectada aos perfis acadêmicos é uma ferramenta muito interessante e poderosa.

        Abraço Marco!

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        1. O Twitter é meu favorito. Rolam muitas tretas nele, especialmente sobre política. Mas nele é mais fácil você filtrar pessoas e assuntos. Então dá para criar uma experiência mais personalizada. Meu Twitter é focado em ciência e vídeos de bichinhos fofos, rsrsrs.

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  2. Olá.
    Sobre falar somente sobre os temas em que sou perito em um canal do youtube por exemplo, não seria bom ampliar a área? Como o nerdologia , o Átila é biologo mas os assuntos tratados vão muito além, de psicologia, programação, etc.

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    1. Muito obrigado por seu comentário, Edlamary. Esse é um ponto muito importante, que merece uma resposta mais elaborada.

      No caso do Nerdologia, o Átila Iamarino conta com o apoio de uma equipe de produção, que o ajuda tanto com a pesquisa sobre o tema, quanto com a parte de mídia. O canal Nerdologia é profissional, parecendo-se mais com um canal de TV do que com um canal de YouTube amador.

      Isso é muito diferente de um canal mantido por um cientista sozinho, que cuida de todas as atividades sem ajuda técnica. Infelizmente, o Nerdologia é exceção no YouTube. A maioria dos outros canais de ciência que se aventuram a falar sobre todo e qualquer tema acaba cometendo deslizes. É preciso lembrar que um cientista é um profissional treinado para gerar conhecimento sobre um tema técnico específico. Já um um comunicador é um profissional treinado para divulgar conhecimento. Quando trabalham em conjunto, o resultado tende a ser bom. Mas quando um invade a praia do outro, o resultado tende a ser ruim.

      De um lado, temos cientistas que falam sobre suas áreas sozinhos, com produção amadora, mas com propriedade técnica. Nesses casos, a informação dada é correta, mas nem sempre é passada da forma mais eficiente. Do outro lado, temos comunicadores profissionais, que sabem traduzir conhecimento técnico para um público amplo. Aí ocorre o inverso: a mensagem costuma ser passada de forma eficiente, mas nem sempre o conteúdo técnico está correto. Note que os comunicadores profissionais ou se especializam em um tema e aí focam nele (por exemplo, jornalistas de ciência), ou contam com uma grande equipe de produção por trás, que cuida da pesquisa sobre temas diversos.

      Outro problema comum no YouTube é que muitos canais individuais, sejam de ciência ou de outros temas, acabam focando no ego da pessoa e não no tema. São os canais de fofoca, dedicados a falar mal dos outros, fazer react e coisas do tipo.

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