Diminuindo as frustrações com prazos na pós-graduação

A saúde mental é um dos temas mais debatidos na Academia atualmente. Vamos conversar um pouco sobre como sobreviver a pressões na pós-graduação e na carreira de cientista.

Pálpebras abertas mais do que o normal. Os lábios tremem levemente. A visão está embaçada por causa das lágrimas acumuladas. Mas as lágrimas passam despercebidas. O peito queima intensamente, a chama chega a alcançar o pescoço algumas vezes. O corpo sua intensamente, mas ele está… frio? Dá para sentir a batida do coração na ponta dos dados. Não é que o coração esteja saindo pela boca. Ele está querendo sair diretamente pelo peito, ao que indica pelas marteladas que está dando dentro da caixa torácica. Enquanto tudo isso acontece, tudo o que penso é: “como fui perder mais esse prazo? Por que estou fazendo isso com a minha vida?” Não há nada que remotamente se assemelhe à compaixão na minha mente, nesse instante do tempo.

Aviso: nada do que eu menciono aqui substitui um bom acompanhamento psicológico. Então, se estiver sofrendo, abra-se com os seus amigos e familiares e procure imediatamente a ajuda de um profissional treinado!

Se a saúde mental fosse uma moeda, as cobranças seriam as nossas dívidas. Quanto maiores as cobranças, de mais saúde mental você precisa para não ficar devendo. E, como toda moeda, uma hora a saúde mental acaba e você vai parar no Serasa das psicopatologias.

Assim que entramos nesse déficit, é que a nossa saúde mental começa a se deteriorar e começamos a ver os típicos sintomas de ansiedade ou depressão. Por exemplo, sentir-se oprimido com o número de coisas que você precisa fazer. Sentir-se paralisado, com um aperto no peito cada vez que faz algo. Perder prazos porque “não consegue fazer”. Rolar na cama à noite sem conseguir dormir. Nos casos mais graves, ter que recorrer a remédios conseguidos sem aval médico ou a drogas para ter algumas horas de sono.

Para entendermos um pouco melhor, vou dividir as cobranças em duas castas: as “auto-cobranças” geradas por perfeccionismo, e as cobranças que o mundo impõe sobre você, como prazos em geral. Enquanto as “auto-cobranças” são um conflito a ser resolvido entre você e você mesmo, as cobranças externas lhe são impostas. De alguma maneira você tem que lidar com elas, mesmo que não tenha sido treinado para aguentar esse tipo de pressão.

Acredito que conseguimos, até certo ponto, nos policiar quando lidamos com cobranças externas. Há formas de mitigar o quanto deixamos que elas nos afetem. Há técnicas que podem ser usadas nessa eterna batalha, mesmo que não sejam 100% garantidas. O meu objetivo com este texto, portanto, é dar algumas dicas para atenuar o sofrimento que as cobranças externas nos causam.

Sofremos uma mudança de paradigma quando passamos da graduação para a pós-graduação. E ela não ocorre somente no eixo de responsabilidades, pois as cobranças são muito diferentes entre essas duas etapas acadêmicas. Na graduação temos prazos curtos e geralmente sem muita margem para desvios de rota. “O trabalho é para semana que vem e tem que ser sobre <insira qualquer tema aqui>.

Porém, na pós-graduação, os prazos são longos e com muita margem para desvios. “Com o que você quer trabalhar?“, “Lembre-se de que você tem um relatório para daqui a seis meses“, “Você defende uma dissertação em dois anos“. Como lidar repentinamente com prazos longos quando, até então, passamos a vida tendo de cumprir apenas prazos curtos?

O primeiro fato que precisamos aceitar é que não lidamos bem com prazos. Independente se os prazos estão perto ou longe, eles não são nossos melhores amigos. Não lidamos bem com prazos em nível de espécie, porque não fomos selecionados para nos preocuparmos com um futuro tão distante. Por isso, quanto mais distantes os prazos estão, mais noites não dormidas teremos.

Isso significa que devemos jogar a toalha e viver somente no hoje? Sim e não. É importante viver cada momento intensamente, com atenção plena. Mas, na vida de um modo geral, e independente da carreira que seguirmos, temos que planejar o futuro e cumprir prazos (especialmente nas ciências). Treinar como se planejar e organizar pode ajudar a lidar com cobranças. Podemos até mudar a forma como as enxergamos, pois elas nos dão segurança de que estamos no caminho certo. Por ser uma ferramenta comportamental tão útil, quero compartilhar com vocês algumas dicas que me ajudaram nesses já mais de 10 anos na academia.

(1) Planejar e organizar são coisas diferentes e devem ser usadas com objetivos diferentes 

Você acabou de perder um prazo importante. O que faz? Após aquele período de tristeza e auto-flagelação (“eu sou burro, não tem jeito”), corre pegar a agenda mais próxima e começa a planejar. Planeja tudo que consegue pensar: quanto tempo leva cada passo do projeto, quantos passos precisam para finalizar, estima tempo para escrita, tudo. Assim que termina, o ar que estava preso há horas no pulmão sai. O sentimento de alívio é quase que imediato e com ele vem um sentimento de segurança. “Agora tudo está organizado”. #sóquenão

Se você é dessas pessoas que fazem o que eu chamo de “planejamentos emergenciais”, provavelmente voltará a perder prazos. E o pior de tudo é que na próxima vez que isso acontecer, aquele período de tristeza e auto-flagelação será pior: você se organizou e não conseguiu cumprir. “Será que eu sou tão inútil assim?” A resposta é não. Isso ocorre porque é um ciclo vicioso que tende a te aprisionar, sufocar, diminuir. Para começar a quebrar esse ciclo é preciso entender que planejar e organizar são coisas muitos diferentes. Alguém não se torna organizado porque fez um cronograma, você apenas planejou. Não estou dizendo que o planejamento é ruim; muito pelo contrário, ele é essencial. Mas ele é apenas o primeiro passo.

Você provavelmente tem uma pessoa como modelo de organização. Se avaliar essa pessoa, perceberá que ela planeja muito. Provavelmente, tudo e o tempo todo. Então como fazer para sair do planejamento e partir para a organização? Para responder essa pergunta complexa, devemos começar pelo básico.

Para quê serve planejar?

Você já se perguntou porque todo projeto contém uma seção com o cronograma? Já se perguntou por que o “planejamento emergencial” traz um alívio imediato? É simples. Planejar traz aquele objetivo longínquo para o seu campo de visão. Você enxerga quanto tempo cada passo vai levar e qual o número de passos necessários para atingir o objetivo final. O melhor de tudo é que planejar torna qualquer objetivo distante palpável. O controle gera conforto de que as coisas não estão dando errado e, principalmente, de que elas estão andando! Justamente por isso planejar é uma ferramenta poderosa que você deve usar e abusar. Ela te tornará mais seguro do que está por vir. E, caso algo dê errado (sempre dará), você consegue contornar os imprevistos sem muito transtorno. Afinal, tudo está planejado.

(2) Planeje todos os prazos e como eles se conectam uns aos outros

Nos “planejamentos emergenciais” tendemos a planejar apenas o que causou a nossa reação. Porém, há muitas outras tarefas que se conectam entre si indiretamente e que precisam estar no seu plano. Essas tarefas não contabilizadas são as variáveis geralmente causam estrago mental por atrasar o que foi planejado. Congressos e relatórios de bolsa são exemplos comuns de eventos não-planejados.

Pense no seguinte cenário: o prazo para envio de resumos é daqui a duas semanas, mas você está no meio dos experimentos. O que você vai fazer? Enrolar ou mandar um resumo de outro experimento não relacionado, só para não deixar de ir ao evento?

Evite esse tipo de frustração. Fatore essas tarefas em seu planejamento. Para quando está marcado o congresso e qual o prazo que eles derem para envio de resumos? Como você fará para encaixar pelo menos dados prévios no resumo? Dessa forma, você terá controle sobre quando deve iniciar os experimentos para conseguir mandar um resumo legal. Quando a fatídica hora chegar, você terá tudo pronto sem se estressar. Ponto para a saúde mental.

Por isso, planeje todos os prazos relacionados ao seu projeto e não somente o essencial. Pequenos detalhes e intrusões demoníacas no planejamento geralmente causam frustrações gigantes.

(3) Planeje passos pequenos

“One small step for a man, one giant leap for mankind” – Neil Armstrong

Como falei anteriormente, não somos bons em processar objetivos que estão longe do nosso presente. O mesmo se aplica a objetivos muito grandes. Nós precisamos cumprir objetivos para nos sentimos bem, para dar a sensação de que  as coisas estão andando. Por exemplo, ao iniciar o dia, já ouvi várias pessoas comentando: “Hoje o meu objetivo é escrever a introdução do artigo X”. Dificilmente o objetivo será cumprido. Escrever, mesmo que apenas uma seção de um artigo, é algo que leva muito tempo. Se o objetivo não é cumprido, a motivação some e a tristeza impera.

Para facilitar a nossa vida e aumentar a nossa motivação, divida um grande objetivo em vários pequenos passos. Em vez de “escrever a introdução”, coloque algo como “escrever um parágrafo da introdução” ou até menor! A cada objetivo marcado como feito, mais dopamina e serotonina são liberadas no seu sistema nervoso. Logo, a cada objetivo cumprido, mais motivado e confiante você se sentirá para cumprir o próximo objetivo. Se você cumprir vários pequenos objetivos, no final do dia terá cumprido um objetivo maior.

Eu sei, parece idiota. Mas não sou só eu que falo sobre e uso essa estratégia. É uma prática tão difundida que é usada no treinamento das forças especiais Navy Seals dos EUA.

Ao acordar, todos os cadetes são obrigados a arrumar as suas camas perfeitamente, as quais são inspecionadas. Nesse discurso para a Universidade do Texas, o Almirante McRaven conta sobre a importância desse simples ato em seu treinamento:

“Se você faz a sua cama de manhã, você terá realizado uma tarefa logo cedo no dia. Você terá um pequeno sentimento de orgulho que te encorajará a realizar outra tarefa. E outra. E outra. No final do dia, uma pequena tarefa cumprida se tornará em uma grande tarefa cumprida… E, se por algum motivo você tiver um dia horrível, pelo menos você chegará em casa e a cama estará arrumada.” – Almirante McRaven

(4) Coloque prazos maiores do que você acha que realmente necessitará

Seu orientador lhe pergunta quanto tempo levará o experimento. Pensando rapidamente nos passos necessários, você responde: “em duas semanas tenho tudo pronto”. Porém, uma das etapas da errado. O reagente estava velho, os animais experimentais do laboratório morreram e você precisará coletar mais, houve uma queda de energia na universidade e você teve que reiniciar o experimento. Enfim, infinitas coisas podem dar errado e você acaba perdendo o prazo.

O artigo volta da revista com o famigerado selo de major revision e um mês de prazo para ser consertado. Você calcula que demorará duas semanas para corrigir o texto e escrever a carta de resposta. Porém, você leva mais tempo para consertar a introdução do que havia previsto. Você extrapola o prazo e manda um e-mail para o editor pedindo mais prazo, o “e-mail da derrota” segundo alguns conhecidos.

Esses são só dois exemplos comuns de como as pessoas perdem prazos. E olha que eu nem coloquei na equação fatores como problemas pessoais, que sempre irão atrasar qualquer projeto. Então, antes de se frustrar com o seu orientador (ou supervisor), porque ele não entende que algo não deu certo, reflita sobre o prazo que você deu.

Muitas pessoas (orientadores inclusive) não se importam com a quantidade de tempo que determinada tarefa necessita para ser realizada. Porém, elas se importam com os prazos, já que eles são marcos de progressão. Pessoas que não estão imersas 100% do tempo em alguma atividade avaliam o progresso pelos prazos: quando se perde muitos deles, uma luz amarela de alerta se acende. A frustração do avaliador, então, não é um problema da pessoa que avalia, mas sim dos prazos que você sugeriu como marcos de progresso.

Uma forma mais simples de lidar com isso é: estique os prazos. O experimento vai levar duas semanas? Fale que precisa de um mês. O prazo da revista é um mês? Mande e-mail para revista pedindo mais tempo logo de cara. Ao adotar essa estratégia, teremos três resultados possíveis: você entregará no prazo combinado, antes do prazo combinado, ou atrasará. Os dois primeiros resultados são satisfatórios porque o combinado foi entregue. Apesar de a probabilidade de atrasar ter diminuído, a possibilidade de ocorrer estará sempre ali. Nesses casos, porém, geralmente se atrasa porque algo sério que não pode ser planejado aconteceu, como problemas pessoais, por exemplo.

No fim, o mantra dessa sessão é:

Se tudo deu certo logo de cara, é porque deu errado” – Antigo provérbio chinês  

(5) Procure ajuda!

Esse é o passo mais importante de todo esse texto. Procure ajuda. Profissionais especializados, colegas da sua área com mais experiência, companheiros de pós-graduação, amigos pessoais. Não tenha medo e não pense que está sozinho. Há muitas e muitas pessoas que sofrem com isso hoje em dia. Infelizmente, ansiedade e depressão hoje são epidemias mundiais, mesmo fora da Academia. Portanto, não pense que você é “pior” do que os outros por conta disso. Você pode se surpreender com o número de pessoas que compartilham as suas dores. Inclusive os famigerados silverbacks.

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6 respostas para “Diminuindo as frustrações com prazos na pós-graduação”

    1. Obrigado Marlon! Se você já identificou o problema, o começo do trabalho já está feito. Você pode começar a treinar já e quando a coisa ficar feia, você já estará mais tranquilo. Para você ter uma ideia, eu só consegui detectar esse problema no terceiro ano do doutorado 😐

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