Como e por que escrever um press release

Todos os dias jornais, blogs, vlogs e outras mídias publicam informações científicas. Aqui, o Prof. Galetti argumenta que um cientista deve ajudar os jornalistas a tomarem conhecimento de seus trabalhos e comunicarem suas descobertas para o público leigo. Mas como fazer isso de forma eficiente? Convidei-o para nos explicar isso em detalhes.

“Se você não consegue explicar algo para uma criança de seis anos é porque você também não entendeu” – Albert Einstein

Por Mauro Galetti

*Professor do Departamento do Departamento de Ecologia da Universidade Estadual Paulista (UNESP), campus de Rio Claro, SP.

Infelizmente, a maioria dos jornalistas não está familiarizada com a ciência. Mesmo os jornalistas científicos não conhecem um tema de estudo tão profundamente quanto um cientista que produz conhecimento original sobre ele. Assim, cabe a você, que publicou um artigo científico com uma descoberta interessante, escrever e divulgar um press release do trabalho (também conhecido como nota à imprensa). Pode ser que o jornalista aproveite esse texto na íntegra ou apenas em parte, ao preparar a matéria que vai sair na imprensa. De qualquer forma, um press release feito por você mesmo diminui muito as chances de a sua mensagem ser passada de forma equivocada. Se você não fizer isso, pode ter surpresas desagradáveis, capazes de afetar a sua reputação acadêmica.

Uma vez, quando eu era um aluno de graduação em Biologia, notei que um falcão peregrino (Falco peregrinus) chegava na época no Natal em um prédio atrás da casa da minha mãe, em Campinas. Ele ficava bem no alto caçando pombas. Eu achei que seria legal contar isso para um jornal local. Então chamei a a imprensa, que veio até a casa da minha mãe, me entrevistou e tentou fotografar o falcão. Eu contei que o falcão vinha do hemisfério norte e anualmente migrava na época do Natal para áreas mais quentes.

No dia seguinte, meus professores de ornitologia me pararam no corredor do departamento e me indagaram: “você não sabe identificar um falcão peregrino?” Eu disse: “claro que sei, por que?” Eles me mostraram a matéria do jornal local com uma foto enorme de um gavião carijó (Rupornis magnirostris), que é super comum, dizendo “Falcão peregrino chega para o Natal”. Bom, eu tive que levar meus professores até a casa da minha mãe e provar que o falcão que eu vi era o peregrino. Certamente, o jornalista não conseguiu fotografar um falcão peregrino, então fotografou um gavião qualquer e, sem me consultar, publicou a foto de um carijó como se fosse um peregrino.

Muitos cientistas também se deparam com matérias de jornais sobre suas descobertas e reclamam “mas eu não disse isso!”. Esse problema é bem comum. Os jornais não vão publicar o que você falou, mas o que eles entenderam que você falou. Por isso, é muito importante que todo cientista saiba como escrever um press release claro e objetivo.

O press release deve trazer uma mensagem simples, sem jargão, além de conter fotos ou figuras claras e atraentes. Não adianta falar biologuês, usando termos herméticos como forrageio, interação mutualista ou redes ecológicas. O texto deve ser simples, mas obviamente não pode ser medíocre. Pense que o público que lê jornal (um grupo em extinção…) pode englobar pessoas como um advogado que gosta da natureza, um médico curioso sobre temas de outras áreas, alguém que espera a vez no cabelereiro e está lendo o jornal apenas para passar o tempo, ou um estudante se preparando para o ENEM.

É importante que o press release traga alguns pontos cruciais e tenha um título chamativo e simples. Por exemplo: “Avanço do javali pode aumentar a população de morcegos vampiros”. Uma vez que você prendeu a atenção do leitor, agora você pode passar a sua mensagem.

No texto você se auto-entrevista. Isso mesmo. Em vez de você esperar que o jornalista faça as perguntas, você prepara um texto com o que você acha que o jornalista deveria te perguntar. O seu texto deve ter comentários seus e de outros coautores (com a anuência deles). Por exemplo, “’no mundo existe apenas três espécies de morcegos vampiros e apenas uma delas se alimenta do sangue de mamíferos’ comenta Marco Mello, professor da Universidade Federal de Minas Gerais”. Vale ressaltar que eu estou ciente de que um artigo recente reportou que uma dessas outras espécies também bebe sangue de mamíferos de vez em quando. Mas essa informação nova é irrelevante no momento. Por isso deixei a história mais simples, contando apenas a versão bem estabelecida do fenômeno.

Uma introdução deve trazer o leitor ao tema. Não se atenha aos detalhes que apenas os especialistas vão querer saber, como os métodos. Qual a mensagem geral do artigo? Se a mensagem é que mais pesquisas precisam ser feitas, esqueça. O leitor quer uma mensagem digerida, imediata. E, principalmente, o leitor quer saber para que serve o que você fez. Ele quer saber como, no dia a dia, a sua descoberta afeta a vida dele. Por isso você deve estar preparado para levar o seu trabalho para a realidade do cidadão que está lendo a sua história, mesmo que seja um trabalho teórico, abstrato.

Uma vez que você tenha elaborado o press release, insira fotos de alta qualidade, em alta definição. Ou desenhe figuras simples e bonitas que possam ajudar a compreender a mensagem central. Veja um exemplo na Fig. 1, preparada para um press release internacional.

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Figura 1: diagrama que acompanhou um press release internacional.

Termine o texto colocando a referência do trabalho original (artigo, livro, tese etc.), além do seu e-mail, site e telefone. Sim, muitos jornalistas ainda preferem falar com o autor por telefone. Faça uma versão em inglês e outra em português. Pode até fazer em um terceiro idioma, se quiser atingir outro público específico. Depois envie o press release (todas as versões) para a assessoria de imprensa da sua universidade. Ou distribua-o para jornalistas de ciência com os quais você tem contato ou cujas matérias você admira. Muitos vão te ligar para tirar dúvidas.

Eu sugiro que você leia textos de ótimos jornalistas brasileiros (como o Herton Escobar) e estrangeiros (leia o New York Times diariamente!). Todo cientista deveria ler “A longa marcha dos grilos canibais” de Fernando Reinach (Cia das Letras). Fernando, um ex-professor da USP, traduz de forma simples papers publicados em revistas top como Science e Nature.

Eu acredito que temos a obrigação de transmitir de forma clara os resultados das nossas pesquisas para o público leigo. Se não conseguirmos passar corretamente as nossas mensagens, corremos o risco de a nossa ciência ser compreendida da forma errada ou ser mal valorizada. Isso é particularmente preocupante na era do pós-verdade, em que a ciência é cada vez mais desacreditada.

Sugestões de leitura:

Press releases produzidos pela equipe do Laboratório de Biologia da Conservação da Unesp e seus colaboradores, em suas versões originais, antes de serem publicados na imprensa:

  1. Estudo mostra que a extinção de grandes animais tem impacto negativo sobre as mudanças climáticas
  2. Boa Notícia: A fauna que sobrevive nas florestas imersas nas plantações de cana

Press releases elaborados pela mesma equipe e depois editados por jornalistas e publicados na imprensa:

  1. Relação entre morcegos e javalis pode aumentar a transmissão de raiva
  2. Bichos nativos resistem em ‘ilhas’ de florestas rodeadas por canaviais de SP
  3. Census shows which mammals survive in forests surrounded by sugarcane plantations

Guias para divulgação científica:

  1. Publicação mostra caminhos para transformar ciência em notícia

(Fonte da imagem destacada)

 

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3 respostas para “Como e por que escrever um press release”

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